O glúten e o grude

Semana passada falei sobre a etimologia das palavras açúcar e glicose. Continuando a enveredar pela senda culinária, hoje vou falar de outro vilão da saúde nos tempos atuais, o glúten.

Segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde, a doença celíaca, caracterizada por intolerância ao glúten, está aumentando no mundo, resultado da dieta pouco saudável que a civilização moderna impõe. Uma das principais causas da incidência da doença é o consumo do trigo, que há bastante tempo foi geneticamente modificado por razões de produção, como mostra o médico e pesquisador William Davis no livro Barriga de Trigo (Editora Martins Fontes).

O trigo é um dos cereais mais ricos em glúten (que também admite a forma glute em português). O glúten é uma substância proteínica viscosa que se encontra na parte interna das sementes dos cereais. E, por ser viscosa, muito cedo se descobriu que a farinha de trigo ou de outros cereais, como o arroz, quando molhada, se torna uma excelente cola. Foi por isso que o latim gluten evoluiu para o português grude, que, segundo o dicionário Michaelis, pode ser cola branca, cola feita de farinha de trigo ou polvilho, cola de madeira, de calçados, bem como desordem, motim, luta corporal, iguaria feita de goma seca e coco ralado, comida em geral e amizade estreita. E, segundo o Houaiss, pode ser cola forte, goma, e também comida ruim, gororoba.

A partir de grude chegamos ao verbo grudar, isto é, aderir, colar, unir com grude, etc. A palavra grude é da mesma etimologia do inglês glue, “cola”, e de seu derivado to glue, “colar”: essa palavra veio do francês antigo glu, que, assim como o nosso grude, se originou do latim gluten, glutinis. Em latim também havia a forma glus, glutis, com o mesmo significado de substância viscosa, cola, grude.

Da mesma família etimológica também eram as palavras latinas glubere (descascar), gluma (película dos grãos, casca de trigo), glomus (novelo), glomerare (enovelar), globus (bola) e gleba (bolinha de terra, torrão, e, por extensão, gleba de terra). E do latim gluten também saiu o verbo aglutinar, que nada mais é do que grudar.

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O que há de comum entre “doce” e “glicose”?

E aí, pessoal, comeram muitos doces nessas Festas? Todo início de ano, as pessoas prometem perder peso, trancar a boca, fazer academia, mas, na última semana do ano, o que elas fazem? Ganham peso! É claro que o doce não é o único vilão dessa história, mas datas como Natal e Páscoa são pródigos em guloseimas açucaradas.

Todo mundo sabe que o que dá o gosto doce aos alimentos é o açúcar. Ou melhor, os açúcares, já que se trata de um vasto conjunto de compostos químicos que atendem pelos mais diversos nomes científicos: glicose, frutose, lactose, sacarose…

A origem de termos como frutose e lactose é óbvia: açúcares extraídos respectivamente das frutas e do leite. Mas, de onde vêm sacarose? E glicose?

Sacarose (e também sacarina, sacarídeo, etc.) deriva de um radical grego sakkharon, que significa “açúcar” e provém do páli sakkhara, este por sua vez procedente do sânscrito sárkara, “areia”. Portanto, na origem do nome está uma interessante metáfora, em que os grãos do açúcar são comparados aos da areia. (Não por acaso, já vi arear panelas com açúcar, se bem que, após o advento da palha de aço, nem areia se usa mais para esse fim.)

A própria palavra açúcar é da mesma origem, embora nos tenha chegado por outro caminho. Neste caso, o sânscrito passou ao persa shakar, que passou ao árabe sukkar. Este deu o italiano zucchero, e daí o alemão Zucker, mas também o francês sucre (e deste o inglês sugar). Já o português e o espanhol tomaram a palavra diretamente do árabe, e com a incorporação do artigo, pois al sukkar significa literalmente “o açúcar”. Por assimilação, al sukkar evoluiu para assukkar, que para entrar no português só precisou de uma adaptação ortográfica.

Curiosamente, “açúcar” em romeno é zahar, o que denuncia a origem da palavra diretamente no grego ou em alguma língua do Oriente.

E o radical glico-, de glicose, que também se diz glucose, de onde veio? Havia em indo-europeu uma raiz *dluk, “doce”, que, por dissimilação (e, evidentemente, por maior facilidade de pronúncia) deu em grego gluk, de onde vieram glicose, glucose, glicemia, glicogênio, etc. Em latim, *dluk deu dulk, também para facilitar a pronúncia (convenhamos que esse encontro consonantal dl não é dos mais fáceis de pronunciar). E de dulk veio o adjetivo dulcis, que produziu em português doce, edulcorar, Dulcora (uma antiga marca de balas e drops), dulçor, o nome próprio Dulce, e assim por diante.

Uma última curiosidade: em muitas línguas, “doce” é sinônimo de “macio” (por exemplo, em francês chiffon doux quer dizer “pano macio”), provavelmente porque o gosto doce é percebido como suave ao paladar. Por isso mesmo, um homem apaixonado oferece bombons à amada; espinafre não teria o mesmo efeito romântico… Mas, voltando à etimologia, a raiz indo-europeia *swad, que significava indiferentemente “doce” ou “macio”, é a origem do grego hedús, de hedonismo, do latim suavis, “suave”, e do inglês sweet, “doce”.

Então, pessoal, partiu 2019, bora malhar!

Balneabilidade?

Para se comunicar num idioma de cultura, não são necessárias mais do que 5 mil a 10 mil palavras. Contudo, o léxico de qualquer língua escrita (portanto, isso não vale para as línguas ágrafas de pequenas comunidades ou tribos) costuma ter mais de 200 mil vocábulos. Por que isso acontece? Porque a maioria desses vocábulos é de uso ultraespecializado e não de domínio público.

Durante este feriadão prolongado de Natal e Réveillon, ouvi no rádio que as praias do litoral paulista apresentavam boas condições de balneabilidade. Balneabilidade? Num primeiro momento, fiquei surpreso com o suposto neologismo. Mas imediatamente compreendi que se trata da condição que uma praia oferece de alguém banhar-se nela. O curioso é que esse termo deriva de um suposto adjetivo balneável, que não consta nos dicionários, proveniente, por sua vez, do verbo balnear, este sim constante no “pai dos burros”, mas com o significado de “dar banho a”. Ora, balneabilidade não é a condição de poder dar banho, mas sim a de poder tomar banho numa praia (ou rio, ou lago, ou…). Portanto, o inexistente adjetivo balneável deriva, na verdade, de banhar-se e não de balnear, empréstimo do latim balneare – por sinal, verbo culto de baixíssima frequência e forte candidato à obsolescência.

Temos muitos casos na língua portuguesa de palavras cultas ou semicultas derivadas de termos vulgares, isto é, herdados diretamente do latim. Por exemplo, entonação vem de entoar e não de um inexistente entonar; frenagem vem de frear e não de frenar; laticínio deriva de leite, embora a palavra tenha sido formada a partir do latim lacte; e assim por diante. É claro que a influência de outras línguas românicas sobre o português não pode ser ignorada, e é possível – aliás, bem provável – que entonação tenha sofrido a influência do espanhol entonación (de entonar) ou do francês intonation. Da mesma forma, é mais provável que o étimo de nossa frenagem esteja no francês freinage (de freiner) e não no latim frenum, “freio”.

Com certeza, personalidade provém, via francês ou espanhol, do latim tardio personalitas e não diretamente do português pessoa ou pessoal. Aliás, existe em nosso idioma o substantivo pessoalidade, que nada tem a ver com personalidade: pessoalidade é a característica da função profissional que deve ser exercida rotineiramente pela mesma pessoa, sendo vedada a sua terceirização. Por exemplo, espera-se que o professor responsável por determinada sala de aula seja o mesmo ao longo de todo o ano letivo e não que, a cada semana, um docente diferente venha dar aula a essa turma. Já a função de faxineiro não exige, em tese, a mesma pessoalidade.

Seria, por sinal, muito estranho se determinados termos cultos ou semicultos do português fossem totalmente aportuguesados, ou seja, tivessem seus radicais latinos substituídos pelos correspondentes vernáculos. Teríamos, então, artigoação no lugar de articulação, mulhericídio em vez de feminicídio, centelhante por cintilante, orelhal por auricular, desjanelar em vez de defenestrar, porquino por suíno, povoacional em lugar de populacional, sessenteiro por sexagenário, funçoeiro em vez de funcionário, obração por operação, ensementear por inseminar, beiçal por labial, mijadouro no lugar de mictório, e por aí vai.

E se, ao contrário, resolvêssemos relatinizar nosso vocabulário vernáculo? Provavelmente galinheiro viraria galinário, abelha seria apícula, devolver se tornaria devoluir, engarrafamento seria imbuticulamento, cabeça daria capícia, escorregar seria excorricar, caderno passaria a quaterno, criança viraria creância, arrepio seria horripílio, coelho se tornaria cunículo, sujo daria súcido, geladeira glaciário, e, o que é pior, empregada seria implicada.

Bom ano a todos!

A história da palavra “Natal”

Que Natal tem a ver com nascimento, todos sabemos. No entanto, estamos tão acostumados a ver essa palavra associada ao nascimento de Jesus Cristo que a longa história desse termo acaba obscurecida. Por isso, vale a pena revisitá-la.

O latim natalis surgiu como adjetivo derivado do substantivo natus, “nascimento”, mediante o sufixo -alis. Portanto, significava “relativo ao nascimento”. Exemplos desse uso são as expressões natalis humus, “terra natal”, e natale solum, “solo natal”, ambas referentes à pátria (também chamada de natio, “nação”, do mesmo radical). Nesse mesmo sentido, temos também dies natalis, o dia do nascimento de alguém (por isso, o aniversário natalício, que aqui no Brasil reduzimos para aniversário, chama-se em Portugal natalício). Finalmente, natale astrum é o astro que preside ao nascimento, portanto relacionado aos signos do zodíaco.

Aqui cabe mencionar que o substantivo natus deriva do radical do particípio natum, do verbo nascor, “nascer”, que por sua vez remonta à raiz indo-europeia *ĝenh1, cujo grau zero (isto é, sem a vogal) acrescido do sufixo incoativo -sk- deu *gnasco em latim arcaico e nascor no clássico. Do mesmo grau zero com redobro do radical saiu gigno, “gerar, parir”. Logo, nascor significava originalmente “ser gerado”. Da mesma raiz indo-europeia temos também o grego génesis, “criação, geração”, palavra de grande simbolismo.

Mas o adjetivo natalis passou a atuar também como substantivo comum, num processo chamado conversão (ou derivação imprópria). É que dies natalis foi reduzido a natalis por economia linguística (assim como o já citado “aniversário natalício” encolheu para “natalício”). E, nessa acepção, natalis era o dia do nascimento de uma pessoa, o próprio ato de nascer e ainda o ano da fundação de Roma.

Mas natalis ganharia ainda dois outros empregos pagãos antes de ser incorporado pelo cristianismo: como designativo do gênio ou deus que preside ao nascimento de uma pessoa e a acompanha durante toda a vida (algo como o nosso anjo da guarda) e como nome próprio masculino (em português também temos pessoas chamadas Natal).

Mas foi na acepção de “nascimento” que Natalis se especializou como denominativo do nascimento de Jesus e, por conseguinte, da festa cristã que comemora esse evento. Tanto que jamais usamos tal substantivo fora desse contexto, para falar do nascimento de outras pessoas que não a figura central do Cristianismo.

Dito isto, só me resta agora desejar votos de felicidades a todos os amigos leitores e seguidores do nosso blog e do nosso canal no YouTube que nos acompanharam ao longo de mais um ano. Feliz Natal!

A origem do nome “Jesus Cristo”

Já que estamos a exatamente uma semana do Natal, festa máxima da cristandade, gostaria de fazer um comentário sobre o nome do principal personagem dessa comemoração: Jesus Cristo.

Quando eu era criança, achava que Cristo era o sobrenome de Jesus, algo assim como Jesus da Silva ou Jesus Pereira. Mais tarde, aprendi que Cristo é um epíteto dado a Jesus e significa “ungido” em grego. Mas qual era o verdadeiro nome de Jesus? Como judeu que era, ele tinha um nome aramaico (o aramaico, derivado do hebraico, era a língua falada pelos judeus do século I da nossa era): Yehoshua (ou Yeshua) ben Youssef, isto é, Josué, filho de José.

Mas Jesus também era conhecido como Jesus de Nazaré, ou Jesus o Nazareno, em razão de sua cidade de origem. Ao ter sido batizado no rio Jordão e reconhecido como o mensageiro de Javé que viera libertar o povo judeu da opressão romana (Yehoshua significa “Javé salva”), Jesus recebeu o epíteto de Mashiach (“Messias”), que em hebraico quer dizer “ungido”. Como o Novo Testamento foi redigido num grego tardio chamado koiné, o nome Yeshua Mashiach foi traduzido para Iesoûs ho Khristós, literalmente “Jesus o Ungido”.

À medida que o Cristianismo se disseminou por Roma, chegando ao ponto de assumir o latim como sua língua oficial, o nome grego de Jesus foi latinizado para Iesus Christus (o latim não tem artigos), donde o português Jesus Cristo, o espanhol Jesucristo, o inglês Jesus Christ, e assim por diante. Mas, se “ungido” em latim é unctus, por que Jesus não ficou conhecido em Roma como Iesus Unctus? É que o prestígio da língua grega em Roma era muito grande, e o fato de os Evangelhos terem sido escritos em grego pesou decisivamente para que o epíteto grego Khristós não fosse traduzido, mas apenas adaptado para Christus. Por essa razão, mesmo os cristãos falantes do latim chamavam seu mestre de Christus e não de Unctus, o que, diga-se de passagem, foi ótimo. Já pensaram se a figura central do Cristianismo se chamasse Jesus Unto?

O estigma das palavras

Muitos criticam a adoção de certas palavras, especialmente verbos terminados em ‑izar, como disponibilizar, penalizarrelativizar, absolutizar e vitimizar, sob o argumento de que são desnecessárias, já que a língua dispõe de outros vocábulos, mais simples e tradicionais, para expressar os mesmos conceitos. Na opinião desses críticos, em vez de disponibilizar, devemos empregar oferecer; em lugar de penalizar, punir, e assim por diante.

A questão oculta por trás dessa argumentação não é propriamente se tais palavras são de fato ociosas, já que existem sinônimos para elas. Afinal, sinônimos nunca são demais: sempre precisamos deles, nem que seja para tornar menos monótona a redação. Oferecer, ofertar, disponibilizar, com certeza há lugar para todas essas palavras na língua. Então, por que o uso desses termos incomoda algumas pessoas?

A meu ver, há algo de ideológico nisso. Certas expressões têm alta frequência de uso em algumas épocas e em determinados grupos sociais ou profissionais. Assim, na década de 1960 qualquer coisa muito boa ou que cumprisse muito bem suas funções estava “inserida no contexto”. Nos anos 1980, explicação que se prezasse tinha de ser iniciada por “Veja bem”. Certos modismos são odiados justamente por ser modismos, o que revelaria falta de personalidade ou estilo por parte de quem os usa. Muitos deles são, aliás, deformações do jargão acadêmico ou da linguagem especializada, o que os tornaria ainda mais caricatos – por exemplo, “enquanto” e “a nível de” no sentido de “como”: “o homem, enquanto ser social”, “a nível de espécie animal, o ser humano…”. (“A nível de” ainda tem contra si a antipatia dos gramáticos, que condenam tal expressão, preferindo “em nível de”.)

Talvez seja esse o caso de disponibilizar, absolutizar, etc. Do ponto de vista morfológico, não há nada de errado com essas palavras: se o sufixo ‑izar significa “tornar”, então disponibilizar é tornar disponível, absolutizar é tornar absoluto, e assim por diante. O problema é que esses termos surgem em determinados meios (empresarial, publicitário, econômico) e se tornam emblemáticos dessas atividades. Tornadas assim palavras-emblema, elas passam a carregar o estigma das profissões que as ostentam como senha. Se desacredito dos economistas e de suas mirabolantes previsões, o jargão econômico se transforma em “economês”, língua de empulhação, destinada a ludibriar a opinião pública. E, portanto, seus termos passam a ser emblemas dessa empulhação.

Há também a falsa erudição. Sendo termos nascidos em algum jargão técnico, disponibilizar, relativizar, etc., conferem a quem os pronuncia um status de pessoa letrada, de nível superior. O abuso dessas formas como índice de cultura é o que gera a caricatura.

Infelizmente, no próprio discurso letrado, o vazio de ideias acaba preenchido por uma pletora de vocábulos-emblema. Em textos acadêmicos, é comum lermos que “este artigo procura lançar um olhar sobre”, “é preciso tornar o aluno sujeito de seu próprio processo de ensino-aprendizagem”, etc. etc. O costume de lançar olhares em vez de simplesmente analisar,examinar, estudar, bem como o emprego de palavras e construções que revelem algo da ideologia do autor (por exemplo, termos como inclusão, resgate da cidadania, dívida histórica, situação de risco social, ação afirmativa fazem parte de certas agendas político-partidárias), nos predispõe imediatamente contra ou a favor da argumentação subsequente, pois, de cara, percebemos tratar-se de um texto desta ou daquela linha ideológica.

O mesmo raciocínio vale para as investidas eugenistas contra certos vocábulos, como homossexualismo, ao qual os puristas querem contrapor homossexualidade, alegando o caráter mais neutro do sufixo ‑dade. Ora, não existem termos neutros na linguagem, tudo tem conotações, a própria busca da neutralidade emblematiza (gostaram?) uma postura ideológica, a do igualitarismo radical.

Se fôssemos usar esse critério em todos os casos, a astrologia deveria chamar-se astromancia, pois ‑logia é elemento que denota ciência, e a astrologia é uma adivinhação (‑mancia) baseada nos astros. Pelo mesmo motivo, a neurociência deveria ser neurologia, e a especialidade médica que hoje conhecemos por neurologia deveria ser neuriatria. A própria tecnologia não é a ciência que estuda a técnica, mas o conjunto de técnicas fundadas no conhecimento científico. Portanto, deveria ser chamada de logotecnia ou logotécnica. Os exemplos poderiam estender-se ao infinito.

O fato é que a língua se pauta menos pela lógica do que pelo uso. Se alguém propõe um novo termo, por menos razoável que seja (e o que há de razoável em chamar radar de trânsito de pardal?), e ele “pega”, não há o que fazer. Criticá-lo, combatê-lo, incitar as pessoas a boicotá-lo, nada disso dá resultado e só revela o lado rancoroso de alguns falantes, que se comprazem em estigmatizar (eita nós!) a fala alheia.

Desigualdades sociais, desigualdades linguísticas

Toda sociedade complexa é bastante heterogênea, porque formada de indivíduos muito diferentes entre si. E essa diferença, que em princípio seria apenas de natureza, logo tende a tornar-se de valor. O Brasil, que, segundo dados recentemente divulgados, é a quarta nação mais desigual da América Latina, vive uma verdadeira luta de classes, permeada por todo tipo de preconceito e intolerância. E o que vale para a desigualdade social vale para a diversidade linguística, vista entre nós também como desigualdade: assim como há classes sociais dominantes e dominadas, certas variedades linguísticas são tidas como superiores, outras como inferiores.

Diante da desigualdade social, há três atitudes políticas possíveis: uma atitude conservadora, que procura manter tudo como está e estimula o preconceito contra os menos favorecidos; uma atitude pseudoprogressista,que valoriza a carência e trata a pobreza como virtude, como se ignorância,subnutrição, falta de recursos, fome e desestruturação familiar fossem um patrimônio cultural a ser preservado; e, finalmente, uma atitude verdadeiramente progressista que, reconhecendo o problema, procura saná-lo,atuando para que os pobres possam pouco a pouco sair da pobreza e usufruir os mesmos bens da civilização que as elites.

Em termos de língua, a atitude conservadora consiste em tachar aqueles que não dominam a norma culta como ignorantes e analfabetos,exercendo sobre eles o famoso preconceito linguístico (cerceamento do acesso a direitos, exclusão social, chacota, etc.), mas nada fazendo para mudar a situação. Já pseudoprogressista é afirmar que todas as variedades linguísticas,inclusive as de menor prestígio, devem ser respeitadas e estimuladas, que não se deve corrigir o aluno que diz “menas” ou “pobrema”, e que é legítimo que cada um fale como queira ou possa em qualquer situação. Esse tipo de atitude se assemelha muito a certas políticas demagógicas que, a pretexto de tirar crianças carentes de situações de risco, as ensinam a tocar tambor ou a cantar funk proibidão sob a alegação de que se trata de uma forma de inserção social e de incentivo à cultura. Resta saber em qual sociedade essas crianças serão inseridas e que tipo de cultura é essa que se está incentivando?

Realmente progressista num caso como esse não seria dar às crianças a possibilidade de aprender música de qualidade (um instrumento melódico, partitura, solfejo)? Não seria dar-lhes a chance de ter acesso a outras realidades (musicais, culturais e sociais) que abram sua cabeça e as portas de uma vida mais feliz e mais plena, inclusive de oportunidades?

Infelizmente, para certos setores que se dizem de esquerda (mas cuja ideologia de endeusamento da miséria – principalmente da espiritual – é de fato reacionária, já que só faz preservar a penúria), a pobreza é uma virtude (talvez porque renda votos) e o importante é elevar a autoestima do cidadão carente e não libertá-lo da carência.

Não há dúvida de que os pobres merecem respeito como cidadãos e seres humanos, mas respeitá-los em sua pobreza é uma coisa, tentar resgatá-los dessa condição é algo bem diferente.

Que a língua varia todos sabemos e a linguística já o provou há muito tempo: é uma verdade científica. Que a variação linguística é coextensiva da heterogeneidade social também já está provado. E, assim sendo, a variedade é natural (porque pessoas diferentes não podem se expressar de modo igual), irreprimível (pois não há como obrigar todos os cidadãos a ter um mesmo comportamento) e benéfica para a comunicação, já que só se pode dar conta de determinadas experiências em certas variedades. Também é fato que a diversidade linguística é um prato cheio para os cientistas da linguagem. Mas isso não quer dizer que os linguistas sejam contra a escolarização e o ensino da norma culta nas escolas – ainda que com todas as críticas que nossa gramática normativa merece e tem recebido. Dizer que “nós foi” e “teje” é algo que deva ser preservado e que reprimir tais usos com intuito educativo é intolerância linguística constitui uma postura obscurantista. Assim como o desejável não é respeitar, mas sim erradicar a pobreza, dando aos excluídos a possibilidade de ascender socialmente por meio da educação, o verdadeiro progressismo está em levar a todos o conhecimento das formas mais prestigiosas da língua, até para que se possa decidir com bom senso em que momento usá-las ou não. Do contrário,estaremos ensinando crianças carentes a bater tambor e a gostar de funk sob a alegação de que piano e violão são instrumentos pequeno-burgueses e de que Beethoven e Tom Jobim representam a música das elites dominantes e opressoras.Ou seja, em nome de um esquerdismo de salão, estaremos é sendo fascistas.

A cultura da evolução livre

Por muitos séculos, um desvio da norma gramatical foi considerado um erro e ponto final. A sociedade dividia-se, portanto, entre os que sabiam falar a própria língua e os que não sabiam.

Com o advento da linguística evolutiva, da sociolinguística e sobretudo dos estudos de William Labov sobre variação, o chamado erro gramatical passou a ser visto como um fato natural da linguagem. Remonta, por sinal, aos linguistas histórico-comparativos do século XIX o lema de que o erro de hoje poderá ser a norma gramatical de amanhã.

No entanto, essa visão mais benevolente do desvio levou em alguns casos a uma confusão entre erro e evolução: o desvio pode vir a tornar-se norma, mas não necessariamente se tornará. Como numa reação contra séculos de doutrinação gramatical e estigmatização da fala dos menos instruídos, alguns teóricos passaram equivocadamente a supervalorizar o erro e a relativizar a importância da língua padrão.

Acontece que a dinâmica da evolução linguística é mais complexa do que parece à primeira vista. A língua se apoia numa tensão dialética entre a conservação e a mudança: a todo momento, por força do próprio uso, algo muda na língua, mas a maior parte de seus elementos se conserva. Se nada mudasse, a língua seria estática, a fala ficaria “engessada”, e o sistema rapidamente rumaria para a obsolescência; se tudo mudasse o tempo todo, ninguém mais se entenderia.

As forças da conservação e da mudança travam uma queda de braço permanente: toda inovação, seja ela lexical, sintática ou semântica, gera uma nova forma que tem de competir com as já existentes. Essa luta pode se arrastar por décadas ou séculos. Ao final, a forma inovadora pode derrotar as até então estabelecidas, assim como pode acabar derrotada por elas, isto é, abandonada, como é o caso de muitas gírias efêmeras.

Recorrendo mais uma vez à metáfora biológica, a inovação linguística (incluindo o “erro” gramatical) é como uma mutação genética. Toda mutação surge num pequeno número de indivíduos; se estes conseguirem transmitir o gene mutante às gerações seguintes, e se a característica física determinada por ele for vantajosa à sobrevivência, esse traço possivelmente se espalhará por cada vez mais indivíduos, de modo que, após muitas gerações, o gene mutante, até então recessivo, se tornará dominante.

girafas

No passado, todas as girafas tinham pescoço curto. Os primeiros espécimes a nascer com pescoço longo eram, portanto, um “erro” da natureza. Mas como essa aparente aberração permitia apanhar folhas e frutos das árvores mais altas, tais indivíduos logo passaram a ter uma vantagem competitiva em relação aos seus pares de pescoço curto. Com o tempo, a maioria das girafas de pescoço comprido sobreviveu e se reproduziu, enquanto as de pescoço curto morreram antes de deixar descendentes. Por isso, as girafas atualmente têm pescoço longo: trata-se do resultado de um lento processo de seleção natural, em que o erro virou norma.

Consequentemente, a mutação não se confunde com a evolução, ela é apenas o primeiro passo de uma possível evolução – isso se a mutação vingar: a maioria delas gera apenas indivíduos defeituosos e sem condições de sobrevivência.

Há ainda outro aspecto a ser considerado: na selva, a evolução biológica segue as leis do acaso e da seleção natural espontânea, logo é um processo aleatório. Já numa fazenda, as espécies estão sujeitas a um melhoramento genético artificial promovido pelos criadores/plantadores, que interferem no curso natural da evolução a fim de produzir espécimes mais resistentes a pragas e doenças ou mais nutritivos.

Do mesmo modo, a fala popular, assim como as línguas ágrafas e os dialetos, evolui de modo livre; já as chamadas línguas de cultura (dotadas de escrita formal) estão sujeitas à engenharia genética operada por escritores, jornalistas, intelectuais, gramáticos e professores.

Num primeiro momento, a forma não padrão (errada, segundo a gramática normativa; recessiva, em termos evolucionários) constitui uma mutação que deve competir com a forma culta estabelecida (que um dia também foi recessiva). Se ela se disseminar por cada vez mais falantes e for aumentando de frequência a cada nova geração, chegará o dia em que escritores e outros formadores de hábitos linguísticos passarão a empregá-la de modo corrente. Quando isso ocorre, os gramáticos acabam por render-se ao triunfo dessa forma e passam a aboná-la ao lado da já consagrada. Num momento seguinte, a forma até então dominante poderá ter seu uso diminuído até tornar-se um arcaísmo e, por fim, sair do sistema (é a extinção dessa forma). Somente ao final desse processo a evolução linguística estará concluída.

Em resumo, o desvio da norma, incluindo o chamado erro gramatical, não é bom nem mau – nem uma evidência da inferioridade intelectual do povo nem um instrumento de luta contra as classes dominantes –, é apenas um fato natural a ser estudado cientificamente.

Para que serve o Enem afinal?

Este mês, tivemos mais uma edição do Enem, ou Exame Nacional do Ensino Médio. Esse exame cresce a cada ano em número de participantes e já é a principal porta de entrada para as universidades brasileiras. Porém, quando foi criado, em 1998, o Enem tinha por objetivo avaliar a qualidade do ensino médio, tanto público quanto privado, em nosso país. Assim como o Enade, a Prova Brasil e outros mecanismos de mensuração qualitativa, o Enem visava permitir o planejamento a médio e longo prazos de políticas para a educação, apontando deficiências e permitindo a comparação do desempenho dos estudantes (e, por tabela, da qualidade das escolas) entre estados, municípios e até entre o Brasil e outros países, que também fazem suas medições periódicas.

No entanto, desde 2009, quando a nota do aluno no Enem passou a ser aceita como parte do processo seletivo para ingresso em universidades públicas e privadas, esse exame se tornou um megavestibular, em que o candidato concorre a vagas em várias instituições ao mesmo tempo.

Se, por um lado, isso foi benéfico aos estudantes que concluem o ensino médio e pretendem seguir seus estudos na universidade, já que podem prestar um único exame em vez de ter de se submeter a inúmeros concursos, por outro lado, essa nova função do Enem o descaracterizou como um instrumento de medida da qualidade do ensino secundário, pois, assim como já acontecia com os vestibulares tradicionais, hoje o aluno faz cursinho para se preparar para o Enem (e isso alimenta a milionária indústria dos cursinhos). Portanto, o que se mede atualmente através do Enem não é a qualidade do ensino médio, mas a capacidade dos cursinhos de ensinar macetes que permitam ao candidato um bom desempenho na prova – mesmo que a sua trajetória acadêmica até então tenha sido medíocre. Qualquer conclusão que se tire do resultado desse exame não retratará com exatidão a realidade da educação básica brasileira, mas talvez a dos cursinhos pré-vestibulares, instituições de ensino paralelas, não oficiais e não reconhecidas pela legislação educacional.

Ao mesmo tempo, o Enem não deixa de ser um exame vestibular, que, como todos os outros, faz com que o estudante tenha de decidir em poucas horas todo o seu futuro: se será um profissional de nível superior ou se ficará no nível médio; se fará uma carreira em ciências ou em humanidades, se atuará no mercado ou no magistério, e assim por diante. A grande crítica que sempre se fez a esse tipo de processo é que não se pode avaliar por uma única prova toda a trajetória escolar de uma pessoa; afinal, o insucesso num exame pode ser fruto de nervosismo ou indisposição física e não necessariamente de falta de preparo. Consequentemente, o aluno pode perder um ano de vida por causa de uma simples dor de cabeça ou do atraso causado por um pneu furado.

É por essa razão que muitos países do Primeiro Mundo substituem o vestibular ou qualquer outra prova eliminatória por uma análise do histórico escolar do estudante: as notas que recebeu ao longo de toda a sua passagem pela educação básica é que dirão quão apto ele está para prosseguir seus estudos em nível superior. É claro que esse sistema também acarreta problemas. No Japão, não são raros os casos de suicídio de estudantes após uma nota baixa, que com certeza pesará negativamente em seu histórico escolar, fechando para sempre as portas das grandes universidades para esses alunos.

Além disso, no caso específico do Brasil, em que sobretudo o ensino básico público é muito fraco, até que ponto as notas que o estudante obteve em determinada disciplina refletem realmente o quanto ele absorveu de seu conteúdo?

Enfim, ainda não foi inventado o sistema ideal de avaliação de cursos nem o de admissão às universidades. Só temo que, com o dinheiro envolvido na indústria da preparação para o Enem, as distorções na nossa política educacional sejam cada vez maiores.

A ciência do gosto

Outro dia, estava participando de um bate-papo em uma rede social quando veio à baila a questão do preconceito de uma suposta elite socioeconômica contra certas formas de expressão artística mais populares, ou popularescas – para falar português claro, bregas. Aí se incluiriam gêneros musicais como o sertanejo universitário (até hoje não entendi o que há de universitário nesse tipo de música), o pagode, o forró (igualmente universitário), a axé music, bem como as telenovelas mexicanas, os livros de Paulo Coelho, e por aí vai.

A tese de um dos debatedores era que há um preconceito por parte “da zelite” que têm dinheiro e estudo contra as formas de expressão do “povão” e que o gosto é uma construção social e cultural, sendo, pois, arbitrário, de modo que, por via de conclusão, a pecha de brega não se justifica, sendo mera perseguição simbólica daqueles que podem mais contra os que podem menos.

Essa história de que tudo é construção social, de que nada no ser humano é natural, é uma tese muito cara às chamadas ciências sociais (sociologia, história, política, etc.), mas que, as mais das vezes, não tem base científica alguma; pelo contrário, a ciência demonstra que a biologia quase sempre se sobrepõe à ideologia.

Deixando de lado o fato de que por trás dessa cultura extremamente popular está uma indústria milionária, cujos agentes (empresários, produtores, artistas) estão mais para elite do que para povo, o fato é que há muito tempo a filosofia e a ciência vêm se perguntando se o belo é uma convenção social, que portanto muda de sociedade para sociedade e de época para época, ou se é algo universal, que obedece às mesmas leis e critérios em todas as sociedades e em todas as épocas.

Aristóteles já havia se debruçado sobre a questão há 2.300 anos na sua Arte Poética. Antes dele, Sócrates e Platão também já haviam se perguntado sobre o que torna algo belo. A indagação perpassou a Idade Média, Renascença e Idade Moderna. Mas a ciência atual lançou alguma objetividade sobre o tema de modo a mostrar que beleza não é mera questão de gosto, mas o próprio bom-gosto pode ter raízes em nossa biologia.

Em primeiro lugar, descobriu-se que algo não é considerado de bom-gosto porque é apreciado pelas classes mais altas da sociedade, mas bem o contrário: os estratos superiores, por deterem o maior conhecimento, é que apreciariam o que é de fato bom. Isto é, a sensibilidade estética decorreria de um refinamento dos sentidos proporcionado pelo estudo, proporcionado por sua vez pelo dinheiro. Seja como for, dá-se um círculo virtuoso em que o refinamento intelectual busca o bom-gosto, e este gera mais refinamento.

Em segundo lugar, foram conduzidos experimentos com o objetivo de determinar se o sentido do belo é universal ou varia segundo parâmetros puramente culturais. Por exemplo, estudiosos pediram que voluntários dos mais diversos países e backgrounds culturais, divididos por gênero, idade, nível de escolaridade, classe social, etc., observassem fotos de rostos e apontassem aqueles que achavam bonitos. Havia rostos de todos os tipos: de homens, mulheres, crianças, brancos, negros, amarelos, jovens, velhos, e assim por diante. A pesquisa concluiu que os rostos escolhidos pela maioria dos voluntários tinham algo em comum: a simetria e proporcionalidade das feições. Mais ainda, os rostos mais belos na opinião das pessoas submetidas à experiência eram aqueles que melhor se enquadravam na chamada proporção áurea.

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A proporção áurea

Em termos matemáticos, a proporção áurea é a que se tem quando o lado menor de um retângulo está para o maior assim como este está para a soma dos dois. De modo mais geral, temos essa proporção quando a parte menor está para a maior assim como a maior está para o todo. Por sinal, um exemplo clássico de beleza corporal que baliza os artistas plásticos desde o Renascimento é o chamado homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, desenho em que se pode perceber as partes do corpo humano obedecendo claramente à proporção áurea.

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O homem vitruviano, de Da Vinci

Outro experimento lidou com combinações de cores. Pedia-se aos voluntários, igualmente possuidores dos mais diversos perfis, que fizessem combinações entre cores previamente dadas. Ao final, certas combinações prevaleceram sobre outras. Por exemplo, as que uniam uma cor quente, isto é, tendente ao vermelho, e uma cor fria (tendente ao azul) eram preferidas às que uniam duas cores quentes ou duas frias. Combinações entre tons claros e escuros também foram preferidos a combinações mais monótonas.

Outros tantos experimentos manipularam sons, vozes humanas, objetos bi e tridimensionais, texturas e muito mais. Aplicados à estética, esses resultados indicam que o bom-gosto está ligado ao equilíbrio, à simetria, à regularidade. Isso não quer dizer que uma forma assimétrica não possa ser bonita: a arte moderna rompeu em grande parte esse paradigma. No entanto, esse tipo de arte apela para outro dado igualmente importante quando se trata da criação artística: o efeito-surpresa. Nosso cérebro foi programado para prever eventos; e ele o faz baseado em experiências anteriores memorizadas. Por exemplo, se lemos uma frase como “Ele passou ___ no pão”, temos a tendência natural de completar a lacuna com palavras tais como “manteiga”, “geleia”, “margarina”, etc. De repente, se a lacuna é preenchida com a palavra “graxa”, nossas ondas cerebrais, monitoradas por um aparelho de eletroencefalografia, apresentarão um comportamento anormal, o que não acontece se a palavra oculta fosse “manteiga”, por exemplo. É que nossa mente reage ao que não espera. É isso que torna uma anedota engraçada: um final surpreendente, que contraria nossa expectativa. Diante dessa quebra de expectativa, desse estranhamento, temos a reação instintiva de rir. O elemento-surpresa é também fartamente explorado por narrativas de suspense e terror, mas, de forma geral, toda boa história tem enredo e sobretudo desfecho pouco óbvios.

Um terceiro elemento frequentemente ligado à sensação do belo é a complexidade. Embora também se possa encontrar muita beleza em coisas simples, a complexidade instiga nossa mente e aguça nossa curiosidade. Está aí a chave do prazer que nos causam os quebra-cabeças, as estórias policiais, os arabescos, a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach…

O que se pode dizer da arte popularesca é que, de modo geral, ela vai na contramão desses princípios: uso e abuso de clichês, desfechos óbvios, rimas pobres e previsíveis (como “sorte” e “morte” ou “paixão” e “coração”), repetição de fórmulas desgastadas, que um dia foram originais mas não são mais, e outros truques semelhantes.

Se a mente treinada pelo estudo e pela exposição ao maior número possível de experiências sensoriais busca a harmonia combinada à originalidade e à elaboração formal, o intelecto simplório das pessoas que não tiveram a oportunidade de viver experiências mentais instigantes se sente confortável diante do já conhecido, da expectativa não frustrada, da facilidade de decodificação, da oferta de mais do mesmo. E a indústria cultural de massas sabe bem disso (há inclusive especialistas da academia trabalhando para ela) e explora esse tipo de cultura à exaustão.

Portanto, deixando de lado o preconceito dos que preferem música clássica, jazz ou MPB à música brega, o fato é que os gêneros mais “elitizados”, digamos assim, de arte forçam nosso cérebro a formar novas conexões neuronais, ao passo que a arte mais popular e simplista apenas reforça as conexões já formadas. Dito de outro modo, a mente desafiada se torna mais inteligente, e a mente inteligente busca sempre mais desafios. É claro que, no frigir dos ovos, gosto não se discute, e há obras para todos os gostos. Mas bom-gosto se aprende, e todo gosto, seja ele bom ou mau, se pode estudar cientificamente.