As enganosas palavras do grego moderno

O grego moderno é bem diferente do antigo, mas muitas palavras continuam as mesmas. Por isso, é comum reconhecermos em manchetes de jornais gregos (isto é, supondo que saibamos transliterar do alfabeto helênico para o nosso, latino) palavras que já conhecemos. O problema é que essas palavras em geral têm significado diferente daquele a que estamos habituados. Por exemplo, Demokratía Hellás, que é o nome oficial do Estado grego, não significa “Democracia Grega”, mas “República Grega”. Em frente ao Parlamento, em Atenas, há uma praça que ficou famosa pelas manifestações contra o pacote de ajuste fiscal imposto pela União Europeia para salvar a Grécia da falência em 2015. É a Praça Sýntagma, ou Praça da Constituição. Só que para nós sintagma é uma figura de gramática. Aliás, a metáfora, outra figura presente em nossas gramáticas, aparece com frequência em caminhões-baú na Grécia. É que metaphorá quer dizer mudança.

Voltando a falar naquela crise financeira grega, quando o FMI e a União Europeia aprovaram o empréstimo bilionário ao governo grego, os partidos políticos tiveram de selar um acordo para a aprovação de duras medidas de austeridade. No dia seguinte, os jornais gregos estamparam a manchete “Acordo!”, que em grego é Symphonía!.

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Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será?

Uma pesquisa recentemente publicada na revista científica PLOS One revela que pessoas que se sentem incomodadas com os erros gramaticais alheios e, mais ainda, tendem a corrigi-los, têm personalidade menos agradável e mais julgadora – ou seja, são chatas!

O estudo mostrou também que a personalidade pode determinar como ela reage aos erros de gramática dos outros, inclusive àqueles que pululam nas redes sociais.

Julie Boland e Robin Queen, ambas da Universidade de Michigan, fizeram experimentos com 83 participantes para saber como se comportavam diante de e-mails escritos. Algumas dessas mensagens propositalmente continham erros de digitação ou de gramática.

Os participantes deveriam julgar os autores dos e-mails do ponto de vista de sua suposta inteligência – ou falta dela. Além disso, tinham de comentar os erros das mensagens e dizer se causaram incômodo durante a leitura.

Por fim, foram submetidos a um teste de personalidade que mede traços como simpatia, grau de extroversão e até mesmo neuroticidade.

A maioria dos participantes classificou de modo mais negativo os autores de e-mails com erros. E os mais introvertidos foram mais severos em relação a tais erros do que as pessoas mais abertas e extrovertidas.

Em linhas gerais, a pesquisa conclui que as pessoas mais “fechadas” são mais sensíveis a erros, sejam de digitação ou gramaticais, e que as mais rigorosas em relação à gramática são também as mais desagradáveis no trato social.

Bem, se esse estudo estiver correto, eu devo ser um chato de galochas, afinal sou muito rigoroso com erros de escrita em geral, ou porque revelam falta de cuidado e esmero (no caso dos erros de digitação) ou falta de cultura (no caso dos erros gramaticais). Não que eu saia por aí corrigindo meus interlocutores, pois isso seria falta de educação: quem fala ou escreve errado (isto é, fora do padrão culto) o faz certamente porque não teve oportunidade de estudar. Mas o fato é que fui por um bom tempo professor de português, e, como vocês sabem, o hábito do cachimbo deixa a boca torta. Mais do que isso, como amante das letras e das línguas, fico incomodado não tanto pelos erros em si quanto pela quantidade deles. Se o modo como as pessoas escrevem a própria língua é um termômetro da saúde cultural de um povo, posso afirmar sem erro que o Brasil está na UTI.

A origem da palavra “trabalho”

Hoje, Dia do Trabalho, o assunto não podia ser outro se não ele mesmo, o trabalho – ou melhor, a palavra trabalho. Se hoje se acredita que o trabalho dignifica o homem (isto é, o ser humano, o que inclui evidentemente as mulheres), a origem da palavra não é tão digna assim. Afinal, durante muito tempo, a ideia de trabalho esteve ligada às classes mais baixas da sociedade, ou seja, escravos, servos e operários. Tanto que trabalho se origina do latim tardio tripalium, um instrumento de tortura formado de três estacas de madeira cruzadas (tripalium quer dizer literalmente “três paus”), em que os escravos eram amarrados para ser açoitados.

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Tripalium romano, em que os escravos eram torturados

Essa palavra latina também passou a outras línguas românicas como o espanhol trabajo, o catalão treball e o francês travail, sempre com o sentido de “trabalho”. Do francês, passou ao inglês travel, “viajar”, pois, segundo consta, as estradas inglesas na Idade Média eram tão ruins que viajar por elas era um verdadeiro suplício.

Menos estigmatizada que trabalho era a palavra lavor, do latim labor, tanto que os intelectuais não se referiam à sua atividade como um trabalho e sim como um lavor do espírito.

Labor e seu derivado laborare deram em português, além de lavor, o verbo lavrar (isto é, trabalhar a terra para semeá-la) e, deste, os substantivos lavra e lavrador, assim como lavoura (do latim laboria, derivado de labor). “Trabalho” em italiano é até hoje lavoro, derivado de lavorare, do latim laborare. Esse verbo também aparece em termos cultos como elaborar e colaborar, designativos de ações que implicam a ideia de trabalho: elaborar é criar do nada, e colaborar é trabalhar juntos.

O adjetivo “trabalhista” em espanhol é laboral e o partido trabalhista inglês é o Labour Party.

Mas também em outros idiomas a palavra para “trabalho” remete às classes baixas. Por exemplo, o alemão Arbeit provém de uma raiz indo-europeia *orbh, que significava “órfão” (por sinal, o português órfão vem do grego orphanós, que descende dessa raiz indo-europeia). Mas o que tem o órfão a ver com trabalho? É que, na Antiguidade e Idade Média, as crianças órfãs eram recolhidas pelas famílias na condição de serviçais, ou seja, não tinham os direitos que tem hoje uma criança adotada; os órfãos eram meros prestadores de serviços, em troca dos quais recebiam casa e comida, mas não tinham direito a herança. (E aqui vai mais uma curiosidade: a palavra alemã para “herdeiro” é Erbe, que também procede da raiz indo-europeia *orbh. É que o herdeiro só tinha acesso aos bens dos pais quando estes morressem, ou seja, quando se tornasse órfão.

Mas vou parando por aqui porque este texto está me dando trabalho, e hoje, Dia do Trabalho, é dia de descanso. Até a próxima!

Os coletes amarelos, o Museu Nacional e os milionários

Neste último fim de semana, os chamados “coletes amarelos”, manifestantes contra o governo francês conhecidos pelos coletes usados em suas manifestações, voltaram às ruas de Paris, desta vez não para protestar contra o preço dos combustíveis e sim contra o fato de inúmeros magnatas – inclusive a filantropa e socialite brasileira Lily Safra – estarem doando vultosas quantias ao fundo de reconstrução da catedral de Notre-Dame em vez de usarem seu dinheiro para combater a fome no mundo, especialmente na África.

Esse protesto segue, à primeira vista, uma lógica bem-intencionada e humanitária, portanto digna de louvor, ao mesmo tempo em que exporia o egoísmo e a indiferença dos milionários, mais preocupados com edifícios históricos do que com pessoas. No entanto, um exame mais profundo da questão revela que, por trás desses protestos, há um misto de idealismo romântico e falta de uma melhor compreensão da nossa realidade mundial.

Imagine que você disponha de 88 milhões de reais, quantia doada a Notre-Dame pela Senhora Lily, e deseje acabar com a fome na África. O que você faria? Procuraria o presidente de algum país africano para oferecer-lhe a generosa doação? E quem você encontraria? Provavelmente, um ditador com uniforme militar e o peito cheio de medalhas, que está há décadas no poder vivendo uma vida de luxo enquanto seu povo passa fome. Você entregaria seu dinheiro a esse indivíduo?

Mas, vamos supor que, em vez disso, você crie uma organização encarregada de distribuir os recursos diretamente à população. Você poderia fazer duas coisas: entregar às pessoas carentes sua ajuda em forma de alimentos ou entregá-la em dinheiro para que as próprias pessoas comprassem seus alimentos. Isso acabaria com a fome e a miséria na África? A meu ver, certamente não. O que mais provavelmente aconteceria é que, uma vez gastos todos os recursos, o povo voltaria a passar fome. Na verdade, é isso que vem acontecendo há décadas com as doações feitas por países ricos aos países pobres, notadamente da África e da América Latina: ou caem nas mãos de tiranos corruptos, que gastam o dinheiro com luxo e ostentação pessoal, jamais em benefício de seu povo, ou são gastos em ações assistencialistas que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

O fato é que a África, especialmente a subsaariana, é pobre há milênios, jamais tendo assistido ao surgimento de alguma civilização. A maior parte da população africana não tem uma ideia clara do que seja o Estado, mais acostumados que estão com a noção de tribo. Por isso mesmo, os Estados africanos, em grande parte desenhados pelos colonizadores europeus, têm servido apenas para legitimar governos ditatoriais e corruptos. Com um quadro desses, a doação de dinheiro não é um investimento no futuro dessas populações, é simplesmente um gasto a fundo perdido. E os magnatas, assim como os líderes dos países ricos, sabem disso.

Outro argumento ingênuo é o daqueles que reclamam que os milionários, dentre os quais uma brasileira, estão colaborando com a restauração da catedral parisiense mas não com a do nosso Museu Nacional, consumido pelas chamas em setembro passado.

Mais uma vez, eu lhe pergunto: você teria confiança em entregar 88 milhões de reais nas mãos dos burocratas do Ministério da Educação? Nas mãos do reitor da UFRJ? Nas mãos do diretor do Museu Nacional? Nas mãos do governo brasileiro?

Que garantia você teria de que o seu dinheiro, uma vez entregue ao governo ou à Universidade curadora do Museu, seria realmente aplicado na reconstrução desse patrimônio? E como você, milionário capitalista, espera ser recebido e tratado por burocratas de esquerda, como o são os dirigentes da Universidade e do Museu, que declaradamente têm ódio e desprezo por capitalistas?

É por essas e por outras, que nosso Museu, assim como o povo da África, vai continuar por um bom tempo passando o chapéu – inutilmente.

A origem do nome da Páscoa

Estamos na Semana Santa (por sinal, uma semana particularmente triste para os franceses e os amantes da civilização, dado o incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris), e, assim, achei oportuno falar um pouco sobre a origem da palavra Páscoa. Esse termo nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a “estrela d’alva” ou “estrela da manhã”).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Feliz Páscoa a todos!

Ainda sobre o aportuguesamento de palavras

Na semana passada, tratei aqui neste blog (ou blogue) do aportuguesamento da palavra inglesa tweet, que resultou no substantivo tuíte e no verbo tuitar. É bem verdade que o verbo inglês to google, “pesquisar no Google”, que deu googlar em português, ainda não se transformou em guglar, mas isso pode acontecer a qualquer momento. Meu leitor Patrick menciona já ter visto short e funk grafados como xorte e funque (e, neste último caso, suponho que a pronúncia seja de fato funque e não fanque). Isso me faz ressuscitar duas postagens do tempo em que eu tinha um blog (ou blogue) no site (ou saite) da extinta revista Língua, os quais passo a reproduzir abaixo.

Os blogues da internete

Até 1943, o português tinha uma ortografia de base etimológica (pharmacia, physica, etc.). Isso incluía não só palavras de origem grega ou latina, mas também estrangeirismos como abat-jour, kimono, football, club, etc. (até hoje alguns times têm Football Club no nome).

Com a reforma ortográfica daquele ano, que substituiu o critério puramente etimológico por um misto (predominantemente fonológico, com resquícios de etimologia), passou-se a adaptar à nova grafia muitas palavras estrangeiras, inclusive nomes próprios. Com isso, Garibaldi, no Rio Grande do Sul, virou Garibáldi, Mayrinck e Brodowsky, em São Paulo, tornaram-se Mairinque e Brodósqui, e assim por diante. Na contramão disso, como que para dar um certo charme, Bahia manteve o h, Joinville os dois ll, e Paraty o y. Nem mesmo nomes de personagens históricos foram poupados: Ruy Barbosa hoje é Rui Barbosa, Gregorio de Mattos atualmente se assina Gregório de Matos, e por aí vai. (Nada semelhante ocorre em outras línguas: Shakespeare não virou Shakespear, Debussy não se tornou Debussi nem Goethe hoje é Göte; a prosseguir essa tendência, daqui a um século serei Bizóqui.)

Atualmente, termos recentes vindos da linguagem da informática também estão passando por esse processo. Por isso, já se lê aqui e ali blogue em lugar de blog e – pasmem – internete em lugar de internet.

Diante da permanente importação de palavras estrangeiras, fenômeno corrente em todas as épocas, mas ainda mais em tempos de globalização, as línguas costumam adotar certos critérios sobre o que fazer com a palavra recém-chegada. Idiomas como o francês e o inglês, de ortografia radicalmente etimológica, simplesmente adotam essas palavras tal qual se escrevem na língua de origem. Idiomas que tendem a adaptar a grafia em geral pesam os prós e os contras dessa adaptação. Por isso, mesmo nessas línguas há uma grande quantidade de palavras que mantêm a grafia original, seja porque se manteve a fonética original, seja por conveniência do uso, inclusive do uso internacional.

Por essa razão, o italiano grafa Paraguay e Uruguay com y e Tokio e Pakistan com k mesmo não tendo essas letras em seu alfabeto. Por essa razão também grafa club, film, blog e internet mesmo que palavras terminadas em consoante sejam estranhas ao sistema fonológico italiano.

Enquanto isso, o português é a única língua europeia de maior alcance internacional a grafar Paraguai, Uruguai, Tóquio, Paquistão, clube, filme e agora também blogue e internete. É possível encontrar grafias diferentes, como blogg, klubb, internätt (e também internett ou internæt), Paragvæ ou Urugvaj, mas só em línguas escandinavas ou do Leste europeu.

A questão é até que ponto vale a pena adotar grafias que vão na direção contrária à dos demais idiomas? Num momento em que o português aspira a internacionalizar-se (e não são poucos os desafios a tal aspiração, mas não vou tratar dessa questão nesta postagem), a adoção de grafias que se afastam da tendência geral não parece uma política inteligente. A reforma ortográfica de 1943 e suas subsequentes de 1971 e 2009 tiveram o propósito de pôr ordem no caos e facilitar a grafia, não o de estabelecer uma doutrina ideológica de caráter purista ou xenófobo.

Você tem um sítio?

Que o vocabulário de uma língua varia de uma região para outra, e mais ainda de um país para outro de mesmo idioma, todo mundo sabe. No entanto, essas variações, às vezes sutis, podem pegar de surpresa até linguistas experientes como eu, que dirá o falante leigo e incauto? Basta viajarmos um pouco pelo Brasil para percebermos que a lomba (isto é, ladeira) dos gaúchos não tem nada a ver com a lombada (quebra-molas) dos paulistas, mas que a macaxeira dos nordestinos tem tudo a ver com o aipim ou mandioca do Centro-Sul do país.

Pois bem, estava eu certa vez participando de um congresso internacional e acabei travando contato com uma famosa linguista da Universidade de Lisboa. Depois de um bom tempo de conversa, ao nos despedirmos, trocamos cartões de visita; o meu continha, além de nome, endereço residencial, telefone e e-mail, o endereço do meu website. A professora, após ler atentamente o cartão, olhou fixamente nos meus olhos e perguntou: “Você tem um sítio?”

A primeira coisa que imaginei é que o meu endereço residencial lhe tivesse causado alguma estranheza e ela tivesse sido levada a acreditar que eu morava na zona rural. Respondi-lhe, um tanto envergonhado: “Não, não tenho sítio não, mas bem que eu gostaria. Na verdade, quando eu me aposentar, meu sonho é ir morar num sítio, bem longe do burburinho da cidade grande, no meio da bicharada!”

De repente, ela irrompeu numa gargalhada e me perguntou, perplexa: “Mas do que estás a falar? Perguntei-te se tu tinhas um sítio, pois, pelo que estou a ver aqui no teu cartão, tu tens!”

E eu insisti: “Não, não, a minha casa fica na cidade mesmo, num bairro bastante urbanizado.”

Vendo que eu não estava entendendo nada, a douta lusitana me questionou: “Ora, se não tens sítio, então que vem a ser este teu www.aldobizzocchi.com.br? Este sítio leva teu nome, não é teu por acaso?

Só então me dei conta de que ela estava se referindo ao sítio da internet, ou melhor, àquilo que nós brasileiros conhecemos quase exclusivamente como site. Assim como eu não me lembrei de imediato que em Portugal “site” se diz sítio, ela tampouco parecia saber que no Brasil sítio é uma pequena propriedade rural, algo como uma quinta em Portugal.

Desfeito o mal-entendido, ela prometeu que acederia ao meu sítio (isto é, acessaria o meu site) assim que chegasse ao hotel.

Moral da história: as línguas pregam peças até nos linguistas.

“Tuíte” e “tuitar”: aportuguesamento ou derivação?

O português é dessas línguas que costumam adaptar a grafia de palavras importadas ao seu próprio sistema ortográfico. Evidentemente, isso não acontece em todos os casos. Palavras como site e internet têm passado incólumes por esse processo – e olhe que já se vão lá quase trinta anos desde que surgiram em português. Às vezes, o aportuguesamento não se deu porque o empréstimo é ainda muito recente; às vezes, porque a adaptação gráfica resultaria numa forma estrambótica demais para ser assimilada pacificamente (pense-se em pitça e blutufe em lugar de pizza e bluetooth). Em alguns casos, como no universo da moda e da tecnologia, a manutenção da grafia original se deve ao status que esta carrega: imagine cordon bleu, termo chique (ou chic) de culinária, grafado cordomblê e sendo confundido com candomblé!

Mas alguns termos recém-chegados à nossa língua já estão sendo devidamente nacionalizados. É o caso de tuitar e tuíte, do inglês tweet, que significa tanto o verbo “piar” quanto o substantivo “pio”. Ao mesmo tempo, o nome da rede social que popularizou esses termos, o Twitter, permanece com sua grafia original, provavelmente por ser nome próprio, marca registrada e sobretudo um termo de difusão internacional.

Que o verbo inglês to tweet tenha dado tuitar e não tweetar em português parece natural. Afinal, toda palavra derivada de estrangeirismo costuma ter a grafia aportuguesada. Por isso, Corinthians é com th mas corintiano não; por isso, marketing é com k, mas marqueteiro, com qu, e assim por diante.

Mas como de tuitar se chega a tuíte? Aqui há duas explicações possíveis – e, a rigor, não há como saber qual delas é a verdadeira: ou o substantivo inglês tweet deu o nosso tuíte por empréstimo direto (evidência disso é que nas primeiras ocorrências da palavra ainda víamos a grafia tweet) e posterior aportuguesamento por analogia com tuitar, ou tuíte seria uma derivação regressiva de tuitar, assim como repasse vem de repassar, achincalhe de achincalhar, desfrute de desfrutar, etc. É claro que a primeira hipótese é a mais provável, principalmente porque a forma aportuguesada do termo surgiu na imprensa especializada em informática, cujos redatores não desconhecem a matriz inglesa da palavra. Mas nada impede que, daqui a alguns anos, professores de português e gramáticos ensinem que tuíte deriva de tuitar. E como os falantes têm memória curta (às vezes acho que gramáticos também), todos aceitarão passivamente essa explicação, que dá de ombros à história da língua. Especialmente porque, quando se trata do admirável mundo novo da tecnologia, o passado – isto é, uns poucos anos atrás – simplesmente não existe.

Pensando bem, talvez daqui a alguns anos o próprio Twitter não exista mais, suplantado por novidades tecnológicas ainda mais mirabolantes, o que fará tuitar e tuíte serem lançados ao arquivo morto dos arcaísmos ultra-antiquados, e então essa discussão sobre o ovo e a galinha (ou sobre o pio e o piar) não fará o menor sentido. É esperar para ver.

A pronúncia correta de “Roraima”

A atual crise na Venezuela, com suas repercussões no Brasil, mais especificamente na cidade de Pacaraima, em Roraima, suscita uma questão polêmica de língua portuguesa que de quando em quando vem à tona: qual é a pronúncia correta do nome do estado de Roraima – e agora também da cidade de Pacaraima. Como se pode perceber nos noticiários do rádio e da TV, alguns repórteres pronunciam “roráima”, com a aberto, enquanto outros dizem “rorâima”, com a fechado – e por vezes nasalizado (“rorãima”) –, mas todos pronunciam “pacaráima”.

Tradicionalmente, as pessoas do norte do país pronunciam “roráima” enquanto no sul predomina “rorâima” ou “rorãima”. Até que a televisão (leia-se Rede Globo) passou a impor, via locutores, a pronúncia com a aberto, para estranheza daqueles que preferem o a fechado quando seguido de consoante nasal (e em Roraima temos um m na sílaba seguinte).

A suposta justificativa dos produtores de TV, escorada em alguns gramáticos de pouca ou nenhuma formação científica, é que essa é a pronúncia corrente entre os próprios roraimenses (também conhecidos como “macuxis”). Isso traz à baila uma questão que tratei no texto Artigo de estado, publicado na revista Língua, n.º 81, de julho de 2012, sobre se a maneira dos próprios moradores de pronunciar o nome do lugar onde vivem deve ter preferência sobre outras. E argumentei que não. Aliás, muitas pessoas pronunciam errado o nome de suas ruas e bairros, especialmente quando se trata de nomes estrangeiros. Mas, mesmo quando se trata de nome vernáculo, se este admite como correta mais de uma forma, qualquer uma delas é legítima, não importa se é a mais usual entre os habitantes do local ou não.

É preciso lembrar que em português não há oposição fonológica (isto é, distinção de significado) entre vogais abertas e fechadas antes de consoante nasal. Por isso, tanto faz pronunciar “bánana” ou “bânana”, “nóme” ou “nôme”, “fizémos” ou “fizêmos”. Quer sejam pronunciadas abertas ou fechadas diante de m ou n, as vogais a, e e o não alteram o significado da palavra, diferentemente do que ocorre em outros contextos (por exemplo, leste com e fechado é pretérito do verbo ler; já com e aberto é um dos pontos cardeais). Por isso, aliás, a distinção ortográfica entre Brasil e Portugal em palavras como génio/gênio, económico/econômico, etc., é desnecessária. Poderíamos adotar qualquer uma das grafias como sendo a única, e cada povo continuaria a pronunciar como sempre pronunciou, afinal a ortografia só precisa dar conta daquilo que é fonologicamente pertinente, isto é, distingue significados. É por essa razão que, quer pronunciemos o o de nome como aberto ou fechado, a grafia é uma só: a diferença de pronúncia é um fenômeno de fala, não de língua.

Em relação a Roraima, qual é então a pronúncia correta, ou a mais recomendável: “rorâima” ou “roráima”? Se em português os timbres aberto e fechado do e e do o se neutralizam antes de m ou n, no caso de á e â, não há oposição fonológica nunca, o que equivale a dizer que os dois sons representam sempre o mesmo fonema (tecnicamente diríamos que são alofones do mesmo fonema /a/). O único caso de distinção apontado por algumas gramáticas mais conservadoras seria o da primeira pessoa do plural dos verbos da primeira conjugação, em que, por exemplo, chegamos é presente e chegámos é pretérito. Só que chegámos só existe em português lusitano, e não é possível postular a existência de um fonema com base em um único caso. Como resultado, podemos dizer “bânana” ou “bánana”, “Jáime” ou “Jâime”, “páineira” mas “pâina”, “plâino” mas “apláinar”, e assim por diante. Logo, podemos pronunciar indiferentemente “roráima” ou “rorâima”: ambas as pronúncias são corretas e legítimas em português. E, curiosamente, nenhuma delas corresponde à pronúncia original do nome no idioma taurepang, que é “roraíma”.

Quanto a Pacaraima, a única pronúncia em circulação é a dos próprios moradores da cidade, isto é, com a aberto, visto que, até estourar a crise dos imigrantes venezuelanos, ninguém no centro-sul do Brasil havia ouvido falar dessa pequena cidade.

A origem do terrorismo – e da palavra que o designa

Esta semana ficou marcada por pelo menos três ataques violentos – em Suzano (São Paulo), Christchurch (Nova Zelândia) e Utrecht (Holanda) – que podemos, sem dúvida, chamar de atentados terroristas, não importa se seus autores pertencem a organizações políticas consagradas a espalhar ódio, terror e pânico na sociedade ou se são meros “lobos solitários”, designação que se dá ao terrorista isolado, que pode até agir inspirado em alguma organização desse tipo, mas que formalmente não pertence a ela.

Nesses tempos de ódio generalizado, em que todos parecem estar contra todos, e as pessoas buscam motivos para sentir-se ofendidas, vale a pena revisitar a história das palavras atentado e terrorismo.

A primeira remonta ao latim tardio attentatum, “tentativa”, particípio do verbo attentare, também encontrado nas formas adtentare e attemptare, que, segundo o Dicionário Latino-Português de Francisco Torrinha, significa “pôr a mão em; tocar em; experimentar, ensaiar, tentar”, mas sobretudo “atacar, atentar contra”. Esse verbo, por sua vez, é um derivado de tentare ou temptare, que deu “tentar” e “tentação” em português e provém de uma raiz indo-europeia (sobre o indo-europeu, leia o meu artigo Em busca das laringais perdidas, neste mesmo blog) *ten‑, que significava algo como “segurar, estender, esticar, retesar”, presente em verbos latinos como tenere, que deu o nosso “ter”, e tendere, que resultou no português tender, atender, estender, etc.

terrorismo é palavra cunhada originalmente em francês à época da Revolução Francesa (final do século XVIII). Sua motivação é o período que ficou conhecido como o Terror (1793-1794), comandado por Maximilien de Robespierre, líder dos jacobinos, ocasião em que milhares de pessoas morreram na guilhotina.

Sua primeira acepção, de 1794, era “doutrina dos partidários do Terror”; em português, o termo teve seu primeiro registro em 1836.

Mas terrorismo deriva do latim terror, terroris, “terror, medo”, substantivo proveniente do verbo terrere, “tremer (de medo)”. Que é parente de tremere, “tremer”, e ambos radicam no indo-europeu *ter‑, “tremer”. Portanto, terrorismo é a prática da disseminação do terror entre as pessoas por meio de ações violentas. O sufixo ‑ismo, que primariamente evocava a ideia de “doutrina”, passou a indicar uma tática política.

O curioso é que a prática de atentados terroristas é muito mais antiga que a palavra, pois já existia na Antiguidade, segundo nos informa a Britannica Concise Encyclopedia. Entretanto, nada que se comparasse ao que estamos presenciando hoje em dia, especialmente depois do 11 de Setembro. Parece que este será o Século do Terrorismo, turbinado ainda pela internet e as redes sociais. É esperar para ver.

A tragédia de Suzano e os eufemismos da crônica policial

Eu havia programado outro assunto para tratar aqui no blog no dia de hoje, mas o massacre ocorrido em Suzano, SP, esta manhã me fez refletir sobre várias coisas: sobre os limites da maldade humana (ou a inexistência deles); sobre psicopatas que circulam discretamente entre as pessoas de bem e o risco que oferecem de, a qualquer momento, cometer as piores atrocidades; sobre o pânico dos jovens que presenciaram a chacina; sobre a dor dos familiares; sobre a facilidade de acesso às armas de fogo e a flexibilização da legislação a esse respeito… Mas, linguista que sou, chamou-me a atenção em especial o modo como a lei brasileira – e por tabela a imprensa – trata os crimes cometidos por menores. Os dois autores da matança de hoje de manhã, um de 17 e o outro de 25 anos, estão sendo chamados pelos telejornais de assassinos, e seu ato de crime hediondo, horrível massacre, chacina sanguinária, e por aí vai. No entanto, tivesse o menor de 17 anos, de nome Guilherme Taucci Monteiro, sido capturado vivo e não se suicidado, sua identidade não teria sido relevada, seu rosto apareceria na TV coberto por uma tarja preta ou então desfocado, estaria ele sendo chamado de “menor infrator”, e a barbárie que cometeu seria classificada como “ato infracional”. Mas como ele está morto, sabemos seu nome e sua face e podemos chamá-lo pelo que ele realmente é: um assassino. Ou seja, uma vez morto o criminoso, cessa a hipocrisia, e o nefasto linguajar politicamente correto não mais se aplica.

Com a violência crescente que assola o país, é cada vez mais comum ler ou ouvir notícias como “o menor foi apreendido pela polícia” ou “os suspeitos fugiram num carro roubado e trocaram tiros com os policiais”. A adoção pelos meios de comunicação do jargão jurídico costuma ser uma imposição dos “manuais de redação e estilo”, cartilhas elaboradas por cada veículo de imprensa para balizar a linguagem utilizada por seus redatores. Esses manuais foram instituídos para padronizar os textos de uma determinada publicação, conferindo-lhe uma marca própria, e também para limitar a liberdade criativa dos jornalistas, evitando que algum deles empregue termos cuja interpretação possa trazer problemas ao jornal, como um processo judicial, por exemplo.

A questão é que, ao fazer uma opção equivocada, o criador do manual propaga seu equívoco a todos os integrantes da redação. A meu ver, é bem esse o caso do emprego do juridiquês na pauta jornalística. Afinal, o repórter não escreve para juristas, mas para leitores leigos. E em tempos em que a impunidade institucionalizada bate em nossa cara todos os dias, palavras que amenizam a culpabilidade dos criminosos soam como um acinte à sociedade.

Suspeito

Segundo o Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, suspeito é o indivíduo “1) De quem há suspeitas ou desconfianças; 2) De fé ou integridade moral duvidosa. 3) Que dá causa ou origem a dúvidas, que não merece confiança. […] 8) Que parece ou se supõe ter algum defeito ou vício […]”. Ora, a suspeita é da esfera da dúvida, da possibilidade, não da certeza. Qual é a probabilidade de que indivíduos que fogem em alta velocidade num carro roubado e trocam tiros com a polícia sejam cidadãos de bem e não bandidos? Não se trata aí de possibilidade, mas de certeza.

O que acontece é que, no jargão jurídico, um indivíduo é suspeito até ser formalmente indiciado; a partir desse momento, passa a acusado e, só após a condenação em última instância, é que pode ser oficialmente chamado de criminoso. Trata-se de um cuidado que respeita o princípio da presunção de inocência. No entanto, a imprensa é a voz da sociedade, ela fala pela e para a sociedade. Logo, se por um lado os jornais não podem julgar e condenar, pois isso é prerrogativa do Poder Judiciário, por outro, soa hipócrita apresentar como mera hipótese a culpa de alguém preso em flagrante delito ou foragido em carro roubado após troca de tiros.

Apreendido

A mesma crítica pode ser feita a termos como “apreender um menor”, “ato infracional”, “medida socioeducativa”, etc. Se, para os operadores do direito, menores não cometem crimes, não podem ser presos nem cumprir pena (e por isso se instituíram eufemismos para falar sobre a criminalidade dos que têm menos de 18 anos), para a sociedade, um assassinato bárbaro praticado por um elemento de 17 anos e 362 dias não é um mero ato infracional, como o prova o atual clamor pela redução da maioridade penal. A questão é: de que lado estão os elaboradores de manuais de redação e estilo: do lado da sociedade, que clama por justiça, ou do lado dos juristas e legisladores, cuja concepção de justiça só é justa na opinião dos próprios?

Isso explica o sucesso dos programas de TV do chamado “jornalismo justiceiro”. Embora tenham um indisfarçável viés mercadológico, tais programas dizem o que o público quer ouvir e, por isso mesmo, têm tanta audiência. Nem é preciso ir tão longe: muitos comentaristas sérios, que diante das câmeras têm linguagem mais comedida, aproveitam os jornais e o rádio para, sem caluniar, injuriar ou difamar ninguém, “dar nomes aos bois”, tratando por bandido quem é bandido e por corrupto quem é corrupto. Afinal, a mesma justiça que presume a inocência do réu garante a chamada exceção da verdade: não é crime acusar alguém de um ato que ele efetivamente praticou.

De resto, meus sinceros sentimentos aos familiares das vítimas. E minha torcida para que essa prática da chacina em escolas, tão comum nos Estados Unidos, não vire moda no Brasil.

As controversas origens do Carnaval

Terminado o Carnaval (será que terminou mesmo?), republico aqui um artigo que publiquei no ano passado, acrescido de alguns novos dados, face à oportunidade da data e visto que ganhei muitos leitores desde então. Trata-se da origem da palavra Carnaval.

A etimologia da palavra Carnaval é uma das mais controversas que existem. Assim como a origem dessa festividade remonta à Pré-História e a ritos pagãos da fertilidade, em que se comemorava o início do ano agrícola e pedia-se aos deuses uma boa safra, a origem da palavra também se perde na escuridão do passado. Alguns autores, como Körting (Lateinisches-Romanisches Wörterbuch, “Dicionário Latino-Românico”), sustentam que teria vindo do latim carrus navalis, barco ornamentado que entre os romanos abria desfiles alegóricos como os das Saturnalia e das Bacchanalia, festas em celebração da chegada da primavera e do vinho.

Outros, porém, como Antenor Nascentes, na esteira de vários estudiosos, apontam a origem em carnem levare, “suspender a carne”, isto é, suprimir o consumo desse alimento durante a Quaresma, portanto já no período cristão do Império Romano. Wilhelm Meyer-Lübke, no seu Romanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Românico), dá essa origem para o francês e o provençal. Policarpo Petrocchi apresenta o baixo latim carnelevamen, depois modificado para carnelevare, como étimo do antigo pisano carnelevare, do napolitano carnolevare, do calabrês carnalevare, do siciliano carnilivari, do vicentino carlavare e do veneziano carlevar. A forma primitiva carnelevare teria sido depois mudada para carnelevale em milanês (1130) e, por etimologia popular, em carne, vale!, isto é, “adeus, carne!”. Essa etimologia é confirmada por Corominas em seu Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana. Já o Duden – Das Herkunftswörterbuch, o principal dicionário etimológico do alemão, apresenta ambas as hipóteses, dando, no entanto, mais crédito à segunda.

Em espanhol, a forma paralela carnal teria sido a responsável pela mudança da vogal, de carneval para carnaval. A ideia básica de suspensão do consumo de carne é reforçada por formas paralelas como o espanhol carnestolendas  e o catalão carnestoltes (ambas do latim tollere, “retirar”), o italiano carnelasciare e carnasciare, assim como o romeno lăsatul de carne, todas do latim laxare, “deixar, abandonar”. O próprio latim já apresentava carneprivium, “privação da carne”, o que dá alguma convicção a essa etimologia. De certo, somente que o antecessor do termo em todas as línguas modernas é o italiano carnevale, especialmente em face da grande fama dos carnavais italianos (o de Veneza, principalmente) durante a Renascença.

Léxico, a alma da língua

A língua diz muito sobre o povo que a fala. Não tanto a gramática, que, apesar de ser a moldura de nossos pensamentos, é algo sobre o qual temos pouca ou nenhuma ingerência. Para muitos, uma gramática complicada seria reflexo de uma cultura burocrática e cerimoniosa. Nada mais falso! Populações de vida extremamente simples, como a maioria dos povos tribais, têm às vezes gramáticas muito complexas. Já os britânicos, conhecidos por seu tradicionalismo e cerimônia, falam uma das línguas gramaticalmente mais despojadas.

Na verdade, é o léxico o espelho da alma de um povo, é aí que reside sua legítima criatividade. Por meio das palavras é possível compreender o modo como uma comunidade de falantes pensa a realidade, os valores que lhe são importantes, a maneira de organizar a própria vida. O vocabulário é a lente pela qual vemos a existência.

Línguas indígenas não têm termos técnicos, científicos ou jurídicos. Em compensação, denominam cada arbusto, cada touceira de mato, cada gramínea de modo diferente porque, para os índios, a floresta é muito importante, é seu habitat, sua fonte de alimento, sua farmácia e a morada de sua espiritualidade.

Algumas línguas de povos tribais não têm numerais acima de três ou cinco, assim como não distinguem mais do que quatro ou cinco cores, pelo simples fato de que não precisam de toda essa riqueza vocabular típica das línguas de civilização para dar conta de experiências cotidianas bastante corriqueiras. Já o nosso léxico, de 200 mil palavras, destina mais da metade desse número a cobrir áreas de extrema especialidade.

Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química em 1977, certa vez lamentou que as línguas ocidentais tivessem tantos nomes para cores, distinguindo às vezes tons que o próprio olho mal percebe, e ao mesmo tempo tivesse uma só palavra para o amor. Dizia ele: “tenho quatro filhos, e amo cada um deles de modo diferente; no entanto, no dicionário esses quatro sentimentos se chamam simplesmente ‘amor’”. Assim como é amor o sentimento do filho pelos pais, do marido pela mulher, do enólogo pelo vinho, do avarento pelo dinheiro… Enquanto isso, para os comerciantes de tecidos uma fazenda marrom pode ser castanho, camurça, caramelo, champanhe, terra, café com leite, tabaco e mais uma porção de outros matizes, além, é claro, do próprio marrom.

Se o léxico é o espelho da alma de um povo, então nossa civilização pós-industrial dá mais valor à técnica e à produção do que aos sentimentos. Se a língua reflete nossa escala de valores, que valor tem em nossa cultura o amor, a amizade, a solidariedade?

As quilométricas palavras do alemão

Como muitos sabem, o alemão tem uma incrível flexibilidade morfológica, que permite a criação de novas palavras pela simples junção de outras já existentes. Há até casos anedóticos como o de Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotterbeutelrattenattentater (assassino da mãe do garoto hotentote surdo-mudo, preso na jaula de cangurus coberta com tela).

Exageros à parte, ao mesmo tempo que confere ao idioma um caráter extremamente sintético, esse mecanismo gramatical gera palavras quilométricas. Além disso, povoa a língua de neologismos, alguns bem efêmeros (por exemplo, se eu quiser dizer “erro de endereçamento postal” em alemão, direi Postadressierungsfehler; “viagem de estudo de línguas” é Sprachstudienreise; e assim por diante).

Aliás, alguns anos atrás o alemão “perdeu” sua palavra mais longa. E tudo por uma alteração na lei sanitária da União Europeia. O termo Rindfleischetikettierungsüberwachungsaufgabenübertragungsgesetz (lei que delega monitoramento de rotulação de carne),  criado no âmbito do combate à doença da vaca louca, foi abolido após mudança na regulamentação, que isenta o gado de corte saudável de passar por testes.

Reza a lenda que um alemão foi ao correio passar um telegrama, e sua mensagem continha o termo Regenfallverspätung (atraso devido à chuva). Como o correio cobra os telegramas pelo número de palavras, o funcionário calculou o preço da mensagem considerando a sequência gráfica como três palavras: Regen (chuva) Fall (queda) e Verspätung (atraso). O cliente, por sua vez, argumentou que Regenfall é palavra composta, portanto só aceitaria pagar por duas palavras. Como não chegassem a um acordo, o caso foi parar no tribunal do distrito, cujo juiz deu a sentença: Regenfallverspätung é uma palavra só. O funcionário do correio, querendo lucrar com as esquisitices da gramática alemã, ficou no prejuízo; o cliente acabou tendo um lucro inesperado. E a conclusão que se tira desse episódio? Na Alemanha, a justiça é tão rápida e eficiente que até preço de telegrama vira demanda judicial.

A linguagem, a comunicação e a cultura

É lugar-comum que o que nos torna humanos – no sentido de seres cuja existência transcendeu os limites do estritamente biológico – é a aquisição da linguagem. De fato, a conquista da aptidão simbólica e, mais ainda, de uma aptidão simbólica articulada, foi o principal salto evolutivo de nossa espécie, mais até do que o andar bípede ou a capacidade preênsil de nossas mãos, que nos permitiu a confecção de artefatos. De origem relativamente tardia (entre 200 mil e 150 mil anos atrás), a linguagem verbal articulada propiciou, sobretudo nos últimos 10 mil anos, um avanço cultural mais rápido do que o verificado nos vários milhões de anos anteriores.

Mais ainda, o advento da escrita permitiu a preservação e o acúmulo de conhecimentos para além da memória individual e do curto tempo de vida do indivíduo em relação à espécie. A escrita permitiu a comunicação entre indivíduos distantes no espaço e no tempo; permitiu tornar complexas as relações sociais, fazendo-nos evoluir de sociedades ágrafas extremamente homogêneas e constituídas de uns poucos membros para as sociedades extremamente complexas da atualidade. Sobretudo na era pós-industrial e globalizada, podemos dizer que a humanidade como um todo foi transformada numa única sociedade global.

Assim, foi a passagem do Homo sapiens a Homo linguisticus o que permitiu o advento da comunicação social em larga escala e da sofisticação da cultura.

Neste ponto chegamos à questão da relação entre a linguagem e a comunicação. Em primeiro lugar, é forçoso dizer que a linguagem muito provavelmente não foi criada ou surgiu espontaneamente para servir à comunicação entre os indivíduos. A comunicação não linguística entre os animais o prova. Segundo a tese do matemático e estudioso da linguagem britânico Keith Devlin, ratificada por outros pesquisadores e pensadores, o homem discursa para dar-se conta de sua própria experiência e, apenas num segundo momento, para dar conta dessa experiência aos seus semelhantes. Para Devlin, existe uma diferença entre linguagem e comunicação. Esta seria a simples transmissão, de um indivíduo a outro, ou outros, de mensagens sobre situações concretas (como a existência de alimento ou de predadores) sempre in praesentia, isto é, na presença da coisa referida. Portanto, só existiria linguagem na comunicação capaz de fazer abstrações, de falar sobre objetos ou eventos ausentes, no tempo e/ou no espaço, o que inclui até mesmo eventos futuros, hipotéticos ou imaginários. Isso só é possível por meio da existência de uma propriedade inerente à linguagem verbal chamada sintaxe.

A língua não é o único sistema de comunicação de que dispomos, mas é o único dotado ao mesmo tempo de uma sintaxe ao nível do significante e do significado. Muitos autores, sobretudo na esteira da semiótica, chamam de linguagem a qualquer sistema de significação, não importa se articulado ou não, mas para Devlin apenas o sistema verbal é legitimamente uma linguagem. Tanto que o semioticista russo Yuri Lotman chamou a língua de sistema modelizante primário, em relação ao qual as demais “linguagens” seriam sistemas secundários. Isso significa que é sempre possível, com maior ou menor aproximação, traduzir experiências não linguísticas em palavras, mas a recíproca nem sempre é verdadeira.

Mas não é só a sintaxe em seu sentido estrito o que confere à língua o poder de permitir o pensamento articulado e abstrato. É evidente que, operando em módulos e estabelecendo uma hierarquia entre elementos aparentemente lineares, a sintaxe entre significantes contribui para a categorização e a organização do pensamento, mediante o estabelecimento de relações. Mas o pensamento, e consequentemente a comunicação, só é possível porque, subjacente às palavras e suas combinações sintagmáticas, existe um nível conceptual, no qual também atua uma sintaxe, mas agora não entre palavras e sim entre as partículas elementares da significação, os chamados núons, de que resultam os conceitos, que por sua vez se dividem em entes, atributos e processos, e também mantêm relações sintáticas entre si.

Pode-se dizer, então, que a primeira forma de comunicação ensejada pela linguagem verbal é a comunicação intrapessoal, ou pensamento. (Uma boa sugestão de leitura aqui é o texto “Linguagem, conhecimento e cultura” de Adam Schaff.) Mas a relação entre a linguagem e a comunicação – seja ela intra ou interpessoal, grupal ou social – é, a meu ver, uma relação de mão dupla. De um lado, não existiria, como vimos, comunicação social sem a língua, já que esta é, por excelência, a ferramenta da comunicação. De outro lado, parece ter sido a necessidade de comunicação, especialmente num nível mais abstrato, o que motivou a articulação dos signos e o surgimento da “gramática”, em seus vários níveis, transformando o primitivo sistema de emissões vocais em linguagem.

Finalmente, essa relação biunívoca entre linguagem e comunicação permitiu o advento do processo histórico da cultura. Conforme sustento em meu livro Anatomia da cultura, a cultura em seu sentido mais amplo, antropológico, é uma derivação da cultura num sentido mais estrito e tradicional. E este é fundamentalmente um conjunto de discursos sociais, assim definidos porque se destinam à sociedade como um todo. Portanto, a cultura é produto direto da comunicação social, ainda que decorra indiretamente de todos os processos comunicativos humanos.

A unificação ortográfica que nada unificou

Neste ano em que o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa completa 10 anos de implantação, fui convidado pelo amigo Cássio Lucas a contribuir com um texto falando sobre o assunto para a página que ele mantém no Facebook, de nome NOLP – Nova Ortografia da Língua Portuguesa (disponível em www.facebook.com/projetonolp). Por razões técnicas, o texto não pôde ser publicado lá, mas vai publicado aqui.

Este ano, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa completa dez anos de vigência. Elaborado de modo tumultuado, com muitas idas e vindas e interferências políticas, marcado por várias concessões de todas as partes envolvidas, chegou-se finalmente a um acordo sobre o Acordo em 1990. No entanto, este somente entrou em vigor em 2009, com a adesão de Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e, posteriormente, Portugal. E desde então não se pouparam críticas à nova ortografia. Eu mesmo, que à época assinava uma coluna na extinta revista Língua Portuguesa, apresentei as minhas considerações e sugestões. Mas o fato é que esse Acordo, pelo próprio clima litigioso com que foi elaborado, acabou cheio de defeitos e criou novos problemas no lugar daqueles que pretendia solucionar.

De fato, a intenção inicial da realização de um concerto entre as nações de língua portuguesa era uma suposta unificação da grafia, pois, dizia-se, só o português dentre as grandes línguas europeias tinha duas ortografias, o que, para início de conversa, não é verdade: o inglês até hoje tem uma grafia britânica e outra americana, e nenhuma das duas tem caráter oficial (a tradição anglo-saxônica de pautar questões sociais pelo costume, sem a necessidade da adoção de leis, jamais impediu a unidade ortográfica da língua inglesa, exceto por uma ou outra palavra).

Mas a nova grafia proposta pelo Acordo de 1990 não só não eliminou as diferenças d’aquém e d’além-mar (fato e facto, gênio e génio permanecem) como ainda alterou pontos em que não havia discordância entre portugueses e brasileiros, como no caso do hífen, cuja regra de uso anterior não era boa e cuja atual consegue ser ainda pior.

O novo sistema ortográfico tem pontos positivos. Por exemplo, em Portugal desapareceram o c e o p mudos, como em acção, acto, adopção, baptismo, óptimo e Egipto (mas manteve-se em facto, por ser pronunciado), tornando a grafia dessas palavras igual à brasileira. Só que, por outro lado, recepção passou a grafar-se receção em Portugal – ou seja, iguala-se de um lado, desiguala-se do outro.

Entretanto, há vários pontos negativos, dos quais o principal é, sem dúvida, a regra de uso do hífen, que de um lado transformou anti-semita em antissemita, mas de outro converteu microondas em micro-ondas. Isso sem falar em incoerências como para-brisa em face de paraquedas, guarda-chuva em face de mandachuva, guarda-roupa de guardanapo, tira-manchas de Tiradentes, póstero-palatal de musculoarterial, e por aí vai.

Antes era possível distinguir uma palavra composta (Guardei um pé-de-meia para comprar um carro) de um sintagma nominal (Um pé de meia está bom, mas o outro está furado). Atualmente, temos palavras compostas sem hífen (pé de moleque) e sintagmas nominais com hífen (conta-corrente). Para os propositores da nova ortografia, os critérios para manutenção ou queda do hífen são a tradição e a percepção ou não dos falantes de que há composição. É por isso que temos guarda-chuva mas mandachuva, água-de-colônia mas água de cheiro, bem-me-quer mas malmequer, em cima mas embaixo. Ora, tradição não é critério científico; aliás, como determinar objetivamente quando uma tradição se consolida? Quem disse que mandachuva é mais tradicional do que guarda-chuva? Ou que em para-raios há a consciência da composição, mas em paraquedas não? Foram feitos levantamentos estatísticos exaustivos em amostras representativas de falantes, segundo metodologia amparada na literatura científica? E o que dizer de subumano em face de super-herói? Por que humano perde o h após o prefixo sub‑, mas herói não o perde após super‑? E por que água de cheiro mas ervilha-de-cheiro? E por que bico de papagaio quando se trata de doença na coluna e bico-de-papagaio quando nome de planta?

A meu ver, devido a uma série de características fonético-fonológicas peculiares, além da acentuada variação de pronúncia entre os seus países falantes (que não é meramente fonética e sim fonológica), o português é uma língua que, a exemplo de outros idiomas europeus, como francês, inglês e alemão, não deveria buscar uma grafia cem por cento fonética. Assim, por exemplo, não vejo necessidade de distinguir graficamente entre vogais abertas e fechadas onde estas não se opõem fonologicamente, como diante de consoantes nasais. Isso quer dizer que, independentemente de pronunciarmos gênio e os portugueses, génio, a grafia da palavra poderia ser a mesma (digamos, génio) em ambos os países. De modo mais geral, poderíamos ter estabelecido que toda vogal tônica que exija acento receberá o acento agudo, independentemente de sua pronúncia. Somente se fará a distinção entre acento agudo e circunflexo nas vogais e e o não seguidas de consoante nasal. Com isso, unificaríamos parâmetro (Brasil) e parámetro (Portugal), gênio e génio, anônimo e anónimo, mas manteríamos intocados os acentos de até, você, édito, êxito, avó, avô, ótimo, sôfrego, e assim por diante. Consequência dessa regra é que desapareceria a distinção lusitana entre cantamos (presente) e cantámos (pretérito), independentemente de ela poder manter-se na pronúncia.

O resultado prático é que o Acordo de 1990 não conseguiu a unificação que se propôs fazer e ainda introduziu mudanças na grafia que não eram necessárias nem oportunas e conturbaram ainda mais um sistema já bastante confuso e frágil em seus fundamentos.

Mas penso que o principal problema que afeta nosso idioma não é nem a divergência ortográfica entre Brasil e Portugal, mas sim a divergência gramatical. Das grandes línguas de cultura da Europa ocidental, o português é a única em que a sintaxe é diferente em cada país. Algo que um português diz como “João disse-me que está a encontrar dificuldades para o fazer” um brasileiro dirá como “João me disse que está encontrando dificuldades para fazê-lo”. Em espanhol, francês, inglês, italiano ou alemão, essa frase teria uma única formulação em qualquer variedade do idioma. Essa dualidade gramatical obriga por vezes fabricantes de produtos a redigir manuais de instruções nas duas variedades de português, dificulta o aprendizado da língua por estrangeiros e, ainda, obstrui bastante sua difusão internacional, fato agravado pela concorrência do espanhol, língua muito próxima do português, mas muito mais difundida.

O fato é que o Acordo Ortográfico foi alinhavado a partir de mútuas concessões, em meio a muitas intransigências e imposições, de que resultou um “frankenstein”, nas palavras de Antônio Houaiss, um de seus primeiros idealizadores, segundo me confidenciara, cansado e desiludido, numa de nossas raras conversas.

A importância do cacoete na evolução linguística

A maior parte das inovações linguísticas surge da fala informal e não da fala ou da escrita formais. Exceto por neologismos técnicos, que em geral nascem em textos acadêmicos impressos, é sempre a fala popular que institui novas pronúncias (e, no limite, conduz à mutação fonética), novas construções sintáticas (por exemplo, a tendência à próclise) e novas palavras.

Por isso mesmo, é nos períodos costumeiramente chamados “de barbárie”, em que não há ensino formal da língua, e quase todos os falantes são ágrafos, isto é, analfabetos, que as mudanças linguísticas ocorrem mais depressa. Não foi por outra razão que a língua da Lusitânia passou, durante a Alta Idade Média (séculos 5 a 11 d.C.), isto é, em apenas seis séculos, do latim vulgar ao ibero-romance e deste ao galego-português, ou português arcaico. Em compensação, a partir do estabelecimento do Estado português e da institucionalização da educação, sobretudo a partir do século 16, a língua mudou relativamente pouco. Isso significa que o português de Camões está mais próximo do atual que daquele das cantigas trovadorescas.

Um dos muitos fatores que contribuem para a mudança linguística é, por incrível que pareça, o cacoete. Na fala cotidiana, em que temos de pensar e falar ao mesmo tempo, tendemos a truncar palavras e frases, a repetir elementos, seja por redundância (a fala é, por natureza, muito mais redundante que a escrita, já que o ruído na comunicação também é muito maior) ou por insegurança, e a gaguejar bastante. Também são comuns as “muletas do discurso”, certas expressões-chavão que utilizamos a todo momento (como “sei lá”, “tipo assim”, etc.) para preencher o vazio comunicativo enquanto pensamos ou para nos aliviar do peso de ter de ser criativos o tempo todo.

Muitas características definidoras de certos idiomas, como a negação dupla em francês (je ne sais pas), resultam de cacoetes que, de tão disseminados na fala popular, acabaram sendo integrados à norma e hoje fazem parte da gramática da língua. O vêneto, ou veneziano (língua minoritária falada na região de Veneza, Itália, e erroneamente considerada um dialeto italiano), o qual já foi muito importante nos tempos da antiga República de Veneza, repete sistematicamente o sujeito (algo como “Pedrinho ele foi à escola”). Ora, de algumas décadas para cá estamos verificando o mesmíssimo fenômeno na sintaxe do português brasileiro oral (e, se levarmos em consideração muitas das redações que obtiveram zero no Enem, também na sintaxe do português escrito).

O que são esses anacolutos que transformam uma oração do tipo sujeito-predicado em uma do tipo tópico-comentário senão cacoetes de fala que se espalham por contágio? Basta assistir no YouTube a entrevistas de 30 ou 40 anos atrás e compará-las com a fala atual das pessoas na TV para observar como a frequência desse tipo de construção aumentou nos últimos anos, mesmo entre pessoas escolarizadas, como repórteres, atores e cantores de MPB.

Redundâncias como as do espanhol (Le di una manzana a la maestra, “Dei uma maçã à professora”), do italiano (Questa mela la mangio io, “Esta maçã quem vai comer sou eu”) ou do inglês (At what time do you do your homework?, “A que horas você faz a lição de casa?”) nada mais são do que a cristalização e subsequente oficialização de antigos cacoetes que, por terem sido introduzidos, ou pelo menos disseminados, por falantes de uma certa influência social, contaminaram a maioria dos falantes séculos atrás e, de tão arraigados na fala coloquial, ascenderam à categoria de leis gramaticais, tornando-se, portanto, de uso obrigatório.

Isso, no entanto, não quer dizer que o uso desses cacoetes esteja liberado, especialmente em situações em que se espera algum respeito à norma. Penso que muitas pessoas que dão entrevistas na mídia deveriam policiar-se um pouco mais na hora de abrir a boca.

Predicativos, adjuntos e os dois modos de estar

O verbo estar pode ser de ligação (estar feliz, triste, doente, atrasado) ou intransitivo (estar bem, estar na sala, etc.). No primeiro caso, pede como complemento um predicativo do sujeito, que pode ser um adjetivo, como nos exemplos acima, ou um substantivo (“Eu não sou ministro, eu estou ministro”). No segundo caso, estar só pode ser complementado por um adjunto adverbial. É o caso de “estar bem”, “estar mal”, etc. (adjunto adverbial de modo) e o de “estar na sala”, “estar aqui”, etc. (adjunto adverbial de lugar). Em “estar bem”, “estar mal”, que se referem ao estado de saúde, estar tem aproximadamente o mesmo significado de passar: “ele está bem” equivale a “ele passa bem”. Só que estar também poderia ser interpretado aqui como verbo de ligação. Por isso, muita gente diz “Eu estou bom”, “Ela está boa”, no lugar de “Eu estou bem”, e assim por diante. Por sinal, em inglês popular, “He is good” tem o mesmo sentido de “He is well”. Já em “He is alright”, em que alright é tanto adjetivo quanto advérbio, fica impossível decidir se o verbo to be é de ligação ou intransitivo.

O predicativo, seja do sujeito ou do objeto, é uma classe sintática ambígua, pois, em muitos casos, funciona como um adjunto adverbial. “João entrou na sala silencioso” tem o mesmo valor semântico de “João entrou na sala silenciosamente”. A situação se complica porque muitos advérbios de modo prescindem do sufixo -mente: em “Este livro custou caro”, caro é advérbio e equivale a um hipotético caramente. A indistinção entre o adjunto adverbial e o predicativo é que leva algumas pessoas a dizer “Estes livros custaram caros” em vez de “custaram caro”. O famoso slogan da cerveja que “desce redondo” já causou muita polêmica e ensejou inúmeras questões em vestibulares e concursos públicos, pois, na realidade, é válido considerar que redondo pode referir-se tanto a cerveja (a cerveja desce redonda) quanto a descer (e aí, desce redondo).

Não por acaso, muitos termos que, numa língua, são adjetivos usados como predicativos, em outra, são advérbios invariáveis. Em português, dizemos que fulano e beltrano chegaram juntos (ou separados), o que mostra, pela flexão dessas palavras (juntos/juntas, separados/separadas) que se trata de adjetivos e, portanto, de predicativos. No mesmo contexto, o inglês usa together ou apart, vocábulos que constam nos dicionários ingleses como advérbios. Só que, na língua de Shakespeare, os adjetivos também são invariáveis, o que torna ainda mais opaca a distinção entre um adjetivo e um advérbio e, por conseguinte, entre um predicativo e um adjunto adverbial. Tanto que well é o advérbio de modo correspondente ao adjetivo good (assim como bem corresponde a bom), mas a possibilidade de intercâmbio entre well e good (“He is good/well”), como, aliás, também ocorre em português (“Ele está bem/bom”), fez que, com o tempo, well passasse a ser sentido como predicativo e, portanto, adjetivo, o que propiciou o surgimento do substantivo abstrato wellness, “bem-estar”. Para isso contribuiu, sem dúvida, a prévia existência de illness, “doença, mal-estar”, derivado de ill, que pode ser tanto adjetivo quanto advérbio.

Esse é um dos típicos casos em que a gramática normativa pouco esclarece. Já os estudos linguísticos apontam para a singularidade dos verbos designativos de essência ou existência, como ser e estar, que têm ao mesmo tempo características de verbos lexicais (também chamados de verbos cheios ou pesados) e de verbos gramaticais (ou vazios ou leves), em que são meras cópulas ou, no dizer da gramática normativa, verbos de ligação.

A própria distinção entre predicado verbal e predicado nominal fica abalada quando se introduz a semântica na questão. Afinal, qual a diferença entre “Ele é diabético” e “Ele tem diabetes”? Do ponto de vista da semântica profunda, nenhuma, pois ambas as frases denotam a relação entre um ente (no caso, uma pessoa) e um estado (no caso, doença). Para a gramática, no entanto, ter é verbo transitivo, tanto quanto ver ou matar, por exemplo, mesmo não admitindo voz passiva (“A diabetes é tida por ele” é um enunciado inaceitável em português). Ocorre que ter é mais um desses verbos vazios. Mas isso é assunto para outro post.

O glúten e o grude

Semana passada falei sobre a etimologia das palavras açúcar e glicose. Continuando a enveredar pela senda culinária, hoje vou falar de outro vilão da saúde nos tempos atuais, o glúten.

Segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde, a doença celíaca, caracterizada por intolerância ao glúten, está aumentando no mundo, resultado da dieta pouco saudável que a civilização moderna impõe. Uma das principais causas da incidência da doença é o consumo do trigo, que há bastante tempo foi geneticamente modificado por razões de produção, como mostra o médico e pesquisador William Davis no livro Barriga de Trigo (Editora Martins Fontes).

O trigo é um dos cereais mais ricos em glúten (que também admite a forma glute em português). O glúten é uma substância proteínica viscosa que se encontra na parte interna das sementes dos cereais. E, por ser viscosa, muito cedo se descobriu que a farinha de trigo ou de outros cereais, como o arroz, quando molhada, se torna uma excelente cola. Foi por isso que o latim gluten evoluiu para o português grude, que, segundo o dicionário Michaelis, pode ser cola branca, cola feita de farinha de trigo ou polvilho, cola de madeira, de calçados, bem como desordem, motim, luta corporal, iguaria feita de goma seca e coco ralado, comida em geral e amizade estreita. E, segundo o Houaiss, pode ser cola forte, goma, e também comida ruim, gororoba.

A partir de grude chegamos ao verbo grudar, isto é, aderir, colar, unir com grude, etc. A palavra grude é da mesma etimologia do inglês glue, “cola”, e de seu derivado to glue, “colar”: essa palavra veio do francês antigo glu, que, assim como o nosso grude, se originou do latim gluten, glutinis. Em latim também havia a forma glus, glutis, com o mesmo significado de substância viscosa, cola, grude.

Da mesma família etimológica também eram as palavras latinas glubere (descascar), gluma (película dos grãos, casca de trigo), glomus (novelo), glomerare (enovelar), globus (bola) e gleba (bolinha de terra, torrão, e, por extensão, gleba de terra). E do latim gluten também saiu o verbo aglutinar, que nada mais é do que grudar.

O que há de comum entre “doce” e “glicose”?

E aí, pessoal, comeram muitos doces nessas Festas? Todo início de ano, as pessoas prometem perder peso, trancar a boca, fazer academia, mas, na última semana do ano, o que elas fazem? Ganham peso! É claro que o doce não é o único vilão dessa história, mas datas como Natal e Páscoa são pródigos em guloseimas açucaradas.

Todo mundo sabe que o que dá o gosto doce aos alimentos é o açúcar. Ou melhor, os açúcares, já que se trata de um vasto conjunto de compostos químicos que atendem pelos mais diversos nomes científicos: glicose, frutose, lactose, sacarose…

A origem de termos como frutose e lactose é óbvia: açúcares extraídos respectivamente das frutas e do leite. Mas, de onde vêm sacarose? E glicose?

Sacarose (e também sacarina, sacarídeo, etc.) deriva de um radical grego sakkharon, que significa “açúcar” e provém do páli sakkhara, este por sua vez procedente do sânscrito sárkara, “areia”. Portanto, na origem do nome está uma interessante metáfora, em que os grãos do açúcar são comparados aos da areia. (Não por acaso, já vi arear panelas com açúcar, se bem que, após o advento da palha de aço, nem areia se usa mais para esse fim.)

A própria palavra açúcar é da mesma origem, embora nos tenha chegado por outro caminho. Neste caso, o sânscrito passou ao persa shakar, que passou ao árabe sukkar. Este deu o italiano zucchero, e daí o alemão Zucker, mas também o francês sucre (e deste o inglês sugar). Já o português e o espanhol tomaram a palavra diretamente do árabe, e com a incorporação do artigo, pois al sukkar significa literalmente “o açúcar”. Por assimilação, al sukkar evoluiu para assukkar, que para entrar no português só precisou de uma adaptação ortográfica.

Curiosamente, “açúcar” em romeno é zahar, o que denuncia a origem da palavra diretamente no grego ou em alguma língua do Oriente.

E o radical glico-, de glicose, que também se diz glucose, de onde veio? Havia em indo-europeu uma raiz *dluk, “doce”, que, por dissimilação (e, evidentemente, por maior facilidade de pronúncia) deu em grego gluk, de onde vieram glicose, glucose, glicemia, glicogênio, etc. Em latim, *dluk deu dulk, também para facilitar a pronúncia (convenhamos que esse encontro consonantal dl não é dos mais fáceis de pronunciar). E de dulk veio o adjetivo dulcis, que produziu em português doce, edulcorar, Dulcora (uma antiga marca de balas e drops), dulçor, o nome próprio Dulce, e assim por diante.

Uma última curiosidade: em muitas línguas, “doce” é sinônimo de “macio” (por exemplo, em francês chiffon doux quer dizer “pano macio”), provavelmente porque o gosto doce é percebido como suave ao paladar. Por isso mesmo, um homem apaixonado oferece bombons à amada; espinafre não teria o mesmo efeito romântico… Mas, voltando à etimologia, a raiz indo-europeia *swad, que significava indiferentemente “doce” ou “macio”, é a origem do grego hedús, de hedonismo, do latim suavis, “suave”, e do inglês sweet, “doce”.

Então, pessoal, partiu 2019, bora malhar!

Balneabilidade?

Para se comunicar num idioma de cultura, não são necessárias mais do que 5 mil a 10 mil palavras. Contudo, o léxico de qualquer língua escrita (portanto, isso não vale para as línguas ágrafas de pequenas comunidades ou tribos) costuma ter mais de 200 mil vocábulos. Por que isso acontece? Porque a maioria desses vocábulos é de uso ultraespecializado e não de domínio público.

Durante este feriadão prolongado de Natal e Réveillon, ouvi no rádio que as praias do litoral paulista apresentavam boas condições de balneabilidade. Balneabilidade? Num primeiro momento, fiquei surpreso com o suposto neologismo. Mas imediatamente compreendi que se trata da condição que uma praia oferece de alguém banhar-se nela. O curioso é que esse termo deriva de um suposto adjetivo balneável, que não consta nos dicionários, proveniente, por sua vez, do verbo balnear, este sim constante no “pai dos burros”, mas com o significado de “dar banho a”. Ora, balneabilidade não é a condição de poder dar banho, mas sim a de poder tomar banho numa praia (ou rio, ou lago, ou…). Portanto, o inexistente adjetivo balneável deriva, na verdade, de banhar-se e não de balnear, empréstimo do latim balneare – por sinal, verbo culto de baixíssima frequência e forte candidato à obsolescência.

Temos muitos casos na língua portuguesa de palavras cultas ou semicultas derivadas de termos vulgares, isto é, herdados diretamente do latim. Por exemplo, entonação vem de entoar e não de um inexistente entonar; frenagem vem de frear e não de frenar; laticínio deriva de leite, embora a palavra tenha sido formada a partir do latim lacte; e assim por diante. É claro que a influência de outras línguas românicas sobre o português não pode ser ignorada, e é possível – aliás, bem provável – que entonação tenha sofrido a influência do espanhol entonación (de entonar) ou do francês intonation. Da mesma forma, é mais provável que o étimo de nossa frenagem esteja no francês freinage (de freiner) e não no latim frenum, “freio”.

Com certeza, personalidade provém, via francês ou espanhol, do latim tardio personalitas e não diretamente do português pessoa ou pessoal. Aliás, existe em nosso idioma o substantivo pessoalidade, que nada tem a ver com personalidade: pessoalidade é a característica da função profissional que deve ser exercida rotineiramente pela mesma pessoa, sendo vedada a sua terceirização. Por exemplo, espera-se que o professor responsável por determinada sala de aula seja o mesmo ao longo de todo o ano letivo e não que, a cada semana, um docente diferente venha dar aula a essa turma. Já a função de faxineiro não exige, em tese, a mesma pessoalidade.

Seria, por sinal, muito estranho se determinados termos cultos ou semicultos do português fossem totalmente aportuguesados, ou seja, tivessem seus radicais latinos substituídos pelos correspondentes vernáculos. Teríamos, então, artigoação no lugar de articulação, mulhericídio em vez de feminicídio, centelhante por cintilante, orelhal por auricular, desjanelar em vez de defenestrar, porquino por suíno, povoacional em lugar de populacional, sessenteiro por sexagenário, funçoeiro em vez de funcionário, obração por operação, ensementear por inseminar, beiçal por labial, mijadouro no lugar de mictório, e por aí vai.

E se, ao contrário, resolvêssemos relatinizar nosso vocabulário vernáculo? Provavelmente galinheiro viraria galinário, abelha seria apícula, devolver se tornaria devoluir, engarrafamento seria imbuticulamento, cabeça daria capícia, escorregar seria excorricar, caderno passaria a quaterno, criança viraria creância, arrepio seria horripílio, coelho se tornaria cunículo, sujo daria súcido, geladeira glaciário, vassoura versória, deitar dejectar e, o que é pior, empregada seria implicada.

Bom ano a todos!

A história da palavra “Natal”

Que Natal tem a ver com nascimento, todos sabemos. No entanto, estamos tão acostumados a ver essa palavra associada ao nascimento de Jesus Cristo que a longa história desse termo acaba obscurecida. Por isso, vale a pena revisitá-la.

O latim natalis surgiu como adjetivo derivado do substantivo natus, “nascimento”, mediante o sufixo -alis. Portanto, significava “relativo ao nascimento”. Exemplos desse uso são as expressões natalis humus, “terra natal”, e natale solum, “solo natal”, ambas referentes à pátria (também chamada de natio, “nação”, do mesmo radical). Nesse mesmo sentido, temos também dies natalis, o dia do nascimento de alguém (por isso, o aniversário natalício, que aqui no Brasil reduzimos para aniversário, chama-se em Portugal natalício). Finalmente, natale astrum é o astro que preside ao nascimento, portanto relacionado aos signos do zodíaco.

Aqui cabe mencionar que o substantivo natus deriva do radical do particípio natum, do verbo nascor, “nascer”, que por sua vez remonta à raiz indo-europeia *ĝenh1, cujo grau zero (isto é, sem a vogal) acrescido do sufixo incoativo -sk- deu *gnasco em latim arcaico e nascor no clássico. Do mesmo grau zero com redobro do radical saiu gigno, “gerar, parir”. Logo, nascor significava originalmente “ser gerado”. Da mesma raiz indo-europeia temos também o grego génesis, “criação, geração”, palavra de grande simbolismo.

Mas o adjetivo natalis passou a atuar também como substantivo comum, num processo chamado conversão (ou derivação imprópria). É que dies natalis foi reduzido a natalis por economia linguística (assim como o já citado “aniversário natalício” encolheu para “natalício”). E, nessa acepção, natalis era o dia do nascimento de uma pessoa, o próprio ato de nascer e ainda o ano da fundação de Roma.

Mas natalis ganharia ainda dois outros empregos pagãos antes de ser incorporado pelo cristianismo: como designativo do gênio ou deus que preside ao nascimento de uma pessoa e a acompanha durante toda a vida (algo como o nosso anjo da guarda) e como nome próprio masculino (em português também temos pessoas chamadas Natal).

Mas foi na acepção de “nascimento” que Natalis se especializou como denominativo do nascimento de Jesus e, por conseguinte, da festa cristã que comemora esse evento. Tanto que jamais usamos tal substantivo fora desse contexto, para falar do nascimento de outras pessoas que não a figura central do Cristianismo.

Dito isto, só me resta agora desejar votos de felicidades a todos os amigos leitores e seguidores do nosso blog e do nosso canal no YouTube que nos acompanharam ao longo de mais um ano. Feliz Natal!

A origem do nome “Jesus Cristo”

Já que estamos a exatamente uma semana do Natal, festa máxima da cristandade, gostaria de fazer um comentário sobre o nome do principal personagem dessa comemoração: Jesus Cristo.

Quando eu era criança, achava que Cristo era o sobrenome de Jesus, algo assim como Jesus da Silva ou Jesus Pereira. Mais tarde, aprendi que Cristo é um epíteto dado a Jesus e significa “ungido” em grego. Mas qual era o verdadeiro nome de Jesus? Como judeu que era, ele tinha um nome aramaico (o aramaico, derivado do hebraico, era a língua falada pelos judeus do século I da nossa era): Yehoshua (ou Yeshua) ben Youssef, isto é, Josué, filho de José.

Mas Jesus também era conhecido como Jesus de Nazaré, ou Jesus o Nazareno, em razão de sua cidade de origem. Ao ter sido batizado no rio Jordão e reconhecido como o mensageiro de Javé que viera libertar o povo judeu da opressão romana (Yehoshua significa “Javé salva”), Jesus recebeu o epíteto de Mashiach (“Messias”), que em hebraico quer dizer “ungido”. Como o Novo Testamento foi redigido num grego tardio chamado koiné, o nome Yeshua Mashiach foi traduzido para Iesoûs ho Khristós, literalmente “Jesus o Ungido”.

À medida que o Cristianismo se disseminou por Roma, chegando ao ponto de assumir o latim como sua língua oficial, o nome grego de Jesus foi latinizado para Iesus Christus (o latim não tem artigos), donde o português Jesus Cristo, o espanhol Jesucristo, o inglês Jesus Christ, e assim por diante. Mas, se “ungido” em latim é unctus, por que Jesus não ficou conhecido em Roma como Iesus Unctus? É que o prestígio da língua grega em Roma era muito grande, e o fato de os Evangelhos terem sido escritos em grego pesou decisivamente para que o epíteto grego Khristós não fosse traduzido, mas apenas adaptado para Christus. Por essa razão, mesmo os cristãos falantes do latim chamavam seu mestre de Christus e não de Unctus, o que, diga-se de passagem, foi ótimo. Já pensaram se a figura central do Cristianismo se chamasse Jesus Unto?

O estigma das palavras

Muitos criticam a adoção de certas palavras, especialmente verbos terminados em ‑izar, como disponibilizar, penalizarrelativizar, absolutizar e vitimizar, sob o argumento de que são desnecessárias, já que a língua dispõe de outros vocábulos, mais simples e tradicionais, para expressar os mesmos conceitos. Na opinião desses críticos, em vez de disponibilizar, devemos empregar oferecer; em lugar de penalizar, punir, e assim por diante.

A questão oculta por trás dessa argumentação não é propriamente se tais palavras são de fato ociosas, já que existem sinônimos para elas. Afinal, sinônimos nunca são demais: sempre precisamos deles, nem que seja para tornar menos monótona a redação. Oferecer, ofertar, disponibilizar, com certeza há lugar para todas essas palavras na língua. Então, por que o uso desses termos incomoda algumas pessoas?

A meu ver, há algo de ideológico nisso. Certas expressões têm alta frequência de uso em algumas épocas e em determinados grupos sociais ou profissionais. Assim, na década de 1960 qualquer coisa muito boa ou que cumprisse muito bem suas funções estava “inserida no contexto”. Nos anos 1980, explicação que se prezasse tinha de ser iniciada por “Veja bem”. Certos modismos são odiados justamente por ser modismos, o que revelaria falta de personalidade ou estilo por parte de quem os usa. Muitos deles são, aliás, deformações do jargão acadêmico ou da linguagem especializada, o que os tornaria ainda mais caricatos – por exemplo, “enquanto” e “a nível de” no sentido de “como”: “o homem, enquanto ser social”, “a nível de espécie animal, o ser humano…”. (“A nível de” ainda tem contra si a antipatia dos gramáticos, que condenam tal expressão, preferindo “em nível de”.)

Talvez seja esse o caso de disponibilizar, absolutizar, etc. Do ponto de vista morfológico, não há nada de errado com essas palavras: se o sufixo ‑izar significa “tornar”, então disponibilizar é tornar disponível, absolutizar é tornar absoluto, e assim por diante. O problema é que esses termos surgem em determinados meios (empresarial, publicitário, econômico) e se tornam emblemáticos dessas atividades. Tornadas assim palavras-emblema, elas passam a carregar o estigma das profissões que as ostentam como senha. Se desacredito dos economistas e de suas mirabolantes previsões, o jargão econômico se transforma em “economês”, língua de empulhação, destinada a ludibriar a opinião pública. E, portanto, seus termos passam a ser emblemas dessa empulhação.

Há também a falsa erudição. Sendo termos nascidos em algum jargão técnico, disponibilizar, relativizar, etc., conferem a quem os pronuncia um status de pessoa letrada, de nível superior. O abuso dessas formas como índice de cultura é o que gera a caricatura.

Infelizmente, no próprio discurso letrado, o vazio de ideias acaba preenchido por uma pletora de vocábulos-emblema. Em textos acadêmicos, é comum lermos que “este artigo procura lançar um olhar sobre”, “é preciso tornar o aluno sujeito de seu próprio processo de ensino-aprendizagem”, etc. etc. O costume de lançar olhares em vez de simplesmente analisar,examinar, estudar, bem como o emprego de palavras e construções que revelem algo da ideologia do autor (por exemplo, termos como inclusão, resgate da cidadania, dívida histórica, situação de risco social, ação afirmativa fazem parte de certas agendas político-partidárias), nos predispõe imediatamente contra ou a favor da argumentação subsequente, pois, de cara, percebemos tratar-se de um texto desta ou daquela linha ideológica.

O mesmo raciocínio vale para as investidas eugenistas contra certos vocábulos, como homossexualismo, ao qual os puristas querem contrapor homossexualidade, alegando o caráter mais neutro do sufixo ‑dade. Ora, não existem termos neutros na linguagem, tudo tem conotações, a própria busca da neutralidade emblematiza (gostaram?) uma postura ideológica, a do igualitarismo radical.

Se fôssemos usar esse critério em todos os casos, a astrologia deveria chamar-se astromancia, pois ‑logia é elemento que denota ciência, e a astrologia é uma adivinhação (‑mancia) baseada nos astros. Pelo mesmo motivo, a neurociência deveria ser neurologia, e a especialidade médica que hoje conhecemos por neurologia deveria ser neuriatria. A própria tecnologia não é a ciência que estuda a técnica, mas o conjunto de técnicas fundadas no conhecimento científico. Portanto, deveria ser chamada de logotecnia ou logotécnica. Os exemplos poderiam estender-se ao infinito.

O fato é que a língua se pauta menos pela lógica do que pelo uso. Se alguém propõe um novo termo, por menos razoável que seja (e o que há de razoável em chamar radar de trânsito de pardal?), e ele “pega”, não há o que fazer. Criticá-lo, combatê-lo, incitar as pessoas a boicotá-lo, nada disso dá resultado e só revela o lado rancoroso de alguns falantes, que se comprazem em estigmatizar (eita nós!) a fala alheia.

Desigualdades sociais, desigualdades linguísticas

Toda sociedade complexa é bastante heterogênea, porque formada de indivíduos muito diferentes entre si. E essa diferença, que em princípio seria apenas de natureza, logo tende a tornar-se de valor. O Brasil, que, segundo dados recentemente divulgados, é a quarta nação mais desigual da América Latina, vive uma verdadeira luta de classes, permeada por todo tipo de preconceito e intolerância. E o que vale para a desigualdade social vale para a diversidade linguística, vista entre nós também como desigualdade: assim como há classes sociais dominantes e dominadas, certas variedades linguísticas são tidas como superiores, outras como inferiores.

Diante da desigualdade social, há três atitudes políticas possíveis: uma atitude conservadora, que procura manter tudo como está e estimula o preconceito contra os menos favorecidos; uma atitude pseudoprogressista,que valoriza a carência e trata a pobreza como virtude, como se ignorância,subnutrição, falta de recursos, fome e desestruturação familiar fossem um patrimônio cultural a ser preservado; e, finalmente, uma atitude verdadeiramente progressista que, reconhecendo o problema, procura saná-lo,atuando para que os pobres possam pouco a pouco sair da pobreza e usufruir os mesmos bens da civilização que as elites.

Em termos de língua, a atitude conservadora consiste em tachar aqueles que não dominam a norma culta como ignorantes e analfabetos,exercendo sobre eles o famoso preconceito linguístico (cerceamento do acesso a direitos, exclusão social, chacota, etc.), mas nada fazendo para mudar a situação. Já pseudoprogressista é afirmar que todas as variedades linguísticas,inclusive as de menor prestígio, devem ser respeitadas e estimuladas, que não se deve corrigir o aluno que diz “menas” ou “pobrema”, e que é legítimo que cada um fale como queira ou possa em qualquer situação. Esse tipo de atitude se assemelha muito a certas políticas demagógicas que, a pretexto de tirar crianças carentes de situações de risco, as ensinam a tocar tambor ou a cantar funk proibidão sob a alegação de que se trata de uma forma de inserção social e de incentivo à cultura. Resta saber em qual sociedade essas crianças serão inseridas e que tipo de cultura é essa que se está incentivando?

Realmente progressista num caso como esse não seria dar às crianças a possibilidade de aprender música de qualidade (um instrumento melódico, partitura, solfejo)? Não seria dar-lhes a chance de ter acesso a outras realidades (musicais, culturais e sociais) que abram sua cabeça e as portas de uma vida mais feliz e mais plena, inclusive de oportunidades?

Infelizmente, para certos setores que se dizem de esquerda (mas cuja ideologia de endeusamento da miséria – principalmente da espiritual – é de fato reacionária, já que só faz preservar a penúria), a pobreza é uma virtude (talvez porque renda votos) e o importante é elevar a autoestima do cidadão carente e não libertá-lo da carência.

Não há dúvida de que os pobres merecem respeito como cidadãos e seres humanos, mas respeitá-los em sua pobreza é uma coisa, tentar resgatá-los dessa condição é algo bem diferente.

Que a língua varia todos sabemos e a linguística já o provou há muito tempo: é uma verdade científica. Que a variação linguística é coextensiva da heterogeneidade social também já está provado. E, assim sendo, a variedade é natural (porque pessoas diferentes não podem se expressar de modo igual), irreprimível (pois não há como obrigar todos os cidadãos a ter um mesmo comportamento) e benéfica para a comunicação, já que só se pode dar conta de determinadas experiências em certas variedades. Também é fato que a diversidade linguística é um prato cheio para os cientistas da linguagem. Mas isso não quer dizer que os linguistas sejam contra a escolarização e o ensino da norma culta nas escolas – ainda que com todas as críticas que nossa gramática normativa merece e tem recebido. Dizer que “nós foi” e “teje” é algo que deva ser preservado e que reprimir tais usos com intuito educativo é intolerância linguística constitui uma postura obscurantista. Assim como o desejável não é respeitar, mas sim erradicar a pobreza, dando aos excluídos a possibilidade de ascender socialmente por meio da educação, o verdadeiro progressismo está em levar a todos o conhecimento das formas mais prestigiosas da língua, até para que se possa decidir com bom senso em que momento usá-las ou não. Do contrário,estaremos ensinando crianças carentes a bater tambor e a gostar de funk sob a alegação de que piano e violão são instrumentos pequeno-burgueses e de que Beethoven e Tom Jobim representam a música das elites dominantes e opressoras.Ou seja, em nome de um esquerdismo de salão, estaremos é sendo fascistas.

A cultura da evolução livre

Por muitos séculos, um desvio da norma gramatical foi considerado um erro e ponto final. A sociedade dividia-se, portanto, entre os que sabiam falar a própria língua e os que não sabiam.

Com o advento da linguística evolutiva, da sociolinguística e sobretudo dos estudos de William Labov sobre variação, o chamado erro gramatical passou a ser visto como um fato natural da linguagem. Remonta, por sinal, aos linguistas histórico-comparativos do século XIX o lema de que o erro de hoje poderá ser a norma gramatical de amanhã.

No entanto, essa visão mais benevolente do desvio levou em alguns casos a uma confusão entre erro e evolução: o desvio pode vir a tornar-se norma, mas não necessariamente se tornará. Como numa reação contra séculos de doutrinação gramatical e estigmatização da fala dos menos instruídos, alguns teóricos passaram equivocadamente a supervalorizar o erro e a relativizar a importância da língua padrão.

Acontece que a dinâmica da evolução linguística é mais complexa do que parece à primeira vista. A língua se apoia numa tensão dialética entre a conservação e a mudança: a todo momento, por força do próprio uso, algo muda na língua, mas a maior parte de seus elementos se conserva. Se nada mudasse, a língua seria estática, a fala ficaria “engessada”, e o sistema rapidamente rumaria para a obsolescência; se tudo mudasse o tempo todo, ninguém mais se entenderia.

As forças da conservação e da mudança travam uma queda de braço permanente: toda inovação, seja ela lexical, sintática ou semântica, gera uma nova forma que tem de competir com as já existentes. Essa luta pode se arrastar por décadas ou séculos. Ao final, a forma inovadora pode derrotar as até então estabelecidas, assim como pode acabar derrotada por elas, isto é, abandonada, como é o caso de muitas gírias efêmeras.

Recorrendo mais uma vez à metáfora biológica, a inovação linguística (incluindo o “erro” gramatical) é como uma mutação genética. Toda mutação surge num pequeno número de indivíduos; se estes conseguirem transmitir o gene mutante às gerações seguintes, e se a característica física determinada por ele for vantajosa à sobrevivência, esse traço possivelmente se espalhará por cada vez mais indivíduos, de modo que, após muitas gerações, o gene mutante, até então recessivo, se tornará dominante.

girafas

No passado, todas as girafas tinham pescoço curto. Os primeiros espécimes a nascer com pescoço longo eram, portanto, um “erro” da natureza. Mas como essa aparente aberração permitia apanhar folhas e frutos das árvores mais altas, tais indivíduos logo passaram a ter uma vantagem competitiva em relação aos seus pares de pescoço curto. Com o tempo, a maioria das girafas de pescoço comprido sobreviveu e se reproduziu, enquanto as de pescoço curto morreram antes de deixar descendentes. Por isso, as girafas atualmente têm pescoço longo: trata-se do resultado de um lento processo de seleção natural, em que o erro virou norma.

Consequentemente, a mutação não se confunde com a evolução, ela é apenas o primeiro passo de uma possível evolução – isso se a mutação vingar: a maioria delas gera apenas indivíduos defeituosos e sem condições de sobrevivência.

Há ainda outro aspecto a ser considerado: na selva, a evolução biológica segue as leis do acaso e da seleção natural espontânea, logo é um processo aleatório. Já numa fazenda, as espécies estão sujeitas a um melhoramento genético artificial promovido pelos criadores/plantadores, que interferem no curso natural da evolução a fim de produzir espécimes mais resistentes a pragas e doenças ou mais nutritivos.

Do mesmo modo, a fala popular, assim como as línguas ágrafas e os dialetos, evolui de modo livre; já as chamadas línguas de cultura (dotadas de escrita formal) estão sujeitas à engenharia genética operada por escritores, jornalistas, intelectuais, gramáticos e professores.

Num primeiro momento, a forma não padrão (errada, segundo a gramática normativa; recessiva, em termos evolucionários) constitui uma mutação que deve competir com a forma culta estabelecida (que um dia também foi recessiva). Se ela se disseminar por cada vez mais falantes e for aumentando de frequência a cada nova geração, chegará o dia em que escritores e outros formadores de hábitos linguísticos passarão a empregá-la de modo corrente. Quando isso ocorre, os gramáticos acabam por render-se ao triunfo dessa forma e passam a aboná-la ao lado da já consagrada. Num momento seguinte, a forma até então dominante poderá ter seu uso diminuído até tornar-se um arcaísmo e, por fim, sair do sistema (é a extinção dessa forma). Somente ao final desse processo a evolução linguística estará concluída.

Em resumo, o desvio da norma, incluindo o chamado erro gramatical, não é bom nem mau – nem uma evidência da inferioridade intelectual do povo nem um instrumento de luta contra as classes dominantes –, é apenas um fato natural a ser estudado cientificamente.

Para que serve o Enem afinal?

Este mês, tivemos mais uma edição do Enem, ou Exame Nacional do Ensino Médio. Esse exame cresce a cada ano em número de participantes e já é a principal porta de entrada para as universidades brasileiras. Porém, quando foi criado, em 1998, o Enem tinha por objetivo avaliar a qualidade do ensino médio, tanto público quanto privado, em nosso país. Assim como o Enade, a Prova Brasil e outros mecanismos de mensuração qualitativa, o Enem visava permitir o planejamento a médio e longo prazos de políticas para a educação, apontando deficiências e permitindo a comparação do desempenho dos estudantes (e, por tabela, da qualidade das escolas) entre estados, municípios e até entre o Brasil e outros países, que também fazem suas medições periódicas.

No entanto, desde 2009, quando a nota do aluno no Enem passou a ser aceita como parte do processo seletivo para ingresso em universidades públicas e privadas, esse exame se tornou um megavestibular, em que o candidato concorre a vagas em várias instituições ao mesmo tempo.

Se, por um lado, isso foi benéfico aos estudantes que concluem o ensino médio e pretendem seguir seus estudos na universidade, já que podem prestar um único exame em vez de ter de se submeter a inúmeros concursos, por outro lado, essa nova função do Enem o descaracterizou como um instrumento de medida da qualidade do ensino secundário, pois, assim como já acontecia com os vestibulares tradicionais, hoje o aluno faz cursinho para se preparar para o Enem (e isso alimenta a milionária indústria dos cursinhos). Portanto, o que se mede atualmente através do Enem não é a qualidade do ensino médio, mas a capacidade dos cursinhos de ensinar macetes que permitam ao candidato um bom desempenho na prova – mesmo que a sua trajetória acadêmica até então tenha sido medíocre. Qualquer conclusão que se tire do resultado desse exame não retratará com exatidão a realidade da educação básica brasileira, mas talvez a dos cursinhos pré-vestibulares, instituições de ensino paralelas, não oficiais e não reconhecidas pela legislação educacional.

Ao mesmo tempo, o Enem não deixa de ser um exame vestibular, que, como todos os outros, faz com que o estudante tenha de decidir em poucas horas todo o seu futuro: se será um profissional de nível superior ou se ficará no nível médio; se fará uma carreira em ciências ou em humanidades, se atuará no mercado ou no magistério, e assim por diante. A grande crítica que sempre se fez a esse tipo de processo é que não se pode avaliar por uma única prova toda a trajetória escolar de uma pessoa; afinal, o insucesso num exame pode ser fruto de nervosismo ou indisposição física e não necessariamente de falta de preparo. Consequentemente, o aluno pode perder um ano de vida por causa de uma simples dor de cabeça ou do atraso causado por um pneu furado.

É por essa razão que muitos países do Primeiro Mundo substituem o vestibular ou qualquer outra prova eliminatória por uma análise do histórico escolar do estudante: as notas que recebeu ao longo de toda a sua passagem pela educação básica é que dirão quão apto ele está para prosseguir seus estudos em nível superior. É claro que esse sistema também acarreta problemas. No Japão, não são raros os casos de suicídio de estudantes após uma nota baixa, que com certeza pesará negativamente em seu histórico escolar, fechando para sempre as portas das grandes universidades para esses alunos.

Além disso, no caso específico do Brasil, em que sobretudo o ensino básico público é muito fraco, até que ponto as notas que o estudante obteve em determinada disciplina refletem realmente o quanto ele absorveu de seu conteúdo?

Enfim, ainda não foi inventado o sistema ideal de avaliação de cursos nem o de admissão às universidades. Só temo que, com o dinheiro envolvido na indústria da preparação para o Enem, as distorções na nossa política educacional sejam cada vez maiores.

A ciência do gosto

Outro dia, estava participando de um bate-papo em uma rede social quando veio à baila a questão do preconceito de uma suposta elite socioeconômica contra certas formas de expressão artística mais populares, ou popularescas – para falar português claro, bregas. Aí se incluiriam gêneros musicais como o sertanejo universitário (até hoje não entendi o que há de universitário nesse tipo de música), o pagode, o forró (igualmente universitário), a axé music, bem como as telenovelas mexicanas, os livros de Paulo Coelho, e por aí vai.

A tese de um dos debatedores era que há um preconceito por parte “da zelite” que têm dinheiro e estudo contra as formas de expressão do “povão” e que o gosto é uma construção social e cultural, sendo, pois, arbitrário, de modo que, por via de conclusão, a pecha de brega não se justifica, sendo mera perseguição simbólica daqueles que podem mais contra os que podem menos.

Essa história de que tudo é construção social, de que nada no ser humano é natural, é uma tese muito cara às chamadas ciências sociais (sociologia, história, política, etc.), mas que, as mais das vezes, não tem base científica alguma; pelo contrário, a ciência demonstra que a biologia quase sempre se sobrepõe à ideologia.

Deixando de lado o fato de que por trás dessa cultura extremamente popular está uma indústria milionária, cujos agentes (empresários, produtores, artistas) estão mais para elite do que para povo, o fato é que há muito tempo a filosofia e a ciência vêm se perguntando se o belo é uma convenção social, que portanto muda de sociedade para sociedade e de época para época, ou se é algo universal, que obedece às mesmas leis e critérios em todas as sociedades e em todas as épocas.

Aristóteles já havia se debruçado sobre a questão há 2.300 anos na sua Arte Poética. Antes dele, Sócrates e Platão também já haviam se perguntado sobre o que torna algo belo. A indagação perpassou a Idade Média, Renascença e Idade Moderna. Mas a ciência atual lançou alguma objetividade sobre o tema de modo a mostrar que beleza não é mera questão de gosto, mas o próprio bom-gosto pode ter raízes em nossa biologia.

Em primeiro lugar, descobriu-se que algo não é considerado de bom-gosto porque é apreciado pelas classes mais altas da sociedade, mas bem o contrário: os estratos superiores, por deterem o maior conhecimento, é que apreciariam o que é de fato bom. Isto é, a sensibilidade estética decorreria de um refinamento dos sentidos proporcionado pelo estudo, proporcionado por sua vez pelo dinheiro. Seja como for, dá-se um círculo virtuoso em que o refinamento intelectual busca o bom-gosto, e este gera mais refinamento.

Em segundo lugar, foram conduzidos experimentos com o objetivo de determinar se o sentido do belo é universal ou varia segundo parâmetros puramente culturais. Por exemplo, estudiosos pediram que voluntários dos mais diversos países e backgrounds culturais, divididos por gênero, idade, nível de escolaridade, classe social, etc., observassem fotos de rostos e apontassem aqueles que achavam bonitos. Havia rostos de todos os tipos: de homens, mulheres, crianças, brancos, negros, amarelos, jovens, velhos, e assim por diante. A pesquisa concluiu que os rostos escolhidos pela maioria dos voluntários tinham algo em comum: a simetria e proporcionalidade das feições. Mais ainda, os rostos mais belos na opinião das pessoas submetidas à experiência eram aqueles que melhor se enquadravam na chamada proporção áurea.

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A proporção áurea

Em termos matemáticos, a proporção áurea é a que se tem quando o lado menor de um retângulo está para o maior assim como este está para a soma dos dois. De modo mais geral, temos essa proporção quando a parte menor está para a maior assim como a maior está para o todo. Por sinal, um exemplo clássico de beleza corporal que baliza os artistas plásticos desde o Renascimento é o chamado homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, desenho em que se pode perceber as partes do corpo humano obedecendo claramente à proporção áurea.

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O homem vitruviano, de Da Vinci

Outro experimento lidou com combinações de cores. Pedia-se aos voluntários, igualmente possuidores dos mais diversos perfis, que fizessem combinações entre cores previamente dadas. Ao final, certas combinações prevaleceram sobre outras. Por exemplo, as que uniam uma cor quente, isto é, tendente ao vermelho, e uma cor fria (tendente ao azul) eram preferidas às que uniam duas cores quentes ou duas frias. Combinações entre tons claros e escuros também foram preferidos a combinações mais monótonas.

Outros tantos experimentos manipularam sons, vozes humanas, objetos bi e tridimensionais, texturas e muito mais. Aplicados à estética, esses resultados indicam que o bom-gosto está ligado ao equilíbrio, à simetria, à regularidade. Isso não quer dizer que uma forma assimétrica não possa ser bonita: a arte moderna rompeu em grande parte esse paradigma. No entanto, esse tipo de arte apela para outro dado igualmente importante quando se trata da criação artística: o efeito-surpresa. Nosso cérebro foi programado para prever eventos; e ele o faz baseado em experiências anteriores memorizadas. Por exemplo, se lemos uma frase como “Ele passou ___ no pão”, temos a tendência natural de completar a lacuna com palavras tais como “manteiga”, “geleia”, “margarina”, etc. De repente, se a lacuna é preenchida com a palavra “graxa”, nossas ondas cerebrais, monitoradas por um aparelho de eletroencefalografia, apresentarão um comportamento anormal, o que não acontece se a palavra oculta fosse “manteiga”, por exemplo. É que nossa mente reage ao que não espera. É isso que torna uma anedota engraçada: um final surpreendente, que contraria nossa expectativa. Diante dessa quebra de expectativa, desse estranhamento, temos a reação instintiva de rir. O elemento-surpresa é também fartamente explorado por narrativas de suspense e terror, mas, de forma geral, toda boa história tem enredo e sobretudo desfecho pouco óbvios.

Um terceiro elemento frequentemente ligado à sensação do belo é a complexidade. Embora também se possa encontrar muita beleza em coisas simples, a complexidade instiga nossa mente e aguça nossa curiosidade. Está aí a chave do prazer que nos causam os quebra-cabeças, as estórias policiais, os arabescos, a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach…

O que se pode dizer da arte popularesca é que, de modo geral, ela vai na contramão desses princípios: uso e abuso de clichês, desfechos óbvios, rimas pobres e previsíveis (como “sorte” e “morte” ou “paixão” e “coração”), repetição de fórmulas desgastadas, que um dia foram originais mas não são mais, e outros truques semelhantes.

Se a mente treinada pelo estudo e pela exposição ao maior número possível de experiências sensoriais busca a harmonia combinada à originalidade e à elaboração formal, o intelecto simplório das pessoas que não tiveram a oportunidade de viver experiências mentais instigantes se sente confortável diante do já conhecido, da expectativa não frustrada, da facilidade de decodificação, da oferta de mais do mesmo. E a indústria cultural de massas sabe bem disso (há inclusive especialistas da academia trabalhando para ela) e explora esse tipo de cultura à exaustão.

Portanto, deixando de lado o preconceito dos que preferem música clássica, jazz ou MPB à música brega, o fato é que os gêneros mais “elitizados”, digamos assim, de arte forçam nosso cérebro a formar novas conexões neuronais, ao passo que a arte mais popular e simplista apenas reforça as conexões já formadas. Dito de outro modo, a mente desafiada se torna mais inteligente, e a mente inteligente busca sempre mais desafios. É claro que, no frigir dos ovos, gosto não se discute, e há obras para todos os gostos. Mas bom-gosto se aprende, e todo gosto, seja ele bom ou mau, se pode estudar cientificamente.

Dia das Bruxas ou dia sagrado?

O espírito do Halloween conquistou definitivamente o Brasil, mesmo contra a vontade de alguns puristas que torcem o nariz para a importação de costumes. Já eu tendo a ver esse fenômeno com a mesma naturalidade com que nós brasileiros consumimos macarronada ou sushi: nenhuma cultura é impermeável ao empréstimo de práticas, costumes ou palavras. Tanto que a designação “Halloween” é mais popular entre nós do que “Dia das Bruxas” (uma pesquisa ao Google em português retorna mais de um bilhão de ocorrências da primeira contra 1,14 milhão da segunda).

Mas de onde veio essa denominação? Halloween (ou Hallowe’en, como também se escreve) é uma corruptela do inglês All Hallow Even, “Véspera de Todos os Santos”. É que o Dia das Bruxas cai na véspera do Dia de Todos os Santos (1º de novembro) e na antevéspera de Finados. Even é a forma arcaica de evening, “noite”, cognata de eve, “véspera” (isto é, a noite anterior, do latim vesper, “tarde, anoitecer, noitinha”). E hallow quer dizer “santo” na língua escocesa (sim, existe uma língua escocesa, chamada Scots, tida por muitos como um dialeto do inglês).

Em inglês, hallow subsiste apenas como o verbo “santificar”, cognato do alemão heiligen, de mesmo significado. E todos esses termos radicam no indo-europeu *koilos, “íntegro, intacto, puro” e, por extensão, “sagrado”, termo que também gerou o latim coelum, “céu”.

Quanto à intimidadora frase “Doces ou travessuras!”, pronunciada pelas crianças fantasiadas de bruxos ao bater à porta das casas, trata-se de uma tradução do inglês Trick-or-treat, brincadeira em que as crianças vão de casa em casa pedindo doces. Se o morador disser treat, isto é, “guloseima”, deve atender ao pedido das crianças, dando-lhes doces; se disser trick, “travessura”, deverá arcar com as consequências, que podem ir de um simples susto com as caretas e máscaras dos pequenos até transtornos como ter a fachada da casa recoberta de papel higiênico ou de spray de espuma colorida.

Como a expressão inglesa Trick or treat! contém uma deliciosa aliteração, o mais adequado em português seria usarmos “Gostosuras ou travessuras?”, que, pelo jeito, não pegaria por ser muito longa.

O fato é que não importa se essa tradição nos chegou por via norte-americana, o que importa é que veio para ficar e tem proporcionado muita alegria às crianças – afinal quem não gosta de ganhar doces?

O Brasil que tem sotaque

O título deste artigo é propositalmente provocativo. Afinal, sotaque, todo mundo sabe, é aquela pronúncia que nós não temos, pois só os outros é que têm, certo? Ou seja, falando sério agora, todo indivíduo tem uma pronúncia da língua que é característica da sua região, da sua geração e da sua classe social. No entanto, há uma tendência chauvinista de achar que a nossa pronúncia, seja ela qual for, é que é a correta e aquelas que diferem muito da nossa são feias e erradas.

Obviamente, não há pronúncias certas ou erradas (desde que respeitem a grafia das palavras, é claro) nem muito menos feias ou bonitas, já que beleza ou feiura é questão de gosto. O que há em todas as línguas de cultura é a chamada pronúncia padrão, geralmente um misto das pronúncias mais prestigiadas, que, por sinal, costumam ser as dos maiores e mais influentes centros urbanos. A pronúncia padrão é aquela que mais costumeiramente se ensina aos estrangeiros e também a mais utilizada na mídia, por atores, locutores, jornalistas, apresentadores de televisão, etc. É, enfim, aquela que mais comumente se atribui aos cidadãos de um determinado país.

Portanto, o Brasil também tem uma pronúncia padrão da língua portuguesa aqui falada. Consequentemente, embora todos tenhamos nossa própria maneira de pronunciar, costuma-se dizer que têm sotaque aqueles cidadãos cuja pronúncia mais se distancia do padrão.

Nesse sentido, os “sotaques” brasileiros mais conhecidos são o caipira, o nordestino e o sulista, todos os três bastante estigmatizados pelas classes urbanas cultas do Centro-Sul. Exemplo disso é o uso desses sotaques para caracterizar personagens humorísticos. Enquanto isso, a pronúncia padrão, que seria um misto das pronúncias urbanas do Sudeste, corresponde mais ou menos ao que se ouve entre os falantes cultos nativos de Brasília, Vitória ou Belo Horizonte, mas que inclui também a fala culta das capitais do Sul e Centro-Oeste. Quanto ao sotaque carioca, apesar de seu prosaico chiado, também é tido como padrão por ser o Rio de Janeiro o segundo maior centro urbano do país e por dois séculos sua capital. Além disso, a maior parte da produção audiovisual brasileira sai de terras fluminenses.

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Dos três sotaques estigmatizados que citei acima, o sulista, com seu erre trinado e com seu e e o finais átonos destacados (imagine um paranaense pronunciando “docê dê leitê”), e o caipira, com seu erre retroflexo, são pronúncias predominantemente rurais e mais frequentes entre os menos escolarizados. Ou seja, a população culta das grandes cidades do Sul e de São Paulo, sul de Minas e do Centro-Oeste tende a falar mais ou menos de acordo com a pronúncia padrão do português brasileiro.

É claro que em todas as regiões, sobretudo nas grandes metrópoles, há “guetos linguísticos”, isto é, áreas urbanas que conservam um sotaque característico, como o das periferias de São Paulo, que virou padrão dos rappers, cujo erre “caipira” é cem por cento urbano, ou o da Mooca, também em São Paulo, com sua entonação tipicamente italiana.

Mas é o sotaque nordestino o que mais chama a atenção porque é a única pronúncia não padrão usada por todos, dos analfabetos aos doutores, na cidade e no campo. Mas, antes de falar do sotaque nordestino, é preciso explicar exatamente do que isso se trata. Acontece que o Brasil está dividido em quatro regiões dialetológicas (essa divisão leva em conta principalmente os aspectos fonético e lexical). A primeira região, chamada meridional, se estende a partir do Estado de São Paulo e sul de Minas Gerais (incluindo o Triângulo Mineiro) para todo o Sul e Centro-Oeste do Brasil, com exceção do Distrito Federal; por sinal, foi de São Paulo que saíram os bandeirantes que colonizaram toda essa região, o que explica a similaridade de pronúncias. A segunda região, chamada de central, inclui Rio de Janeiro, Espírito Santo, centro e norte de Minas Gerais e o Distrito Federal. Este último constitui um enclave da pronúncia central dentro do Centro-Oeste, explicado pela recente construção de Brasília, com a migração para lá de muitos brasileiros do Sudeste e do Nordeste. A terceira região, setentrional, divide-se em duas sub-regiões: a primeira, que inclui todo o Norte, com exceção talvez de Rondônia e parte de Tocantins, engloba também em parte a Bahia e os Estados do Ceará, Piauí e Maranhão. Já a região que vai de Sergipe ao Rio Grande do Norte e, portanto, abrange Alagoas, Pernambuco e Paraíba, é a segunda subdivisão da região setentrional e constitui o núcleo do falar nordestino, onde o sotaque é mais puro e mais “carregado”, já que a outra sub-região é uma zona de transição entre os sotaques do Sudeste e os desse núcleo (perceba, por exemplo, as semelhanças entre o sotaque de Belém do Pará e o do Rio, ou entre o da Bahia e o do norte de Minas).

Embora todos os falares nordestinos tenham muito mais semelhanças entre si do que diferenças (por exemplo, o e e o abertos de émoção e córação), é nesse núcleo onde estão os nordestinos “da gema”, terra do cangaço, do forró, do jabá, da peixeira, dos cabras machos, da literatura de cordel e dos repentistas. É onde se pronuncia “tia” e “dia” sem nenhuma palatalização de t e d, traço característico da fala brasileira. É também onde mais frequentemente se ouvem coisas como nuvidade, tumate, pumada, Ricife, cunhicê, aparicê, biolugia, meteorulugia, inucente, corrúpito, corrupição, oitcho (isto é, “oito”), muitcho (“muito”), gochtcho (“gosto”), kæro (“quero”), contnua, vitma, ultmo, a rente tarra (“a gente tava”), aquela cidad’ali, cidad’do Rio, ũa, algũa, ninhũa, ãmar, agôra, ele não dir nada (“ele não diz nada”), dotôo, pudêe, cunzinha (“cozinha”), cãmíum (“caminho”)… É ainda o lugar onde muitas vezes “lá” e “na” soam como lhá e nha, onde o l entre vogais é mais velarizado, onde a voz é mais anasalada, e assim por diante.

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Fatores históricos e geográficos explicam as peculiaridades não só do sotaque nordestino mas da própria região Nordeste. Foi a primeira região a ser colonizada pelos portugueses, o que significa que a fala nordestina retém muitas características do português lusitano dos séculos XVI e XVII, ao passo que o português brasileiro do Centro-Sul espelha melhor a língua da corte portuguesa do início do século XIX, época da transmigração da família real para o Rio de Janeiro, somada à contribuição dos imigrantes europeus que aqui chegaram nos séculos XIX e XX.

Por essas e outras razões, o Nordeste se tornou uma região sui generis dentro do Brasil; há quem diga até que o Nordeste é outro país – o que o resultado destas últimas eleições não deixa de, até certo ponto, reforçar. De fato, a própria designação “nordestino” individualiza esse povo dentre os brasileiros. Afinal, embora também haja nortistas e sulistas, nunca se ouviu falar de sudestinos ou de centro-oestinos. Paulistas, cariocas e mineiros não têm entre si o espírito de fraternidade que têm os nordestinos de todos os Estados. Existe até o Dia do Nordestino, comemorado exatamente hoje, 8 de outubro, mas não um Dia do Sulista e menos ainda o Dia do Sudestino. Embora os sulistas também sejam muito ciosos de suas tradições, e por isso a região Sul do Brasil também tenda a diferenciar-se, a fala sulista, embora típica, está foneticamente menos distante do padrão geral brasileiro do que a nordestina, principalmente a da segunda sub-região setentrional (a “da gema”). Eu chegaria a dizer – mas é apenas a minha opinião pessoal – que essa pronúncia chega a constituir uma terceira variedade de português, distinta tanto da brasileira quanto da europeia. Tanto que os repórteres do Nordeste são praticamente os únicos a disfarçar o sotaque quando falam no rádio ou na TV (acho gritante, por exemplo, a diferença entre a pronúncia da repórter pernambucana da Globo e a das pessoas que ela entrevista).

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Resumo da ópera: todo falante tem sotaque, só que aqueles mais distanciados do que foi eleito como padrão são os mais estigmatizados e os que mais chamam a atenção de quem não é nativo das regiões onde eles são usados. Este é um fato do qual devemos ter consciência, mas contra o qual é inútil lutar, pois a variação regional (pomposamente chamada de diatópica pelos sociolinguistas) é um dado universal em termos linguísticos, isto é, existe, sempre existiu e sempre existirá em todas as línguas, em todas as nações.

A etimologia e as eleições

Estamos a menos de uma semana das eleições, e mais uma vez teremos um pleito marcado por tensão, ressentimento e ódio. Mas não é propriamente disso que quero falar. A etimologia das palavras relacionadas ao processo eleitoral é bastante sugestiva das metáforas cognitivas de que lançamos mão para falar de algo essencialmente moderno usando radicais linguísticos que remontam à Pré-História.

Embora “eleição” provenha do latim, e o português seja uma língua latina, essa palavra não existia no português arcaico, tendo sido introduzida posteriormente por via culta. Ela provém do latim electionem, caso acusativo (isto é, forma de objeto direto) de electio, com mutação fonética de ct para it e tradução do sufixo ‑tionem pelo correspondente vernáculo ‑ção. Ou seja, um falante culto do português em algum momento da Idade Média cunhou esse vocábulo por imitação da palavra correspondente latina, fazendo as devidas adaptações fonéticas e morfológicas para aclimatar o termo no português. Quem cunhou a palavra e quando é algo que não se sabe, pois só podemos recuar no tempo até o primeiro registro escrito de que dispomos, datado do século XIII, o qual pode não ter sido o original.

O fato é que o latim electio deriva do verbo eligere, por sua vez composto do prefixo ex, “fora”, e legere, “catar, colher”, provenientes respectivamente do indo-europeu *eks (ou *eghs) e *leg‑. (Para saber mais sobre o indo-europeu, assista ao vídeo A língua mais importante do mundo em todos os tempos no meu canal do YouTube.) Portanto, eleger alguma coisa é extraí-la de seu conjunto, como se faz quando se tira um grão de feijão de um saco.

Já “concorrer”, do latim concurrere, é literalmente “correr juntos” e referia-se à competição esportiva da corrida na Roma antiga. Até hoje a metáfora da competição, inclusive eleitoral, como uma corrida permanece ligada ao verbo “concorrer” e seus cognatos “concorrência”, “concorrente”, “concurso”, etc. A imprensa, por exemplo, volta e meia se refere à “corrida presidencial”.

“Voto” vem do latim votum, particípio do verbo vovere, “prometer, jurar solenemente, fazer um voto (de castidade, por exemplo), fazer votos (de felicidade, etc.)”. Do voto com sentido religioso passou-se ao voto político, que era pronunciado solenemente em voz alta no senado romano. Por sinal, “voto” é da mesma origem que “voz”, e em ambos os casos há a ideia de fala. Por isso mesmo, criou-se a expressão aliterativa “direito a voz e voto”.

Urna, na Roma antiga, era um vaso de gargalo estreito e bojo largo que servia para guardar água, óleo, cinzas e… votos. Por incrível que pareça, urna é da mesma origem que urina, e ambas remontam à raiz indo-europeia *wod‑, “água”, que deu water em inglês e vodka (a água que passarinho não bebe) em russo.

Finalmente, “candidato” vem do latim candidatus, aquele que se vestia de branco (candidus em latim) para concorrer a uma vaga no senado, pois a túnica branca era uma espécie de traje oficial dos políticos da época, assim como o terno hoje em dia. Candidus deu “cândido” e “candura” em português. E como o branco é a cor da pureza, uma pessoa cândida é uma pessoa pura, sem máculas de caráter. Já que cândido é branco, sem manchas, existe até um alvejante de roupas com essa marca. E a lição que fica é que os candidatos a cargos públicos deviam ser pessoas cândidas de caráter, isto é, políticos “ficha limpa”. (Será que eram mesmo?)

“Cândido” é da mesma origem de “candeia”, “candelabro”, incandescente”, “candente”, “incêndio”, etc. E todos provêm da raiz indo-europeia *kand‑, que quer dizer “brilhar”. Como o brilho resulta da luz, que na Pré-História só podia provir do fogo ou do Sol (que também é, grosso modo, uma bola de fogo), daí a relação entre a cor branca e o fogo, ambos dotados de brilho e resumidos na raiz *kand‑.

Como vemos, numa eleição há vestígios de conceitos imemoriais, como catar, correr, voz, vaso, água, brilhar, branco… Só não se pode dizer que haja pureza!

Boa eleição a todos!

Palavras estrangeiras inventadas em português

Parece incrível, mas no Brasil se inventam palavras… estrangeiras! Isso mesmo, não só enriquecemos constantemente o acervo léxico do português – e fazemos isso bem mais do que Portugal – graças às nossas gírias e às nossas mazelas (fumódromo, valerioduto, mensalão, petrolão, presidenciável, bolsa-estupro, brasiguaio são só alguns exemplos), como também empregamos termos estrangeiros com significado insuspeitado pelos legítimos criadores dessas palavras.

Na França, por exemplo, bombonnière é uma caixinha, geralmente de prata ou outro metal nobre, para guardar bombons; no Brasil, virou loja de doces. O cartaz publicitário de rua que conhecemos por outdoor em inglês se chama billboard. E game, que no Brasil é redução de videogame (isto é, videojogo), nos países de língua inglesa é qualquer jogo – futebol inclusive.

Alguns vocábulos têm história mais complexa. Handicap, que em inglês quer dizer “desvantagem, deficiência” (handicapped, por sinal, é “deficiente físico”), aqui no Brasil assumiu o sentido de vantagem, diferencial positivo. É que havia originalmente na Inglaterra um jogo de cartas chamado hand in cap (mão no gorro) em que se costumava esconder a mão dentro de um gorro ou boné para ocultar as cartas, especialmente se não se tinha uma combinação muito vantajosa (é o famoso blefe). A partir daí, passou-se a usar o termo handicap para designar competições em que alguns concorrentes, por ser mais fracos que os demais, começavam a prova já em vantagem. Portanto, vem daí a confusão entre o sentido original de “deficiência” e o de “vantagem”. Só que, nos países de língua inglesa, handicap é sempre deficiência, nunca vantagem. (Uma curiosidade: a própria palavra “vantagem”, do francês avantage, deriva de avant, isto é, sair em vantagem era dar a largada numa corrida já à frente dos demais.)

Outro termo bastante usado hoje em dia para denominar diferenciais positivos é plus (“Fazer esse curso pode dar um ‘plus’ na sua carreira”), de onde saiu o horrível pleonasmo “um ‘plus’ a mais”.

O universo da moda também é pródigo em palavras estrangeiras que ganharam novo significado entre nós. Exemplo disso é o termo fashion usado como adjetivo para designar o que está na moda (“Este batom é ‘fashion’”, “Comprei uma blusa super ‘fashion’”), quando em inglês, na mesma situação, se diz que algo é in (redução de in fashion, “na moda”).

Outra expressão típica da moda é “dar um up”, isto é, elevar a autoestima por meio de uma roupa ou maquiagem fashion. Não há em inglês nada parecido com give an up.

No Brasil, wafer é tanto o biscoito doce de massa fina, em geral recheado de creme, quanto aquele em forma de favo, que se come com doce de leite ou mel, e que muitos chamam de favo holandês, embora se origine da Bélgica. Só que, em inglês, o primeiro é realmente wafer, enquanto o segundo na verdade se chama waffle. Quem chamar waffle de wafer no exterior cometerá uma gafe.

Porém, o mais chocante são palavras estrangeiras usadas correntemente no Brasil e que efetivamente não existem em outras línguas – nem na suposta língua original. É o caso do nosso amado chope, que os bares em sua maioria ainda grafam chopp para ser mais fiéis às raízes germânicas da bebida. O problema é que essa palavra não existe em alemão. O que há é Schoppen, que significa “copo pequeno”. Ou seja, o nome do tipo de copo que se usa para beber cerveja tirada do barril (em alemão, Fassbier, Bier im Fass ou ainda Schoppenbier) virou no Brasil o próprio nome da bebida – e com uma tremenda deformação gráfica!

Pessoa humana e outras pessoas

A leitora Ana Cristina Fischmann me faz a seguinte pergunta:

Caro Aldo, tenho ouvido em muitos lugares, inclusive em palestras, a expressão “pessoa humana” (por exemplo, a dignidade da pessoa humana etc.). Isso está certo?! Existe pessoa não humana? Me esclareça, por favor. Muito obrigada.

De fato, Ana, eu também por muito tempo estranhei essa expressão, pois para mim a palavra “pessoa” sempre se refere a um ser humano (exceto, talvez, as três pessoas da Santíssima Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo). No entanto, o Direito define pessoa como “toda entidade natural ou moral com capacidade para ser sujeito ativo ou passivo de direito, na ordem civil” (definição do dicionário Houaiss). Daí termos a pessoa física (o cidadão) e a pessoa jurídica (organização, entidade ou empresa). O problema é que, na prática, a única realidade que nossa legislação reconhece como entidade capaz de ser sujeito do direito acaba sendo o ser humano, individualmente ou em grupo. Nesse sentido, toda pessoa é humana, e portanto a expressão “pessoa humana” seria uma redundância.

Entretanto, sobretudo nos últimos tempos, uma nova perspectiva tem dado um significado mais amplo à palavra “pessoa”: trata-se da teoria (ou filosofia) dos seres sencientes. O que é ser senciente? Segundo Luciano Carlos Cunha, no site Pensata Animal (www.pensataanimal.net/glossario-dm/97-senciencia), senciência é a

[j]unção de dois conceitos: sensibilidade e consciência. Diz-se de organismos vivos que não apenas apresentam reações orgânicas ou físico-químicas aos processos que afetam o seu corpo (sensibilidade), mas além dessas reações, possuem um acompanhamento no sentido em que essas reações são percebidas como estados mentais positivos ou negativos. É portanto, um indício de que existe um eu que vivencia e experimenta as sensações. É o que diferencia indivíduos vivos de meras coisas vivas.

Dito de outra maneira, um ser senciente (do latim sentiens, do verbo sentire, “sentir”) não apenas está vivo, no sentido biológico de processar e transformar energia, mas é capaz de sentir dor e prazer e, mais ainda, de fugir da primeira e buscar o segundo. O aspecto mais visível para nós de que um animal tem sensibilidade e consciência é a reação à dor. Sobre esta, a filósofa Sônia T. Felipe afirma em Por uma questão de princípios: Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Florianópolis: Fundação Boiteux, 2003, p. 113):

Para se poder dizer de um ser que este tem a capacidade de sofrimento, à qual se pode designar “capacidade para realizar a perda”, tal deve apresentar, de alguma maneira: 1) uma sensibilidade para os eventos que afetam o próprio organismo; 2) uma consciência dessa afecção, ou, em outras palavras, uma espécie de percepção das próprias experiências afetivas, a qual vem acrescida, na maior parte dos seres sensíveis, daquilo que chamamos de 3) memória, a qual torna o ser apto para reter ou manter o registro das informações de experiências passadas, e de 4) imaginação ou capacidade para ordenar as experiências sensíveis, as imagens da memória e a recordação consciente das mesmas de modo a prevenir-se contra situações de risco no presente. Quando tal capacidade se apresenta ainda mais elevada, o indivíduo pode, ainda, apresentar outra habilidade, qual seja, a de 5) ordenar atos em relação não apenas ao presente mas também ao futuro, demonstrando, desse modo, que tem 6) consciência temporal de si, o que caracteriza sua preferência por estar vivo e não pelas situações nas quais arrisca-se a morrer. Todas essas habilidades estão presentes em maior ou menor grau em todos os animais sensíveis. A diferença entre humanos e não humanos, no que diz respeito a tais experiências, é, pois, de grau, não de essência, tese apresentada por Darwin e incorporada por Singer em sua ética na defesa dos animais.

Segundo a Wikipédia, citando o filósofo Peter Singer, senciência é a “capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade”. E mais adiante afirma: “[n]ão se questiona que os humanos são seres sencientes […]. A questão que tem vindo a ser colocada é sobre se essa mesma capacidade de possuir percepções conscientes dos acontecimentos e da realidade em que estão envolvidos poderá ou não acontecer de igual forma com os outros animais”.

O fato é que, com o crescimento do movimento antiespecista nos últimos anos (especismo é a crença na superioridade da espécie humana sobre as outras espécies animais, da mesma forma que o racismo é a crença na superioridade de uma raça humana sobre outra), o Direito e a legislação aos poucos vão reconhecendo os animais como “pessoas” e não apenas como “coisas”. Exemplos disso são as recentes leis que proíbem experiências com animais na fabricação de cosméticos ou que criminalizam os maus-tratos e o abandono de animais.

Diante de tudo isso, a expressão “pessoa humana” passa a fazer sentido e deixa de ser um pleonasmo: existem, sim, pessoas não humanas, mesmo embora possa soar estranho para nós chamar um cachorro de pessoa. O que importa não é como os chamamos, mas como a justiça os considera.

Qual o sotaque mais bonito? E o mais feio?

Essa pergunta volta e meia surge em bate-papos e reacende uma velha discussão, que dá muito pano pra manga – e também dá margem a muitos preconceitos e discriminações. Há até tópicos em fóruns da internet com esse tema, e é curioso perceber que, neles, boa parte das pessoas tem uma posição chauvinista em relação ao assunto: o sotaque mais bonito é o da minha região, da minha cidade, do meu estado. E o sotaque mais feio é, em geral, o das pessoas mais pobres, das classes mais baixas, das regiões menos desenvolvidas.

Ora, não existem pronúncias feias ou bonitas – pelo menos, objetivamente falando. Beleza é questão de gosto. Afinal, quais seriam os critérios objetivos para determinar quem fala bonito ou feio?

Outra decorrência do chauvinismo linguístico é o sentimento que a maioria das pessoas tem de que elas não têm sotaque, são os outros que têm. Como se fosse possível falar uma língua desprovida de pronúncia! (Só se for a linguagem de sinais dos surdos-mudos.) Afinal, qualquer pessoa que fale um idioma utiliza uma pronúncia característica, que revela a sua região de origem, mas também a sua classe social, o seu nível de escolaridade e, em alguns casos, até a nacionalidade dos seus antepassados.

Na verdade, se quisermos pôr um pouco de objetividade nessa discussão, o que existe é uma pronúncia padrão do idioma, isto é, um modo de falar, típico dos atores e dos locutores de rádio, que se baseia na fala de uma determinada região do país (em geral, a mais influente econômica, política ou culturalmente), mas que é em grande medida artificial, já que resulta de treino profissional, e dificilmente se encontra nas ruas, mesmo na região da qual se origina.

Essa pronúncia padrão nasceu com a necessidade de veicular nos meios eletrônicos de massa (rádio e TV, principalmente) uma pronúncia que fosse bem aceita em todos os lugares. Por isso, a fala padrão costuma ser uma “média” das falas das pessoas cultas da maioria das regiões do país. Seu objetivo é ser o mais “neutra” possível (se é que isso é possível).

Quando se ensina um idioma estrangeiro, é a pronúncia padrão dessa língua que vai ser usada em sala de aula e no material didático audiovisual. É por isso que, quando se estuda francês, o que se ensina é a pronúncia de Paris e não a do Quebec ou do Senegal. Mesmo assim, boa parte dos parisienses não fala segundo esse padrão.

Aliás, algumas pessoas são mais “afetadas” do que outras, ou seja, têm uma pronúncia mais “carregada”, em que os traços característicos da sua localidade são mais acentuados. E, estranhamente, isso não tem a ver necessariamente com a cidade ou o bairro de origem do cidadão. Por exemplo, costuma-se pensar que aqueles paulistanos que falam cantado, com forte sotaque italiano (“cê tá mi inteindeindo?”), são naturais da Mooca ou do Bexiga. No entanto, há pessoas com esse sotaque em todas as regiões da cidade de São Paulo (e até no interior do estado), assim como nem todos os nascidos nesses bairros falam de maneira carregada.

Portanto, excluindo-se o chauvinismo puro, que só enaltece o que é da própria terra e execra o que é de fora, aquilo que as pessoas entendem como um falar bonito é um falar bem próximo do padrão. Do mesmo modo, quanto mais distante desse padrão, mais feia e esquisita é considerada a fala das pessoas. Em todas as regiões tem gente que fala segundo o padrão e gente que não. O mais é puro preconceito.

A metáfora do museu

O incêndio que destruiu o Museu Nacional no último domingo, 2 de setembro, foi, para repetir o já tão desgastado clichê, uma tragédia anunciada. E que teve dois infelizes precedentes: o incêndio no Museu da Língua Portuguesa em 2015 e o no Instituto Butantan em 2010. Nos três casos, perdas, a maior parte delas irreparáveis, para a história, a ciência e a cultura do nosso país.

Há muito tempo, a pesquisa científica, a preservação do patrimônio histórico e artístico e a de nossas riquezas biológicas vem sendo relegada a segundo, terceiro plano. Nos últimos anos, o orçamento destinado ao Museu Nacional decresceu, resultado de uma crise econômica provocada por incompetência dos governos e de uma corrupção desenfreada, aliada ainda a uma escolha política que prioriza privilégios em detrimento do essencial – saúde, educação, segurança, ciência, cultura.

Conforme explica a renomada neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel em vídeo disponível no YouTube, não existe no Brasil a profissão de cientista. Os cargos de direção dos setores responsáveis pela pesquisa, educação, cultura e patrimônio histórico do governo brasileiro – como, de resto, todos os cargos governamentais – são preenchidos por indicação política e não por critérios de mérito e competência técnica.

Sobre a inversão de valores na eleição das prioridades e a cultura do privilégio, leia-se matéria no site InfoMoney mostrando que a remuneração anual de um juiz ou o custo da troca dos carpetes do Senado poderiam suprir o orçamento do Museu Nacional.

Esse museu era um dos (poucos) motivos de orgulho do país. Com exatos 200 anos de história, o museu detinha 50 milhões de itens históricos, artísticos, arqueológicos, paleontológicos, mineralógicos e outros, incluindo a maior e melhor coleção de egiptologia da América Latina e o fóssil mais antigo de um ser humano habitante das Américas. Isso tudo, além do próprio valor histórico do prédio que o abrigava, lar de um rei e dois imperadores e local da assinatura da declaração de independência do Brasil, ironicamente num mesmo 2 de setembro.

Grande parte desse acervo foi amealhada por Dom Pedro II, homem progressista e entusiasta da ciência. Ao contrário da imagem retrógrada que a República procurou disseminar a respeito da Monarquia, nosso imperador era apaixonado por novidades tecnológicas e tratava de trazê-las ao Brasil tão logo surgiam. Basta dizer que o Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal, três anos após sua invenção na Inglaterra. Ferrovias, cabo telefônico submarino, as primeiras instituições de ensino superior, ideias liberais e abolicionistas, defesa das liberdades e combate ao preconceito foram algumas das contribuições de seu reinado. Muito respeitado no Exterior, Pedro II era um estadista do tipo que nunca mais tivemos no Brasil. Que andava nas ruas travestido de cidadão comum para ouvir as queixas do povo. Que jamais roubou um centavo do erário. Naquela época, nosso país era proporcionalmente mais desenvolvido do que é hoje, não ficando muito atrás das grandes potências da época, como França, Grã-Bretanha e os emergentes Estados Unidos.

O Brasil é uma grande nação, com inúmeras riquezas naturais, um imenso território e um povo trabalhador e criativo, mas que não tem um Estado à sua altura. A nação brasileira é muito maior e melhor do que o Estado brasileiro; na verdade, é o Estado, tal qual está desenhado pela atual Constituição, o grande empecilho a que o Brasil se torne um país desenvolvido e uma potência mundial.

O incêndio no Museu Nacional não deixa de ser uma metáfora do que acontece atualmente no Rio de Janeiro e no Brasil. O descaso dos últimos governos com a coisa pública, com seu ápice no desgoverno Dilma-Temer, fez do Brasil uma nação em chamas, das quais só restará um rescaldo de cinzas. Em que nosso passado, nosso patrimônio, nossa identidade, carbonizados pelo fogo da incompetência e da corrupção, serão da mesma cor que nosso futuro.

O sentido linguístico da vida

Muitos livros, como As quatro faces do Universo, de Robert M. Kleinman, discutem o sentido da existência (e, particularmente, da existência humana), procurando provar, se é que isso é possível, que a nossa vida tem um propósito. Em muitos casos — este é um deles —, criticam a ciência, acusando-a de limitada, de reduzir a realidade à pura matéria, não dando conta da dimensão “espiritual” da existência. (Será que esses livros dão conta dessa dimensão?)

A ideia de que nossa vida não é mero produto do acaso ou do determinismo físico, que somos mais do que um amontoado de células organizadas pela seleção natural e que temos uma missão a cumprir é inegavelmente reconfortante, ainda que não tenhamos nenhuma garantia de que seja verdade. (Aliás, todas as evidências científicas, que tais livros questionam, apontam em sentido contrário.)

O fato é que vários pensadores, tanto místicos quanto racionalistas, vêm ao longo do tempo buscando uma resposta a essa questão. Para eles, sentido não é apenas propósito, mas direção, isto é, para onde vamos.

Não vou tratar aqui dos aspectos ontológicos do problema, que não teriam nada a ver com um artigo sobre linguagem, mas quero exatamente mostrar o que há de “linguístico” nessa questão.

O emprego da palavra sentido para denominar o propósito da existência não é gratuito: afinal, encontrar sentido em algo é descobrir o seu significado, é relacioná-lo a alguma experiência anterior, a alguma vivência que temos armazenada na memória, tal qual uma palavra, símbolo ou gesto evocam na mente uma imagem, concreta ou abstrata, de algo que conhecemos. O propósito dos signos é justamente significar, representar, ou seja, evocar algo à consciência. Portanto, encontrar sentido na vida, no trabalho ou num relacionamento é compreender o que tudo isso significa para nós, a que sentimentos ou vivências está ligado.

Para o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que se dedicou à relação entre o pensamento e a linguagem, o significado não existe em si, é arbitrário e estabelecido pelo homem. Isso tem uma série de implicações importantes. Em primeiro lugar, remete à ideia, também presente nas ciências da linguagem, de que não vivemos num mundo “real”, mas no mundo artificialmente criado pela nossa própria língua.

Em segundo lugar, sugere que muitos dos nossos conflitos existenciais e ideológicos — Deus existe? Por que há o Ser em vez do Nada? E o que é o Nada? O tempo flui ou somos nós que nos deslocamos nele? Mas, afinal, o que é o tempo? O que não pode ser pensado pode existir? Por que estamos aqui? Qual o sentido da vida? — dependem basicamente do significado (arbitrário e culturalmente estabelecido) que atribuímos às palavras Deus, tempo, Ser, Nada

Mais ainda, dependem da própria existência dessas palavras, o que indica, sobretudo no caso de conceitos abstratos, que, inversamente ao que acontece com objetos concretos, é a palavra que institui a “coisa”.

Os quasares já existiam antes de tomarmos conhecimento deles, isto é, de criarmos a palavra que os designa. Mas será que “propósito”, “sentido”, “missão”, “consciência”, “infinito”, “eternidade” existem objetivamente na natureza ou somos nós que, com nossas palavras, criamos esses objetos?

Segundo consta, nós, humanos, somos as únicas criaturas do planeta a fazer perguntas ontológicas, a questionar a nossa própria existência. E isso se dá exatamente porque somos a única espécie dotada de linguagem. (Observe que falo em “linguagem” e não em “comunicação”, pois esta todas as espécies superiores possuem.) Em outras palavras, é a linguagem que permite a consciência.

Há três grandes mistérios a torturar o intelecto humano: a origem do Universo (e, portanto, de tudo o que existe), a origem da vida e a origem da consciência (isto é, de uma forma de vida que sabe que está viva e que o Universo ao redor existe). Mas este último mistério se prende a um quarto e bem menos explorado: a origem da linguagem, tema que também trato no vídeo Falo, logo existo.

Quatro condições são necessárias à existência da consciência. Em primeiro lugar, vida: seres inanimados não têm consciência (embora alguns filósofos new age afirmem que sim). Em segundo lugar, atividade mental: amebas são vivas mas não conscientes. Em terceiro, memória: só posso compreender que um pássaro em voo está em movimento porque me lembro de que, um instante atrás, ele estava em outro lugar do céu; só posso saber que estou vivo e quem sou porque me lembro do meu passado. Se eu não tivesse memória, cada instante da minha existência seria como o primeiro, e eu viveria um eterno “nascimento”. Enfim, a consciência está ligada à sensação, não importa se real ou ilusória, da passagem do tempo.

Finalmente, a quarta condição para a consciência é a linguagem. Animais superiores, como cães e chimpanzés, são vivos, inteligentes, dotados de memória e, no entanto, não parecem ter consciência de si mesmos além de suas sensações, sentimentos e pulsões de satisfazer necessidades fisiológicas.

Eles amam, sentem medo, fome, libido, procuram por comida ou afeto, mas nunca se fazem perguntas ontológicas. E não porque não tenham palavras (muitos animais domésticos compreendem palavras humanas e as relacionam a objetos ou ações), nem porque não tenham conceitos (eles os têm, pois reconhecem padrões familiares, como a casa, a comida, o rosto ou o cheiro do dono), mas porque não têm como associar conceitos para formar enunciados e sobretudo porque não têm conceitos abstratos.

Somente a linguagem humana realiza abstrações, ou seja, cria um mundo “que não existe” a partir do que existe. Por isso, o maior impasse da filosofia não é descobrir se a realidade que vemos está aí ou não (é bem provável que sim, ainda que não seja exatamente como a vemos); é saber se a realidade que só vemos em nossa mente existe fora dela. Enfim, nossa vida tem algum sentido ou somos nós que damos sentido a ela?

Desvendando a caixa-preta – 2ª parte

Na semana passada, falei sobre a decifração de escritas enigmáticas e, particularmente, sobre o chamado Manuscrito Voynich, uma obra renascentista de 240 páginas que desafia os maiores especialistas em códigos secretos do mundo. Pois, no início deste mês, o historiador britânico Nicholas Gibbs anunciou em artigo publicado na revista The Times Literary Supplement ter finalmente desvendado o mistério.

Em seu artigo, Gibbs afirma que o manuscrito é “um livro de referências de remédios retiradas dos tratamentos padrão do período medieval, um manual de instruções para a saúde e o bem-estar para as mulheres mais abastadas da sociedade, e que muito possivelmente foi escrito para uma única pessoa”.

Durante muito tempo se acreditou que o texto do manuscrito estaria criptografado, isto é, escrito em código. Agora, Gibbs apresenta uma nova teoria a respeito: para ele, os estranhos símbolos que compõem o “alfabeto” do texto são, na verdade, abreviações de termos em latim.

Na Idade Média, era muito comum os copistas utilizarem abreviações para economizar espaço na folha e tempo na preparação dos manuscritos, já que o pergaminho era muito caro e o trabalho era todo manual. Essas abreviações consistiam muitas vezes em ligaduras tipográficas, ou seja, entrelaçamento de duas ou mais letras num único símbolo, como ocorre até hoje com os caracteres “æ” (a + e), “œ” (o + e) e “&” (e + t).

Diz Gibbs: “Como alguém com uma longa experiência na interpretação de inscrições em latim em monumentos clássicos, nas tumbas e em chapas metálicas de igrejas inglesas, reconheci no Manuscrito Voynich sinais reveladores de um formato abreviado de latim”.

E segue: “Para aqueles que estudaram medicina medieval, e possuem um bom conhecimento de suas origens, os médicos clássicos Galeno (129-210 d.C.), Hipócrates (460-370 a.C.) e Sorano (98-138 d.C.) dentre eles, a incorporação pelo manuscrito Voynich de um herbário ilustrado (coleção de remédios de plantas), gráficos de zodíaco, instruções em termas (banhos) e um diagrama que mostra a influência das Plêiades lado a lado não será surpreendente”.

Com base em livros medievais dedicados aos tratamentos de saúde à base de banhos, como Trotula, De Balneis Puteolanis e Herbarium Apuleius Platonicus, Gibbs diz ter reconhecido nas ilustrações do Manuscrito Voynich as velhas receitas de banhos terapêuticos com infusões de ervas sob a suposta influência dos astros que remontam aos médicos e sábios da Antiguidade, como Galeno, Hipócrates e Plínio. Isso explicaria as ilustrações com mulheres nuas imersas em líquidos escuros, ervas diversas e cartas zodiacais: trata-se de um manual sobre doenças ginecológicas e seus tratamentos. Segundo Gibbs, esses tratados costumavam trazer abreviações de palavras em latim, cuja chave para sua decodificação era um índice que acompanhava a obra. No caso do Manuscrito Voynich, esse índice provavelmente se perdeu.

Gibbs afirma ter decifrado pelo menos duas ligaduras: eius e etiam; diversas outras abreviações corresponderiam a palavras relacionadas a plantas e infusões, como aq = aqua (água), dq = decoque/decoctio (decocção), con = confundo (mistura), ris = radacis/radix (raiz) e s aiij = seminis ana iij (3 grãos de cada).

O exemplo de decifração fornecido por Gibbs é o seguinte:

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No entanto, o trabalho de Gibbs recebeu críticas de outros especialistas, para quem o exemplo dado é pequeno demais para sustentar a argumentação do historiador. Para eles, o caso ainda não está solucionado, e serão necessárias mais evidências que comprovem tratar-se realmente de um manual todo grafado com abreviaturas.

Aguardemos os lances dos próximos capítulos.

Desvendando a caixa-preta – 1ª parte

Na pesquisa linguística, não é raro encontrar línguas sobre as quais nada se sabe, como ocorre com expedições que fazem contato com tribos indígenas pela primeira vez. Diante de uma língua que é uma verdadeira “caixa-preta”, sobre a qual não temos informação prévia (não sabemos nada de sua gramática ou vocabulário nem a que família pertence), por onde começar a estudá-la?

Para solucionar o problema, desenvolveram-se técnicas de análise, como a tagmêmica, proposta pelo americano Kenneth Pike na década de 1940 para estudar as línguas ameríndias. A tagmêmica e outras tecnologias similares partem do princípio de que todas as línguas, mesmo aquelas que ainda não conhecemos, têm características universais, como a presença de estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas que obedecem a certas leis gerais.

O primeiro passo nesse tipo de pesquisa consiste em gravar a maior quantidade possível de amostras de fala (línguas de comunidades tribais nunca têm expressão escrita) e analisar o material coletado, muitas vezes com o auxílio de softwares especiais.

Em primeiro lugar, procura-se reconhecer os sons da língua, isto é, as realizações articulatórias que se repetem sistematicamente nas amostras. A partir da comparação entre as falas de vários informantes, é possível determinar quais os sons distintivos de significado (ou seja, os fonemas) e suas variantes (chamadas de alofones). É possível até descobrir quais são variantes pessoais (ligadas aos hábitos articulatórios de um dado falante) e quais são contextuais (determinadas pelo contexto em que ocorre o fonema, isto é, os fonemas que o precedem ou sucedem). Num momento seguinte, pode-se deduzir a estrutura silábica da língua a partir das combinações recorrentes de fonemas.

Na medida em que certas sequências de fonemas se repetem na fala, deduzem-se as palavras. Há dois tipos de palavras que tendem a se repetir num ato de fala: as gramaticais, como artigos, pronomes, preposições, etc., e as palavras-tema, aquelas diretamente ligadas ao assunto da fala. É possível ainda depreender de certas sequências que diferem por um único elemento afixos, desinências e demais marcadores de flexão das palavras.

Reconhecidas as estruturas fonológica e morfológica do idioma em questão, passa-se ao reconhecimento das estruturas sintáticas: determina-se o limite das frases e, sabendo-se previamente quais são as palavras lexicais e gramaticais, procura-se descobrir como elas se combinam, num processo semelhante à análise sintática que se faz nas aulas de português.

Por fim, resta a semântica do texto. Quando pesquisadores interagem com os informantes a fim de obter o registro de sua fala, geralmente apontam objetos ou deixam que os falantes apontem. Com isso, começa-se a relacionar palavras com coisas: o processo evidentemente parte de conceitos mais concretos e corriqueiros até chegar a abstrações complexas.

Uma situação semelhante a esse tipo de investigação são os métodos de decifração de códigos secretos. A lógica deles é a mesma das tecnologias de descrição de línguas desconhecidas, com a diferença de que os códigos secretos se apresentam em mensagens escritas (geralmente numa simbologia também secreta).

Exemplo disso é o código Voynich, um misterioso manuscrito, datado pela técnica do carbono 14 como sendo do século 15 ou 16, escrito num alfabeto desconhecido e ilustrado com imagens de plantas, mapas astronômicos e mulheres nuas imersas em vasos de líquido escuro. O manuscrito leva o nome do livreiro americano de origem polonesa Wilfrid Michael Voynich, que o adquiriu em 1912 na Itália.

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O caso Voynich

O documento está redigido da esquerda para a direita (é possível deduzir isso a partir do alinhamento da última linha de cada parágrafo) num alfabeto de cerca de 40 caracteres, alguns dos quais aparecem uma única vez em todo o texto (mais ou menos como k, w e y aparecem raramente nos textos em português). Todas as tentativas de decifrá-lo fracassaram, até as dos maiores especialistas em criptografia que atuaram na Segunda Guerra Mundial.

Chegou-se a cogitar que o manuscrito não passasse de um embuste, um texto sem nexo escrito no século 16 num alfabeto fictício para ser oferecido às cortes europeias, que então pagavam fortunas por obras esotéricas. Uma carta de 1666 adquirida junto com o documento afirmava ter ele pertencido ao imperador germânico Rodolfo II e sido escrito pelo filósofo medieval inglês Roger Bacon. A novidade é que cientistas têm utilizado técnicas de estatística linguística para verificar se a distribuição dos caracteres e palavras no texto é compatível com o padrão das línguas naturais.

Um artigo publicado há alguns anos por físicos brasileiros na revista PLoS One (mais informações em revistapesquisa.fapesp.br/2013/08/13/o-codigo-voynich) explica como eles utilizaram algoritmos que permitem detectar palavras-chave no texto (mais ou menos como faz o Google em suas buscas), bem como elaboraram redes de dispersão que medem o grau de proximidade ou distância entre palavras.

Até agora, os resultados apontam para padrões compatíveis com os de textos dotados de significado. O problema, neste caso, é que o manuscrito Voynich não está relacionado a nenhum referencial externo – exceto as próprias figuras do texto –, o que dificulta o reconhecimento de uma semântica subjacente.

Muitas hipóteses já foram aventadas sobre sua origem, desde a transcrição fonética por um europeu, num alfabeto inventado, de um texto ditado por um nativo do Leste asiático, até a atribuição da autoria do manuscrito a sábios medievais e charlatães renascentistas. Recentemente, um historiador britânico afirmou ter descoberto a chave para decifrar o enigmático documento. Mas isso é assunto para a próxima semana.

O que importa é que a busca pelo significado do código Voynich tem representado um belo exercício de aplicação das teorias linguísticas a um fim particular – no caso, a decifração de um texto engenhosamente criptografado.

Qualquer que seja a língua na qual o código foi redigido, se é uma língua natural, então deve obedecer aos princípios fonológicos e morfossintáticos que regem todos os idiomas, e, portanto, a utilização de tecnologias de análise como a tagmêmica deve produzir resultados satisfatórios também nesse caso.

Topônimos portugueses que se perderam

O português é, das grandes línguas de cultura da Europa ocidental, a menos difundida. Embora a comunidade lusófona seja uma das maiores do mundo, idiomas de comunidades relativamente menores, como o italiano e o alemão, despertam mais interesse do que a nossa língua por força do peso de suas respectivas culturas. Não fosse talvez a crescente presença brasileira no cenário internacional, essa situação seria ainda pior.

No entanto, entre os séculos 15 e 16, Portugal foi uma grande potência marítima e comercial, que deixou sua marca em muitos topônimos ao redor do globo. Lastimavelmente, isso também foi se perdendo com o tempo, à medida que cidades e países batizados pelos portugueses tiveram seus nomes trocados ou então modificados pela fonética estrangeira.

Na África, Camarões, Serra Leoa e Moçambique, dentre outros, são denominações portuguesas. Na Ásia, nossa língua nomeou Formosa; no Canadá, a terra do Lavrador e, na Argentina, o estreito de Magalhães. Só que, hoje, pouco ou nada resta desses nomes nos outros idiomas – em alguns casos, nem no nosso.

A República dos Camarões é “Cameroun” em francês, “Cameroon” em inglês e “Camerún” em espanhol, todos originários dos holandês “Cameroen” (pronunciado /kamerun/), que adaptou um pouco a grafia e muito a pronúncia do nome original.

Serra Leoa é internacionalmente conhecida por “Sierra Leone”, corrupção do espanhol “sierra leona” talvez por influência do francês. A península canadense também se chama (inclusive em português atual) Labrador, forma hispânica que suplantou a nossa.

Por sinal, topônimos como Moçambique e Iguaçu também são grafados nas demais línguas à moda espanhola (Mozambique, Iguazu), quem sabe por aversão ao cê-cedilha, que a maioria dos alfabetos estrangeiros não possui.

Que Formosa passou a Taiwan os mais velhos ainda se lembram, pois essa mudança se consolidou em português há poucas décadas. Enquanto isso, a denominação chinesa já era a única conhecida na maioria dos países.

Finalmente, o estreito de Magalhães se chama Magellan em vários idiomas (em espanhol é Magallanes). O próprio Fernão de Magalhães, que emprestou seu nome ao acidente geográfico, é conhecido no exterior por Ferdinand Magellan. Tanto que quase nenhum falante do português deve saber que o nome da sonda espacial norte-americana Magellan – que também já foi marca de software – é uma homenagem ao navegador luso.

Morte morrida e morte matada

O grego tem dois adjetivos, ambrósios e athanásios, para designar o que chamamos em português de “imortal”. Mas há uma diferença entre eles que nós não fazemos. Ambrósios significa literalmente algo como “imorrível” (ou “imorredouro”, como manda o bom português); já athanásios quer dizer “imatável”. Estranho? Pois, se para nós tanto faz, os gregos distinguiam duas situações que não são, a rigor, idênticas. Nós, seres humanos, somos, digamos assim, morríveis e matáveis, pois podemos morrer tanto de “morte morrida” (por causas naturais) quanto de “morte matada” (por acidente ou crime). Mas há seres – pelo menos em tese – que podem morrer espontaneamente mas não ser mortos, enquanto outros só morrem quando assassinados, nunca de morte natural. Exemplos? Um vampiro é uma criatura condenada à vida eterna, exceto se alguém lhe cravar uma estaca ao coração ou o alvejar com balas de prata. Ou seja, o vampiro é matável, mas não morrível. Já os vírus morrem espontaneamente após concluir o ciclo de infecção do organismo, mas até agora a medicina não desenvolveu nenhum medicamento capaz de fulminá-los. Por isso, quando se está gripado, é usual tratar os sintomas e esperar pacientemente o ciclo infeccioso chegar a seu fim por si próprio. Dito de outro modo, vírus são morríveis mas não matáveis – pelo menos por enquanto.

Essa distinção entre o matável e o morrível, o matado e o morrido, tem, aliás, implicações gramaticais. Se “estar” indica estado transitório, e “ser”, condição definitiva, por que se diz que alguém “está morto” e não que “é morto”, se a morte é definitiva? Afinal, não é pela mesma lógica que se diz que fulano “está resfriado” (mal passageiro), mas “é diabético” (doença sem cura)? A razão é que “morto” é particípio breve de dois verbos em português: “matar” e “morrer”. Portanto, “morto” significa tanto “matado” quanto “morrido”. Como muitos verbos em português admitem dois particípios, um longo e um breve (entregado/entregue, aceitado/aceito, pagado/pago, suspendido/suspenso, acendido/aceso, etc.), convencionou-se que, com os verbos “ser” e “estar”, deve-se usar o particípio breve, e com “ter” e “haver”, o longo. Mas, se digo que o leão foi morto pelo caçador, o que quero dizer é que o caçador havia matado o leão (o leão foi “matado” pelo caçador). Já se digo que o leão está morto, é porque ele havia morrido (isto é, está “morrido”). Logo, se, ao encontrar o cadáver do leão, eu dissesse que ele “é morto” em vez de “está morto”, estaria me referindo à ação de matar e não ao estado de alguém que morreu.

Por sinal, um comentarista esportivo da televisão, aludindo, certa feita, à frase de Pelé de que no futebol é preciso matar um leão por dia para provar que se é caçador, disse que “neste campeonato, um leão é matado a cada jogo”.

A divulgação científica no Brasil, o lugar da linguística – e o meu lugar nisso tudo

Sempre fui apaixonado por duas coisas: arte e ciência. Vejo mesmo muita semelhança entre ambas. Afinal, ambas são produtos do espírito, formas de invenção (sim, a ciência não é só descoberta, ela é em grande parte criação, construção) e, de certa forma, ambas buscam a beleza, a elegância, a regularidade. A arte e a ciência são, por isso mesmo, o território do talento e da genialidade. A grande diferença entre elas é que a arte está quase totalmente voltada ao público em geral e tem como missão primeira ou única o entretenimento, ao passo que a maior parte da produção científica se volta ao próprio meio acadêmico e visa a solucionar problemas práticos do ser humano.

É verdade que há as artes aplicadas, como o design de embalagens, por exemplo, mas, quando se fala em arte, é nas exposições, nos espetáculos, nos concertos e shows, nos livros de ficção que se pensa. Ao contrário, a palavra “ciência” nos remete as mais das vezes a um laboratório de pesquisa, a pessoas de jaleco branco, a fórmulas matemáticas ininteligíveis… Se há um lado cultural e de entretenimento na ciência, é o da divulgação científica, também conhecida como popularização científica ou popularização do saber.

Confesso que eu sempre quis ser artista, mas a vocação que me faltou para as artes acabou se revelando na atividade científica. Para quem não sabe, cursei cinco semestres de física antes de perceber que a minha aptidão e o meu destino eram mesmo a linguística. Mas, mesmo como cientista, nunca deixei de ter o imenso desejo de me comunicar com a sociedade e não só com meus colegas. Tampouco perdi de vista que o conhecimento científico, mesmo oferecendo soluções tecnológicas para os problemas sociais, só se justifica plenamente quando chega, ele próprio, às pessoas. Afinal, todos nós usamos a tecnologia provida pela ciência todos os dias, mas poucos de nós são capazes de discutir temas científicos, ainda mais quando contrapostos a crendices populares, opiniões subjetivas e dogmas religiosos. Cabe ao divulgador científico a missão de tornar a ciência um assunto palatável e, mais do que isso, agradável.

No mundo desenvolvido, há uma grande oferta de produtos culturais ligados às ciências e às humanidades: livros de divulgação escritos por grandes cientistas, palestras públicas de pesquisadores e intelectuais, exposições de ciência, e muito mais. Os países que mais produzem conhecimento científico são também os que mais se preocupam em difundir ciência ao público leigo. Embora em todos os lugares a porcentagem de cientistas que divulgam abertamente seu trabalho seja relativamente pequena em relação ao total de pesquisadores, no Brasil ela é menor ainda. Ou seja, ainda não desenvolvemos uma cultura de difusão pública do saber com propósito cultural. Na área da filosofia, já temos alguns “pop stars”, como Mário Sérgio Cortella, Lenadro Karnal e Luiz Filipe Pondé; nas ciências naturais, nossos maiores divulgadores são o físico Marcelo Gleiser e a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que, no entanto, vivem e trabalham nos Estados Unidos.

A realidade é que não temos no Brasil figuras do alcance e abrangência – e talvez nem do talento – de um Carl Sagan na astronomia, de um Richard Dawkins na biologia, de um Stephen Hawking na física… E estes, juntamente com o matemático Keith Devlin e os linguistas David Crystal e Steven Pinker, são meus ídolos desde sempre.

O fato é que eu sempre tentei humildemente fazer divulgação científica no Brasil com os recursos que eu tinha disponíveis. E, pior ainda, divulgação de uma ciência que sempre teve pouco prestígio e pouquíssima difusão entre nós: a linguística.

Embalado pelos meus ídolos, me lancei a escrever uma coluna mensal na extinta revista Língua Portuguesa e depois um blog semanal no portal da mesma revista, falando sobre os aspectos curiosos e interessantes da(s) língua(s), sempre com viés científico, mas em linguagem acessível aos leigos razoavelmente escolarizados.

Após o fim da revista, decidi continuar por conta própria meu trabalho de cronista da língua por meio deste blog pessoal. Também compilei meus principais artigos em livro que aguarda uma editora interessada em publicá-lo.

Capa Canal Planeta Língua - Pedro

E agora, acabo de dar meu passo mais importante até o momento nessa trilha da divulgação do conhecimento sobre a nossa língua, as outras línguas e a linguagem humana em geral: lancei um canal no YouTube. Pois é, já está no ar o canal Planeta Língua. Nele, toda sexta-feira vou postar um vídeo novo tratando de algum assunto referente a esse universo, além de entrevistar pessoas da área ou que de alguma forma tenham a ver com ela, comentar livros e responder às perguntas do público sobre linguística, gramática, origem das palavras e o que mais aparecer. Vocês, meus leitores, estão obviamente convidados a visitar o canal e, se gostarem, a inscrever-se nele, curtir, comentar e compartilhar os vídeos, além de enviar perguntas e sugestões de pauta.

Confesso que não está sendo pequena essa empreitada, pois elaborar vídeos dá muito trabalho, desde a escolha do tema, a pesquisa a respeito, passando pela roteirização, filmagem, edição, finalização, até chegar à publicação e subsequente divulgação nas mídias sociais. E isso toda semana para que, na sexta-feira, chegue até vocês conteúdo fresquinho e de qualidade. Como não leciono mais, hoje trabalho full time com pesquisa e divulgação científicas. Para ajudar a custear todo esse trabalho, também lancei o canal na plataforma Patreon, que angaria patrocinadores, isto é, pessoas comuns, incluindo seguidores do canal e apreciadores do meu trabalho, que estejam dispostas a dar uma pequena contribuição mensal (simbólica mesmo) para manter o canal no ar com qualidade e periodicidade. Em troca, ofereço a esses “patronos” alguns privilégios que, com o progresso do canal, tenderão a ficar cada vez maiores.

Enfim, o carinha que ama música mas é desafinado e toca mal violão, que sonhava gravar discos e dar shows mas acabou escrevendo livros e artigos e dando palestras e aulas sobre língua agora também é vlogueiro – isso mesmo, vlogueiro com “v” de vídeo. Confiram e vejam se tenho futuro.

A quem pertence a Seleção Brasileira?

A cada quatro anos, em época de Copa do Mundo de Futebol, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico. Afinal, Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, a derrota da seleção brasileira no Mundial é vista como uma derrota da nacionalidade, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de quatro anos atrás, a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos – e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol não cria mais uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados. Quem está desempregado e desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise econômica e sobretudo moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torci pela Seleção. E claro que eu fiquei chateado com a desclassificação. Mas em nenhum momento deixei que esses sentimentos se misturassem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desviei minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.

Quantas línguas portuguesas existem?

De todas as línguas transcontinentais, isto é, faladas em mais de um continente, o português me parece a mais problemática em termos de difusão mundial. Em que pese o grande número de falantes (273 milhões), que a torna a quinta língua nativa mais falada do mundo, o português é pouco conhecido e frequentemente confundido com seu irmão mais famoso, o espanhol. Aliás, a importância que este último assumiu nas décadas mais recentes como língua internacional, somada à semelhança entre ambos os idiomas, explica em parte porque o português acaba ofuscado. Mas não é só isso. Nossa língua também padece de problemas intrínsecos que embaraçam os estrangeiros que queiram aprendê-la. A acentuada diferença entre as variedades lusitana e brasileira em termos não só de pronúncia e léxico, mas principalmente de sintaxe, têm obrigado até mesmo sites internacionais, softwares e aplicativos a disponibilizar textos redigidos em ambas as variedades. Nada semelhante ocorre em relação ao inglês, francês e espanhol, as outras grandes línguas internacionais e intercontinentais.

A distância entre as variedades europeia e brasileira do português fez o linguista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, chegar a propor que o português brasileiro seja considerado um idioma distinto do lusitano. Claro que ainda não chegamos a esse ponto, e tal separação teria hoje um caráter mais político do que linguístico, mas o fato é que, de certa forma, caminhamos a passos largos para essa cisão se não houver esforços de ambos os lados para uma reaproximação das variedades.

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Outro dia, recebi por e-mail o anúncio de um determinado serviço de armazenamento de dados em nuvem com o seguinte título: “Está a procurar mais espaço para a partilha de ficheiros? Temos a melhor solução para si”. Em português brasileiro, teríamos “Você está procurando mais espaço para o compartilhamento de arquivos? Temos a melhor solução para você”. O estranhamento que a frase em português luso me provoca é quase tão grande quanto seria se eu estivesse lendo um anúncio em outro idioma. Essa mesma chamada publicitária não precisaria de duas versões caso fosse escrita em espanhol, francês ou inglês. Bastaria redigir “¿Está buscando más espacio para compartir archivos? Tenemos la mejor solución para usted” que na Espanha e em toda a América espanhola todos entenderiam sem dificuldade e sem estranheza. Bastaria dizer “Cherchez-vous plus d’espace pour partager des fichiers? Nous avons la meilleure solution pour vous” que todos os falantes do francês se identificariam imediatamente com a mensagem. Bastaria escrever “Are you looking for more space for sharing files? We have the best solution for you” e todo o mundo anglofalante reconheceria ali seu idioma. E vejam que todas essas línguas também têm variedades nacionais distintas.

Em inglês, há duas grandes vertentes, a britânica e a americana, com vocabulários em pequena parte diferentes e mesmo grafias distintas aqui e ali. Em espanhol, há pequenas diferenças vocabulares de país a país e, na região platina (Argentina, Uruguai, Chile), ocorre também o uso de um pronome pessoal vos que não se usa na Espanha e restante da América; em compensação, os espanhóis utilizam o pronome vosotros, que na América Latina já caiu há muito em desuso. Fora isso, o castelhano é uma língua bastante homogênea. Entre o francês europeu, o americano (Canadá, Haiti, Antilhas Francesas, Guiana Francesa) e o africano há umas poucas diferenças lexicais e só.

Embora o aspecto que mais salte à vista – ou melhor, ao ouvido – na distinção das variedades lusa e brasileira seja a pronúncia, o fato é que fortes diferenças de pronúncia existem em todas as línguas, especialmente nas transnacionais, isto é, as faladas em vários países. Diferenças de vocabulário também são frequentes, embora no caso do português tais diferenças atinjam não só palavras de uso muito corrente como até nomes próprios de cidades e nações.

Quanto às divergências gráficas, só o português e o inglês as têm, com a ressalva de que em inglês a diferença de grafia não implica diferença de pronúncia; já em português palavras como “fato” e “facto”, “gênio” e “génio” efetivamente soam de modo distinto lá e cá, o que dificulta a unificação ortográfica.

Mas, já que o português lusitano e o brasileiro estão mais distantes entre si do que o espanhol ibérico e o latino-americano, o inglês britânico e o norte-americano, ou ainda o francês europeu e o ultramarino, é necessário não só que haja uma reaproximação cultural entre Brasil e Portugal, com efetivo intercâmbio de bens de cultura (hoje o fluxo de produtos culturais parece unidirecional, do Brasil para Portugal, vide telenovelas, filmes, música popular, Rock’n’Rio, etc.), como também que haja uma unificação da norma culta, vale dizer, que, pelo menos no registro formal, portugueses e brasileiros se expressem da mesma maneira. É claro que a língua falada continuará com suas peculiaridades regionais, mas ao menos os manuais de instruções e outros documentos de circulação internacional seriam redigidos de modo uniforme.

Evidentemente, para que isso ocorra é preciso que se façam algumas escolhas. “Trem” ou “comboio”? “Ônibus” ou “autocarro”? “Guarda-roupas” ou “guarda-fatos”? “Moscou” ou “Moscovo”? “Bagdá” ou “Bagdade”? “Estou fazendo” ou “estou a fazer”? “Tem trabalhado” ou “tem vindo a trabalhar”? Eu particularmente penso que deveríamos preferir as formas mais consoantes às demais línguas europeias. Alguns regionalismos seriam mantidos, como ocorre em todas as línguas. É o caso, por exemplo, de chamar “filão de pão” de “cacete” ou “chope” de “imperial”. Mas nomes próprios e palavras de alta frequência deveriam ser uniformizados, e essa norma padrão única, ensinada em todas as escolas de todos os países lusófonos.

É claro que para isso precisaríamos vencer o bairrismo dos portugueses e a péssima escolarização dos brasileiros.

As bases da educação

O Brasil tem finalmente uma base comum curricular nacional, que garante igualdade de conteúdo a todos os estudantes, em todas as escolas. Também tem um novo currículo para o ensino médio, mais flexível do que os anteriores, portanto mais afinado com as demandas da realidade atual. No entanto, além de a qualidade do ensino no Brasil continuar péssima, principalmente na escola pública, não fica muito claro a que interesses ele serve – ou tenta servir.

A indústria, por exemplo, pleiteia por meio de suas federações um ensino focado em competências, já que hoje os jovens entram totalmente despreparados no mercado de trabalho. Entretanto, competência é diferente de conhecimento, e uma educação centrada nela na verdade forma apertadores de botões e não cabeças pensantes. Certamente porque, na visão dos empresários, um trabalhador não precisa ser mais do que um autômato sofisticado, que até pode e deve tomar certas decisões, desde que restritas ao escopo de sua tarefa. Em outras palavras, o operário deve ser intelectualmente superior a uma máquina, mas não precisa ser – e é melhor que não seja – um cidadão.

Mas será que a escola serve apenas para formar mão de obra? Será que o ensino, especialmente o público, deve estar somente a serviço do mercado de trabalho? Eu particularmente penso que não, até porque a formação de profissionais deve estar a cargo do ensino profissionalizante, seja ele de nível médio ou superior. O ensino básico, e dentro dele mais especificamente o ensino fundamental, deve estar voltado antes de mais nada à formação de cidadãos. Não acho que seja dever da escola transmitir aos estudantes noções que eles deveriam aprender em casa, como civilidade, boas maneiras e respeito ao próximo, e nesse sentido acho que a escola pública, justamente por não ser um comércio como é a privada, tem o direito de ser coercitiva com pais de alunos que abdicam do dever de educar seus filhos. Como bem diz o educador e filósofo Mário Sérgio Cortella, à escola cabe escolarizar, o dever de educar é da família.

Por isso mesmo, acho que se perde muito tempo com disciplinas como educação sexual, ideologia de gênero e educação para o trânsito, e com isso se desobriga as famílias de tratar esses temas com as crianças e adolescentes. (Aqui um parêntese: é claro que eu não ignoro que na escola pública há muitos filhos de famílias desestruturadas, incapazes de educá-los adequadamente, mas não seria justamente tarefa da educação contribuir, junto a outros órgãos públicos, para o combate a esse problema?) Enquanto a escola pública dá peixes em vez de ensinar a pescar, aquilo que eu considero realmente o objetivo principal da escola, a transmissão de conhecimento e a formação do senso crítico, acaba se perdendo.

Mas então que bases a educação deveria ter no meu entendimento? Não sou pedagogo e jamais dei aulas a não ser em universidades, mas, como fui professor e sou acima de tudo um cidadão consciente, me permito opinar, até porque a educação formatada pelos especialistas do governo definitivamente fracassou, o que me dá certo crédito para também dar meus pitacos.

Defendo uma educação assentada basicamente em quatro pilares:

1) Ética e cidadania. Embora eu acredite que os valores éticos devam vir de casa, isto é, do berço, penso que certas questões, como a corrupção e a ética na política são às vezes complexas demais para que os pais lidem com elas sozinhos. Por isso, acho bem-vindo o reforço desses valores na escola, mesmo porque é este o primeiro espaço público que a criança frequenta e onde ela pode pôr em prática aquilo que aprende em casa na teoria. Honestidade, lisura, respeito ao outro e à coisa pública, noções de justiça, equidade e solidariedade, além da compreensão do funcionamento das instituições (mas, por favor, nada chato como as antigas aulas de Educação Moral e Cívica, hein!) são essenciais à formação do cidadão. Além disso, deve haver uma base lógica no ensino da ética, isto é, que mostre ao aluno que, sendo éticos, todos ganham, ao passo que, numa sociedade sem ética, mais cedo ou mais tarde todos perdem. Que faça o estudante sentir a ética não como uma obrigação, mas como uma necessidade. Aqui eu embutiria até o ensino da teoria dos jogos de Neumann e Morgenstern, mas, evidentemente, sem seu arcabouço matemático altamente abstrato, focando, em vez disso, situações concretas do dia a dia.

2) Raciocínio lógico e senso crítico. Ao contrário do que se poderia pensar num primeiro momento, o exercício da lógica não é útil apenas às profissões das áreas de Exatas, Economia e Gestão, mas todo aquele que não pensa logicamente acaba sendo ludibriado, portanto todo cidadão que se preze precisa ser capaz de perceber as falácias do discurso alheio, compreender onde está o “pulo do gato”, distinguir a verdade da mentira e desenvolver o senso crítico que o tornará imune a manipulações, seja da mídia, dos políticos ou de líderes religiosos. Defendo mesmo a inclusão da disciplina Lógica no currículo escolar, cujo ensino se faça não sobre esquemas abstratos como os da lógica matemática mas sobre situações do cotidiano, como a análise de propagandas, discursos políticos e outros. Por sinal, um ótimo adjuvante no ensino da lógica é a prática do xadrez. Países de Primeiro Mundo ensinam as crianças a jogar xadrez, e não é inútil lembrar que os estrategistas russos que derrotaram o exército nazista na Segunda Guerra Mundial eram todos exímios enxadristas. Outra ferramenta que viria a calhar é a Análise do Discurso, mais uma vez sem grandes teorizações, mas com foco na desmontagem e desnudamento das informações que nos bombardeiam todos os dias.

3) Método científico. Defendo uma grande ênfase no ensino de matemática e ciências da natureza (física, química, biologia), mas não como uma mera decoreba de fórmulas que serão cobradas no vestibular, pois o ensino da fórmula sem a compreensão do raciocínio que lhe deu origem transforma a ciência num conjunto de dogmas comparável à sua grande antítese, que é a religião. Nenhuma forma de conhecimento é tão precisa e poderosa quanto a ciência, contudo muito poucas pessoas dão crédito a ela porque não a entendem e, com isso, preferem confiar na opinião do amigo, do vizinho, do pastor, do político, do vendedor… Compreender o método científico, isto é, como funciona a mente do cientista, como ele observa e testa a realidade à sua volta, e como utiliza o raciocínio lógico para chegar a um conhecimento que funciona na prática e que se autocorrige quando erra, é mais importante para o cidadão comum, qualquer que seja a sua profissão, do que a simples memorização de fórmulas matemáticas. Claro que sem as fórmulas não se faz ciência, mas sem raciocínio lógico e primazia do fato e da prova sobre a opinião e a crença, não se têm cidadãos críticos e sim marionetes nas mãos dos poderosos. Portanto, que se ensine a teoria, mas que se mostrem também os dilemas que perturbaram os grandes cientistas, sua luta contra a tirania da Igreja e o dogmatismo da religião, o modo como encontraram soluções criativas e respostas plausíveis a grandes problemas sem jamais apelar para o sobrenatural, bem como todos os benefícios que a ciência nos proporciona todos os dias.

4) Gramática, leitura e redação. É mais do que óbvio que cidadãos bem formados precisam dominar a norma culta, sobretudo sabendo quando devem usá-la e quando não, assim como precisam saber se expressar nela e entender o que significam os textos que leem. Neste ponto, tenho uma posição intermediária entre os gramáticos conservadores, que defendem um ensino eugenista de uma norma padrão ultrapassada, baseada nos clássicos literários de outros séculos e no uso lusitano da língua, e os pseudolinguistas pós-modernosos, para quem basta que o destinatário compreenda a mensagem e tudo bem. De um lado, sempre defendi a modernização e a racionalização da gramática normativa, mas, de outro, penso que é o português culto que tem de ser o objeto de estudo das aulas de Língua Portuguesa, pois no registro popular os alunos já são proficientes. Tenho visto aulas de português que utilizam até letras de funk como objeto e sinceramente não vejo como isso possa contribuir para a formação linguística do estudante; no máximo, funciona como entretenimento.

Quanto à leitura, me parece óbvio que quem lê mas não compreende não se informa, e quem não tem informação é presa fácil dos manipuladores de consciências. Mais do que isso, vivemos num mundo em que até a compreensão de um manual de instruções ou bula de remédio pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Por fim, o cidadão que não sabe se expressar linguisticamente em nível formal não obtém bons empregos, não consegue exigir seus direitos nem se fazer entender pelos outros; creio mesmo que quem se expressa mal no fundo raciocina mal.

Fica aqui, portanto, a minha humilde contribuição para a melhoria da educação em nosso país. Comentários e críticas, como sempre, são bem-vindos.

É sobre não macaquear os gringos

Não é de hoje que brasileiro adora imitar os estrangeiros, especialmente os americanos, incorporando ao português muitas palavras e expressões da língua inglesa. Mas há um outro fenômeno ocorrendo na atualidade, que é a imitação de construções sintáticas típicas do inglês, que por isso mesmo soam estranhas em português, até porque já temos construções de significado equivalente, podendo prescindir tranquilamente desses decalques. A macaquice da vez é a tradução literal para o português de it is about e it is not about, cuja melhor versão na língua de Camões é “trata-se de” e “não se trata de” (ou também “não é questão de”). No entanto, é cada vez mais comum ouvirmos “é sobre” e “não é sobre”. Exemplos? A canção Trem Bala, de Ana Vilela, que fez muito sucesso no ano passado, tem sua letra quase totalmente construída com base em “é sobre” e “não é sobre”: “Não é sobre ter todas pessoas do mundo pra si / É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti / É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz / É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós (…) Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu / É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu / É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações / E assim ter amigos contigo em todas as situações”.

Agora, um certo banco insufla o sentimento de brasilidade que, de quatro em quatro anos, dá as caras por ocasião da Copa do Mundo de Futebol com o slogan “É sobre mudar o jogo”. Peguem esses exemplos e troquem “é sobre/não é sobre” por “trata-se de/não se trata de”. Que tal? Mais natural, não acham? Pois é, mas parece que nosso complexo de vira-lata, aliado a outro igualmente pernicioso, o complexo de colônia, nos faz renegar o nosso idioma, pois o que é dito em inglês ou à moda inglesa tem mais força, mais credibilidade, como se certas línguas fossem melhores que outras, como se o sucesso de uma nação, a prosperidade de um povo, o progresso econômico, a lisura na política e o bom gosto em matéria de cultura tivessem a ver com o idioma que se fala. Fosse isso verdade, os países nórdicos, que falam línguas obscuras como sueco, norueguês e finlandês, jamais estariam no topo do ranking do IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, um termômetro do desenvolvimento – ou subdesenvolvimento – de uma sociedade. Fosse isso verdade, não seria a China, com seu complicado mandarim, a segunda potência econômica do planeta.

O fato é que ser uma nação decente, não apenas avançada economicamente, mas sobretudo evoluída em atitude, cidadania, respeito ao próximo e à coisa pública, não é sobre falar inglês ou falar como os ingleses e americanos, é sobre pensar e agir como eles, é sobre ter patriotismo todos os dias de todos os anos e não somente em Copas do Mundo, é sobre dar-se ao respeito como povo para poder ganhar o respeito dos outros povos. É, acima de tudo, sobre não ter vergonha da própria língua e da própria cultura.

Cinquenta tons de racismo

A semana que passou assistiu a mais uma polêmica dessas que envergonham nosso país e viu emergirem duas novas palavras: colorismo e pigmentocracia. Trata-se do incidente envolvendo a cantora Fabiana Cozza, pressionada por movimentos negros a recusar o convite para interpretar Dona Ivone Lara num musical sob o estarrecedor argumento de que ela “não é negra o suficiente”.

Lendo-se blogs do próprio movimento negro, depreende-se que o colorismo e seu sinônimo pigmentocracia são refinações do racismo, pois, enquanto para este ou se é branco ou se é negro, e todo negro é igualmente merecedor de discriminação, para o colorismo a discriminação e o preconceito são tão mais acentuados quanto mais melanina a pele do indivíduo tiver. Trata-se do preconceito do mulato claro contra o mulato escuro.

Na lógica colorista ou pigmentocrata, há uma gradação no preconceito, que levaria os racistas a ser mais tolerantes com quem tem a pele mais clara. No entanto, o que se viu no infeliz episódio foi o racismo dos negros contra uma negra que se assume como negra e que, tirante o tom da pele, tem todas as credenciais artísticas para representar a grande dama do samba. Chego a suspeitar que o sobrenome italiano, embora não invocado pelos movimentos racistas negros como motivo, tenha pesado também na decisão de vetar o nome da cantora.

O fato é que o degradê racista inventa termos de feição erudita, com direito a radicais gregos e latinos, para justificar o fogo amigo sob a alegação de que é preciso dar visibilidade aos negros retintos.

Num país miscigenado como o nosso, em que pretos puros, isto é, sem nenhuma gota de sangue branco ou índio, são raros e, por isso mesmo, figuram pouco entre os grupos sociais mais discriminados – favelados, indigentes, subempregados, marginais, presidiários –, é curioso que movimentos apoiados por intelectuais e cientistas sociais advoguem o racismo reverso, e não só contra os brancos mas também contra os “semibrancos” (perdoem-me o neologismo, mas, se eles podem, eu também posso). E mais lamentável ainda é que os semibrancos incorporem o preconceito de cor contra os semipretos. Quem não se lembra da torcida do Grêmio, quatro anos atrás, chamando o então goleiro do Santos, Aranha, de macaco? Pois a TV mostrou que grande parte da furiosa torcida a gritar impropérios, como de resto grande parte do povo brasileiro, era formada de pardos. O que leva um pardo, sabedor de sua ascendência africana, a injuriar racialmente outro pardo? (Sim, Aranha é pardo e não preto, que é como o IBGE denomina os negros retintos.)

Nas favelas, não é de hoje que garotas mais claras, embora negras, são discriminadas pelas mais escuras, ao mesmo tempo em que “têm mais cartaz” entre os traficantes justamente por parecerem brancas. Ou seja, é o negro reproduzindo contra seus próprios pares o preconceito de que se diz vítima. E a língua portuguesa corre para dar conta de mais esse fenômeno típico de uma sociedade doente.

Como nascem os sotaques?

Você já deve ter notado que o aspecto mais difícil de aprender numa língua estrangeira é também o mais perceptível de todos: a sua pronúncia. Um estrangeiro que viva há muitos anos no Brasil pode falar português fluentemente, exibir uma correção gramatical de dar inveja aos brasileiros mais cultos e, mesmo assim, conservar, ainda que levemente, uma pronúncia que denuncia sua origem: é o famoso sotaque.

Mas por que é tão difícil perder o acento nativo quando se fala outro idioma? Por que é mais fácil dominar o léxico e a gramática de uma língua do que sua fonética?

Segundo as teorias científicas mais recentes, a aptidão para a linguagem é inata. A criança nasce com seu repertório linguístico “zerado” em termos de vocabulário, sintaxe e pronúncia, mas traz do berço módulos cerebrais que lhe permitem preencher esses vazios. Portanto, todos nós temos uma “língua do pensamento” que já vem pré-instalada “de fábrica”, como o sistema operacional dos computadores. Depois, com o aprendizado, vamos instalando outros softwares e gravando novos arquivos na mente.

Com a pronúncia não é diferente. Graças aos chamados neurônios-espelho, a criança é capaz de imitar com progressiva precisão os sons vocais emitidos pelos adultos à sua volta. Isso significa que ela sabe em que posição e lugar deve manter a língua para realizar um determinado som apenas observando os adultos, sem que ninguém precise lhe explicar – nem seria possível, obviamente. Além disso, a criança que aprende a falar é capaz de reconhecer e distinguir nuances mínimas dos sons, a ponto de perceber quais variações são funcionais para a distinção do significado e quais não. Ou seja, crianças em fase pré-linguística são foneticistas natas.

O problema é que, depois que aprendemos nossa primeira língua, as oposições funcionais entre os sons ficam cristalizadas em nossa mente, talvez até para evitar que as confundamos ao falar, mas isso com frequência nos causa embaraço quando temos de aprender novas oposições, o que ocorre quando estamos adquirindo um novo idioma. Por isso, tendemos a substituir, consciente ou inconscientemente, um som estranho por outro mais familiar, isto é, um som estrangeiro por um nativo. Isso é ainda mais frequente quando estão em jogo duas línguas próximas, como o português e o espanhol.

Antes de tudo, quando aprendemos nossa primeira língua, ou língua materna, estamos ao mesmo tempo aprendendo a nos relacionar com o mundo. Nossa língua é nossa realidade, é por meio dela que pensamos e conhecemos a vida ao nosso redor. Já, quando aprendemos uma segunda língua, em geral o fazemos por razões culturais ou profissionais. Mesmo que disso dependa nossa sobrevivência num país estrangeiro, somos capazes de viver e pensar ainda que não dominemos completamente esse novo instrumento de comunicação.

É por isso que crianças que aprendem dois idiomas simultaneamente na mais tenra infância tornam-se perfeitamente bilíngues, sendo capazes de falar fluentemente, sem sotaques ou interferências de qualquer tipo, ambas as línguas e, mais ainda, capazes de pensar em qualquer uma delas.

Mas o fato é que uma língua é um conjunto de hábitos arraigados. No caso do vocabulário e da gramática, trata-se de hábitos mentais, mas em relação à fonética esses hábitos são essencialmente articulatórios, portanto dependentes de uma habilidade motora. Ora, é mais fácil treinar neurônios do que músculos, o que explica por que é mais fácil aprender novas palavras ou construções do que novas maneiras de posicionar ao mesmo tempo a língua, os lábios e os dentes.

Some-se a isso o fato de que uma nova palavra é uma unidade de sentido, mas, ao mesmo tempo, uma pluralidade de sons. Se tenho de pronunciar rapidamente uma ou mais palavras estrangeiras, como numa frase, tenho de pensar na posição dos meus órgãos fonadores para cada um dos fonemas que se sucedem. E tenho de fazer isso a uma grande velocidade. O processamento simultâneo de todas essas informações requer uma coordenação motora extrema. É como aprender a tocar violão: levamos um tempo enorme para conseguir posicionar todos os dedos nas cordas certas e assim fazer um acorde; no entanto, mal conseguimos isso, já temos de passar para o acorde seguinte no ritmo da música. Esse processo só se torna eficiente com o treino e a automatização dos movimentos, até o ponto de fazermos isso mecanicamente, sem pensar.

Por sinal, a fonética é a parte mais mecânica e menos criativa da língua, a que exige menos esforço mental. Enquanto as regras sintáticas se contam às centenas, e as palavras, aos milhares, os sons fonéticos raramente passam de 40. Por ser mecânica e pouco criativa, a fonética sempre fica em segundo plano quando se trata de falar uma língua estrangeira. Estamos mais preocupados em nos fazer entender do que em pronunciar os sons estrangeiros com perfeição, o que parece ter importância mais estética do que funcional.

Essa dificuldade de incorporar hábitos articulatórios estranhos aos nossos não afeta apenas a capacidade de falar línguas estrangeiras, mas até os acentos regionais de uma mesma língua são difíceis de imitar. É por isso que os atores de televisão geralmente produzem um sotaque caipira ou nordestino caricato e pouco convincente nas novelas.

Além disso, a habilidade de reproduzir sons estrangeiros varia de pessoa a pessoa conforme certas aptidões inatas. Por isso se diz que determinado indivíduo tem melhor ou pior “ouvido” para línguas. Assim como há um “ouvido” musical (na verdade, a chamada inteligência musical de que fala Howard Gardner), que faz algumas pessoas serem mais afinadas do que outras, há uma espécie de inteligência fonética, parte da mais geral inteligência linguística. Por essa razão, embora qualquer um seja capaz de aprender novos idiomas, uns aprendem com mais facilidade do que outros, e alguns são capazes de passar a vida inteira num país estrangeiro e, ainda assim, conservar seu sotaque nativo.

Chega a ser hilário – embora aconteça com frequência – o fato de algumas pessoas nunca conseguirem pronunciar perfeitamente a língua de adoção e ainda acabarem falando com sotaque a própria língua nativa, numa espécie de meio-termo entre as duas, o que lembra aquela anedota em que o cidadão foi morar fora, não só não aprendeu a nova língua como ainda esqueceu a antiga. Conclusão: voltou para casa mudo.

A ortografia do português deve ser fonológica ou etimológica?

Todos os sistemas ortográficos já adotados em português sempre oscilaram entre duas posturas: a grafia etimológica, que procura preservar o modo como as palavras se escreviam em grego e latim clássicos, e a grafia fonológica (erradamente chamada de “fonética”, já que o sistema ortográfico deve representar os fonemas da língua, isto é, as unidades distintivas de significado, e não os infinitos e instáveis sons da fala). A primeira postura, defendida já em 1576 por Duarte Nunes de Leão na sua Orthographia da lingoa portuguesa, é evidentemente mais conservadora e exige grande poder de memorização dos falantes, bem como conhecimentos de grego e latim. Já a segunda postura é defendida por aqueles que entendem a língua como instrumento prático de comunicação, cuja escrita deve ser a mais racional e simples possível.

Como um idioma é um misto das duas coisas – instrumento de comunicação e patrimônio histórico e cultural de um povo –, tem-se procurado, na maioria das línguas europeias, um meio-termo entre as duas atitudes. Nesse sentido, substitui-se ph por f, mas mantém-se a distinção entre ss e ç, por exemplo.

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Até aí, nada de errado. O problema são as opções feitas pelos elaboradores de reformas ortográficas sobre o que deve ser mantido e o que deve ser simplificado.

Por exemplo, argumenta-se que “estender” deve ser grafado com s por ser palavra hereditária, isto é, que já fazia parte do acervo lexical dos primeiros falantes do português, ao passo que “extensão” deve ser com x porque é empréstimo erudito. Ou seja, na palavra vernácula deve prevalecer o critério fonológico, enquanto no termo culto deve ser aplicada a regra etimológica.

Esse princípio não faz muito sentido no exemplo dado, visto que “extensão” não é mais, rigorosamente, palavra culta, mas semiculta, pois sofreu metaplasmo (cujo nome técnico é metamorfismo) que igualou sua pronúncia à de “estender”. Exemplo análogo é a palavra italiana estensione, cuja grafia com s se deve exatamente a esse fenômeno, por sinal, abundante naquele idioma.

Mas a questão é: por que substituir o ph de “farmácia” por f, mas manter o x de “extensão”? Em alguns casos, as reformas ortográficas anteriores normalizaram com base na etimologia grafias oscilantes. Assim, se até 1943 “portuguez” e “embriaguez” se escreviam com z, convencionou-se que “português” deveria ser com s, já que nosso sufixo ‑ês provém do latino ‑ensis, enquanto o sufixo ‑ez de “embriaguez” vem do latim ‑ities. Da mesma forma, “quizesse” virou “quisesse” por causa do latim quaesivissem, que é com s, enquanto “fizesse” manteve o z por causa do latim fecissem, sem s.

Nesse caso, toda palavra que em latim tivesse x deveria tê-lo também em português. No entanto, se “texto” e “extensão” se escrevem com x, “misto” e “estender” são com s. E a justificativa não é o caráter culto ou hereditário dessas palavras, pois tanto “texto” quanto “misto” nos chegaram por via erudita. A regra aí é que x só se manteve em vocábulos cultos quando precedido de e (por isso “texto” e também “dextrose”), mas converteu-se em s quando em termos vernáculos (por isso, “destreza”) ou em termos cultos em que não é precedido de e (por isso, “misto”). Dá para entender uma regra dessas?

E se, por razões etimológicas, “portuguez” se tornou “português”, mas “embriaguez” se manteve intacta, então por que “hífen” (do grego hyphen) é com n, mas “devem”, “amém”, “delfim”, “jardim” e “marrom” (respectivamente, do latim debent, amen e delphinus, e do francês jardin e marron) são com m? Isso se aplica até à própria palavra “latim” (de latine)! Aliás, o português é a língua europeia com o maior número de palavras terminadas em m e o menor número em n, na contramão de todas as demais.

E por que quem nasce em Jerusalém é jerusalemita (ou hierosolimita), mas quem nasce em Belém (do hebraico Bethlehem) é Belenense? E por que “albumina” (de “álbum”) é com m, mas “mediúnico” (de “médium”) é com n?

Em resumo, mantivemos a grafia etimológica em alguns casos, mas não em outros. E o critério usado para determinar quais casos são esses permanece obscuro.

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Há ainda uma questão mais delicada do que essa: sendo o português uma língua cujas diferenças de pronúncia entre as diversas variedades (lusitana, brasileira, africana, asiática) vai além do plano puramente fonético, mas atinge o fonológico (isto é, não se trata da mera diferença de pronúncia de um fonema, mas do emprego de fonemas diferentes), a representação gráfica das palavras não deveria ser tão rigorosamente fiel à fonologia da língua quanto o é em espanhol ou italiano, por exemplo. Na verdade, deveríamos adotar um sistema a meio caminho entre os dessas duas línguas e o de idiomas como o francês e inglês, em que a distância entre o que se escreve e o que se diz é bem grande.

Um exemplo disso é a questão do timbre das vogais a, e e o e do consequente uso dos acentos agudo e circunflexo. Em Portugal, grafa-se (e pronuncia-se) parámetro, génio e económico, enquanto aqui no Brasil se diz e se escreve parâmetro, gênio e econômico. Ora, visto que não há oposição fonológica (isto é, distinção de significado) entre vogal aberta e vogal fechada diante de consoante nasal, o que equivale a dizer que as pronúncias nóme, nôme e nõme significam exatamente a mesma coisa, “nome”, seria mais lógico que se adotasse um único acento (o agudo, digamos) tanto lá quanto cá, qualquer que seja o timbre da vogal em cada uma das localidades do mundo onde se fala português. (Nesse ponto, sou até um pouco mais radical: acho que também a grafia do ditongo ão em certos casos deveria encontrar um meio-termo; afinal, o que no Brasil é islã, garçom, acordeom e elétron em Portugal é islão, garção, acordeão e elétrão.)

A conclusão que se tira de tudo isso é que nossa língua vive certos impasses, decorrentes em grande parte do distanciamento cultural e linguístico entre os diversos povos lusoparlantes, impasses esses que dificultam inclusive a difusão internacional do sexto idioma mais falado do mundo e que são dificílimos de contornar, especialmente porque uma reforma radical de nossa ortografia, como tudo o que é radical, é impensável – ou, pelo menos, deveria ter sido feita pelo menos um século atrás.

A “língua” do pensamento

Por mais distintas que as línguas sejam, praticamente tudo que pode ser dito em uma língua pode ser dito nas demais. Certas palavras não encontram equivalentes exatos em outros idiomas, as estruturas sintáticas são muito diferentes, mas o sentido geral das frases tende a permanecer o mesmo. Tanto que, salvo em traduções de poesia, em que a expressão é tão importante quanto o conteúdo, o que se traduz num texto é o seu sentido geral e não o significado termo a termo, a chamada tradução literal, que muitas vezes conduz a enunciados sem sentido.

Essa possibilidade quase irrestrita de tradução é possível porque o “sentido geral” a que estou me referindo é algo que transcende a língua. Trata-se de uma representação mental que fazemos da realidade e que prescinde de palavras. Mas tampouco se dá por imagens ou outros símbolos dotados de um significante material. Tanto que cegos de nascença, surdos-mudos e indivíduos privados da linguagem por alguma patologia são perfeitamente capazes de pensar e compreender a realidade.

Também comprovam a existência dessa representação metal puramente abstrata situações como quando não recordamos uma palavra mas mesmo assim sabemos o que queremos dizer, ou quando alguém diz algo e, tempos depois, lembramos o que foi dito mesmo tendo esquecido as palavras exatas. A ideia de que pensamos independentemente da língua que falamos e mesmo de outros sistemas simbólicos (sons, gestos, desenhos, esquemas) é bem antiga e tem inquietado muitos pensadores e cientistas ao longo do tempo.

Aristóteles já havia postulado que o pensamento se estrutura em torno de categorias gerais (substância, qualidade, ação) de tal modo que tudo o que possamos conceber se encaixe numa dessas categorias. O raciocínio seria então a combinação dessas categorias ou conceitos por meio de regras bem definidas. Curiosamente, tais categorias inspiraram o que chamamos hoje de classes gramaticais: substantivo, adjetivo, verbo, etc. (Não que essas classes sejam um espelho fiel do nosso pensamento; trata-se de mera aproximação feita pelos gramáticos.) Igualmente, as regras de combinação das categorias aristotélicas deram origem, de um lado, à lógica e, de outro, à sintaxe.

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John Locke

No século 17, o filósofo inglês John Locke afirmou que tudo o que podemos conceber seria uma combinação de noções de base, ou qualidades (existência, extensão, forma, movimento, cor). Para Locke, haveria ideias primeiras (aquelas que não podem ser reduzidas a outras ainda mais simples) e conexões entre elas. Por exemplo, o ouro é a conjunção das qualidades material, inanimado, sólido, amarelo, brilhante, metálico, valioso, e assim por diante.

Afirmando que só é possível pensar por meio de algum tipo de linguagem, não importando a sua natureza, e inspirados na doutrina atomista dos gregos Leucipo e Demócrito, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein propuseram que qualquer conceito linguístico pode ser decomposto em conceitos cada vez mais simples, até o ponto em que não possam mais ser decompostos.

Decorre dessa teoria (embora os próprios autores não tenham dito isso) que o pensamento seria uma combinação sintática de conceitos que, por sua vez, seriam “pacotes” estruturados de atributos mínimos. Fazendo uma analogia, fatos do mundo real são interações entre objetos formados de átomos ou de partículas ainda menores. Se o pensamento é a representação mental da realidade exterior, então a mente seria povoada por “objetos” (conceitos) compostos de partículas mínimas hierarquicamente organizadas, os quais interagem por meio de relações lógicas e abstratas. Isso explicaria por que substância, qualidade e ação são categorias universais e por que classes como substantivo, adjetivo e verbo existem em todas as línguas – ainda que, no plano da superfície discursiva, possam estar mascaradas em algumas delas.

Paralelamente, os estudos de Noam Chomsky sobre a aquisição da linguagem e a competência linguística demonstraram que, por mais pobres que sejam os estímulos vindos do meio, toda criança aprende a falar muito cedo e é capaz de formular corretamente frases que jamais ouviu antes.

Para Chomsky, há um inatismo na linguagem: não importa em qual língua a criança seja criada nem quanto (ou quão pouco) esforço os adultos circundantes dediquem a educá-la, ela sempre aprende a dominar o código com total competência. (Não estou falando aqui de dominar a norma culta, que, por sinal, a maioria das línguas não tem, mas de ser plenamente capaz de comunicar-se com seus semelhantes.)

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Noam Chomsky

Para explicar esse paradoxo, Chomsky postula que a aptidão linguística é inata e se dá por meio de módulos cerebrais. É como se o cérebro fosse o hardware no qual já viesse de fábrica um sistema operacional capaz de processar qualquer software linguístico (isto é, qualquer língua). A esse sistema pré-instalado Chomsky chamou de Gramática Universal (GU). Assim, se o cérebro é como um computador, a GU é a plataforma (como o Windows, por exemplo) na qual roda o “software” linguístico instalado (no nosso caso, algo como o programa “português.exe”). A fala é então o produto do processamento desse programa, como o papel que sai da impressora.

Mas, se não pensamos só com palavras, a GU, sendo uma plataforma de processamento linguístico, provavelmente ainda não é o sistema de base do pensamento: deve haver um sistema ainda mais básico, que permite “rodar” não só línguas mas todos os demais códigos simbólicos já inventados ou por inventar.

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Jerry Fodor

Em 1975, o filósofo cognitivista Jerry Fodor publicou The Language of Thought (“A Linguagem do Pensamento”), em que propõe a existência de uma espécie de linguagem (LOT, na sigla em inglês) subjacente aos processos mentais. De modo geral, a teoria sustenta que o pensamento segue regras análogas às da língua. Só que sem palavras ou qualquer outro tipo de signos. Seria uma linguagem puramente abstrata, cuja representação simbólica para fins operacionais se assemelha a equações matemáticas. Essa “linguagem”, biológica (portanto, inata) e situada no nível hiperprofundo da mente, vem sendo chamada de “mentalês” por vários pesquisadores das ciências cognitivas e da neurociência.

Várias teorias paralelas à GU e à LOT têm sido desenvolvidas. Dentre as mais importantes estão a noêmica de Bernard Pottier, a semântica cognitiva de François Rastier e a psicologia cognitiva de Steven Pinker. Eu mesmo venho realizando pesquisas sobre o assunto, algumas já publicadas. É importante dizer que todas as teorias, apesar das diferenças, são tributárias de um mesmo princípio, já intuído pelos gregos na Antiguidade. Como diria Mário Quintana, não há nada que possamos pensar que algum grego já não tenha pensado.

Português brasileiro atual: uma língua indigente?

A analogia entre a língua e o vestuário já é uma metáfora desgastada, mas, ainda assim, é a mais perfeita que poderíamos usar, pois, de fato, o modo como falamos tem tudo a ver com a roupa que vestimos. E tem a ver com os costumes sociais de modo geral. Tanto que os tempos em que as pessoas falaram sem nenhum lastro na gramática normativa e em que a escolaridade foi mais precária – para não dizer inexistente – coincidiram com os períodos de maior decadência da civilização. Não à toa, a Alta Idade Média (séculos V a XI de nossa era), também conhecida como Idade das Trevas, foi o período histórico em que a língua latina sofreu a evolução mais rápida e mais radical, transformando-se nas atuais línguas românicas ou neolatinas. Durante os cinco séculos anteriores e os dez séculos posteriores a essa fase, a língua mostrou-se mais estável, evoluindo mais lentamente, justamente por obra da escola, da literatura e de outras instituições sociais que, voluntariamente ou não, diretamente ou não, exercem uma força contrária à evolução errática e acabam por preservar melhor a língua, pelo menos em seus registros mais elevados.

Se pegarmos jornais, revistas, filmes, gravações de rádio e livros escolares de 60 anos atrás ou mais, constataremos que a população em geral se expressava no dia a dia de modo mais consoante à norma culta do que se faz hoje em dia, mesmo reconhecendo que em nenhuma época a fala popular, mesmo das pessoas mais escolarizadas, coincidiu totalmente com a norma padrão encontrável nos textos formais. Mas o fato é que, hoje, até os documentos mais solenes, como teses acadêmicas, relatórios técnicos e textos jurídicos, são mais “informais” do que o eram em décadas passadas.

Similarmente, observamos que, nesses tempos idos, as pessoas não apenas se expressavam de modo mais formal do que hoje em dia – e olhe que, naquela época, pouquíssimas pessoas tinham escolaridade acima do atualmente chamado ensino básico – como também se trajavam mais formalmente. Nos anos 1940 e 50 era praticamente inadmissível que um rapaz fosse ao cinema sem paletó e gravata ou que uma moça fosse de calça comprida – bermudas, nem pensar!

Do mesmo modo como nossa sociedade se informalizou na vestimenta, e hoje é possível ir a praticamente qualquer lugar de regata e havaianas, também se informalizou na linguagem. Só que, devido ao sucateamento da nossa educação, a linguagem não apenas passou a andar mais “à vontade”, passou a vestir-se com indigência. A drástica redução do nosso vocabulário, com perda até de palavras gramaticais como “sobre”, “sob”, “cujo”, “tampouco” e os pronomes oblíquos átonos (quem ainda as emprega?), tragadas pelo buraco negro do desuso, aliada à nossa profunda crise moral (vide Mensalão, Petrolão, Lava-Jato) e estética (leia-se funk bandido, breganejo, Big Brother, etc.), parece indicar que estamos vivendo um momento de decadência civilizatória.

Pois revirando meus baús, encontrei outro dia livros, revistas e recortes de jornais do tempo em que meus pais eram jovens (e bota tempo nisso!). É admirável como qualquer publicação de banca de jornal daquela época empregava um vocabulário e tinha uma correção gramatical de fazer inveja às pessoas mais letradas de hoje em dia. O mais surpreendente é ver que livros de receitas, manuais de equipamentos e até cartilhas escolares eram escritos num português impecável – e o mais importante, as pessoas compreendiam! Isso sem falar da caligrafia das pessoas, uma verdadeira obra de arte.

Hoje, em que nem se escreve mais à mão, mas digita-se apenas com os polegares, quase ninguém sabe o que é caligrafia. No tempo de meus pais, os jovens vestiam seu melhor terno ou seu melhor vestido para ir ao baile no fim de semana, em que se tocavam fox trot, tango, valsa, samba-canção… Naquele tempo, os rapazes tiravam as moças delicadamente para dançar e, se “levavam tábua” (isto é, recebiam uma recusa da dama), desculpavam-se pela importunação. Naquele tempo, o namoro nascido no baile continuava no sofá da casa da moçoila, com a irmã mais nova “segurando vela”. Tudo muito diferente dos dias atuais, em que, nas baladas, rapazes de chinelos agarram garotas de shortinho pelo braço e as violentam se elas se recusarem a ficar pulando com eles ao som de um bate-estacas ou de um funk com letras obscenas, tudo regado a muita bebida e drogas. Hoje, os jovens transam no primeiro encontro, às vezes antes até de perguntar os nomes um do outro.

É claro que à juventude de hoje os costumes de antigamente parecerão “caretas”, assim como parecerá ultrapassado o linguajar da imprensa da época, mas, olhando para esse contraste com o mesmo distanciamento com que o historiador olha para a Idade das Trevas em relação à Grécia antiga ou à Europa da Belle Époque, compreendemos porque hoje até doutorandos em defesa de tese se sentem envergonhados de usar “nós” no lugar de “a gente”. Vive la décadence!

O que o saco tem a ver com isso

Em português temos várias expressões com a palavra “saco”, dentre as quais “encher o saco”, “puxar o saco” e “Que saco!”. Essas expressões costumam ser consideradas impróprias em certos contextos por serem tidas como de baixo calão. É que muitos pensam que o “saco” em questão é o chamado saco escrotal, parte do corpo masculino que abriga os testículos. No entanto, a origem dessas expressões é bem mais inocente do que se pensa.

“Encher o saco de alguém” é simplesmente encher sua paciência, saturar sua capacidade de tolerar abusos ou chatices. Há muito tempo se representa a paciência ou tolerância como um saco de tecido onde as coisas que os outros nos dizem ou fazem são depositadas. Trata-se de uma metáfora cognitiva, isto é, uma representação mental concreta de algo abstrato. Na verdade, quase todos os nossos conceitos abstratos são ou foram inicialmente representados a partir de situações concretas. É assim que falamos na fonte de informação, no desenlace de um conflito, na iluminação do saber, e assim por diante. No caso da paciência, quando o nosso “saco” mental está cheio, a introdução de mais um item (mais uma chatice, por exemplo) leva o saco a transbordar: é quando perdemos a paciência e explodimos com quem nos aborrece. (Note que o verbo “perder” sugere que a paciência é um objeto que possuímos.)

E o “puxa-saco”, será alguém que se pendura nos testículos alheios? Na verdade, a expressão “puxar o saco” surgiu na caserna: quando um novo oficial das Forças Armadas chegava a um batalhão para ali se instalar, costumava trazer seus pertences numa pesada mochila de lona chamada no meio militar de saco. Logo, um soldado raso qualquer era designado para transportar a pesada bagagem do oficial até seu alojamento. Justamente por ser pesado, o saco não era carregado às costas e sim puxado pela alça ou corda que lhe servia de nó. Assim, o soldado incumbido dessa tarefa inglória era chamado pelos demais de “puxa-saco”. Como carregar a bagagem alheia parece um ato de subserviência, militares que bajulavam seus superiores hierárquicos em busca de favores passaram a ser designados como “puxa-sacos”. A expressão logo transbordou do jargão militar para o corporativo e o doméstico. Pessoas subservientes, especialmente com o objetivo de granjear alguma vantagem pessoal, passaram a ser chamadas de puxa-sacos, e puxar o saco tornou-se sinônimo de bajular, lisonjear, adular com algum interesse oculto.

Ou seja, os testículos do chefe nada têm a ver com puxa-saquismo.

De Roma ao romance

E hoje vamos responder à dúvida da leitora Maria Helena Morgado Fontes, que pergunta:

 Bom Dia. Gostaria de saber se existe alguma relação entre a palavra “romance” e o nome “Roma”. Obrigado.

Cara Maria Helena, existe sim. Como se sabe, Roma constituiu um grande império da Antiguidade, que dominou a maior parte da Europa e vastas regiões do Oriente Próximo e norte da África. Nem todos esses territórios tinham o latim como língua materna, nem os romanos impuseram pela força o seu idioma. Mas a tendência era que os súditos do Império Romano falassem a língua latina, pelo menos em locais públicos ou como segunda língua.

Dada a extensão territorial do Império e a consequente dificuldade de comunicação entre as províncias, somada aos substratos linguísticos de cada região (isto é, as línguas nativas faladas concomitantemente ao latim), era natural que houvesse alguma dialetação. Por isso, passou-se a chamar de România o conjunto dos povos e territórios que falavam alguma forma de latim.

Depois que as invasões germânicas ocasionaram a queda do Império Romano, em 476 d.C., a diversidade linguística aumentou de tal modo que dialetos se transformaram progressivamente em línguas, às vezes não intercompreensíveis. Por essa época, já se fazia clara distinção entre o latim e os dialetos populares, chamados de românicos. Falava-se latim (latine loqui)  em situações formais e românico (romanice loqui) no dia a dia. É de romanice que provém a palavra romance. Portanto, romance era qualquer dialeto proveniente do latim.

Na Idade Média, vários desses romances tornaram-se o que hoje conhecemos por línguas românicas ou neolatinas, dentre as quais o português. Nessa mesma época, narrativas literárias escritas nessas línguas também eram chamadas de romances. Está aí a origem do romance como gênero literário. É claro que o formato atual do romance é uma criação do século XIX que tem pouco a ver com os romances medievais. Por sinal, a escola literária que o criou foi também a que mais se inspirou na atmosfera medieval: o Romantismo, cujo nome deriva igualmente da palavra romance (romant em francês antigo).

Como os romances daquele século transbordavam de situações amorosas (assim como também os romances medievais, com temas de cavalaria e amor galante), romance passou por metonímia a designar o caso amoroso, o relacionamento afetivo entre um homem e uma mulher. E romantismo deixou de ser apenas um movimento literário para denominar todo um conjunto de atitudes próprias de quem ama.

Pausa, pouso e repouso

Hoje vou responder a um e-mail do leitor Jackson Bezerra de Albuquerque, que diz:

Prezado Aldo, admiro muito o seu trabalho e grande conhecimento sobre línguas, mas a razão da minha consulta é uma curiosidade etimológica que você, como especialista no assunto, certamente poderá me esclarecer. É verdade que “pouso” tem a ver com “pausa”? E se tem, qual é a relação? Muito obrigado.

Prezado Jackson, você tem toda a razão: pausa e pouso têm tudo a ver. Em latim, a palavra pausa queria dizer o mesmo que em português: parada, cessação, interrupção de uma atividade. No entanto, se pausa e pausar nos chegaram por via culta, temos o verbo pousar e seu derivado regressivo pouso, da mesma origem, só que desta vez recebidos por herança.

Mas o que há de comum entre pausar e pousar? Se a pausa é a interrupção de uma atividade, então, dizer que uma ave pousou equivale a dizer que ela fez uma pausa, interrompeu o voo. E como as aves precisam pousar para descansar, o pouso é também o momento de descanso, ou de repouso. Nem é preciso dizer que esta última palavra também se originou de pausa, porém trata-se agora de uma pausa mais longa, para repor as energias. Daí o prefixo reforçativo re‑.

Ou seja, a pausa em qualquer atividade pode ser associada a um “repouso”, mesmo que em sentido metafórico. Por isso, dizemos que um equipamento que não está sendo usado está em repouso (ou em stand by, isto é, de prontidão). Ora, o pouso, seja de um pássaro, avião, astronave, etc., é a entrada em estado de repouso, de inatividade, a cessação do voo.

De modo mais geral, toda interrupção é uma pausa. Assim, apertamos a tecla pause dos aparelhos de CD ou DVD para suspender a execução de uma música ou filme, e também fazemos pausas no nosso trabalho, seja a pausa para o almoço, o cafezinho, o descanso semanal ou as férias.

Uma última curiosidade: em francês, o verbo poser, proveniente da mesma fonte latina, significa “pôr, colocar”, isto é, “pousar” (sobre uma mesa, por exemplo). E pose, a atitude de quem fica imóvel durante uma foto ou retrato, não deixa de ser um estado de pausa, de inatividade.

 

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