Quem comete um pecado dá uma “mancada” com Deus?

Será que o pecado e a mancada têm alguma coisa em comum? Alguns estudiosos acham que sim. É que “mancar”, no sentido próprio de caminhar puxando uma das pernas, provém do latim mancare, derivado de mancus, “manco”. E este, por sua vez, tem a ver com manus, “mão”. Trata-se do radical do substantivo latino man‑ mais o sufixo ‑cus, que indica defeito físico (como, por exemplo, em caecus, “cego”).

Segundo o dicionário etimológico de latim de Michiel de Vaan, teria havido uma mudança semântica na qual mancus, que inicialmente significava “habilidoso” (compare com o inglês handy a partir de hand), passou a “maneta, que tem a mão defeituosa” e depois a “aleijado, manco” (compare agora com o inglês handicapped, “deficiente físico”).

Seguindo esse raciocínio, estudiosos do latim como os franceses Alfred Ernout e Alfred Meillet sugerem que o latim peccare, “errar, pecar, dar um mau passo, tropeçar” teria a ver com uma suposta palavra latina *peccus, que jamais foi atestada (o asterisco antes da palavra indica exatamente isso) e que estaria para pes, pedis, “pé”, assim como mancus está para manus. Ou seja, teríamos originalmente o radical ped‑ seguido do já referido sufixo ‑cus, indicativo de deficiência física.

Portanto, mancus seria primordialmente “maneta” e *peccus, “perneta, manco, coxo”. De *peccus teria derivado o verbo peccare, primariamente “tropeçar, andar como um coxo” e posteriormente “errar, dar um tropeço (em sentido figurado)”,  para finalmente assumir o significado religioso de “errar, faltar com Deus” (literalmente, “dar um tropeço com Deus”).

O curioso é que essa metáfora do tropeço ou passo em falso como erro, falta e mesmo pecado existe em muitas línguas, inclusive em português. Além de a própria palavra tropeço ter, dentre outros, o sentido de erro, a gíria brasileira “mancada” também tem esse sentido, tanto que “dar uma mancada” significa, dentre outras coisas, cometer um deslize e faltar a um compromisso.

O fato é que a relação etimológica entre peccare e pes, isto é, entre “pecar” e “pé”, é bastante questionável, já que nunca se encontrou documentação atestando a existência de *peccus, havendo quem considere que peccare proviria de pet‑, “cair”, portanto o pecado seria não um tropeço e sim uma queda.

De todo modo, a hipótese de que pecar tem a ver com pé, se não pode ser comprovada, tampouco pode ser refutada. Ou seja, talvez haja, sim, alguma relação entre pecar e mancar. Logo, quem peca não deixa de dar uma “mancada” com Deus.

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O português visto por um sueco

Henrik Brandão Jönsson é um jornalista e escritor sueco que vive no Brasil há quase 20 anos. Este mês, ele publicou na revista sueca Språktidningen (isto é, “Revista Língua”) uma matéria sobre o nosso idioma, especialmente o português brasileiro. E eu traduzi o texto para vocês. A versão original pode ser encontrada em http://spraktidningen.se/artiklar/2017/12/jorden-runt-pa-portugisiska. Aí está.

A Terra em torno do português

Como uma língua, falada por um quarto de milhão de pessoas em quatro continentes, não recebe mais atenção? Språktidningen passou por longas jornadas para descobrir o porquê.

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Vasco da Gama

Quando Vasco da Gama retornou a Lisboa em 1499, foi recebido como um herói. O fato é que ele não conseguiu encantar os governantes da Costa do Malabar. Como o primeiro europeu, ele descobriu o caminho marítimo para a Índia e quebrou o monopólio veneziano. Só as especiarias e os tecidos que os portugueses compraram em Calicute pagaram a expedição seis vezes e iniciaram o que os historiadores chamam de Carreira da Índia – uma frota de centenas de navios que navegaram entre Portugal e a Índia nos anos seguintes.

Além do comércio, Vasco da Gama deu início à expansão da língua portuguesa. Nas gerações seguintes, os portugueses conquistaram as metrópoles comerciais mais importantes do mundo e criaram a primeira superpotência global do mundo. Manuel I – que, por acaso, se tornou rei de Portugal em 1495 – governou a frota com os maiores, mais rápidos e mais modernos navios do mundo, que ligavam a Europa à África, Índia e China.

Durante uma subsequente viagem comercial para a Índia em 1500, Pedro Álvares Cabral navegou para oeste no Atlântico até avistar terra. O navegador achou que descobrira uma grande ilha, fincou uma cruz na praia e nomeou o lugar de Ilha de Vera Cruz. O que o navegador não sabia é que não foi em uma ilha que aportara. Era o continente sul-americano. Devido a um erro de navegação, os portugueses conquistaram o país onde se encontra hoje a maioria dos falantes de português do mundo: o Brasil. Também foi o prelúdio de um longo e inflamado conflito linguístico.

Embora todos os oito países que têm o português como língua oficial tenham assinado uma reforma ortográfica conjunta em 1990, Portugal e o Brasil ainda discutem como as mudanças serão implementadas.

O escritor e linguista brasileiro Sérgio Rodrigues acaricia a cabeça careca em sua sala de estar no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro.

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Sérgio Rodrigues

– Isso lembra uma discussão familiar. Nós gostamos uns dos outros e queremos o melhor para o idioma. Mas ambos querem fazer o seu caminho. Já houve prestígio no objetivo. Vários jornalistas e escritores portugueses se recusam a seguir a reforma ortográfica, diz ele.

Sérgio Rodrigues lançou no início deste ano o aclamado livro Viva a Língua Brasileira, que provoca ao chamar a língua portuguesa de brasileira. O que ele quer destacar é que 210 milhões de brasileiros desenvolveram o idioma e fizeram dele o seu próprio.

– Nós brasucas amamos as vogais e botar para fora as palavras. Passamos muito tempo ao ar livre, com o sol brilhando e somos mais abertos como pessoas do que os portugueses. Eles são o oposto – estão se fechando em si mesmos e gostam das consoantes. Eles fecham as palavras de modo que mal se consegue ouvi-las.

Outra razão para o português brasileiro ter uma expressão tão diferente, ele acredita, é que o Brasil viveu por muito tempo como um gigante isolado, cercado por vizinhos de língua espanhola.

– Portugal nos abandonou e nós tivemos que desenvolver o idioma por conta própria, diz ele.

O fato de o Brasil ser o país do mundo que mais comprou escravos africanos, acredita, também contribuiu para que a língua seja diferente. Para denominar “confusão” em português brasileiro, no sentido de “desordem”, usa-se a palavra bagunça, que tem raízes em uma língua bantu falada em Angola. No português europeu, usam-se as palavras desordem e confusão para designar a mesma coisa.

– A influência africana mudou nossa maneira de falar, diz Sérgio Rodrigues, um dos principais especialistas no idioma do Brasil.

Ele escreveu três romances, dos quais o último, O Drible, ganhou um dos melhores prêmios de literatura do mundo de língua portuguesa, o Grande Prêmio Portugal Telecom. Ele também escreveu o livro de não-ficção What língua is esta?, que descreve como os brasileiros usam sua língua. E toda quinta-feira escreve a coluna sobre língua mais lida do país no maior jornal brasileiro, a Folha de São Paulo. Sérgio Rodrigues acredita que uma das razões pelas quais o português se tornou tão marginalizado é que não há uma frente unida que possa promover o idioma.

– Olhe para a Academia Espanhola em Madri. Lá houve um acordo em torno do idioma e permite-se que ele seja falado de maneira diferente no México, Argentina, Colômbia e Espanha. Não há rivalidade. Para eles, o espanhol é a língua tanto de Jorge Luis Borges como de Miguel de Cervantes e Gabriel García Márquez. Os autores de língua espanhola também têm uma conexão mais forte com Madri. Os autores brasileiros não têm uma ligação correspondente com Lisboa. Durante a ditadura militar, os intelectuais do Brasil foram para o exílio em Roma, Paris e Londres. Ninguém escolheu Lisboa. Os autores de língua espanhola, no entanto, se instalaram em Madri ou Barcelona.

A língua portuguesa não tem um instituto cultural forte que realize ações linguísticas no exterior. Enquanto o inglês, francês, espanhol e alemão são promovidos com êxito pelo British Council, Alliance Française, Instituto Cervantes e Goethe-Institut, o português possui apenas o modesto Instituto Camões, que se encontra no ministério português das relações exteriores. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil de 2003 a 2010, tentou mudar isso e formou o Instituto Machado de Assis. Esse instituto recebeu a tarefa de difundir a cultura brasileira e a língua portuguesa no mundo. Mas depois de apenas alguns anos de operação, o projeto foi descartado por falta de dinheiro.

– É uma grande pena que não promovamos melhor a nossa língua e a nossa cultura, afirma Sérgio Rodrigues.

A principal razão pela qual o português tem tido um papel tão marginalizado, embora seja significativamente maior do que o alemão, o francês e o italiano, acredita ele, consiste na ruptura entre Brasil e Portugal.

– O Brasil é o quinto maior país do mundo, engolindo Portugal numa só mordida. Os portugueses escutam música brasileira, assistem aos nossos programas de TV e amam nossas praias. No entanto, eles têm um orgulho que os faz não querer nos levar a sério. Eu acho que isso tem a ver com o Brasil ter-se tornado muito maior do que Portugal. Nossa economia nos permite comprar seu país todos os dias. Sua reação ao nosso domínio é não deixar o controle sobre a língua. Essa é a última coisa que eles têm.

Embora a reforma ortográfica comum seja obrigatória na escola primária de Portugal, muitos portugueses se recusam a aplicar as mudanças pelas quais o Brasil passou. Isso significa que, em Portugal, às vezes se escreve contacto em vez de contato e óptimo em vez de ótimo. Quando o conflito chegou ao auge, Portugal obrigou as Nações Unidas a traduzir seus documentos em uma versão portuguesa e uma brasileira, porque em Portugal “cúpula” é chamada de cimeira enquanto no Brasil se chama cúpula. Do contrário, a diferença não é tão grande entre as formas de escrever.

No último andar de um belo edifício colonial na capital de Goa, Panjim, Inês Figueira trabalha para difundir a língua portuguesa na Índia. Ela é diretora da portuguesa Fundação Oriente, que recebe dinheiro da antiga colônia de Macau, na China, para fortalecer a língua portuguesa em todo o mundo. Sua principal tarefa é coordenar os professores que ensinam em português nas escolas privadas católicas em Goa. As escolas entram com as instalações, e a fundação fornece materiais de curso e professores.

Embora o nacionalismo hindu esteja se espalhando fortemente na Índia, o número de alunos aumenta a cada ano. Este ano, mais de mil alunos se inscreveram nos cursos de português em Goa.

– O meu maior desafio agora é encontrar bons professores. Mesmo o meu melhor professor às vezes conjuga os verbos errado, ri Inês Figueira.

O fato de o número de alunos aumentar em 11 por cento ao ano não é apenas porque os goenses querem aprender português para tornar-se mais atraentes ao mercado de trabalho global. O principal motivo é que os jovens querem vencer o festival de música anual Vem Cantar, que a Fundação Oriente organiza em Goa. Todos os anos, 200 meninas e meninos participam de várias competições. Uma seleção se classifica para a final, que é o evento do ano entre os jovens de Goa. Os artistas não são julgados pela indumentária, dança ou canto, mas o que o júri está mais interessado é no quão bem os textos são escritos em português.

Um dos alunos que passaram depois de ganhar o festival de música é a cantora de fado Sónia Shirsat. Após a vitória, ela recebeu uma bolsa para estudar a origem do fado em Lisboa.

– Ela é a embaixadora mais importante da língua portuguesa em Goa. Muitos querem ser como ela, diz Inês Figueira.

O problema da fundação é que nem todos veem com a mesma alegria o estilo liberal que os colonizadores portugueses deixaram na Índia. Dentro do partido nacionalista hindu BJP, que governa a Índia, encontra-se a ala de extrema direita RSS. Dela fazia parte o membro que assassinou o Mahatma Gandhi em 1948 depois que soube que Gandhi havia perdoado os muçulmanos da Índia.

Desde que Narendra Modi se tornou primeiro-ministro da Índia em 2014, a RSS vai de vento em popa e conseguiu atacar impunemente vários edifícios coloniais em Panjim. Os membros derrubaram placas de rua em português e riscaram nomes portugueses escritos em fachadas.

– É tão ridículo. A língua portuguesa não é uma ameaça à Índia hoje, diz Inês Figueira.

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Macau, China

A apenas 45 minutos de avião de Hong Kong fica a península de Macau, na chinesa Macau. É uma região administrativa especial na China, que se tornou o maior antro do jogo no mundo. Todos os dias, cerca de 400 mil chineses ansiosos por jogar invadem a região, cujos cassinos faturam sete vezes mais que os de Las Vegas. Na parte antiga da cidade, em um prédio colonial pintado de ocre que anteriormente abrigava um hospital português, funciona o Instituto Português do Oriente. O Instituto Cultural está subordinado ao Instituto Camões, mas recebe metade dos recursos da Fundação Oriente. Todos os anos, o Instituto Português do Oriente tem até 5 mil estudantes chineses que estudam português.

– A China é o país em que o português mais cresce atualmente, diz João Neves, diretor do Instituto Português do Oriente.

A razão se encontra na troca comercial da China com o Brasil. Embora o Brasil esteja atualmente passando por uma crise política, social e econômica, ainda é a sétima maior economia do mundo e o país da América do Sul onde a China mais investe. Há muitos anos, a China ultrapassa os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil.

– Muitos chineses querem aprender português para poder comerciar com o Brasil, afirma João Neves.

Quando as aulas noturnas começam às seis da tarde, os corredores do ex-hospital enchem-se de estudantes chineses a caminho das salas de aula. Estou com uma classe composta por alunos que atingiram o nível mais alto, C1. Todos sabem escrever e falar português, embora não saibam falar com fluência. Nenhum deles escolheu estudar português para trabalhar com o Brasil. Sua principal motivação é usar o português para fazer carreira em Macau. Como a região é bilíngue – com cantonês e português – os funcionários do estado que lidam com ambos os idiomas podem se tornar altos gerentes. Outros que frequentam o curso são advogados chineses que precisam do português para interpretar a legislação de Macau, que ainda está ancorada no português.

– Temos feito todos os esforços para aprender português, diz Maggie Lu, que estudou português por quatro anos.

Além da gramática, a pronúncia é um desafio. Os estudantes chineses, entre outras coisas, têm problemas para pronunciar a letra r, que é extremamente rolante no português europeu. A palavra prato vira facilmente pato.

– Eles lutam muito com a pronúncia e têm dificuldade com o gênero. Mas eles estão ficando cada vez melhores. Eles são meus melhores alunos, diz o professor João Paulo Pereira.

Macau não assinou a reforma da língua de 1990, mas João Paulo Pereira de toda maneira a usa em seus ensinamentos.

– Não entendo por que se discute sobre a reforma da língua. Já está implementada e é para segui-la, diz ele.

Fatos portugueses

Propagação

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Países onde o português é língua oficial: Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Regiões onde se fala português: Goa, na Índia, e Macau, na China. Até em Caracas, na Venezuela, e em Toronto e Montreal, no Canadá, o português é amplamente falado, devido à extensa migração proveniente dos Açores e da Madeira.

CPLP

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Os países de língua portuguesa formaram a união CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para fortalecer o comércio entre os países. Até a petrolífera Guiné Equatorial é membro, embora o país tenha sido colônia portuguesa somente até 1778.

Reforma ortográfica

A reforma de 1990 teve como objetivo a criação de um padrão internacional de ortografia portuguesa. A reforma foi ratificada por todos os países onde o português é língua oficial.

A reforma visa a tornar unificada a língua portuguesa escrita. No acordo, aboliu-se a maioria dos c iniciais nos encontros cc, e ct, e os p iniciais em pc, e pt em português europeu e africano, bem como o trema e o acento em palavras que terminam em éia no português brasileiro. Algumas novas regras de ortografia também foram adicionadas.

No entanto, Portugal e o Brasil ainda têm dificuldade em entrar em acordo. As duas variantes ainda apresentam diferenças.

Português europeu: acção, direcção, facto, ideia, eléctrico

Português brasileiro: ação, direção, fato, idéia, elétrico

Fonte: Wikipédia

Exploradores

Vasco da Gama empreendeu em 1497 uma viagem de navio para encontrar uma via marítima para a Índia. Suas bem-sucedidas viagens deram logo a Portugal o monopólio do lucrativo comércio com a Índia. Três anos depois, Pedro Álvares Cabral descobriu o continente sul-americano por pura sorte. Ele também navegava para a Índia. Os bens cobiçados no comércio com a Ásia incluíam, dentre outros, especiarias, pedras preciosas e seda. Os negócios contribuíram para tornar Portugal uma grande potência com colônias em vários continentes.

O mundo lusófono

Os países de língua portuguesa fazem parte do chamado mundo lusófono. Luso- remete ao deus romano Lusus, e -fono vem da palavra grega para “som, voz”. A parte ocidental da península ibérica é chamada Lusitânia.

As 10 línguas mais faladas no mundo

  1. chinês
  2. espanhol
  3. inglês
  4. hindi
  5. árabe
  6. português
  7. bengali
  8. russo
  9. japonês
  10. punjabi

3 perguntas para Henrik Brandão Jönsson

Você é de Malmö, como você foi parar no Brasil?

No verão de 1998, morei em Lisboa e trabalhei na exposição mundial Expo ’98. Aprendi português e no ano seguinte fui para Cabo Verde. Uma noite, quando estava na praia e olhei para o Atlântico, eu disse ao meu colega fotógrafo: “Em algum lugar por aí fica o Brasil. A gente tem que ir para lá”. No ano seguinte, nós voamos para lá e mais ou menos depois disso eu não voltei mais para casa.

O português tem algo em comum com o dialeto de Malmö?

Os ditongos são os mesmos. Para um nativo da Escânia, é bem mais fácil aprender português do que para qualquer outra pessoa na Suécia.

Como os brasileiros fazem frente ao espanhol?

O Brasil sempre se viu culturalmente mais perto dos Estados Unidos, Europa e África do que de seus vizinhos. Há 15 anos, quando Lula da Silva se tornou presidente, isso mudou. O número de brasileiros conhecedores da língua espanhola tem aumentado desde então.

A ciência explica a religião

Resolvi traduzir para o português um capítulo de livro que achei muito interessante e que explica, de maneira relativamente sucinta, um assunto tão complexo como é a natureza da religião. Por que as religiões existem? Por que a maioria das pessoas acredita em Deus ou em deuses? Quanto de natural e quanto de cultural há na tendência humana à religiosidade? Nesse texto, temos a ciência explicando a religião de dois pontos de vista: da biologia e da cultura. Trata-se de um texto acadêmico, mas nem por isso menos compreensível a pessoas relativamente instruídas. (Aliás, o próprio linguajar por vezes impenetrável da ciência pelo público em geral, somado à nossa péssima educação científica, explica em parte por que a religião, calcada exclusivamente em crenças, goza de mais credibilidade em nossa sociedade do que a ciência, com todo o seu método, rigor e, sobretudo, apoio em evidências concretas.)

Também é preciso advertir que o texto é cheio de referências a fontes bibliográficas que eu propositalmente omiti, até porque a bibliografia do artigo é bem extensa. Em todo caso, se alguém se interessar por ela, basta acessar o texto original, disponível em www.researchgate.net/publication/321716675.

A tradução a seguir é do 3º capítulo do livro The Handbook of Culture and Biology, organizado por J. M. Causadias, E. H. Telzer e N. A. Gonzalez, intitulado “Religion: cultural and biological perspectives”, de autoria de Stefanie B. Northover e Adam B. Cohen. Divirtam-se.

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Compreendendo a religião a partir
das perspectivas cultural e 
biológica

Apresentamos uma explicação cultural e biológica sintetizada sobre a origem das crenças e comportamentos religiosos. Qualquer fenômeno é o efeito de múltiplas causas (Mayr, 1961), mas daremos especial atenção às causas culturais e biológicas. Especificamente, proporemos que as crenças religiosas apareceram pela primeira vez como subprodutos de adaptações cognitivas evoluídas, que esses subprodutos podem ser adaptativos ou funcionais e que a aprendizagem cultural determina em grande parte as particularidades das crenças e comportamentos religiosos e determina, em parte, o grau de religiosidade. No geral, discutimos a religião como produto de uma complexa interação de cultura e biologia.

Primeiro, observamos que não é fácil discutir que características as religiões têm ou não em comum, ou mesmo o que é religião. Como observou Cohen (2009), a religião é um conjunto difuso, composto de tradições religiosas com características muito diferentes. No entanto, todas as religiões envolvem códigos morais, rituais, comunidade e crenças sobre agentes sobrenaturais (Atran & Norenzayan, 2004; Saroglou, 2011). Se essas semelhanças são importantes, algumas liberdades devem ser tomadas ao considerar comuns certas características em todas as religiões (por exemplo, considerar tanto Buda como o Deus judaico como agentes sobrenaturais), ao mesmo tempo em que se reconhecem as instâncias culturais únicas das religiões.

De onde vêm as religiões

Não há como saber exatamente quando surgiu a religião, mas certos comportamentos entre os primatas não humanos, como o lançamento acumulativo de pedras dos chimpanzés, compartilham características com os rituais humanos (Kühl et al., 2016). Precursores de crenças e comportamentos religiosos podem, portanto, ter surgido em nossos antepassados pré-humanos. O ser humano está equipado com mecanismos psicológicos evoluídos para resolver problemas de sobrevivência e reprodução recorrentes na história evolutiva. Muitas representações religiosas têm sido explicadas como subprodutos desses sistemas cognitivos adaptativos. Os conceitos religiosos podem fluir naturalmente de sistemas mentais intuitivos, como a teleologia (Kelemen, 2004), a permanência da pessoa (Bering, 2011), o dualismo (Bloom, 2005), a detecção de agente, o antropomorfismo e a teoria da mente. Vamos nos concentrar nos três últimos.

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Agentes sobrenaturais

Os agentes sobrenaturais desempenham um importante papel na religião (Atran & Norenzayan, 2004; Barrett, 2000; Boyer, 2003; Guthrie, 1993). Um agente é um animal, pessoa ou outro ser que reage a outros e se move por conta própria (Barrett, 2004; Boyer, 2001, 2003). A crença em agentes sobrenaturais, incluindo deuses, espíritos, ancestrais, fantasmas, demônios, anjos e gênios, é culturalmente universal (Pyysiäinen, 2009; Whitehouse, 2004).

O ser humano possui um mecanismo cognitivo para detectar a ação de agentes. Essa capacidade de reconhecer agentes vai além do mero reconhecimento de objetos, conforme demonstrado por New, Cosmides e Tooby (2007). Os participantes foram expostos a imagens de cenas, como uma savana africana ou uma escrivaninha, e então, instantes depois, novamente às imagens mas com um objeto, pessoa ou animal faltando. Os participantes detectaram mais rápida e precisamente mudanças em pessoas e animais (ou seja, agentes) do que em objetos inanimados. Por exemplo, os participantes se saíram melhor detectando um elefante cinza distante em um fundo razoavelmente cinzento do que uma van vermelha em um fundo verde, ainda que a imagem da van fosse maior que a do elefante.

Podemos ter razoável certeza de que a detecção de agente tem sido sempre adaptável. Ao longo da história evolutiva humana, pessoas e animais têm proporcionado oportunidades e imposto custos (New et al., 2007). A detecção de agente permite a resposta adaptativa, por exemplo, evitando ou defendendo-se de agentes ameaçadores (como animais predadores e inimigos humanos) e aproximando-se de agentes benéficos (como animais comestíveis e cuidadores). Nosso mecanismo de detecção de agente é altamente sensível, frequentemente sobre-inferindo a presença de agentes (Atran & Norenzayan, 2004; Barrett, 2000; Guthrie, 1993). A detecção de agente pode ser desencadeada por estímulos de não-agentes, como o farfalhar da relva ou formas geométricas simples que se movem em uma tela (Bloom & Veres, 1999; Heider & Simmel, 1944). O limiar pode ser estabelecido como baixo, porque deixar de perceber um agente perigoso pode ser mortal.

Muitos têm sustentado a hipótese de que a crença em agentes sobrenaturais é um subproduto de nossa adaptação para detectar agentes (Atran & Norenzayan, 2004; Barrett, 2000). No entanto, faltam evidências empíricas. Os testes dessa hipótese não revelaram correlação entre a crença religiosa e a detecção de agentes ilusórios (van Elk, 2013) e nenhum efeito de agentes sobrenaturais contribui para a detecção de agente (van Elk, Rutjens, van der Pligt e van Harreveld, 2016).

Antropomorfismo

Os agentes sobrenaturais são frequentemente conceptualizados como humanos (Boyer, 2001). O antropomorfismo, a interpretação de seres ou traços não humanos como humanos (Guthrie, 1980), é encontrado em todas as culturas (Brown, 1991; Guthrie, 1996) e pode ser entendido como uma adaptação para a vida em grupo. Os seres humanos são animais altamente sociais que dependem uns dos outros para a sobrevivência (proporcionando uns aos outros oportunidades de acasalamento, proteção, recursos, e assim por diante), mas também impõem custos uns aos outros. Portanto, os seres humanos possuem mecanismos cognitivos evoluídos para perceber outros seres humanos, mecanismos que permitem o reconhecimento de outros seres humanos, o comportamento humano e as consequências do comportamento humano (Guthrie, 1993). Esses mecanismos podem errar para o lado da percepção de estímulos ambíguos como humanos ou causados por seres humanos. Por exemplo, as pessoas muitas vezes veem rostos humanos em nuvens, na fumaça e em formações geológicas, ou ouvem vozes no vento (Atran & Norenzayan, 2004; Schick & Vaughn, 2005).

As teologias frequentemente contêm ideias sobre agentes sobrenaturais sobre-humanos; no entanto, as pessoas geralmente pensam em agentes sobrenaturais de maneiras mais simples e intuitivas – humanas (Barrett, 2000; Barrett & Keil, 1996; Boyer, 2001; Gervais, 2013b). Em um estudo clássico, os participantes ouviram ou leram estórias sobre Deus e responderam a perguntas ou parafrasearam o conteúdo dessas estórias. Os participantes que endossavam uma descrição teologicamente correta de Deus (como onipotente, onisciente, onipresente, etc.), em um questionário separado, no entanto, frequentemente projetaram limitações humanas sobre Deus ao recordar as estórias, mesmo que estas deixassem as habilidades de Deus abertas à interpretação. Por exemplo, a seguinte linha vem de uma estória sobre um menino que tem sua perna presa entre duas pedras num rio e reza a Deus para salvá-lo de se afogar: “Embora Deus estivesse respondendo a outra prece em outra parte do mundo quando o menino começou a orar, após algum tempo, Deus respondeu empurrando uma das pedras para que o menino pudesse tirar a perna” (Barret & Keil, 1996, p. 224). Os participantes geralmente indicavam que Deus respondeu à oração em outra parte do mundo antes de responder à do menino – realizando uma tarefa após a outra, como um ser humano – em vez de responder às duas preces ao mesmo tempo. Hindus na Índia responderam de forma semelhante (Barrett, 1998). Esse estudo é frequentemente citado como exemplo de uma restrição cognitiva sobre os conceitos religiosos. Essa interpretação recebeu críticas, no entanto. Westh (2014) argumentou que os participantes antropomorfizaram Deus, pelo menos em parte, porque a linguagem das estórias implicava fortemente uma versão antropomórfica de Deus. Westh (2014) também sugeriu que a universalidade dos conceitos antropomórficos religiosos se deve à universalidade do ato de narrar.

Mais evidências de um vínculo entre o antropomorfismo e a religião provêm de um estudo no qual os crentes religiosos perceberam mais rostos em imagens de paisagens do que os céticos (Riekki, Lindeman, Aleneff, Halme e Nuortimo, 2013). Por outro lado, Norenzayan, Hansen e Cady (2008) não encontraram relação entre a crença dos participantes em agentes sobrenaturais religiosos e sua tendência a antropomorfizar uma árvore e um vulcão.

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Teoria da mente

Seres sobrenaturais são frequentemente dotados de mentes humanas; na verdade, Boyer (2001) afirma que a mente é a única característica humana que sempre se acredita que os agentes sobrenaturais possuam. Perceber as mentes dos outros é o que se chama de mentalização, e quem tem a capacidade de mentalizar possui uma teoria da mente. Indivíduos com uma teoria da mente compreendem que outras pessoas têm pensamentos, desejos, intenções, lembranças e conhecimentos e que estes podem diferir dos seus próprios (Premack & Woodruff, 1978). A teoria da mente é crítica para uma espécie tão socialmente sofisticada quanto o ser humano; ela permite ao indivíduo interpretar e prever o comportamento dos outros, determinar com precisão o que as outras pessoas sabem (ou o que ele pensa que elas sabem, já que suas representações podem estar incorretas) e ler nas entrelinhas (por exemplo, às vezes “eu te ligo” significa “dá o fora”). O ser humano muitas vezes erra para o lado da sobrepercepção da mente. Tanto adultos como crianças atribuem estados mentais a estímulos tão variados como robôs, figuras de ação, bolhas e formas animadas em telas (Abell, Happé e Frith, 2000; Csibra, Gergely, Bíró, Koós e Brockbank, 1999; Gergely, Nádasdy, Csibra, & Bíró, 1995; Morewedge, Preston, & Wegner, 2007).

Alguma sustentação à ideia de que a crença em agentes sobrenaturais é um subproduto da teoria da mente vem da comparação entre homens e mulheres. Em média, as mulheres são mais religiosas do que os homens, e também desempenham melhor as tarefas da teoria da mente do que os homens (Baron-Cohen, Knickmeyer e Belmonte, 2005; Baron-Cohen, Wheelwright, Hill, Raste, & Plumb, 2001; Stiller & Dunbar, 2007). Essa diferença de gênero é, aparentemente, causada até certo ponto pelas maiores habilidades de mentalização das mulheres (Norenzayan, Gervais e Trzesniewski, 2012; Rosenkranz & Charlton, 2013). Além disso, indivíduos com diagnóstico de autismo, um distúrbio do desenvolvimento caracterizado por um déficit nas habilidades de mentalização, tendem a relatar menos crença em Deus do que indivíduos neurotípicos, e a relação entre autismo e crença é mediada pela mentalização (Norenzayan, Gervais e Trzesniewski, 2012). Finalmente, estudos de imagem por ressonância magnética funcional (IRMF) descobriram que as regiões cerebrais associadas à teoria da mente se ativam quando os participantes religiosos rezam ou pensam em Deus (Kapogiannis et al., 2009; Schjoedt, Stødkilde-Jørgensen, Geertz e Roepstorff, 2009).

Evidências e conclusões

Descrevemos três vieses cognitivos: detecção de agente, antropomorfismo e teoria da mente. Todos estes são sistemas mentais intuitivos, e há evidências de que a crença religiosa está relacionada ao pensamento intuitivo em geral. Os participantes que favorecem o pensamento intuitivo ou foram colocados num estado mental intuitivo relatam uma crença mais forte em Deus do que os participantes que favorecem o pensamento analítico ou foram colocados em um estado mental analítico (Gervais e Norenzayan, 2012; Pennycook, Cheyne, Seli, Koehler & Fugelsang, 2012; Shenhav, Rand, & Greene, 2012).

De acordo com certo ponto de vista, as representações religiosas são subprodutos de mecanismos cognitivos evoluídos para a detecção e compreensão adaptativa de animais e pessoas. Isso pode ajudar a explicar a ubiquidade da religião em todas as culturas. Além disso, parece que o antropomorfismo, as habilidades mentalizadoras e o pensamento intuitivo podem explicar algumas das variações na crença religiosa. A nosso ver, há menos sustentação empírica para a detecção de agente como base para a religião. Alguns pesquisadores têm argumentado que os vieses cognitivos intuitivos não são causa das crenças religiosas, mas consideram quais características das crenças religiosas são fáceis de representar mentalmente (Gervais & Najle, 2015). Dessa perspectiva, o antropomorfismo, por exemplo, não causa a crença em agentes sobrenaturais, mas explica por que os agentes sobrenaturais tendem a ser antropomórficos.

De subprodutos a religião adaptativa

Alguns estudiosos têm promovido a visão de que a religião pode ser adaptativa. Em vez de ver a religião como um subproduto ou uma adaptação, pensamos que é possível que as crenças e comportamentos religiosos tenham começado como subprodutos, e algumas delas, então, proporcionaram funções úteis. Assim, algumas crenças e comportamentos religiosos podem ser exaptações – características úteis não desenvolvidas pela seleção natural para sua função atual (Gould & Vrba, 1982).

Os pesquisadores há muito observaram uma conexão entre religião e cooperação, e a religião pode ser uma adaptação (ou exaptação) para promover a cooperação intragrupo (por exemplo, Irons, 2001; Wilson, 2002; Xygalatas et al., 2013). As teorias evolutivas da seleção de parentesco, o altruísmo recíproco e a reciprocidade indireta são inadequadas para explicar o alto nível de cooperação demonstrado pelos seres humanos, particularmente no contexto das interações entre pessoas geneticamente não relacionadas, já que os indivíduos são tentados a se aproveitar dos esforços alheios (Dawkins, 1976). Aqui discutimos duas teorias sobre como os comportamentos e as crenças religiosas têm servido para promover a cooperação intragrupo: castigo sobrenatural e sinalização de comprometimento.

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Castigo sobrenatural

Uma importante teoria é a de que as pessoas cooperam porque temem o castigo de agentes sobrenaturais ou forças cósmicas impessoais (por exemplo, karma) por violar normas e códigos morais (Bering & Johnson, 2005; D. Johnson, 2015; D. Johnson & Krüger, 2004; Norenzayan, 2013). Os infortúnios, como a doença, a morte ou a escassez, são frequentemente interpretados como castigo de agentes sobrenaturais (Bering, 2011; Boehm, 2008; Froese & Bader, 2010; Hartberg, Cox e Villamayor-Tomas, 2014; Hartland, 1924; Murdock , 1980, Swanson, 1960). Além disso, muitas culturas acreditam que o castigo sobrenatural se estende à família e aos amigos do transgressor (Aten et al., 2008; Bering & Johnson, 2005; Hartberg et al., 2014) e à vida após a morte. Os dados do Levantamento de Valores Mundiais (World Values Survey) coletados de 2010 a 2014 revelaram que cerca de 60% das pessoas em todo o mundo acreditam no Inferno (D. Johnson, 2016, p. 63). O medo do castigo sobrenatural é possivelmente uma adaptação multinível. Em primeiro lugar, indivíduos que são pegos enganando os outros sofrem consequências negativas, como perda de reputação e punição pelos membros do grupo. Com o surgimento da linguagem surgiu um maior risco de descoberta, pois aqueles que testemunharam comportamentos transgressivos poderiam espalhar a notícia. Indivíduos que temiam um castigo sobrenatural provavelmente apresentavam menos probabilidades de violar as normas cooperativas e, portanto, menos probabilidades de ser pegos violando as normas cooperativas. O medo do castigo sobrenatural beneficiava os crentes individuais, poupando-os de custos (por exemplo, castigo, vingança) que os membros do grupo impunham àqueles que quebravam as regras. Em segundo lugar, dentro de um grupo, o medo generalizado de um castigo sobrenatural à trapaça e outros comportamentos antissociais que corroem a confiança pode aumentar a cooperação intragrupo (D. Johnson & Krüger, 2004) e reduzir a quantidade de sanções custosas que devem ser realizadas (D. Johnson, 2016). Assim, o medo de um castigo sobrenatural poderia ter conferido benefícios físicos tanto aos indivíduos como aos grupos (D. Johnson, 2015, 2016; D. Johnson & Bering, 2006; D. Johnson & Krüger, 2004).

Evidências do castigo sobrenatural

Dois experimentos mostraram que a crença na presença de agentes sobrenaturais dissuadia a trapaça entre crianças (Piazza, Bering e Ingram, 2011) e adultos (Bering, McLeod e Shackelford, 2005). Não está claro, no entanto, se os participantes anteciparam o castigo dos agentes sobrenaturais (uma princesa invisível no primeiro e um fantasma no último). As pessoas atribuem intuitivamente os conhecimentos moralmente relevantes a Deus, contudo. Os participantes de um estudo realizado por Purzycki e colegas (2012) responderam mais rapidamente a perguntas sobre o conhecimento de Deus sobre as transgressões morais (por exemplo, “Deus sabe que Adam trapaceia em seus impostos?”) do que àquelas sobre informações moralmente irrelevantes (“Deus sabe quantos picles Stefanie tem na geladeira?”), mesmo que as pessoas afirmem explicitamente que a onisciência de Deus significa que ele sabe absolutamente tudo. Os resultados foram os mesmos quando Deus foi substituído por um agente onisciente fictício, desde que o agente punisse transgressões morais. Além disso, em Burkina Faso, os empresários tinham maior tendência a jogar um jogo econômico de forma justa quando eram lembrados do castigo sobrenatural (Hadnes & Schumacher, 2012).

Como o próprio nome indica, a hipótese de castigo sobrenatural enfatiza o castigo em vez da recompensa. Pesquisas sugerem que o castigo conduz à cooperação mais do que a recompensa (Gürerk, Irlenbusch e Rockenbach, 2006; D. Johnson, 2016). Uma investigação de 67 sociedades revelou uma correlação negativa entre a taxa de criminalidade e a crença no Inferno, mas uma correlação positiva entre a taxa de criminalidade e a crença no Céu (Shariff & Rhemtulla, 2012). Em um estudo de laboratório, os participantes que relatavam que Deus era vingativo e punitivo trapacearam menos em uma tarefa do que os participantes que relatavam que Deus era indulgente e compassivo (Shariff e Norenzayan, 2011). Finalmente, em uma série de jogos econômicos, os participantes acreditavam mais frequentemente que as pessoas, e não computadores ou o acaso, causaram resultados negativos, mas não resultados positivos. Ou seja, os eventos desfavoráveis tiveram mais probabilidade de ser vistos como causados por agentes do que os eventos favoráveis (Morewedge, 2009). Os estudos discutidos até agora apresentam evidências substanciais, embora não completamente inequívocas, de que a crença no castigo sobrenatural reduz o comportamento antissocial. Dois estudos experimentais sugerem que o medo de um castigo sobrenatural também pode aumentar o comportamento pró-social (Hadnes & Schumacher, 2012; Yilmaz & Bahçekapili, 2016). Além disso, o castigo sobrenatural está frequentemente envolvido na gestão cooperativa de recursos naturais compartilhados, como água, florestas e pescarias (Hartberg et al., 2014; Snarey, 1996). Atualmente, há evidências indiretas a sustentar a hipótese de que a crença no castigo sobrenatural aumenta a cooperação intragrupo.

Deve-se notar que a crença no castigo sobrenatural não é um mecanismo perfeito para o bem. A crença no castigo sobrenatural aumenta o cumprimento das normas do grupo, mas essas normas podem não ser boas para todos os indivíduos e podem até ser consideradas moralmente repugnantes por outros grupos. Por exemplo, vários infortúnios têm sido explicados como castigo divino pela homossexualidade (Tashman, 2011), feminismo (Goodstein, 2001), tecer no dia da semana errado (Boehm, 2008) e deixar de praticar a religião “correta” (USA Today, 2012; Tashman, 2016; Wood, 2010). A crença no castigo sobrenatural está associada a agressão (K. Johnson, Li, Cohen e Okun, 2013), atribuição de culpa à vítima (Strömwall, Alfredsson e Landström, 2013) e justificação da desigualdade (Cotterill, Sidanius, Bhardwaj e Kumar, 2014). Dito tudo isso, a coordenação e a cooperação societais geralmente dependem de pessoas capazes de enviar e receber sinais de suas intenções e confiabilidade. Por isso, discutiremos a seguir teorias sobre sinais religiosos de intenção cooperativa.

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Sinais custosos

Os animais às vezes exibem traços ou comportamentos fenotípicos que são difíceis de entender a partir de uma perspectiva evolutiva porque são custosos. Talvez o exemplo mais conhecido seja a cauda extravagante do pavão. A cauda do pavão é metabolicamente custosa e impede a fuga do perigo. Cabras de leque e gazelas fornecem outro exemplo (Sosis & Alcorta, 2003). Esses animais podem saltar vigorosamente no ar quando os predadores estão por perto, atraindo sua atenção e gastando momentos de energia preciosa antes de eventualmente ter de correr para salvar suas vidas. De acordo com a teoria da sinalização custosa, traços e comportamentos fisiológicos custosos são projetados para sinalizar algum traço subjacente e não observável (Sosis, 2003). Uma cauda extravagante pode ser um sinal confiável da qualidade genética e da saúde de um pavão. Esse sinal custoso pode atrair parceiras ou afugentar rivais e predadores. Para a gazela, saltar pode ser um sinal confiável de rapidez. Uma gazela saltitante pode se beneficiar ao sinalizar aos predadores que não vale a pena caçá-la, já que ela provavelmente escapará. O custo desses sinais é o que os torna confiáveis; apenas indivíduos saudáveis e aptos podem suportar o custo de dar saltos ou portar uma cauda extravagante.

Por mais estranho que pareça, tais ideias foram aplicadas à religião. Anteriormente, discutimos a dificuldade de alcançar a cooperação dentro dos grupos. Os indivíduos geralmente conseguem ganhar o máximo aproveitando-se dos esforços cooperativos dos outros (Sosis, 2003). A sinalização custosa talvez seja um método para resolver o problema do aproveitar-se dos outros. Os membros do grupo desejam discriminar entre aqueles que irão cooperar e aqueles que tentarão se aproveitar; indivíduos comprometidos com os valores do grupo indicam esse comprometimento a comportamentos religiosos custosos (Sosis, 2003). Os comportamentos religiosos podem custar tempo (por exemplo, tempo gasto rezando e assistindo a cultos) e recursos (por exemplo, dízimos, sacrifício de animais). O verdadeiro custo dos comportamentos religiosos pode ser o mesmo para quem está comprometido com os valores do grupo e quem não está. No entanto, quem está comprometido com os valores religiosos percebe menos custos e maiores benefícios do que quem não está comprometido porque acredita em ideias religiosas sobre recompensas sobrenaturais (por exemplo, o Céu) por comportamentos religiosos e castigos (por exemplo, o Inferno) por quebrar regras religiosas (Bulbulia, 2004, Sosis, 2003). Portanto, os indivíduos não comprometidos com os valores do grupo são menos propensos a participar de comportamentos religiosos custosos e, portanto, podem ser identificados e evitados. A teoria da sinalização custosa propõe que a tendência a exibir sinais custosos é uma adaptação evoluída; os sinalizadores custosos ganham a confiança e aceitação dos membros do grupo e, portanto, se beneficiam do pertencimento ao grupo (Bulbulia, 2004; Irons, 2001; Wilson, 2002). Além disso, por promover a cooperação dentro dos grupos, a sinalização custosa pode ser adaptativa em nível de grupo.

Sinais difíceis de falsificar e CREDs

Alguns pesquisadores argumentam que os sinais de comprometimento não precisam ser custosos. As emoções provocadas por situações religiosas podem sinalizar o compromisso do grupo de forma confiável porque são difíceis de falsificar (Bulbulia, 2008; Schloss, 2008). O comportamento emocional religioso inclui falar línguas desconhecidas, chorar, rir, cantar, desmaiar, tremer, entrar em transe e sangrar espontaneamente (Schloss, 2008). Um indivíduo que expressa uma emoção religiosa difícil de fingir provavelmente está comprometido com sua religião.

Outra teoria de sinalização é a de mostras de aumento de credibilidade, ou CREDs na sigla em inglês (Henrich, 2009). Essa teoria propõe que o ser humano tem um mecanismo cognitivo evoluído para avaliar o grau de comprometimento alheio com os valores, crenças e ideologias com as quais está comprometido. Falar é fácil, então os aprendizes culturais procuram mostras que aumentem a credibilidade – sinais confiáveis de sinceridade e compromisso. Os comportamentos religiosos de um modelo, que podem ou não ser custosos, são mostras que aumentam a credibilidade das reivindicações do modelo de compromisso com os valores e as crenças compartilhados do grupo religioso.

Evidência em favor dos sinais

Em uma análise das comunidades americanas do século XIX, Sosis (2000) descobriu que as comunidades religiosas duravam mais do que as seculares. Supondo que a longevidade de uma comunidade seja um índice de cooperação confiável, isso sugere que as crenças religiosas promovem a cooperação intragrupo. Em média, as comunidades religiosas impunham mais de duas vezes mais exigências custosas aos seus membros do que as comunidades seculares (Sosis & Bressler, 2003). Além disso, entre as comunidades religiosas, havia uma correlação positiva entre o número de obrigações custosas e a longevidade da comunidade. Estudos experimentais também encontraram uma relação entre a sinalização custosa e a cooperação dentro do grupo. Em um desses estudos, membros de kibutzim israelenses jogaram um jogo econômico com outros membros do seu kibutz (Sosis & Ruffle, 2003, 2004). Quando vários fatores eram controlados, como o grau em que os participantes previam que seus parceiros de jogo cooperariam, os homens que frequentavam a sinagoga diariamente (ou seja, sinalizadores custosos) eram mais cooperativos do que os outros participantes.

Estudo semelhante foi realizado por Orbell, Goldman, Mulford e Dawes (1992), que compararam a cooperação entre moradores de Logan, Utah, com a cooperação entre os residentes de Eugene-Springfield, Oregon. O comparecimento à igreja foi positivamente correlacionado com a cooperação, mas apenas para os mórmons em Logan, onde mais de 75% da população são membros da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. Esses dados sugerem que o comparecimento à igreja aumenta a cooperação entre os membros do grupo, mas talvez não a cooperação em geral (ou seja, paroquialmente, mas não universalmente).

Finalmente, estudantes de graduação cristãos classificaram os indivíduos religiosos sinalizadores custosos como mais confiáveis do que os seus homólogos não-sinalizadores, mesmo quando os sinais custosos eram realizados por pessoas de religião diferente (Hall, Cohen, Meyer, Varley e Brewer, 2015). Se fizermos o suposição razoável de que a confiança facilita a cooperação (Acedo-Carmona & Gomila, 2014), esses resultados são consistentes com a hipótese de que a sinalização custosa favorece a cooperação.

Evidências e conclusões

É importante notar que os traços que foram adaptativos no passado nem sempre são adaptativos hoje. As crenças e comportamentos religiosos podem ter sido adaptativos para os nossos antepassados muito tempo atrás, sem necessariamente proporcionar valor adaptativo agora. Mesmo que a religião seja ou tenha sido adaptativa, ela não surgiu ou evoluiu necessariamente devido à sua natureza funcional (Gould & Lewontin, 1979). A religião mais provavelmente surgiu como um subproduto de adaptações cognitivas evoluídas para navegar em um ambiente repleto de agentes. Ainda assim, pensamos que as crenças e comportamentos religiosos podem aumentar a cooperação intragrupo hoje. No entanto, existem igualmente caminhos seculares para a cooperação. Alguns dos países mais cooperativos, confiantes e pacíficos do mundo também são os menos religiosos (Norenzayan, 2013; Zuckerman, 2008). Menos de um terço dos dinamarqueses e suecos acreditam em Deus (Gervais, 2013a), porém a Dinamarca e a Suécia têm as taxas mais baixas de crimes violentos e corrupção no mundo e possuem economias fortes e sistemas educacionais de alta qualidade (Zuckerman, 2008). Talvez essas nações tenham desenvolvido a cooperação intragrupo em parte devido a instituições seculares altamente confiáveis, como a força policial e os tribunais (Norenzayan, 2013). Consistentemente, os princípios seculares de aplicação da lei aparentemente aumentam o comportamento pró-social a um ponto similar ao dos princípios  religiosos (Shariff & Norenzayan, 2007).

Discutimos como as crenças e comportamentos religiosos podem promover a cooperação intragrupal. O outro lado da moeda é que a religiosidade pode promover o conflito intergrupal. Uma forte identidade religiosa pode ser associada ao racismo (Hall, Matz e Wood, 2010); a frequência ao culto religioso está relacionada ao apoio a atentados de martírio religioso (por exemplo, bombardeio suicida) e hostilidade em relação a membros fora do grupo (Ginges, Hansen e Norenzayan, 2009); e maior imersão religiosa faz prever preconceito, discriminação e violência entre grupos (Neuberg et al., 2014).

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Cultura

Os seres humanos não são apenas seres biológicos. Nós herdamos dualmente uma dotação biológica (moldada pela evolução biológica) e uma dotação cultural (moldada pela evolução cultural, Richerson & Boyd, 2005). Embora haja evidências de algumas características da cultura em alguns animais não humanos (Whiten et al., 1999), as culturas humanas são excepcionalmente ricas e diversas. Os mecanismos de aprendizagem cultural aparentemente evoluíram para permitir que os seres humanos obtivessem ideias, crenças, valores, preferências e práticas de outros seres humanos (Henrich, 2009; Mesoudi, 2016). Essa aprendizagem cultural é particularmente adaptativa quando permite que as pessoas obtenham conhecimentos ou habilidades que são incapazes de obter por conta própria (Mesoudi, 2016). O aprendizado cultural permite que as melhorias aprendidas passem às gerações futuras, resultando na melhoria substancial em ferramentas e informações ao longo das gerações (Richerson & Boyd, 2005).

A aprendizagem cultural é parcialmente responsável pela existência de crenças religiosas. Um estudo de mais de 50 culturas espalhadas por todo o mundo (Gervais & Najle, 2015) descobriu que criar alguém para ser religioso teve um grande impacto na probabilidade de esse alguém acreditar em um deus (ou deuses). Para além do efeito da educação religiosa, a probabilidade de alguém acreditar em deuses foi fortemente influenciada pela frequência de comparecimento ao culto de outras pessoas na sociedade. O aprendizado cultural também é amplamente responsável pelas particularidades das crenças religiosas (por exemplo, em que agentes sobrenaturais as pessoas de um grupo cultural específico acreditam) e práticas (por exemplo, que rituais eles executam). Na verdade, por causa do aprendizado cultural, parece que as crenças e práticas religiosas podem sobreviver às características ecológicas originais que as originaram. Por exemplo, muitos judeus ultraortodoxos, cujos ancestrais lidaram com longos e frios invernos na Europa Oriental, usam espessos chapéus de pele hoje no deserto quente de Jerusalém (Sosis, 2006). A evolução cultural lida com a mudança das culturas ao longo do tempo. Como em qualquer processo evolutivo, algumas crenças e práticas culturais se espalham enquanto outras desaparecem. Um processo pelo qual isso pode acontecer é a competição intergrupal. Quando os grupos competem por recursos, grupos mais competitivos substituem grupos menos competitivos. Os membros do grupo derrotado podem ser mortos, mas também podem se dispersar ou ser assimilados ao grupo vencedor. Crenças e práticas também podem se espalhar através da emulação de membros de grupos de sucesso (Henrich & Gil-White, 2001; Richerson & Boyd, 2005). Propôs-se que as crenças e práticas que promovem a cooperação intragrupo, como o medo do castigo sobrenatural e a sinalização de comprometimento, se espalharam e multiplicaram através desses mecanismos (Henrich, 2004; Richerson & Boyd, 2005). Crenças e comportamentos também podem se propagar porque o grupo que os sustenta aumenta em número. Dois métodos pelos quais um grupo religioso pode crescer são a produção e a doutrinação de crianças e o proselitismo. Apesar de compartilhar uma origem religiosa comum, os judeus, membros de uma religião que não faz proselitismo, representam cerca de 0,2% da população mundial, ao passo que os cristãos e muçulmanos, membros de religiões proselitistas, representam 31% e 23% da população, respectivamente (Pew Research Center, 2015).

 Conclusões e direções futuras

Anteriormente, descrevemos a religião como resultado da interação da cultura e da biologia. Com o risco de simplificar demais, pode-se pensar que a biologia constitui a estrutura básica da religião e que a cultura preenche os detalhes. As crenças e comportamentos religiosos variam de uma cultura para outra, mas essa variação é limitada pela biologia. Por exemplo, indivíduos de diferentes tradições religiosas compartilham uma crença em agentes sobrenaturais, e essa crença provavelmente é um subproduto de sistemas mentais biológicos para navegar de forma adaptativa em um mundo social. As características específicas dos agentes sobrenaturais variam, contudo, de uma tradição religiosa para outra, e os indivíduos aprendem sobre essas características a partir de sua cultura. Além das particularidades da religião, o aprendizado cultural afeta o grau e até a probabilidade de religiosidade. Não só a religião é um produto da biologia e da cultura, mas a biologia e a cultura são, por sua vez, produtos da religião. As tradições religiosas podem afetar a biologia, por exemplo, promovendo um estilo de vida de alta fertilidade (McQuillan, 2004; Weeden, Cohen, & Kenrick, 2008; Westoff & Jones, 1979; Zhang, 2008) ou, em vez disso, um estilo de vida de baixa fertilidade (Coşgel, 2000; Hoodfar & Assadpour, 2000; Skirbekk et al., 2015). A relação entre religião e saúde fornece outro exemplo: embora não possamos ter certeza de uma relação de causa e efeito, as pessoas que estão em alto nível de envolvimento religioso vivem mais do que as pessoas com baixo envolvimento religioso (McCullough, Hoyt, Larson, Koenig & Thoresen, 2000).

O individualismo protestante nos Estados Unidos fornece um exemplo de influência religiosa sobre a cultura. O cristianismo protestante vê cada indivíduo como tendo uma relação direta com Deus. Assim, a religião é mais individualista para os protestantes do que para os católicos e os judeus, e tem sido levantada a hipótese de que o individualismo protestante é pelo menos parcialmente responsável pela natureza individualista da cultura americana (Cohen & Hill, 2007). As práticas de uso do véu na Turquia fornecem outro exemplo de uma influência religiosa sobre a cultura. Nas últimas décadas, tem-se tornado cada vez mais popular as mulheres turcas cobrirem seus cabelos e a maior parte dos seus corpos de um modo que é incentivado por certas tradições dentro do Islã. Essa tendência crescente resultou em uma indústria da moda do véu (Sandikci & Ger, 2010). Se a religião é tão fortemente um subproduto de módulos psicológicos universais, e a religião pode ajudar a promover a cooperação, por que algumas sociedades e pessoas são mais religiosas do que outras? E por que a religião assume tantas formas diferentes? A capacidade de comportamentos diferentes, incluindo repertórios religiosos de comportamentos, poderia estar toda em nossos genes, e provocada facultativamente por diferentes ambientes (Cosmides & Tooby, 1992; Kenrick et al., 2002). Portanto, as religiões podem depender, em certa medida, de pressões de seleção no meio ambiente. Por exemplo, em lugares com muita doença, as religiões podem estar preocupadas com a pureza e o contágio, com o que você come e com quem você tem permissão para fazer sexo (K. Johnson, Li, & Cohen, 2015; K. Johnson, White, Boyd, & Cohen, 2011). Todas essas restrições religiosas podem ajudar a conter a propagação da doença. Em ambientes com recursos imprevisíveis ou inconsistentes, as culturas podem fazer evoluir concepções mais duras e punitivas dos deuses, pois tais deuses puniriam as pessoas por tomarem mais do que sua parcela justa de recursos (Snarey, 1996). Embora por certo nem todas as complexidades da religião possam ser explicadas por características da ecologia, o efeito de variáveis ecológicas sobre características religiosas é uma área promissora para futuras pesquisas e que tem recebido muito pouca atenção até o momento. O estudo da religião também seria beneficiado por testes mais empíricos das teorias descritas neste capítulo.

Discutimos como as crenças religiosas podem ser subprodutos de mecanismos psicológicos evoluídos para detectar e compreender animais e pessoas, como a sinalização do comprometimento religioso e o medo do castigo sobrenatural podem ser funcionais e como esses processos são posteriormente moldados por fatores culturais. Cultura e biologia interagem para produzir o fenômeno multifacetado que entendemos como religião.

Escola sem partido e escola sem ciência

O movimento Escola sem Partido, que já havia chamado a atenção da opinião pública ao conseguir no Supremo Tribunal Federal que redações do ENEM que supostamente ferissem os direitos humanos não pudessem ser anuladas, mas tivessem de ser corrigidas e avaliadas como as demais, voltou a chamar a atenção. Agora, no último dia 12, quatro estudantes foram detidos ao protestar com violência na Câmara Municipal de São Paulo contra a votação de projeto de lei inspirado no movimento. Ou seja, o debate sobre se o ensino pode/deve ou não seguir esta ou aquela linha ideológica está esquentando.

Antes de mais nada, convém explicar o que defende o referido movimento. Segundo seu próprio site (www.escolasempartido.org),

[n]uma sociedade livre, as escolas deveriam funcionar como centros de produção e difusão do conhecimento, abertos às mais diversas perspectivas de investigação e capazes, por isso, de refletir, com neutralidade e equilíbrio, os infinitos matizes da realidade.

No Brasil, entretanto, a despeito da mais ampla liberdade, boa parte das escolas, tanto públicas, como particulares, lamentavelmente já não cumpre esse papel. Vítimas do assédio de grupos e correntes políticas e ideológicas com pretensões claramente hegemônicas, essas escolas se transformaram em meras caixas de ressonância das doutrinas e das agendas desses grupos e dessas correntes.

[…]

O EscolasemPartido.org – único site em língua portuguesa inteiramente dedicado ao problema da instrumentalização do ensino para fins políticos e ideológicos – foi criado para mostrar que esse problema não apenas existe, como está presente, de algum modo, em praticamente todas as instituições de ensino do país.

[…]

O objetivo do movimento é claramente combater a doutrinação ideológica em sala de aula, notadamente de esquerda, visto ser a mais frequente em nosso país, bem como eventuais doutrinações de natureza religiosa ou moral. Isso inclui tudo – desde a pregação pró-marxista ou antimarxista até pregações contra ou a favor da teoria da evolução ou da conduta homossexual. Em outras palavras, tudo pode e deve ser discutido na escola, mas sem viés persuasivo, isto é, com neutralidade, isenção e direito dos alunos de conhecer todos os lados da questão.

Muitos detratores do movimento dizem que não é possível educar sem uma visão crítica da realidade. Sem dúvida, a escola deve ser um espaço crítico, no sentido de fazer o aluno pensar e não apenas aceitar passivamente o que lhe é imposto como verdade. No entanto, educação crítica é muito diferente de educação esquerdista, embora muitos pensadores de esquerda achem e defendam que somente a esquerda tem a capacidade de exercer a crítica. Por sinal, a teoria da comunicação desenvolvida pelos filósofos da chamada Escola de Frankfurt, que se autointitula “teoria crítica da comunicação”, é declaradamente anticapitalista (eu diria até “rancorosa” com o capitalismo), o que nos obriga a ter certa cautela no emprego da palavra “crítica”.

Antes de mais nada, é papel da escola difundir conhecimento, sobretudo o científico; valores políticos, morais e religiosos são atribuição da família. Como diz o educador Mário Sérgio Cortella, à família cabe educar, à escola cabe escolarizar. E, nesse sentido, não tenho notícia de forma de conhecimento mais crítica que a ciência. Não por acaso, cientistas sempre foram perseguidos pelas religiões, pelos monarcas absolutistas e por todo tipo de ditadores.

A meu ver, o grande problema da escola é que as chamadas “ciências humanas” muitas vezes não se comportam realmente como ciências: em áreas como história e sociologia, por exemplo, a postura científica por vezes dá lugar à ideologia. Lembro de um colega, professor de sociologia, que ensinava aos alunos que o amor é uma construção social. Ora, isso está em flagrante contradição com o que dizem – e provam – a biologia e a neurociência. Não só o amor é um sentimento universal (está presente em todas as culturas) decorrente de nossa bioquímica cerebral como existe também entre os animais (ao menos os superiores, como aves e mamíferos), assim como entre animais e humanos (quem tem um animal de estimação sabe muito bem disso!).

Essa ideia de que tudo é construção social, inclusive nossos traços biológicos mais básicos, como a identidade de gênero, é bastante difundida entre os humanistas e bastante cara aos professores das disciplinas de humanas. Portanto, falta às ciências humanas um pouco de cientificidade.

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Se os leões caçam e comem antílopes, para o zoólogo isso não é nem bom nem mau, é um fato natural, já que a natureza não se pauta por princípios morais e sim por leis físicas. Do mesmo modo, se uma estrela, ao fim de sua vida, se expande e engole todos os corpos celestes que orbitam à sua volta, isso tampouco é bom ou mau para o astrônomo, é apenas mais um fenômeno físico do qual ele deve dar conta com o conhecimento científico de que dispõe.

Do mesmo modo, guerras, massacres, ondas migratórias, episódios de fome ou de epidemias e a própria evolução das sociedades, que gera desigualdades dentro delas e entre elas, tudo isso faz parte dos mecanismos naturais que regem as sociedades humanas e que os sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e historiadores devem saber explicar de forma objetiva por meio da enunciação de leis gerais. Dito de outro modo, cabe à ciência fazer juízos de verdade e não juízos de valor. Cabe aos cientistas constatar os fatos, ver neles o que há de geral, repetitivo e previsível e, sem atribuir à natureza ou à sociedade fins morais, elaborar um modelo teórico que seja capaz de explicar e prever a maioria dos fenômenos observáveis.

Portanto, se os nazistas mataram seis milhões de judeus durante o Holocausto, isso não deveria ser visto pelos historiadores nem ensinado pelos professores de História como algo bom ou ruim: trata-se de mais um dentre tantos fatos históricos que obedecem a uma lógica, e descobrir qual é essa lógica que norteou centenas de outros massacres e centenas de outros regimes tirânicos ao longo da história é a tarefa de uma ciência que pretenda explicar a evolução temporal das sociedades humanas. Se o nazismo foi bom ou mau, cabe aos próprios educandos, mediante a apresentação isenta de todos os fatos que o precederam e motivaram, concluir. Isso sim é exercício do senso crítico.

A partir do momento em que um professor discursa em sala de aula sobre a “crueldade” do capitalismo e sobre como somente o socialismo de modelo petista, cubano ou venezuelano poderá levar os seres humanos à felicidade eterna, ou quando aponta a “perversidade” da civilização branca cristã europeia contra os pobres e indefesos negros africanos, sem contextualizar os fatos históricos e mostrando apenas os aspectos positivos de um lado e os aspectos negativos do outro, ele não está fazendo ciência, está promovendo ideologia. E a ideologia é o revés da ciência, já que esta se apoia em fatos e aquela, em crenças. Mesmo que a maior parte da sociedade acredite que o homem descende de Adão e Eva, isso é uma crença, não um fato. Já a evolução das espécies pela seleção natural é um fato em favor do qual existem inúmeras evidências e que pode ser constatado empiricamente a qualquer momento. Aliás, a própria ação humana tem influído na evolução das espécies diante de nossos olhos. O problema é que o ensino das chamadas ciências humanas se assemelha mais à pregação criacionista do que ao ensino da teoria da evolução. Penso mesmo que a antipatia dos estudantes de humanas pelas ciências naturais, assim como a péssima qualidade do nosso ensino de ciências, tem contribuído para o divórcio entre ciências do homem e ciências da natureza. A partir daí, temos desde professores de humanas que acreditam não serem os fatos sociais explicáveis pelo método científico, como se uma intervenção divina a todo momento impedisse as sociedades de seguir seu curso natural, até educadores que, crendo em determinada doutrina, seja ela o criacionismo bíblico ou o marxismo, tomam sua crença por verdade absoluta e passam a sentir-se no dever de “salvar as almas dos alunos”, levando-lhes a iluminação dessa Verdade. Ou seja, ainda que bem-intencionados, tais professores cedem ao dogmatismo, cuja consequência prática é a doutrinação, que em casos extremos pode chegar a tentativa de lavagem cerebral. E ninguém é mais inimigo do dogmatismo, portanto ninguém tem mais senso crítico do que a ciência. Falta aos humanistas descobrir isso.

Direitos humanos e o direito à liberdade de expressão do pensamento

Dois fatos recentes – a decisão judicial que proibiu os examinadores do Enem de anular as provas de redação que porventura ferissem os direitos humanos e o afastamento do jornalista William Waack da Rede Globo após o vazamento de um vídeo com suposto teor racista – nos fazem pensar sobre os limites da liberdade de expressão do pensamento e da criminalização da linguagem.

Até a decisão liminar da ministra do Superior Tribunal Federal Carmen Lúcia sobre ação impetrada pelo movimento Escola sem Partido, os examinadores das provas de redação do Enem podiam zerar a nota de uma redação que eles entendessem ofensiva aos direitos humanos sem examinar qualquer outro quesito. Como professor de português, sempre achei questionável esse critério de avaliação – ou melhor, de não avaliação – de uma prova de redação, já que o que deve estar em julgamento é a capacidade de se expressar com clareza, coesão, coerência e correção gramatical, que todo aluno concluinte do ensino médio e pretendente a uma vaga universitária deve ter, e não suas posições ideológicas.

Da mesma forma como, durante o regime militar, era proibido e, mais do que isso, perigoso expressar opiniões que pudessem ser consideradas “de esquerda”, parece que hoje o jogo se inverteu, e o que é proibido ou execrável é ter posições que sejam vistas por certos grupos detentores de poder como “de direita”. Em tempos em que até a intolerância ao glúten pode ser vista como crime de intolerância, fica a impressão de que, para entrar na universidade, é preciso estar alinhado ideologicamente com aqueles que ditam as regras nas instâncias superiores da educação brasileira.

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Hoje se tipifica um novo tipo de crime, o chamado crime de ódio, em que o criminoso tem como motivação de seu ato o pertencimento da vítima a um determinado grupo social, definido pela raça, religião, orientação sexual, deficiência física, etnia, nacionalidade, etc. Embora motivado pelo ódio (que é preciso distinguir de preconceito), o crime de ódio é fundamentalmente um crime, isto é, um ato de violência física, psicológica ou moral contra alguém. É, portanto, diferente da simples expressão do ódio, pública ou privadamente.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, há uma diferença fundamental entre o ódio puro e simples e a violência praticada em razão dele. Odiar é uma prerrogativa humana (e creio que exclusivamente humana) decorrente do fato biológico de termos sentimentos. Isso significa que, assim como posso amar chocolate, viagens, MPB, um determinado time de futebol ou astro do cinema, certas pessoas em particular (amigos, parentes, o cônjuge), também posso odiar certas comidas, lugares e pessoas. E como os sentimentos não são racionais, mas são o oposto cognitivo da razão, não preciso de um motivo lógico para amar ou odiar algo ou alguém. A questão é: a simples expressão verbal do meu ódio é por si só um crime de ódio? Não sou versado em Direito, mas quero crer que não, afinal a Constituição Federal garante a todos o direito à livre expressão do pensamento (e eu acrescentaria, do sentimento). Mesmo os pensamentos e sentimentos mais vis estariam sob essa garantia, pois a vileza ou não daquilo que se pensa ou sente é questão de valor e não de verdade.

Quanto ao preconceito, tal como definido pelos dicionários como um julgamento prévio que fazemos de algo ou alguém, ele não é, em princípio, nem bom nem mau. Qualquer juízo que eu faça sem conhecer profundamente o que ou quem estou julgando é um preconceito. O que significa que ele pode ser também positivo: posso superestimar precipitadamente as qualidades do objeto em questão, como supor que a comida de um restaurante é muito boa apenas porque sua fachada é bonita ou chique.

Na verdade, o preconceito é um mecanismo mental de que a natureza nos dotou e que tem sido imprescindível à nossa sobrevivência: é graças a julgamentos prévios e por vezes superficiais que tomamos a decisão de nos arriscar ou não em certas situações. O mesmo preconceito que pode me fazer desconfiar injustamente de uma pessoa mal-encarada numa rua escura pode salvar a minha vida caso minha suspeita esteja correta.

O fato é que posso ter certos preconceitos, mesmo que infundados, sem que eles se transformem em ódio, assim como posso nutrir ódio por certos indivíduos sem que ele se transforme em violência. Posso, finalmente, expressar o meu ódio ou reprovação a uma pessoa ou grupo de pessoas sem que isso configure crime. Especialmente se faço isso em situação privada, de modo que o próprio alvo da minha desafeição não saiba o que penso dele.

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E aí chegamos ao caso William Waack. Sem dúvida, dizer que buzinar insistentemente é “coisa de preto” revela preconceito negativo. Aliás, preconceitos desse tipo pecam por generalização. Não é porque um negro trafega com os vidros do carro abertos e o som do funk no volume máximo que todos os negros se comportam assim (e, é óbvio, há brancos que também assim se comportam). Mas o que proponho à reflexão é: a expressão do desapreço injustificado por toda uma raça por causa de uma buzina insistente é em si um crime? Ainda mais se feita em contexto privado e que deveria ser mantido privado, não fosse a má-fé de algum desafeto que tornou pública essa manifestação, por meio do hoje tão em moda “vazamento seletivo”?

É claro, Waack não está sendo processado criminalmente (ainda), pois não cometeu crime algum, o que ele está é sendo moralmente linchado por ter revelado involuntariamente um lado politicamente incorreto que todos nós temos, principalmente em momentos de intimidade e descontração. Quem nessas situações nunca fez um comentário maldoso acerca de alguém, quem nunca riu de uma piada racista ou sexista, quem nunca aludiu à sexualidade alheia de modo depreciativo, que atire a primeira pedra!

O fato é que, hoje, as redes sociais amplificam a repercussão de algo que deveria ser estritamente íntimo e dão voz a um novo tipo de pessoas, os haters, odiadores profissionais, que fazem da expressão pública do ódio a quem consideram fora dos parâmetros de sua ideologia a razão de sua existência. Ou seja, em nome de seu direito de condenar a manifestação do ódio alheio, eles odeiam e praticam a violência moral contra pessoas cuja biografia lhes faz inveja. E odeiam você por sua opinião, seja ela qual for, preconceituosa ou não, odienta ou não, desde que não concordem com ela. E, nesse afã, impedem a diversidade de opiniões dentro da universidade simplesmente impedindo que os portadores de certas opiniões entrem na universidade. Ou ignoram todas as boas contribuições sociais que uma pessoa deu ao longo da vida, em seu trabalho sério e competente, por causa de um deslize verbal, por vezes impensado – ou mal interpretado –, que todos nós cometemos no dia a dia, sobretudo imersos que estamos numa cultura de herança patriarcal, escravista, colonialista e censitária, da qual nem nos damos conta.

Bullying e bolinar: alguma coisa a ver?

A recente tragédia no colégio Goyases, em Goiânia, em que um adolescente de 14 anos matou a tiros dois colegas e feriu outros quatro, traz de volta não só a questão da violência nas escolas, mas também a preocupação com a prática do bullying, já que este foi o motivo alegado pelo autor para a prática do crime (desculpem, do “ato infracional”).

O termo “bullying” é de introdução recente em português. Já a prática que ele nomeia é mais velha do que o mundo. Suspeito que, desde que existe essa instituição chamada escola, a chacota e a intimidação contra os alunos mais fracos ou “diferentes” façam parte dela, como o feijão e o caruncho. Talvez antes mesmo de surgirem as instituições de ensino, já no tempo das cavernas se praticasse essa traumática e humilhante demonstração de superioridade, como a dominância que um animal exerce sobre outro montando-lhe nas costas. Enfim, o bullying parece ser um resquício de nossas raízes animais, reminiscência deixada pela evolução numa espécie que, mesmo tendo deixado a selva, jamais deixou de ser selvagem.

Mas vamos ao que interessa: desde que a palavra “bullying” passou a circular no vocabulário escolar, estudantes alegam ter sido “bolinados” ou que fulaninho é um “bolinador”. Há algo em comum entre “bullying” e o verbo “bolinar”?

A aproximação das duas palavras é uma dessas curiosas peças que a língua, em seus cegos meandros, nos prega, mais ou menos como a súbita relação que se estabeleceu em italiano entre o substantivo choc (“choque”, de origem francesa) e o verbo scioccare (“chocar”, derivado de sciocco, “bobo”) por causa da pronúncia comum – o sci do italiano tem o mesmo som do francês ch (e que é o som do nosso x de “xaxim”). Ou seja, os italianos identificam o ato de chocar com o de deixar alguém abobado, o que não deixa de fazer sentido, mesmo sendo só coincidência. Em português, o casamento de “bullying” com “bolinar” foi facilitado pela pronúncia “bulinar”, de longe a mais corrente no Brasil.

O fato é que “bolinar” é palavra bem mais antiga que “bullying” e veio da linguagem náutica. Bolinar é apontar a embarcação na direção do vento, navegar à bolina, de viés. E, segundo o dicionário Michaelis, bolina, do inglês bowline, é “cada uma de duas chapas de aço ou outras saliências longitudinais semelhantes a uma nadadeira, fixadas uma em cada lado arredondado do fundo do navio para evitar grandes balanços”.

Da navegação, “bolinar” passou ao linguajar sexual, designando, segundo o Houaiss, o ato de “apalpar ou encostar-se a uma outra pessoa com fins libidinosos, geralmente de modo furtivo”. Para o Michaelis, é “tocar em alguém com intuitos libidinosos”. Ou seja, o que muitos cafajestes fazem com as mulheres dentro de ônibus e trens lotados.

Já “bullying” vem do inglês bully, definido pelo American Heritage Dictionary como uma pessoa habitualmente cruel, especialmente com pessoas menores ou mais fracas. A etimologia do termo é obscura, sendo que o dicionário em questão a atribui possivelmente ao holandês medieval boele, “namorado/a”. Outro étimo apontado é a palavra bull, “touro”, talvez pela semelhança entre a impetuosidade desse animal e a truculência do bully.

Mas como “bolinar” assumiu conotação sexual? E o que isso tem a ver com chacota e intimidação? Segundo o etimólogo Antenor Nascentes, o sentido libidinoso de “bolinar” data de 1892: o bolinador senta-se ao lado de uma mulher, como um navio à espera de vento favorável. Mas quem sabe a explicação seja mais complexa do que isso. Perscrutar a origem de expressões populares é um dos grandes desafios da etimologia, já que documentação comprobatória na maioria dos casos não existe. No entanto, eu lançaria mão de um terceiro elemento, o verbo “bulir”, sinônimo de “mexer”, que, como este, também significa “incomodar, importunar, caçoar”. Ora, o bolinador escolar aborrece, importuna, leva à loucura suas vítimas (além desse recente caso de homicídio, há também casos de suicídio de crianças assediadas na escola); além disso, quando se dirige às meninas, em geral seu assédio envolve sexo: propostas indecorosas, obscenidades cochichadas ao ouvido, apalpadelas…

Essa convergência de sons e sentidos pode ter reunido três palavras de origens tão diversas numa única família semântica: “bullying”, “bulir” e “bolinar”. Caprichos da língua. O fato é que essa inusitada relação que se estabeleceu nos últimos tempos entre o substantivo “bullying” e o verbo “bolinar” coincide com a progressiva diminuição do emprego de “bolinar” em seu sentido anterior, sexual: por volta dos anos 1950, era comum chamar um galanteador descarado de bolina e seu ato de bolinação; hoje, essa prática se chama assédio sexual. E se, 60 anos atrás, um bolina era tido apenas como um sujeito importuno, hoje ele é um criminoso.

O instante do momento

Por trás de toda palavra, frase ou texto há sempre um significado oculto – ou muitos. Não raro, o que queremos dizer é muito diferente, quando não exatamente o oposto, do que nossa fala diz. A riqueza maior da linguagem reside em sua capacidade de “dizer” muito mais do que é efetivamente dito. Além do discurso literal, denotativo – que Roland Barthes chamou de “grau zero” da linguagem –, temos as quase infinitas possibilidades da conotação, com suas figuras retóricas (daí falarmos em linguagem figurada).

Além disso, a escolha, nem sempre consciente, que nossos antepassados fizeram para nomear certos conceitos ou dar conta de certas situações revela muito do que eles pensavam, de como viam o mundo. E, na medida em que utilizamos essas mesmas palavras, reproduzimos essa mesma visão de mundo, ou, como se costuma dizer tecnicamente, essa mesma ideologia.

Muitas vezes, usamos certas palavras ou expressões para ser enfáticos e abusamos de metáforas, hipérboles, sinédoques, catacreses e outros recursos estilísticos. Mas quando fazemos o caminho de volta, isto é, realizamos uma leitura literal do que foi dito, acabamos nos surpreendendo.

Quando, por exemplo, queremos aludir à desmesurada concentração populacional de uma megalópole como São Paulo, dizemos que essa cidade é um verdadeiro formigueiro humano. Ora, precisamente nessa frase o formigueiro não é “verdadeiro”, mas apenas uma metáfora. Não é curioso que se enfatize (até mesmo acentuando a entonação) o mais denotativo de todos vocábulos num contexto em que ele é totalmente conotativo?

E quando aquele conhecido a quem você deve inúmeros favores pergunta se você não poderia lhe emprestar algum dinheiro? É possível que você responda, por exemplo, “lógico!” ou “naturalmente!”. Mas o que há de lógico ou natural em fazer algo que não queremos? Na verdade, nada.

Prestar favores não é um instinto natural, é uma norma cultural. A lógica que há nisso – se é que há alguma – é que a manutenção dos liames sociais se baseia em grande parte na reciprocidade. Como nosso instinto animal é muito mais competitivo do que solidário, o altruísmo é uma mutação de nossa natureza. Diante de um pedido que não gostaríamos de atender, o lógico e natural é responder “não”.

Mas a língua tem muitos outros aspectos aparentemente contraditórios. Por exemplo, se perguntamos por alguém e recebemos como resposta que ele, “com certeza”, saiu, é porque quem nos responde não tem realmente certeza do paradeiro da pessoa indagada.

E as palavras que denominam as menores frações de tempo? “Momento” vem do latim momentum, “movimento”, e refere-se ao balanço do pêndulo dos relógios. Tanto que a física chama esse movimento pendular de “momento angular”. Cada ida ou vinda do pêndulo é um “momento”.

Ou seja, um “momento” não era, na sua origem, o mesmo que um tempo infinitesimal, mas uma duração suficiente para que algo se movesse de forma perceptível aos olhos. Já “instante” (do latim instans) significa “insistente, que perdura”. Não é paradoxal que o instante seja justamente o intervalo de tempo mais fugaz que existe?

Aquela história de que em português “pois sim” significa “não” e “pois não” significa “sim” já virou até piada. Mas quando comparamos o modo como dizemos as coisas em português com a maneira como as outras línguas expressam os mesmos conceitos, descobrimos fatos interessantes.

Em inglês, por exemplo, “ganhar dinheiro” se diz make money, literalmente “fazer dinheiro”, o que dá a ideia de produção, trabalho, geração de riqueza. Já a nossa expressão “ganhar dinheiro” remete à ideia de presente, prêmio, lucro fácil, pois ganhar é sempre de graça, sem dar nada em troca. Será por isso que os países de língua inglesa são mais ricos e desenvolvidos que os de língua portuguesa?

Uma última: “canhão” em francês é canon. E na França canon significa também “mulher bonita, mulherão” (daquelas de parar o trânsito). Já no Brasil, como se sabe, “canhão” é mulher feia. Pela escolha do termo, parece que ambas matam: uma, de prazer; a outra, de desespero.

A origem da palavra “feriado”

Eis que chega mais um feriadão prolongado, e as pessoas já se preparam para viajar e curtir um pouco a vida fora das grandes cidades, em seus refúgios na praia ou no campo. Mas por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. “Feriado” deriva de “féria”, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações “segunda-feira”, “terça-feira”, etc., em que “feira”, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra “férias” seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de “féria”, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra “féria”, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra “feira” vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, “feira” passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras “teologia” e “ateu”, dentre outras.

Portanto, “feira”, “féria”, “férias”, “feriado”, festa”, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, como o dia de Nossa Senhora Aparecida, comemorado amanhã, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, partiu comemorar o feriado, mas com prudência nas estradas e moderação na comida e bebida, para que a festa não se transforme num dia nefasto. E até a volta!

O que é arte, afinal?

As recentes polêmicas em torno das exposições Queermuseu, promovida pelo Banco Santander em Porto Alegre, e Brasil em Multiplicação, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e patrocinada pelo Banco Itaú, têm colocado em discussão os limites da liberdade de expressão, a legislação e a moral da nossa sociedade, além do problema do (mau) uso do dinheiro público. Sem entrar no mérito dessas questões ou no do embate político-ideológico que subjaz a elas, quero refletir aqui sobre um ponto que me é particularmente caro e sobre o qual já me debrucei algumas vezes, como quando escrevi o livro Anatomia da cultura: uma nova visão sobre ciência, arte, religião, esporte e técnica (Ed. Palas Athena, 2003). Trata-se da pergunta: “O que é arte?”.

Nesta última exposição, o artista Wagner Schwartz jaz nu sobre um tatame na performance intitulada La Bête, em que emula a obra Bicho, de Lygia Clark. O problema que quero discutir aqui não é a presença do nu na arte, existente desde a Pré-História, e sim se uma pessoa, nua ou não, deitada num tatame pode ser considerada uma obra de arte.

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Desde o advento da arte moderna, o limite entre o que é arte e o que não é vem-se tornando cada vez mais fluido, e o conceito de arte vem-se expandindo cada vez mais. Até aí, tudo bem, pois um dos atributos da arte é justamente alargar nossa visão sobre o fenômeno estético, buscando novas possibilidades de expressão e de provocar sensações e sentimentos por meio de estímulos sensoriais. Aliás, “provocar sensações e sentimentos por meio de estímulos sensoriais” é decerto a própria função primeira da arte.

Entretanto, nem tudo o que provoca reações emocionais através dos sentidos pode ser considerado arte, sob o risco de acharmos que tudo é arte. De repente, vejo uma mancha de mofo na parede do sótão, e essa visão provoca em mim, além do desconforto inicial de reconhecer a sujeira e umidade do ambiente (e consequente necessidade de uma boa limpeza ou pintura da parede), uma curiosidade sobre as formas ali estampadas a esmo, por obra da natureza e seus fungos. Lembro-me de quando era criança e ficava horas descobrindo formas familiares – um rosto, um cavalo, uma forma geométrica – nas nuvens do céu; a contemplação daquela proliferação de micro-organismos na parede esquecida de um cômodo idem me traz um momento de prazer contemplativo, logo empanado pela constatação racional de que aquela mancha, mesmo com todo o seu insuspeito lirismo, não deveria estar ali, fosse o ambiente mais arejado e mais frequentemente saneado.

A questão é: tudo o que é belo ou provoca sensações estéticas é arte? Uma mancha na parede, uma nuvem no céu, o rabisco de uma criança, as pegadas de um animal, isso é arte?

Em 1917, o francês Marcel Duchamp expôs um mictório numa instalação chamada La Fontaine (A Fonte) – e, fato pouco comentado pelos historiadores da arte, ele fez isso de pura gozação. No entanto, talvez tenha sido esse o divisor de águas entre a certeza e a dúvida em relação ao que pode ou não ser considerado arte. Afinal, até então, toda obra de arte, mesmo a mais vanguardista, pressupunha algum labor de seu criador, alguma técnica que precisava ser aprendida (daí as escolas de belas-artes, os conservatórios musicais, etc.), além, sobretudo, de algum talento, algo que ou se tem ou não se tem, já que é inato. Contudo, Duchamp lançava o conceito de ready made, um objeto pronto, sem nenhum trabalho do “artista” exceto o de nomeá-lo como obra de arte.

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Tive um professor na faculdade que certa vez foi à Bienal de Arte de São Paulo empurrando um carrinho de bebê. Até então, nada suspeito, afinal, que mal há em um pai levar seu filhinho a uma exposição de arte? Dentro da exposição, esse professor estacionou estrategicamente o carrinho – que obviamente não tinha bebê algum – em meio a outras esculturas e instalações e tirou de dentro uma placa onde se lia “Objeto n.º 24”. Depois escondeu-se atrás de uma pilastra e ficou a observar o comportamento dos passantes. Alguns simplesmente ignoravam o objeto, outros balançavam a cabeça em sinal de reprovação, mas um número não desprezível de pessoas parava, olhava, punha a mão no queixo, coçava a cabeça, rodeava o objeto como um cão diante de uma possível presa e, passado algum tempo, havia certa aglomeração de pessoas em volta do suposto objeto artístico, e algumas, com ar de superioridade intelectual, discursavam sobre os possíveis significados daquela obra, a mensagem a ser passada pelo artista, da alegoria ao nascimento da vida até o dilema transcendental que a sociedade hipercapitalista pós-moderna vive diante do impasse da intransponibilidade das fronteiras do concreto em face da inescapável finitude orgânica da Civilização Ocidental.

Quando Monteiro Lobato lançou no jornal Folha S. Paulo o libelo contra a exposição de Anita Malfatti, sob o título “Paranoia ou Mistificação?”, ainda havia indubitável valor artístico nas exposições, fato reconhecido pelo próprio Lobato, que admitiu o talento de Anita apesar das críticas ao seu trabalho. Entretanto, depois disso surgiram muitas outras formas de “arte”: do compositor que cria suas peças musicais derramando bolinhas de pingue-pongue sobre as cordas do piano (é a chamada “música estocástica”) ao pintor que simplesmente atira aleatoriamente jatos de tinta sobre uma tela ou então deixa que seu cachorro patinhe sobre ela; de John Cage, que em 1952 compôs a música 4’33”, ou seja, quatro minutos e meio de silêncio (desde então, todas as folhas de partitura em branco vendidas em papelarias são, na verdade, reproduções da obra de Cage) ao escultor búlgaro Christo, cuja obra-prima foi embrulhar em plástico seu xará, o Cristo Redentor do Rio de Janeiro.

Há até aquela anedota do pintor abstracionista cujos borrões de tinta estavam sendo muito elogiados em seu vernissage até que ele, constrangido, notou que um dos quadros que faziam mais sucesso estava de cabeça para baixo. Desvirou o quadro e… tomou tremenda vaia, pois agora a obra tinha-se transformado num amontoado de borrões sem significado nenhum!

 

 

A arte pós-moderna tem exemplos mais grotescos do que esses, como o do escultor que expõe cadáveres de animais vitrificados ou o do compositor que acrescenta ruídos de digestão e excreção às suas “músicas”.

A questão é: se qualquer objeto, inclusive os produzidos pela natureza, como pedras e galhos de árvore, pode ser um ready made, se qualquer ruído, humano ou não, pode ser música, então chega-se à conclusão de que tudo, absolutamente tudo, é arte. Só que, quando tudo é arte, nada é arte, afinal só se pode definir algo por oposição ao que ele não é. Só sei que sou brasileiro porque sei que há no mundo argentinos, americanos, japoneses… Se a humanidade não fosse dividida em nações, se falássemos todos a mesma língua e vivêssemos todos sob o mesmo governo, faria algum sentido dizer que sou brasileiro e não argentino?

Por mais que a arte evolua (e tem de evoluir para não se tornar repetição enfadonha, mais do mesmo, como é a música “breganeja” ou os filmes de ação americanos, por exemplo), alguns critérios básicos precisam ser mantidos para que se possa distinguir entre a arte legítima, produto do talento e da técnica, e a mistificação oportunista, que explora a boa-fé das pessoas incautas e dá voz a pseudointelectuais que posam de “mentes privilegiadas”, capazes de depreender significações profundas onde a turba ignara percebe apenas sujeira e ruído. Em outras palavras, por mais que a técnica evolua, inclusive graças à tecnologia moderna, é indispensável a mão do artista; por mais que um dos objetivos da arte seja provocar estranheza, chocar, dar um soco no estômago da sociedade, algum bom gosto, alguma sutileza, alguma marca de talento astucioso precisa estar presente. Por isso, continuo fiel à definição de arte que dei no meu supracitado livro e que agora reformulo, aperfeiçoada (e tremendamente aumentada): arte é um discurso social, materialmente palpável ou não, produzido exclusivamente pelo ser humano, com ou sem o auxílio de instrumentos, usando de um talento não disponível a qualquer pessoa e mediante uma técnica adquirida (autodidaticamente ou não, intuitivamente ou não) que a maioria das pessoas não tem, com finalidade principal ou única de produzir prazer estético, isto é, por meio dos sentidos.

Trocando em miúdos, o que é produto exclusivo da natureza, como pedras, nuvens, manchas de mofo ou rabiscos de um chimpanzé, ainda que exposto numa galeria, não é arte. O que não foi criado para produzir efeito estético como função principal (como um mictório ou um carrinho de bebê) não é arte (ainda que o fabricante de mictórios ou de carrinhos tenha tido alguma preocupação estética no design do produto). O que não foi concebido pela mente humana não é arte. O que não demanda nenhum tipo de técnica ou destreza para ser feito (isto é, o que qualquer um pode fazer) não é arte. O que não demanda talento, ou mais precisamente um elevado grau das inteligências linguística (na literatura), musical (na música), espacial (nas artes plásticas) e corporal-cinestésica (na dança e no teatro), não é arte. O que só causa repulsa ou indiferença, mas nenhum prazer, não é arte.

A performance de Wagner Schwartz no MAM até pode ser tachada de obscena, e daí? Muitas obras de arte em seu tempo também o foram. (Se fere alguma lei ou direito é outra discussão.) O que me preocupa é se tal performance pode ser chamada de arte, pois hoje em dia muitas manifestações, até defecar em público, têm tentado impor-se à sociedade e conquistar seu respeito sob o pretexto de que são formas de arte, de que refletem o direito à liberdade de expressão do pensamento e da criatividade. Ou seja, hoje em dia até bosta é arte.

Viver eternamente: você quer?

Pesquisadores do Vale do Silício, na Califórnia, estudam maneiras de prolongar indefinidamente a vida humana (confira em http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2017/09/troca-de-orgaos-e-restauracao-de-dna-podem-ser-chave-da-longevidade.html). Numa das frentes, eles tentam eliminar os fatores que provocam o envelhecimento e as doenças degenerativas e, com isso, nos manter infinitamente jovens. Como a morte é o desfecho do envelhecimento (nosso organismo é geneticamente programado para degenerar-se progressivamente até parar de funcionar), eliminar tais fatores significa em tese impedir a morte. Ou seja, promover a vida eterna.

Outra frente de pesquisa pretende, por meio da inteligência artificial, “salvar” numa espécie de backup a consciência humana em robôs para depois transplantá-la no cérebro de um clone da pessoa morta. Com isso, o falecido voltaria à vida num novo corpo igual ao que já teve e com todas as suas memórias preservadas, ou seja, com o seu eu original instalado em um cérebro novinho em folha.

Todas essas pesquisas parecem promissoras à primeira vista, afinal um dos grandes sonhos do ser humano é a imortalidade. Tanto que, se lançássemos no ar a pergunta “Quem gostaria de viver para sempre?”, quase todos levantariam a mão. Não é à toa que as religiões que têm mais seguidores são as que prometem a vida eterna após a morte ou então a reencarnação do espírito num novo corpo.

Mas, analisando a fundo essa questão, chego à conclusão de que esses pesquisadores não passam de uns nerds sem nenhuma sensibilidade social ou capacidade de reflexão filosófica. Senão, vejamos.

O planeta está superpovoado, e a população humana segue crescendo (seremos 8 bilhões de habitantes em 2030) a despeito da escassez e do esgotamento dos recursos naturais. No ritmo atual, já é possível prever um futuro próximo sombrio em termos de nossa sobrevivência como espécie. Aumentar a longevidade das pessoas só contribuiria para agravar o problema. Aliás, um dos impasses criados pelo contínuo envelhecimento da população é o colapso da previdência social, problema que já estamos vivenciando no Brasil. Como seria sustentar um contingente tão grande de idosos?

Bem, mas a ideia é que as pessoas possam viver 150, 200 anos sem ficar velhas, certo? Portanto, é de se imaginar que elas começarão a trabalhar aos 20 anos ou antes, como atualmente, e só se aposentarão por volta dos 120, 130 anos. Você topa?

Se você ama o que faz, beleza! Mas, será que a maioria das pessoas gostaria de trabalhar 100 anos para conquistar o direito ao descanso? Mesmo pessoas altamente criativas, como os artistas, acabam sentindo um certo esgotamento da inspiração com o passar dos anos. Será que, se Beethoven estivesse vivo até hoje, suas atuais composições ainda teriam a mesma qualidade? E será que ainda fariam sucesso?

Esse é o segundo ponto: a sociedade evolui não porque as pessoas evoluem, mas porque elas morrem e dão lugar a novas pessoas, com novas ideias. Uma humanidade repleta de indivíduos com mais de 100 anos seria ainda mais conservadora do que já é, e novas ideias teriam muito mais dificuldade de ser adotadas. Por sinal, o conflito de gerações seria muito mais aguerrido do que é hoje, em que pais e filhos com uma diferença de cerca de 30 anos de idade já não se entendem.

Outra coisa: imagine que alguém que nasceu no século XVIII, à época da Inconfidência Mineira, estivesse vivo ainda hoje. Quantas mudanças no mundo essa pessoa teria visto! Ela teria nascido num Brasil colônia, assistido à formação e à queda do império, e a todas as mazelas de nossa vida republicana desde Deodoro até Temer. Será que ela se adaptaria a todas as mudanças por que o mundo passou? Nascer num mundo em que o único meio de transporte terrestre era o cavalo e em que só havia luz de velas e hoje ter de lidar com internet e realidade virtual, quem conseguiria, se hoje, aos trinta e poucos anos de idade, já nos sentimos antiquados e obsoletos diante das novas tecnologias?

Além disso, a maior parte da população humana é pobre ou miserável. Seria agradável viver na penúria por várias décadas a mais? Ou será que, como sempre, só os ricos terão o privilégio da longevidade turbinada?

Outra pergunta que me ocorre: qual teria de ser o tamanho da nossa memória para vivermos tantos séculos? Embora a expectativa de vida venha aumentando ano após ano, e vivamos hoje em média muito mais do que há cem anos, o fato é que estamos programados por nossa própria biologia para viver cerca de 80 a 90 anos. Tanto hoje quanto séculos atrás, raríssimas pessoas romperam essa barreira etária. E aos 80 anos, muitas de nossas memórias já se apagaram. Se pudéssemos viver 300 anos com a mesma capacidade de armazenamento de dados na mente que temos hoje, sequer lembraríamos de quanto tempo já teríamos vivido. Ou seja, de que adianta viver muito e não lembrar da maioria das coisas que vivemos?

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Mas imagine agora que você foi contemplado com a imortalidade. Sim, a imortalidade! Aconteça o que acontecer, você jamais morrerá. Isso parece o sonho de muitos incautos, mas, na realidade, jamais morrer tem mais a ver com pesadelo. O fato é que viver cansa. Mesmo que tivéssemos um corpo eternamente jovem e saudável, após algum tempo, o mundo se tornaria enfadonho em sua mesmice, em sua constante evolução na qual, paradoxalmente, as aparências mudam o tempo todo mas a essência é sempre a mesma. Basta estudar a história para ver que, na novela da humanidade, muda o cenário, mudam os atores, mas o enredo é sempre o mesmo. E é sempre um enredo farsesco e barato, indigno de um Nobel de literatura. Como diria o Leopardo, personagem do romance homônimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, “tudo muda o tempo todo para que, no fundo, nada mude”.

Disse certa vez o poeta mexicano Octavio Paz, “sabermo-nos mortais nos condena à cultura”. Se imortais fôssemos, jamais teríamos construído as pirâmides do Egito ou o Taj Mahal, jamais teríamos escrito livros, pintado telas, conquistado territórios, edificado nações, enviado sondas ao espaço, amado e odiado – numa palavra, jamais teríamos deixado qualquer vestígio de nossa existência, pois para um imortal tudo pode ser adiado indefinidamente, nada é urgente, criar não é urgente, amar não é urgente, viver não é urgente. Eu não estaria aqui escrevendo estas palavras se tivesse a eternidade toda pela frente. Poderia me dedicar a todas as carreiras que quisesse e realizar uma grande obra em cada uma delas, mas não agora, não neste milênio, pra que a pressa? Afinal, a eternidade dá uma preguiça!

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Mas, sobretudo, viver para sempre é impossível porque nada durará para sempre, nem o próprio Universo. Dentro de mais alguns séculos, se continuarmos nesse andar da carruagem, a Terra será um planeta inóspito e inabitável, e por nossa própria culpa. Claro, até lá já teremos desenvolvido tecnologia para nos mudarmos para outro planeta habitável, onde reiniciaremos nossa devastação. Se esse planeta for muito longínquo do nosso atual habitat, não importa: sendo imortais, chegaríamos vivos ao destino após viajar milhões de anos-luz. O que, viajando à velocidade da luz – caso isso fosse possível sem nos desintegrarmos –, representaria uma viagem de alguns milhões de anos. O problema é encontrar o que fazer para passar o tempo durante a travessia!

O fato é que, mais cedo ou mais tarde, teríamos de enfrentar o fim. Em qualquer planeta que estejamos, um dia a estrela que ele orbita se expandirá até engolir tudo à sua volta para ao final explodir como uma supernova e quem sabe virar um enorme buraco negro do qual nada escapa – nem a consciência. Que triste fim teríamos, não?

Por isso, a vida eterna apregoada pelas religiões e agora também pela ciência é um prêmio a que só os tolos anseiam; para mim, jamais poder cerrar os olhos pela última vez é o pior dos castigos. Não sei quando vou morrer, mas a consciência de que isso acontecerá um dia, longe de ser um peso, é para mim um alento.

Tudo na natureza nasce, vive por um tempo e morre – inclusive ela própria. E mamãe natureza sempre tem razão, ela sempre faz tudo certo. Todas as vezes que o homem resolve subverter as leis naturais para satisfazer seus caprichos, ele se dá mal (taí o aquecimento global que não me deixa mentir). Portanto, viver algumas décadas, realizar o melhor que pudermos no tempo que tivermos, deixar um mundo melhor para quem vier depois de nós, esse é o melhor dos mundos – o resto, sonho de tolos e de nerds.

A crase: um problema cognitivo?

Existem dois tipos de pessoas: as que sabem usar a crase e as que não sabem. Questão de educação, dirão muitos. Mas o incrível é que muitas pessoas que não sabem distinguir quando o “a” leva crase ou não (ou, como querem os gramáticos puristas, leva acento grave indicativo de crase) são tão escolarizadas quanto as que sabem. Ora, a questão da crase não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu diria que, com umas poucas aulas de treino e aprendizado, qualquer um pode dominar a regra. No entanto, há pessoas que, por mais que tenham sido ensinadas sobre preposições e artigos, por mais que tenham memorizado regrinhas, como a da substituição da preposição “a” por “para” ou “até”, ou a da substituição da palavra feminina pela masculina correspondente, são simplesmente incapazes de aplicar o sinalzinho gráfico corretamente. Tanto que até um deputado, de nome João Hermann, certa vez sugeriu a abolição por decreto do malsinado acento – o que indica que ele, provavelmente, faz parte da legião dos que se embaraçam com a crase.

Às vezes chego a pensar que a crase é um divisor de águas – e de mentes – entre as pessoas: é como se aquelas que têm facilidade em usar o sinal tivessem um intelecto superior, isto é, fossem dotadas de uma capacidade cognitiva que as demais simplesmente não têm.

O fato é que, por mais que se aprendam regrinhas, elas não dão conta de todos os casos. Em “seguir à risca”, o “a” é craseado porque “à” pode ser substituído por “para a”, “até a”, etc.? Ou porque podemos substituir “à risca” por “ao risco”? Nada disso. Será porque é locução adverbial? Então por que “a sangue frio” não tem crase? Sobretudo, regrinhas como estas funcionam se a pessoa sabe que ali, naquele ponto da frase, existe uma preposição e o que está em jogo é saber se existe também o artigo. Só que muitas pessoas sequer sabem quando há ou não preposição (e por isso dizem “isso é devido o fato…”).

Ora, nada substitui o conhecimento da gramática do idioma, a compreensão do que seja a contração de uma preposição “a” e de um artigo feminino “a” – o que implica saber quando se usa tal preposição e tal artigo. E isso a escola básica sempre ensinou, desde os tempos em que o ensino tinha qualidade no Brasil. E desde aquela época, já havia dois tipos de pessoas: as que acertam e as que erram a crase.

Fica aos neurocientistas o convite para que investiguem o caso.

Jacaré fêmeo e cobra macha

Em 2013, quando eu mantinha um blog no portal da extinta revista Língua Portuguesa, o leitor Jota Paschoal me enviou a seguinte pergunta: “Se o adjetivo segue o gênero do substantivo (menina bonita, rapaz malvado), então é correto dizermos ‘jacaré fêmeo’ e ‘cobra macha’?”. Como outro leitor, Patrick Medeiros, me pede agora para republicar a resposta, aqui vai.

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Como na canção Macha, Fêmeo, de Arnaldo Antunes, os adjetivos “macho” e “fêmeo” admitem flexão de gênero e número. No dicionário Houaiss, “macho” é definido como “relativo ou próprio do sexo masculino”, e “fêmeo” (assim mesmo, no masculino, como costuma ser a entrada de todos os adjetivos no dicionário) define-se como “relativo a fêmea ou a mulher” e também “diz-se de qualquer objeto que se ajusta a outro, que nele penetra (o macho)” e exemplifica com “tomada fêmea” (mas poderíamos ter também “plugue fêmeo”).

A estranheza se dá pela confusão que por vezes se faz entre gênero gramatical e sexo biológico. É o caso do adjetivo “grávido”, que parece incoerente com o fato de que somente fêmeas engravidam. No entanto, nesse caso é possível pensar em machos grávidos (por exemplo, o cavalo-marinho é uma espécie de peixe em que é o macho quem gesta as ovas) ou empregar o termo em sentido metafórico: muitos maridos se dizem grávidos enquanto suas esposas é que esperam o bebê. Há até uma peça teatral em cartaz atualmente com esse título. Grávido também é o nome de uma canção que Gonzaguinha compôs durante a gestação de sua mulher.

Mas voltando à questão levantada pelo amigo Jota Paschoal, por que dizemos “jacaré-fêmea” e “cobra-macho”? Como se sabe, os nomes de alguns animais são substantivos epicenos ou comuns de dois gêneros (embora algumas pessoas erradamente façam o feminino de “jacaré” como “jacaroa”), o que torna necessário lançar mão de um expediente morfológico para distinguir os gêneros. Esse expediente consiste em formar uma palavra composta com os substantivos “macho” e “fêmea”. E aí está a explicação de por que não se diz “jacaré fêmeo” ou “cobra macha”: é que “macho” e “fêmea” neste caso são substantivos e não adjetivos. É por isso também que tais palavras se escrevem com hífen.

Ou seja, “jacaré-fêmea” é a fêmea do jacaré; “cobra-macho” é o macho da cobra, e assim por diante. Entretanto, não está errado dizer “este jacaré é fêmeo” ou “esta cobra é macha”. Só que, dado o conflito entre gênero e sexo acima mencionado, prefere-se dizer “este jacaré é (uma) fêmea” e “esta cobra é (um) macho”. Em outras palavras, prefere-se empregar o substantivo no lugar do adjetivo. Isso se aplica até a “mulher-macho”, como na canção eternizada por Luiz Gonzaga.

No labirinto da linguagem

A linguagem permitiu ao homem a consciência, a memória e a imaginação, mas também deu origem às neuroses

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, dividiu as patologias mentais em dois grupos: as psicoses, de origem orgânica, distorcem o senso de realidade a ponto de levar o paciente a ser classificado como louco; e as neuroses, de natureza emocional, causam transtornos e infelicidade, mas não afetam a percepção da realidade. Segundo Freud, o que causa uma neurose não é o fato em si, mas o modo como o concebemos, a representação mental que fazemos da realidade.

Se a neurose tem a ver com representação simbólica e significação, pode-se dizer que é uma doença decorrente de sermos dotados de linguagem. O que produz o sofrimento emocional é o diálogo interior em que o eu se divide em dois e um deles “envenena” o outro com afirmações e perguntas que geram medo e insegurança.

Objetivamente falando, não há fatos bons ou maus: há fatos. Por isso, alguns, após uma tragédia, caem em desespero; outros “levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima”. Por isso, há pobres e anônimos felizes ao mesmo tempo que celebridades milionárias se afundam no álcool e nas drogas para fugir da realidade. Isso reforça a ideia, surpreendente para muitos, de que não vivemos no mundo real, mas numa realidade virtual criada por nossos próprios símbolos.

Sem dúvida, a linguagem trouxe vantagens ao homem. Afinal, permite a consciência, a memória e a imaginação. E é por isso que produz neuroses: recém-nascidos ou animais não criam as próprias neuroses, podem no máximo ser induzidos a elas.

Um animal confinado ou privado de sono pode desenvolver comportamentos neuróticos (automutilação, atos repetitivos, etc.), mas só o homem é capaz de sentir medo dos próprios pensamentos. Isso não quer dizer que animais não pensem. Eles fazem representações mentais, planejam, sonham, imaginam… Mas sua atividade psíquica, segundo mostram pesquisas científicas, está focada no aqui e agora. Ante ameaças, antecipam mentalmente ações que ainda não realizaram (atacar, fugir, etc.), tomam decisões (por qual lado ir) e aprendem com a experiência, o que equivale a arquivar informações e esquemas cognitivos no cérebro sob a forma de representações simbólicas. Mas é pouco provável que criem mentalmente situações que não existem – os animais não são bons ficcionistas. Menos provável ainda é que acreditem naquilo que imaginaram, confundindo realidade objetiva com representação simbólica. Pois é isso que faz um neurótico.

Embora estejamos falando de uma patologia, no âmbito da saúde mental o limite entre normalidade e distúrbio não é questão de presença ou ausência de sintomas, mas de gradação. Todo mundo tem momentos de melancolia; o que caracteriza a depressão é a frequência e intensidade desse estado de espírito.

O desenvolvimento da linguagem nos permitiu um salto evolutivo em relação às demais espécies porque tornou possível o “pensamento desconectado”. O termo, criado por neurocientistas, indica a capacidade de concebermos mentalmente situações passadas, futuras ou hipotéticas, por mais fantasiosas ou absurdas que sejam – em resumo, desconectadas da realidade efetiva, do aqui e agora.

É o que nos permite fazer abstrações e aplicar a novas situações um esquema abstrato deduzido de outras situações análogas, anteriormente experimentadas. Esse pensamento é chamado What-If Thought (pensamento “e-se…?”). Diante de uma ocorrência qualquer, somos capazes de formular perguntas e hipóteses do tipo: “O que aconteceria se…?”, “E se eu fizesse isso em vez daquilo?”.

Essa habilidade de visualizar prospectivamente o desenrolar de uma situação é o que nos permite criar de projetos de engenharia a romances policiais. Mas, na neurose, o pensamento desconectado formula cenários um pouco diferentes, algo como: “Será que isso vai acontecer? E se acontecer?”. Combinado a uma baixa autoestima, que leva o indivíduo a crer no pior, esse padrão de pensamento supervaloriza a exceção, num misto de fatalismo e pessimismo.

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Código artificial

Portanto, há uma distância entre as coisas em si e o significado que damos a elas. Até porque as coisas em si não têm significado; a ideia de que algo significa (isto é, representa, substitui) algo só é concebível por uma cabeça pensante. Só seres complexos como nós são capazes de perceber e, a seguir, conceber o mundo (pedras não veem nem ouvem, muito menos criam representações da realidade). Se nossa percepção já é falha, dadas as limitações da biologia, nossas concepções são ainda piores, já que resultam não só do uso de um sistema de símbolos criados por nós mesmos, mas da interferência de nossas experiências e vivências, o que inclui os valores culturais introjetados em nossa formação sem que tenhamos consciência.

Como diria Platão, vivemos no interior de uma caverna e tudo o que vemos são vultos da realidade exterior projetados na parede. A diferença é que, para ele, habitamos o mundo das coisas, mas a Verdade está no mundo das ideias, ao qual só se chega pelo pensamento. Já para a ciência moderna, vivemos no mundo das ideias – isto é, de signos, linguagem –, e a verdade, inatingível em si, está nas coisas. O que gera a neurose, a alucinação, a loucura, é a crença de que os signos são as coisas.

A censura ideológica

Estamos vivendo tempos estranhos e perigosos. Na era da pós-verdade, opiniões valem mais do que fatos, e posições divergentes da ideologia dominante, isto é, ditada por certos grupos de influência, são prontamente criminalizadas. Hoje, a democracia  nos permite pensar e dizer o que quisermos, desde que pensemos e falemos “dentro de certas caixinhas”, a mais famosa das quais atende pelo nome de “politicamente correto”.

Atualmente, a ciência está desacreditada. A opinião arrogante de políticos populistas vale mais do que o parecer de dezenas, centenas de especialistas. Basta ver o modo como Donald Trump trata a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas – que para ele não passam de invenção dos chineses para arruinar a economia americana.

A formatação das ideias é promovida hoje em dia tanto pela esquerda quanto pela direita, e tanto em regimes de força como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte quanto em sociedades supostamente democráticas, como os Estados Unidos e o Brasil.

Discutir temas polêmicos ou delicados, como os que envolvem drogas, aborto, religião, homossexualidade, racismo ou diversidade cultural, longe de ser algo salutar para o convívio social e o aperfeiçoamento democrático, como já foi no passado, tornou-se algo extremamente perigoso: basta ferir a suscetibilidade de algum grupo de pressão – as chamadas “minorias” – para ser colocado na berlinda e exposto à execração pública, além de sofrer consequências mais graves, como demissão, processo judicial, etc.

Não há como negar que o acesso à voz e à visibilidade por parte de grupos que anteriormente não eram sequer levados em conta representou um grande progresso social, assim como a luta por direitos iguais, uma questão indiscutível de justiça, só pode ser digna de aplauso. O problema é quando os papéis se invertem, e o grupo oprimido se torna opressor. Toda vez que se rompe o equilíbrio dos contrários, e um dos lados subjuga o outro, o resultado é violência, seja ela física ou simbólica.

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Terça-feira passada, dia 8, o engenheiro de software americano James Damore acabou demitido do Google por ter publicado em seu blog pessoal um artigo em que justifica a ausência de diversidade de gênero (leia-se “reduzido número de mulheres”) no Vale do Silício por diferenças biológicas entre os dois sexos. Sua publicação foi considerada “uma asneira sexista”, que dissemina “estereótipos de gênero”, dentre outras tantas críticas.

Em seu artigo, Damore afirmou que “as opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte devido a causas biológicas, e essas diferenças podem explicar por que não existe uma representação igual de mulheres (em posições) de liderança”.

Segundo o engenheiro, aptidões naturais levam os homens a ser programadores de informática enquanto as mulheres tendem mais “aos sentimentos e à estética do que às ideias”, o que as levaria a escolher carreiras nas áreas “social e artística”.

A argumentação de Damore, considerada sexista pela imprensa americana, reacendeu a polêmica sobre a existência de uma certa cultura machista no universo da tecnologia, majoritariamente composto por homens. No próprio Google, 69% dos funcionários são homens, proporção que chega a 80% na área tecnológica; no Facebook, 73% dos cargos de chefia eram ocupados por homens em 2016. Na Apple, o percentual chega a 63%.

A questão é que a diversidade de aptidões entre homens e mulheres é objeto de discussão até no meio acadêmico, em que, de um lado, especialistas das ciências biológicas, como neurocientistas, apresentam dados concretos, obtidos em experimentos controlados e com a utilização de alta tecnologia, mostrando as diferenças entre o cérebro masculino e o feminino e suas repercussões na realização das mais diversas atividades, e, de outro, estudiosos das ciências sociais argumentam que a histórica preferência das mulheres por carreiras humanísticas é fruto de condicionamento social e não de pendor genético.

Pelo menos, já está provado cientificamente que homens e mulheres têm habilidades distintas, o que, teoricamente, impactaria na escolha da profissão. Qualquer um sabe que as mulheres são em geral mais habilidosas que os homens na realização de tarefas que exijam coordenação motora fina (além, é claro, de terem mãos mais delicadas), o que faz com que as indústrias prefiram ter mulheres na linha de montagem de equipamentos minúsculos, por exemplo. A mesma ciência demonstra que os homens têm geralmente mais facilidade para lidar mentalmente com sistemas tridimensionais, que envolvam as noções de espaço e profundidade, como a concepção de estruturas arquitetônicas ou a operação de veículos. (Um amigo meu costuma comentar maldosamente que é fácil descobrir num estacionamento quais carros pertencem a mulheres.) Portanto, não se pode excluir por princípio a hipótese de que a aptidão lógica e matemática também esteja ligada a fatores sexuais.

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Todos sabemos que bilhões de anos de evolução biológica moldaram diferentemente os cérebros do homem e da mulher em função das próprias necessidades de sobrevivência da espécie. Foi a tarefa de caçar o que fez no macho desenvolverem-se os músculos, assim como a delicadeza da fêmea era essencial no cuidado da prole. Essa divisão primitiva de tarefas, que partilhamos com muitas outras espécies animais, certamente moldou também nossas capacidades cerebrais.

A ideia de que os homens são mais agressivos, decididos, pragmáticos, lógicos, materialistas, enquanto as mulheres são mais sensíveis, carinhosas, atenciosas, delicadas, místicas, é, sem dúvida, um estereótipo. Mas os estereótipos, assim como os preconceitos, nascem da observação de certas tendências que se repetem. Dito de outro modo, todo estereótipo tem um fundo de verdade. O erro está na generalização. Há homens sensíveis e mulheres com instinto de liderança. Há decoradores e engenheiras, bailarinos e jogadoras de futebol. Mas que há um predomínio masculino nas profissões “tecnológicas”, assim como uma maior presença feminina em áreas como Letras, Pedagogia, Psicologia e Fonoaudiologia, é um fato inegável. Se é produto de nossa biologia ou de nossa cultura patriarcal, trata-se de um ponto ainda em aberto, mas as pesquisas nesse campo avançam sem parar, e em breve deveremos ter uma resposta definitiva.

De todo modo, defender qualquer das duas correntes é legítimo, já que a própria ciência ainda não bateu o martelo. O problema é que, nos dias de hoje, a ciência, mesmo com seu método lógico, sistemático e abundantemente provido de evidências concretas, nada pode contra a ideologia, essa tapa que se tenta pôr nos olhos das pessoas para que vejam apenas a parte da realidade que interessa a certos grupos que elas vejam. Pouco importa que as geleiras estejam derretendo, o nível dos oceanos subindo e ilhas paradisíacas já estejam desaparecendo do mapa; tudo não passa de invenção dos chineses!

As razões da desigualdade entre ricos e pobres, entre a Europa e a África, entre homens e mulheres, entre gays e héteros, nada disso pode ser livre e democraticamente discutido, mesmo que à luz da ciência, quando o debate é sombreado pelo medo da represália, pela censura ideológica, pela ameaça da excomunhão moral, versão moderna da Inquisição. Não importa quantas evidências você tenha em favor de um argumento; se ele consta no index das opiniões não autorizadas pela patrulha do politicamente correto, é melhor calar-se para preservar sua paz de espírito – e seu pescoço!

Afinal, qual é o nome correto da rua da cracolândia?

As recentes ações da Prefeitura de São Paulo na famigerada cracolândia da Rua Helvetia colocaram essa antes pacata via do centro da cidade no noticiário e, de quebra, suscitaram a questão: afinal, como é que se pronuncia “Helvetia”?

Antes de mais nada, vamos esclarecer o que vem a ser a tal Helvetia, que dá nome à rua. O nome Helvetia vem do latim (em português é “Helvécia”) e designa uma região do antigo Império Romano que corresponde aproximadamente à parte ocidental da atual Suíça. Por essa razão mesma, essa república europeia tem como nome oficial “Confederação Helvética”.

A Helvetia ou Helvécia, situada na região entre os Alpes suíços e a cordilheira do Jura era assim chamada por ser habitada pela tribo celta dos helvécios (Helvetii). Até aproximadamente o século I d.C., esse nome se pronunciava em latim exatamente como se escrevia. No entanto, como as línguas evoluem, aos poucos o t seguido de i semivocálico começou a ser pronunciado pelos romanos como “ts”, e o nome Helvetia passou a soar “Helvétsia”, pronúncia que ainda se mantém no italiano hoje em dia. Como todo ti latino com som de “tsi” é grafado e pronunciado em português como “ci”, Helvetia acabou aportuguesado para “Helvécia”. De todo modo, é costume nos países de língua portuguesa pronunciar o ti dos nomes latinos como “ci” mesmo quando a grafia é mantida em latim.

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Portanto, a Rua Helvetia deve ser chamada de “Helvécia”, mesmo a grafia estando em latim. O problema é que os próprios moradores da rua, especialmente os mais jovens – aí incluídos os frequentadores da cracolândia – desconhecem a origem latina do nome (temo que desconheçam até o seu significado) e o pronunciam conforme o leem na placa de rua. Para complicar, a própria placa traz a incorreta grafia “Helvétia”, com um acento agudo que jamais existiu em latim. Talvez fosse uma boa providência que a Prefeitura alterasse a grafia das placas para o aportuguesado “Helvécia”: isso romperia com uma tradição secular, já que essa denominação remonta a princípios do século passado e a Achilles Isella, empresário suíço que ali tinha seu estabelecimento comercial chamado Casa Helvetia, mas, sem dúvida, facilitaria a pronúncia pelas pessoas que desconhecem latim e a história da rua.

É claro que mais urgente do que mexer nas placas é mexer na cracolândia, tarefa que desafia prefeito após prefeito.

Ética e moral são a mesma coisa?

Nesta semana, respondo à pergunta de um assíduo leitor desta coluna. Edilson Zafira de Sousa, de São Paulo, questiona:

Qual é a etimologia de ética e de moral? São sinônimas?

“A ética está ligada à filosofia. A moral está ligada à religião.” Está correta essa definição?

Embora no linguajar corrente ambos os termos sejam utilizados como sinônimos – e a razão disso explico mais abaixo –, eles têm diferentes significados. “Moral” deriva do latim mores, “usos, costumes”, e corresponde ao conjunto das práticas toleradas e mesmo recomendadas por uma sociedade a seus membros – os chamados “bons costumes”. Portanto, moral é algo aceito como normal pela coletividade, seja um povo inteiro ou uma comunidade restrita (as Forças Armadas, a Igreja Católica, um determinado colégio).

A moral é fruto de uma convenção social e, por isso mesmo, muda com o passar do tempo e de uma sociedade para outra. Muitas práticas comuns hoje em dia, como usar biquíni na praia, já foram noutros tempos consideradas imorais. O topless ainda é visto como atentado ao pudor pela maioria dos brasileiros, mas em lugares como Ibiza (Espanha) e Saint-Tropez (França) é prática normal e corrente.

Como se pode ver, a moral é relativa e está intimamente ligada à cultura, embora, para os membros da comunidade que a adotam, tenha valor de verdade indiscutível.

A ética, por outro lado, é a especulação filosófica a respeito da moral e dos costumes. Derivada do grego éthos, “modo, jeito de ser, costume”, a ética busca valores universais, como o bem comum. Para Sócrates, o segredo do bem viver é viver com sabedoria, algo que só se atinge pelo autoconhecimento. Já Aristóteles, em sua Ética a Nicômano, afirma que somos o produto de nossas escolhas. Cada um tem a liberdade de fazer o que quiser, mas, se todos fizerem isso, a convivência social se torna impossível. Portanto, a reflexão filosófica visa responder à pergunta: o que posso ou não posso, devo ou não devo fazer se quiser viver em paz comigo mesmo e com os outros? A resposta parece ser a chamada Regra de Prata: “não faça aos outros o que não quer que os outros lhe façam”. E que pode ser complementada pela Regra de Ouro, ensinada por Jesus: “faça aos outros o que quer que os outros lhe façam”. Ou, simplesmente, “amai-vos uns aos outros”. Sendo uma reflexão filosófica, guiada pois pela razão, a ética pode até mesmo confrontar regras morais vigentes por considerá-las ultrapassadas ou injustas. A ética reflete sobre o bem comum, o bem da coletividade, ao passo que a moral disciplina o comportamento individual.

Mas, se, na teoria, ética e moral são coisas diferentes (a ética seria o estudo filosófico da moral), na prática elas se confundem, pois é comum usarmos o nome de uma ciência para designar o próprio objeto dessa ciência. É assim que “economia” é tanto o conjunto dos bens e recursos de uma sociedade quanto a ciência que estuda a circulação desses bens e recursos; “história” é tanto o conjunto dos fatos passados de uma sociedade quanto a disciplina que estuda esses fatos.

Portanto, é possível falar em moral católica ou em ética empresarial como códigos de conduta a ser seguidos. Na verdade, a sociedade ocidental, que por séculos viveu dominada pela ideologia religiosa, ainda atrela, mesmo que inconscientemente, a moral secular aos preceitos do Cristianismo, por sua vez herdados do Judaísmo. É nesse sentido que muitos setores da nossa sociedade veem como imoralidade a nudez em público ou o homossexualismo.

É preciso lembrar, no entanto, que nem tudo que é ético é estritamente moral, assim como nem tudo o que é legal é moral ou ético. Furar fila não é ilegal, mas não é moral, pois contraria os ensinamentos que todos deveríamos trazer do berço, nem tampouco é ético, já que ninguém gosta de ter seu direito violado. Mentir é geralmente visto como atitude reprovável, logo imoral, mas, e se mentimos para salvar uma vida? Não seria algo perfeitamente ético e mesmo louvável?

Portanto, ética e moral não têm necessariamente a ver com fé religiosa, embora na maioria das sociedades ainda seja a religião a principal referência do bom comportamento. Sobretudo a ética busca o justo, o que garanta a harmonia social.

Nesses nossos tempos em que a ética parece andar tão distante da política, em que basta que um gesto não seja ilegal para que seja considerado moral, recordar o significado dessas duas palavras pode ser de algum proveito.

A distância entre língua e dialeto

Uma das distinções mais nebulosas da linguística continua criando polêmica entre os curiosos

O Brasil, frequentemente se diz, é um país de sorte porque, apesar das dimensões continentais, aqui não há dialetos – todos falamos a mesma língua. Também é comum ouvir que as línguas europeias têm muitos dialetos ou que na África as línguas oficiais (dos colonizadores) convivem com dialetos nativos. O que é, então, língua e dialeto?

Para o linguista Max Weinreich, “língua é um dialeto com um exército e uma marinha”. Não está longe da verdade. Afinal, a tradicional distinção entre língua e dialeto está fundada em critérios mais políticos do que linguísticos.

Língua é um sistema de comunicação formado de sons vocais (fonemas), que se agrupam para formar unidades dotadas de significado (morfemas), que se agrupam para formar palavras, que se agrupam (ih, ficou monótono!) para formar frases, que se agrupam para formar textos.

Do ponto de vista estritamente linguístico não há nada que distinga língua de dialeto. Ambos os sistemas têm léxico (um inventário de palavras) e gramática (conjunto de regras de como as palavras se combinam para formar frases, parágrafos e textos). Quem fala um idioma nacional e um dialeto regional é tão bilíngue quanto quem fala dois idiomas. Então por que alguns sistemas são chamados de idiomas e outros, não?

Dialeto vem do grego diálektos, composto de diá, “através”, e léktos, “fala”. Seria, segundo alguns, uma espécie de fala “atravessada”, um linguajar defeituoso, não conforme às normas do falar estabelecidas pelos gramáticos. A primeira definição de dialeto (que, por sinal, teria inspirado as posteriores) baseava-se numa visão preconceituosa que a elite ateniense do período clássico tinha em relação à fala tanto das camadas populares quanto dos estrangeiros (não-atenienses, inclusive gregos de cidades vizinhas).

Hoje, costuma-se chamar de dialeto qualquer expressão linguística que não seja reconhecida como língua oficial de um país. Assim, um dialeto pode ser tanto uma variedade linguística regional do idioma oficial quanto uma língua sem qualquer parentesco com ele.

O occitano (ou provençal) e o bretão, falados na França, são tidos como dialetos. O primeiro é uma língua românica aparentada ao francês, que já produziu uma esplêndida literatura séculos atrás. Já o bretão é uma língua pertencente à família celta, sem parentesco direto com o francês. Hoje, ambas são usadas, em escala regional e paralelamente ao francês, na conversação diária e na comunicação de massa.

Em geral, o que faz uma língua ser considerada dialeto e não idioma é a ausência de literatura ou de tradição literária, o seu não reconhecimento pelo Estado ou mesmo a sua falta de prestígio. Alguns dialetos reúnem essas três condições, mas basta que uma esteja presente para que um falar regional veja irem por água abaixo suas aspirações de ser língua.

Em relação à presença de literatura, é preciso lembrar que algumas línguas ágrafas, como as nativas da África e da América, têm rica literatura oral, transmitida por gerações em séculos. Mas, para as línguas europeias, ciosas de sua tradição escrita, elas não possuem literatura simplesmente por não produzirem livros.

Critérios

O reconhecimento de uma variedade linguística como língua é uma questão meramente política. O catalão foi reconhecido pela Espanha como língua oficial, ao lado do castelhano, galego e basco, depois de ter sido violentamente reprimido pela ditadura franquista. Em Barcelona, é possível comprar edições bilíngues de diários como El Periódico de Catalunya, em catalão e espanhol, cem páginas cada. Sua língua-irmã, o occitano, não é reconhecida pelo governo francês, que teme uma onda de separatismo, já que o reconhecimento de uma língua é o primeiro passo para a afirmação de nacionalidade.

A questão mais delicada é a que diz respeito ao “prestígio” de uma variedade. Alguns falares, mesmo próximos da língua-padrão, são estigmatizados por motivos históricos ou sociais. No Brasil, que busca lugar no olimpo do Primeiro Mundo, tudo o que lembre o passado rural é alvo de desprezo. Daí o preconceito contra o dialeto caipira e o nordestino, eleitos como ícones do atraso cultural.

Na tentativa de estabelecer uma distinção entre língua e dialeto que não se apoiasse em fatores políticos ou sociológicos, alguns buscaram critérios relacionados aos aspectos comunicacionais. O linguista romeno Eugenio Coseriu propôs o chamado critério da intercompreensão, segundo o qual dois falares podem ser considerados dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes.

Esse critério não é muito bom, porque se apoia num dado subjetivo: o grau de intercompreensão entre falantes. Falantes do português e do espanhol podem entender-se relativamente, portanto seriam dialetos, segundo Coseriu. Já o português e o francês seriam línguas distintas, de acordo com o mesmo critério. Mas e o italiano em relação ao português?

Irmãos separados

Como os falares vão diferindo pouco a pouco à medida que nos deslocamos num dado território, é natural que a comunicação entre moradores de duas aldeias vizinhas seja total, ao passo que o diálogo entre habitantes de cidades distantes milhares de quilômetros é quase impossível.

Além disso, esse critério era válido enquanto a escolarização e os meios de comunicação não uniformizaram a linguagem nos territórios nacionais. Na Idade Média, quem viajasse de Paris a Florença percebia a lenta mudança que os falares sofriam no caminho, sem ruptura ou descontinuidade. Hoje, o francês de Paris e o italiano de Florença, idiomas oficiais da França e da Itália, convivem na fronteira entre esses dois países.

Estima-se que nos próximos cem anos 90% das línguas desaparecerão, a maioria por não ter o status de idiomas nacionais, sendo em muitos casos línguas ágrafas, de comunidades tribais. A causa dessa extinção em massa de línguas é a pressão dos idiomas de cultura, seja o idioma nacional do país, seja o inglês como língua global. Nas comunidades tribais da África e da América, o imperialismo linguístico-cultural branco tem mais um forte aliado: os pregadores religiosos de seitas cristãs fundamentalistas, que combatem não só as crenças mas também as línguas dos nativos como “coisa do diabo”. Ou seja, hoje em dia língua também é um dialeto com um missionário.

Palavra da semana: raivosidade

Na semana que passou, a língua portuguesa viu surgir uma nova palavra. É que, quarta-feira passada, o presidente Michel Temer disse em discurso que é preciso pacificar o país, já que os brasileiros vivem ultimamente um clima de certa “raivosidade”. Com certeza, o Presidente estava referindo-se à atmosfera de raiva (eu diria melhor, de ódio) que divide o nosso povo em petistas e antipetistas. E pediu licença para empregar o termo, já que ele próprio deve ter a consciência de que esse vocábulo não está dicionarizado.

Até aí, nenhum problema. Afinal, usamos todos os dias palavras que ainda não chegaram ao “estado de dicionário”, como diria Drummond. O problema é que parte da imprensa, fazendo coro aos defensores do purismo em questões de língua, se insurgiu contra o inusitado neologismo. Muitos disseram categoricamente que essa palavra não existe. Para estes, uma palavra só existe quando consta nos dicionários, esquecendo-se de que o dicionário é uma fotografia do passado: a língua do dia a dia, tanto a oral quanto a escrita, está sempre inovando, e somente algum tempo depois que o uso de determinado termo se generaliza é que os dicionários vão lavrar sua certidão de nascimento. Logo, dicionários e gramáticas são sempre mais conservadores que a língua viva.

Se fôssemos obrigados a utilizar somente as palavras de que já dispomos, a língua não evoluiria. Consequentemente, o léxico da língua portuguesa ainda seria o mesmo do século XII, época dos primeiros registros escritos da última flor do Lácio, inculta e bela.

Foram até veiculadas na imprensa sugestões de como o Presidente deveria ter-se expressado. Um professor de português assinalou que Temer poderia ter simplesmente empregado “raiva” em lugar de “raivosidade”, visto que esta última forma é um substantivo abstrato que indica qualidade de raivoso; e que raivoso é aquele que sente raiva. Portanto, raiva e raivosidade seriam sinônimos; logo, por que inventar uma palavra se já temos outra de mesmo significado?

Outro professor de português (é interessante como certos professores de português se sentem os guardiões da pureza do vernáculo) argumentou que existe na língua a palavra “nervosidade” e que, portanto, o Presidente poderia ter optado por falar em combater a nervosidade que divide o povo brasileiro.

Quanto a “nervosidade”, além de ser palavra de raríssimo uso, desconhecida pois da maioria dos falantes (talvez não do Sr. Michel Temer, homem de alta e vasta cultura), é substantivo abstrato que designa o estado de quem é ou está nervoso. Seria, então, equivalente ao bem mais difundido “nervosismo”.

Só que o sentimento que permeia os cidadãos envolvidos nesse Fla-Flu político não é de nervoso, é de raiva mesmo, de ódio sanguinolento. Partidários e detratores do PT e demais partidos de esquerda estão verdadeiramente raivosos uns com os outros. Raivosos não de raiva, sentimento humano de desapreço menos intenso que o ódio, mas da raiva canina, que faz espumar a boca ao ouvir ou ler qualquer referência ao inimigo.

Nesse sentido, “raivosidade” tem conotações que nem “raiva” nem “nervosidade” ou “nervosismo” expressam. Do contrário, por que nosso Presidente, erudito que é, faria uso de um termo heterodoxo se, supostamente, dispunha de vários outros já canônicos?

Aí está uma das grandes qualidades da língua, o poder de se reinventar, isto é, de criar novos recursos na medida da necessidade de expressar novas ideias, novos sentimentos, novos insights. Assim se deu com o “imexível” do então ministro do governo Collor, Antônio Rogério Magri, que é diferente do “inalterável”, “insubstituível”, “inamovível”, etc., dos dicionários. Assim se deu com o “indeletável” de José Alencar, vice-presidente do primeiro mandato de Lula, que é totalmente distinto do dicionarizado “indelével”. Assim se deu com o “inconvivível” de Fernando Henrique. Assim se deu e se dá com todas as novas palavras, às quais os puristas torcem o nariz, mas que, mais cedo ou mais tarde, acabam usando.

E por que essas palavras “bárbaras”, “ameaçadoras da integridade do idioma”, acabam se consolidando no uso cotidiano, inclusive no uso culto da língua? É justamente porque elas exprimem conceitos e nuances semânticas que nenhuma palavra já registrada consegue exprimir. É porque elas representam o frescor da língua, o doce perfume da manhã contra o cheiro de mofo das velhas e batidas expressões. É, finalmente, porque a língua muda o tempo todo, ainda que sob os protestos de certos professores de português, jornalistas e leitores conservadores. E é por mudar o tempo todo que a língua continua sendo o melhor sistema de comunicação de que dispomos.