Quantas línguas portuguesas existem?

De todas as línguas transcontinentais, isto é, faladas em mais de um continente, o português me parece a mais problemática em termos de difusão mundial. Em que pese o grande número de falantes (273 milhões), que a torna a quinta língua nativa mais falada do mundo, o português é pouco conhecido e frequentemente confundido com seu irmão mais famoso, o espanhol. Aliás, a importância que este último assumiu nas décadas mais recentes como língua internacional, somada à semelhança entre ambos os idiomas, explica em parte porque o português acaba ofuscado. Mas não é só isso. Nossa língua também padece de problemas intrínsecos que embaraçam os estrangeiros que queiram aprendê-la. A acentuada diferença entre as variedades lusitana e brasileira em termos não só de pronúncia e léxico, mas principalmente de sintaxe, têm obrigado até mesmo sites internacionais, softwares e aplicativos a disponibilizar textos redigidos em ambas as variedades. Nada semelhante ocorre em relação ao inglês, francês e espanhol, as outras grandes línguas internacionais e intercontinentais.

A distância entre as variedades europeia e brasileira do português fez o linguista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, chegar a propor que o português brasileiro seja considerado um idioma distinto do lusitano. Claro que ainda não chegamos a esse ponto, e tal separação teria hoje um caráter mais político do que linguístico, mas o fato é que, de certa forma, caminhamos a passos largos para essa cisão se não houver esforços de ambos os lados para uma reaproximação das variedades.

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Outro dia, recebi por e-mail o anúncio de um determinado serviço de armazenamento de dados em nuvem com o seguinte título: “Está a procurar mais espaço para a partilha de ficheiros? Temos a melhor solução para si”. Em português brasileiro, teríamos “Você está procurando mais espaço para o compartilhamento de arquivos? Temos a melhor solução para você”. O estranhamento que a frase em português luso me provoca é quase tão grande quanto seria se eu estivesse lendo um anúncio em outro idioma. Essa mesma chamada publicitária não precisaria de duas versões caso fosse escrita em espanhol, francês ou inglês. Bastaria redigir “¿Está buscando más espacio para compartir archivos? Tenemos la mejor solución para usted” que na Espanha e em toda a América espanhola todos entenderiam sem dificuldade e sem estranheza. Bastaria dizer “Cherchez-vous plus d’espace pour partager des fichiers? Nous avons la meilleure solution pour vous” que todos os falantes do francês se identificariam imediatamente com a mensagem. Bastaria escrever “Are you looking for more space for sharing files? We have the best solution for you” e todo o mundo anglofalante reconheceria ali seu idioma. E vejam que todas essas línguas também têm variedades nacionais distintas.

Em inglês, há duas grandes vertentes, a britânica e a americana, com vocabulários em pequena parte diferentes e mesmo grafias distintas aqui e ali. Em espanhol, há pequenas diferenças vocabulares de país a país e, na região platina (Argentina, Uruguai, Chile), ocorre também o uso de um pronome pessoal vos que não se usa na Espanha e restante da América; em compensação, os espanhóis utilizam o pronome vosotros, que na América Latina já caiu há muito em desuso. Fora isso, o castelhano é uma língua bastante homogênea. Entre o francês europeu, o americano (Canadá, Haiti, Antilhas Francesas, Guiana Francesa) e o africano há umas poucas diferenças lexicais e só.

Embora o aspecto que mais salte à vista – ou melhor, ao ouvido – na distinção das variedades lusa e brasileira seja a pronúncia, o fato é que fortes diferenças de pronúncia existem em todas as línguas, especialmente nas transnacionais, isto é, as faladas em vários países. Diferenças de vocabulário também são frequentes, embora no caso do português tais diferenças atinjam não só palavras de uso muito corrente como até nomes próprios de cidades e nações.

Quanto às divergências gráficas, só o português e o inglês as têm, com a ressalva de que em inglês a diferença de grafia não implica diferença de pronúncia; já em português palavras como “fato” e “facto”, “gênio” e “génio” efetivamente soam de modo distinto lá e cá, o que dificulta a unificação ortográfica.

Mas, já que o português lusitano e o brasileiro estão mais distantes entre si do que o espanhol ibérico e o latino-americano, o inglês britânico e o norte-americano, ou ainda o francês europeu e o ultramarino, é necessário não só que haja uma reaproximação cultural entre Brasil e Portugal, com efetivo intercâmbio de bens de cultura (hoje o fluxo de produtos culturais parece unidirecional, do Brasil para Portugal, vide telenovelas, filmes, música popular, Rock’n’Rio, etc.), como também que haja uma unificação da norma culta, vale dizer, que, pelo menos no registro formal, portugueses e brasileiros se expressem da mesma maneira. É claro que a língua falada continuará com suas peculiaridades regionais, mas ao menos os manuais de instruções e outros documentos de circulação internacional seriam redigidos de modo uniforme.

Evidentemente, para que isso ocorra é preciso que se façam algumas escolhas. “Trem” ou “comboio”? “Ônibus” ou “autocarro”? “Guarda-roupas” ou “guarda-fatos”? “Moscou” ou “Moscovo”? “Bagdá” ou “Bagdade”? “Estou fazendo” ou “estou a fazer”? “Tem trabalhado” ou “tem vindo a trabalhar”? Eu particularmente penso que deveríamos preferir as formas mais consoantes às demais línguas europeias. Alguns regionalismos seriam mantidos, como ocorre em todas as línguas. É o caso, por exemplo, de chamar “filão de pão” de “cacete” ou “chope” de “imperial”. Mas nomes próprios e palavras de alta frequência deveriam ser uniformizados, e essa norma padrão única, ensinada em todas as escolas de todos os países lusófonos.

É claro que para isso precisaríamos vencer o bairrismo dos portugueses e a péssima escolarização dos brasileiros.

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O Iluminado

Hoje não posso deixar de prestar homenagem a um dos meus grandes ídolos, um dos caras que mais me fizeram ter amor pela ciência e pela popularização da ciência: o iluminado Stephen Hawking.

Iluminado sim, pois sua mente prodigiosa, mesmo aprisionada num corpo paralisado, nos auxiliou a compreender melhor os mistérios da nossa existência. Considerado o físico mais importante de nosso tempo e o mais insigne depois de Newton e Einstein, Hawking de certo modo complementou a obra desses outros dois gênios. Seu trabalho consistiu em explicar como o Universo surgiu e como evoluiu desde então, e por que as leis da física são como são.

Mais do que isso, seu pensamento tocou em questões ontológicas que perturbam a todos os que somos dotados de alguma curiosidade e temos espírito aberto: por que existimos? por que a realidade existe em vez do nada? poderia o nada existir? se o Universo existe, é porque ele foi criado?

Ateu convicto, Hawking tinha respostas convincentes a todas essas questões, embora sua modéstia, típica dos sábios, o levasse a nunca afirmar nada peremptoriamente. Afinal, diferentemente da religião, que tem respostas prontas para tudo (e sempre as mesmas respostas ao longo de milênios), a ciência não se baseia em argumentos de autoridade ou em verdades pretensamente reveladas, mas em pesquisa, isto é, observação meticulosa, investigação, experimentação e raciocínio lógico. Hawking sabia como ninguém que não existem verdades prontas e acabadas, o que existe é a possibilidade de o engenho humano descobrir mais e mais, chegando sempre mais perto da verdade sem jamais atingi-la por completo. Uma de suas frases célebres diz: “há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona”. É o que vemos todos os dias: a ciência provando suas teorias e demolindo as crenças religiosas. Pena que ela seja acessível a poucos.

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Por isso mesmo, o iluminado Hawking também teve a generosidade de partilhar conosco, simples mortais, suas descobertas e seu conhecimento. Ele foi um incansável e magistral divulgador da ciência, e sua paixão pela comunicação do saber o fez transpor as limitações de sua condição física, jamais deixando de escrever para o público leigo e de dar palestras em todo o mundo, mesmo tendo de usar um sintetizador de voz para falar. Seus livros tornaram-se best-sellers e ele, uma celebridade pop, digna de aparecer nos Simpsons, no Laboratório de Dexter, em The Big Bang Theory, em Star Trek, e de ter sua vida retratada em filme (A Teoria de Tudo, 2014).

Seu trabalho incansável de divulgador científico levou milhares de jovens a se apaixonar pela ciência e a abraçá-la como carreira, bem como iluminou a mente de muitas pessoas, livrando-as do obscurantismo da crendice e da superstição. Para mim, que tento ser um divulgador da ciência da linguagem e milito no campo das Humanas, às vezes tão avesso ao método científico, tão apegado ao dogmatismo marxista, Hawking é uma inspiração, alguém que me motiva a seguir adiante apesar de todas as diversidades.

Mas a vida de Stephen Hawking também tem a mística da trajetória dos grandes homens. Nascido no dia em que se completavam 300 anos da morte de Galileu e no ano em que se comemorava o 300º aniversário de nascimento de Newton, faleceu no dia do aniversário de nascimento de Einstein, no qual também é celebrado o Dia do Pi, a famosa constante matemática 3,14… (é que 14 de março se escreve em inglês como 3/14). E faleceu aos 76 anos, como o gênio alemão. Todas essas coincidências – ou sincronicidades, se preferirem – são peças que a realidade nos prega, talvez tentando nos revelar seus caprichos mais sutis. Pois, como disse Einstein, a natureza é sutil, mas não maliciosa.

Além de tudo, ele teve a grandeza moral dos fanais da humanidade. Preso a uma cadeira de rodas, ele viu melhor que ninguém e nos mostrou mais claramente o mundo que habitamos, qual um Beethoven tirando a mais bela música do silencio da surdez, qual um Aleijadinho que, sem mãos, esculpiu na pedra o orgulho da nossa nacionalidade, qual um Homero cego cantando a Ilíada.

Caro Steve, você fará uma baita falta!

A legião dos imbecis

As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de imbecis que antes só falavam na mesa de bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade. Eram rapidamente silenciados, mas agora têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.

Umberto Eco ao jornal La Stampa

A ciência ainda não sabe com certeza quando o homem começou a falar. Alguns estudiosos acreditam que essa faculdade tenha surgido há menos de 30 mil anos – cálculos mais conservadores falam em 15 mil – enquanto outros tantos pesquisadores sugerem que a linguagem seja tão antiga quanto nossa própria espécie, cujo surgimento se estima em torno de 200 mil anos atrás. O fato é que, por milênios, os únicos tipos de comunicação possíveis entre os seres humanos foram o interpessoal (duas ou três pessoas conversando) e o grupal (alguém falando a uma pequena plateia). O maior alcance que um discurso podia ter era propiciado por inscrições em pedra ou manuscritos em papiro ou pergaminho com um número limitadíssimo de exemplares. Ou seja, tudo o que se escrevia era lido por no máximo algumas centenas de pessoas.

De certa forma, a comunicação em massa surgiu com a invenção da imprensa por Gutenberg em 1452. Claro que no começo os textos impressos ainda tinham poucos leitores, já que a maior parte da população era analfabeta, o que desestimulava a produção de grandes tiragens de livros. Porém, a partir do momento em que se multiplicaram os livros e, em seguida, os jornais, era possível, em tese, comunicar-se com o mundo.

Mas a comunicação de massa teve seu impulso definitivo em princípios do século XX, com o surgimento dos chamados mass media (rádio, televisão, cinema, fonógrafo, revistas); agora era possível efetivamente falar a milhões de pessoas, em todos os lugares do planeta. Só que a comunicação de massa é unidirecional: alguém apenas fala e multidões apenas escutam. Esse sistema pode parecer hoje em dia pouco democrático, já que o diálogo é sempre mais salutar que o monólogo. No entanto, se havia tão pouco espaço para falar, era natural que esse espaço fosse destinado preferencialmente a quem tivesse algo relevante a dizer. O que não significa que irrelevâncias não fossem também veiculadas. Mas, se não era possível publicar tudo o que todos queriam dizer, editoras, gravadoras, estúdios de cinema e de TV, emissoras de rádio e empresas jornalísticas optavam por publicar aquilo que certamente interessaria a mais pessoas. Com isso, o que era de fato divulgado tendia a ter alguma qualidade ou, pelo menos, alguma pertinência. Aliás, na comunicação de massa a busca pela qualidade é um princípio norteador da produção de conteúdo: uma cena é refilmada ou uma canção regravada tantas vezes quantas forem necessárias para que o resultado seja não menos que perfeito; um texto escrito é burilado, reescrito e revisado até que se achem as melhores palavras para expressar as melhores ideias.

Isso foi exclusivamente assim até a última década do século passado. Então surgiu a internet e, com ela, as redes sociais. A partir desse momento, a comunicação de massa começou sofrer a concorrência da comunicação em rede, sistema em que, teoricamente, todos conversam com todos, isto é, todos têm direito – e espaço – de se expressar e dizer o que pensam, e todos podem reagir expressando-se pelos mesmos canais. Já não somos mais obrigados a apenas ouvir, mas também podemos falar. O grande intelectual, o artista famoso, o ídolo das multidões e o simples mortal, o cidadão anônimo, o zé-ninguém agora estão lado a lado. O presidente da nação mais poderosa do mundo e a criança de sete anos têm os mesmos 280 caracteres à sua disposição. A maior rede de televisão do país concede a todos seus quinze segundos de fama, desde que o celular esteja na horizontal. Tudo muito democrático. Só que não.

A promessa de uma comunicação igualitária, em que todos os habitantes do planeta podem falar e ouvir, levou a humanidade não ao entendimento geral, mas ao maior desentendimento que a História poderia registrar: todos falam, poucos ouvem e ninguém tem razão. Antes, muitos desconfiavam da imprensa, mas o que os jornais diziam tinha grande credibilidade; hoje, em que qualquer pessoa pode ser fonte de informação, não sabemos como lidar com as fake news, e os limites entre a verdade e a pós-verdade (ou verdade alternativa) são nebulosos. Antes, nos irritávamos com certas propagandas no rádio ou na TV; hoje, nossa caixa de e-mails fica lotada de spams em poucos segundos. Antes, quem se sentisse alvo de calúnia pelos meios de comunicação tinha direito de resposta; hoje, pratica-se o linchamento moral de qualquer um, principalmente de quem diz a verdade. Antes, uma criança tinha de lidar com a caçoada dos coleguinhas de classe; hoje, o bullying se dá pelas redes sociais, em escala nacional ou mundial. Antes, era preciso saber cantar para ser cantor e saber escrever para ser escritor; hoje, já nem tanto. Por fim, hoje todos odeiam alguém e todos são odiados por alguém, sempre on line, bastando digitar. A paradoxal sensação de anonimato num meio em que todos se expõem parece nos dar o direito de atacar o outro sem responsabilidade, não importa se justa ou injustamente, desde que com crueldade. Como diz o historiador e pop star Leandro Karnal, somos todos contra todos, ou, segundo o sábio Umberto Eco, foi dada a palavra à legião dos imbecis. O consolo é que, mesmo nesse ambiente de caos e barbárie comunicacional, grande parte das pessoas ainda prefere ouvir quem tem algo relevante a dizer. Ou seja, mesmo dentro da rede existem nichos de comunicação de massa, predominantemente unidirecional: gente inteligente que sabe ouvir escuta gente inteligente que sabe falar. Enquanto isso, no restante da rede, os imbecis se digladiam.

O português visto por um sueco

Henrik Brandão Jönsson é um jornalista e escritor sueco que vive no Brasil há quase 20 anos. Este mês, ele publicou na revista sueca Språktidningen (isto é, “Revista Língua”) uma matéria sobre o nosso idioma, especialmente o português brasileiro. E eu traduzi o texto para vocês. A versão original pode ser encontrada em http://spraktidningen.se/artiklar/2017/12/jorden-runt-pa-portugisiska. Aí está.

A Terra em torno do português

Como uma língua, falada por um quarto de milhão de pessoas em quatro continentes, não recebe mais atenção? Språktidningen passou por longas jornadas para descobrir o porquê.

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Vasco da Gama

Quando Vasco da Gama retornou a Lisboa em 1499, foi recebido como um herói. O fato é que ele não conseguiu encantar os governantes da Costa do Malabar. Como o primeiro europeu, ele descobriu o caminho marítimo para a Índia e quebrou o monopólio veneziano. Só as especiarias e os tecidos que os portugueses compraram em Calicute pagaram a expedição seis vezes e iniciaram o que os historiadores chamam de Carreira da Índia – uma frota de centenas de navios que navegaram entre Portugal e a Índia nos anos seguintes.

Além do comércio, Vasco da Gama deu início à expansão da língua portuguesa. Nas gerações seguintes, os portugueses conquistaram as metrópoles comerciais mais importantes do mundo e criaram a primeira superpotência global do mundo. Manuel I – que, por acaso, se tornou rei de Portugal em 1495 – governou a frota com os maiores, mais rápidos e mais modernos navios do mundo, que ligavam a Europa à África, Índia e China.

Durante uma subsequente viagem comercial para a Índia em 1500, Pedro Álvares Cabral navegou para oeste no Atlântico até avistar terra. O navegador achou que descobrira uma grande ilha, fincou uma cruz na praia e nomeou o lugar de Ilha de Vera Cruz. O que o navegador não sabia é que não foi em uma ilha que aportara. Era o continente sul-americano. Devido a um erro de navegação, os portugueses conquistaram o país onde se encontra hoje a maioria dos falantes de português do mundo: o Brasil. Também foi o prelúdio de um longo e inflamado conflito linguístico.

Embora todos os oito países que têm o português como língua oficial tenham assinado uma reforma ortográfica conjunta em 1990, Portugal e o Brasil ainda discutem como as mudanças serão implementadas.

O escritor e linguista brasileiro Sérgio Rodrigues acaricia a cabeça careca em sua sala de estar no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro.

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Sérgio Rodrigues

– Isso lembra uma discussão familiar. Nós gostamos uns dos outros e queremos o melhor para o idioma. Mas ambos querem fazer o seu caminho. Já houve prestígio no objetivo. Vários jornalistas e escritores portugueses se recusam a seguir a reforma ortográfica, diz ele.

Sérgio Rodrigues lançou no início deste ano o aclamado livro Viva a Língua Brasileira, que provoca ao chamar a língua portuguesa de brasileira. O que ele quer destacar é que 210 milhões de brasileiros desenvolveram o idioma e fizeram dele o seu próprio.

– Nós brasucas amamos as vogais e botar para fora as palavras. Passamos muito tempo ao ar livre, com o sol brilhando e somos mais abertos como pessoas do que os portugueses. Eles são o oposto – estão se fechando em si mesmos e gostam das consoantes. Eles fecham as palavras de modo que mal se consegue ouvi-las.

Outra razão para o português brasileiro ter uma expressão tão diferente, ele acredita, é que o Brasil viveu por muito tempo como um gigante isolado, cercado por vizinhos de língua espanhola.

– Portugal nos abandonou e nós tivemos que desenvolver o idioma por conta própria, diz ele.

O fato de o Brasil ser o país do mundo que mais comprou escravos africanos, acredita, também contribuiu para que a língua seja diferente. Para denominar “confusão” em português brasileiro, no sentido de “desordem”, usa-se a palavra bagunça, que tem raízes em uma língua bantu falada em Angola. No português europeu, usam-se as palavras desordem e confusão para designar a mesma coisa.

– A influência africana mudou nossa maneira de falar, diz Sérgio Rodrigues, um dos principais especialistas no idioma do Brasil.

Ele escreveu três romances, dos quais o último, O Drible, ganhou um dos melhores prêmios de literatura do mundo de língua portuguesa, o Grande Prêmio Portugal Telecom. Ele também escreveu o livro de não-ficção What língua is esta?, que descreve como os brasileiros usam sua língua. E toda quinta-feira escreve a coluna sobre língua mais lida do país no maior jornal brasileiro, a Folha de São Paulo. Sérgio Rodrigues acredita que uma das razões pelas quais o português se tornou tão marginalizado é que não há uma frente unida que possa promover o idioma.

– Olhe para a Academia Espanhola em Madri. Lá houve um acordo em torno do idioma e permite-se que ele seja falado de maneira diferente no México, Argentina, Colômbia e Espanha. Não há rivalidade. Para eles, o espanhol é a língua tanto de Jorge Luis Borges como de Miguel de Cervantes e Gabriel García Márquez. Os autores de língua espanhola também têm uma conexão mais forte com Madri. Os autores brasileiros não têm uma ligação correspondente com Lisboa. Durante a ditadura militar, os intelectuais do Brasil foram para o exílio em Roma, Paris e Londres. Ninguém escolheu Lisboa. Os autores de língua espanhola, no entanto, se instalaram em Madri ou Barcelona.

A língua portuguesa não tem um instituto cultural forte que realize ações linguísticas no exterior. Enquanto o inglês, francês, espanhol e alemão são promovidos com êxito pelo British Council, Alliance Française, Instituto Cervantes e Goethe-Institut, o português possui apenas o modesto Instituto Camões, que se encontra no ministério português das relações exteriores. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil de 2003 a 2010, tentou mudar isso e formou o Instituto Machado de Assis. Esse instituto recebeu a tarefa de difundir a cultura brasileira e a língua portuguesa no mundo. Mas depois de apenas alguns anos de operação, o projeto foi descartado por falta de dinheiro.

– É uma grande pena que não promovamos melhor a nossa língua e a nossa cultura, afirma Sérgio Rodrigues.

A principal razão pela qual o português tem tido um papel tão marginalizado, embora seja significativamente maior do que o alemão, o francês e o italiano, acredita ele, consiste na ruptura entre Brasil e Portugal.

– O Brasil é o quinto maior país do mundo, engolindo Portugal numa só mordida. Os portugueses escutam música brasileira, assistem aos nossos programas de TV e amam nossas praias. No entanto, eles têm um orgulho que os faz não querer nos levar a sério. Eu acho que isso tem a ver com o Brasil ter-se tornado muito maior do que Portugal. Nossa economia nos permite comprar seu país todos os dias. Sua reação ao nosso domínio é não deixar o controle sobre a língua. Essa é a última coisa que eles têm.

Embora a reforma ortográfica comum seja obrigatória na escola primária de Portugal, muitos portugueses se recusam a aplicar as mudanças pelas quais o Brasil passou. Isso significa que, em Portugal, às vezes se escreve contacto em vez de contato e óptimo em vez de ótimo. Quando o conflito chegou ao auge, Portugal obrigou as Nações Unidas a traduzir seus documentos em uma versão portuguesa e uma brasileira, porque em Portugal “cúpula” é chamada de cimeira enquanto no Brasil se chama cúpula. Do contrário, a diferença não é tão grande entre as formas de escrever.

No último andar de um belo edifício colonial na capital de Goa, Panjim, Inês Figueira trabalha para difundir a língua portuguesa na Índia. Ela é diretora da portuguesa Fundação Oriente, que recebe dinheiro da antiga colônia de Macau, na China, para fortalecer a língua portuguesa em todo o mundo. Sua principal tarefa é coordenar os professores que ensinam em português nas escolas privadas católicas em Goa. As escolas entram com as instalações, e a fundação fornece materiais de curso e professores.

Embora o nacionalismo hindu esteja se espalhando fortemente na Índia, o número de alunos aumenta a cada ano. Este ano, mais de mil alunos se inscreveram nos cursos de português em Goa.

– O meu maior desafio agora é encontrar bons professores. Mesmo o meu melhor professor às vezes conjuga os verbos errado, ri Inês Figueira.

O fato de o número de alunos aumentar em 11 por cento ao ano não é apenas porque os goenses querem aprender português para tornar-se mais atraentes ao mercado de trabalho global. O principal motivo é que os jovens querem vencer o festival de música anual Vem Cantar, que a Fundação Oriente organiza em Goa. Todos os anos, 200 meninas e meninos participam de várias competições. Uma seleção se classifica para a final, que é o evento do ano entre os jovens de Goa. Os artistas não são julgados pela indumentária, dança ou canto, mas o que o júri está mais interessado é no quão bem os textos são escritos em português.

Um dos alunos que passaram depois de ganhar o festival de música é a cantora de fado Sónia Shirsat. Após a vitória, ela recebeu uma bolsa para estudar a origem do fado em Lisboa.

– Ela é a embaixadora mais importante da língua portuguesa em Goa. Muitos querem ser como ela, diz Inês Figueira.

O problema da fundação é que nem todos veem com a mesma alegria o estilo liberal que os colonizadores portugueses deixaram na Índia. Dentro do partido nacionalista hindu BJP, que governa a Índia, encontra-se a ala de extrema direita RSS. Dela fazia parte o membro que assassinou o Mahatma Gandhi em 1948 depois que soube que Gandhi havia perdoado os muçulmanos da Índia.

Desde que Narendra Modi se tornou primeiro-ministro da Índia em 2014, a RSS vai de vento em popa e conseguiu atacar impunemente vários edifícios coloniais em Panjim. Os membros derrubaram placas de rua em português e riscaram nomes portugueses escritos em fachadas.

– É tão ridículo. A língua portuguesa não é uma ameaça à Índia hoje, diz Inês Figueira.

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Macau, China

A apenas 45 minutos de avião de Hong Kong fica a península de Macau, na chinesa Macau. É uma região administrativa especial na China, que se tornou o maior antro do jogo no mundo. Todos os dias, cerca de 400 mil chineses ansiosos por jogar invadem a região, cujos cassinos faturam sete vezes mais que os de Las Vegas. Na parte antiga da cidade, em um prédio colonial pintado de ocre que anteriormente abrigava um hospital português, funciona o Instituto Português do Oriente. O Instituto Cultural está subordinado ao Instituto Camões, mas recebe metade dos recursos da Fundação Oriente. Todos os anos, o Instituto Português do Oriente tem até 5 mil estudantes chineses que estudam português.

– A China é o país em que o português mais cresce atualmente, diz João Neves, diretor do Instituto Português do Oriente.

A razão se encontra na troca comercial da China com o Brasil. Embora o Brasil esteja atualmente passando por uma crise política, social e econômica, ainda é a sétima maior economia do mundo e o país da América do Sul onde a China mais investe. Há muitos anos, a China ultrapassa os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil.

– Muitos chineses querem aprender português para poder comerciar com o Brasil, afirma João Neves.

Quando as aulas noturnas começam às seis da tarde, os corredores do ex-hospital enchem-se de estudantes chineses a caminho das salas de aula. Estou com uma classe composta por alunos que atingiram o nível mais alto, C1. Todos sabem escrever e falar português, embora não saibam falar com fluência. Nenhum deles escolheu estudar português para trabalhar com o Brasil. Sua principal motivação é usar o português para fazer carreira em Macau. Como a região é bilíngue – com cantonês e português – os funcionários do estado que lidam com ambos os idiomas podem se tornar altos gerentes. Outros que frequentam o curso são advogados chineses que precisam do português para interpretar a legislação de Macau, que ainda está ancorada no português.

– Temos feito todos os esforços para aprender português, diz Maggie Lu, que estudou português por quatro anos.

Além da gramática, a pronúncia é um desafio. Os estudantes chineses, entre outras coisas, têm problemas para pronunciar a letra r, que é extremamente rolante no português europeu. A palavra prato vira facilmente pato.

– Eles lutam muito com a pronúncia e têm dificuldade com o gênero. Mas eles estão ficando cada vez melhores. Eles são meus melhores alunos, diz o professor João Paulo Pereira.

Macau não assinou a reforma da língua de 1990, mas João Paulo Pereira de toda maneira a usa em seus ensinamentos.

– Não entendo por que se discute sobre a reforma da língua. Já está implementada e é para segui-la, diz ele.

Fatos portugueses

Propagação

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Países onde o português é língua oficial: Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Regiões onde se fala português: Goa, na Índia, e Macau, na China. Até em Caracas, na Venezuela, e em Toronto e Montreal, no Canadá, o português é amplamente falado, devido à extensa migração proveniente dos Açores e da Madeira.

CPLP

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Os países de língua portuguesa formaram a união CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para fortalecer o comércio entre os países. Até a petrolífera Guiné Equatorial é membro, embora o país tenha sido colônia portuguesa somente até 1778.

Reforma ortográfica

A reforma de 1990 teve como objetivo a criação de um padrão internacional de ortografia portuguesa. A reforma foi ratificada por todos os países onde o português é língua oficial.

A reforma visa a tornar unificada a língua portuguesa escrita. No acordo, aboliu-se a maioria dos c iniciais nos encontros cc, e ct, e os p iniciais em pc, e pt em português europeu e africano, bem como o trema e o acento em palavras que terminam em éia no português brasileiro. Algumas novas regras de ortografia também foram adicionadas.

No entanto, Portugal e o Brasil ainda têm dificuldade em entrar em acordo. As duas variantes ainda apresentam diferenças.

Português europeu: acção, direcção, facto, ideia, eléctrico

Português brasileiro: ação, direção, fato, idéia, elétrico

Fonte: Wikipédia

Exploradores

Vasco da Gama empreendeu em 1497 uma viagem de navio para encontrar uma via marítima para a Índia. Suas bem-sucedidas viagens deram logo a Portugal o monopólio do lucrativo comércio com a Índia. Três anos depois, Pedro Álvares Cabral descobriu o continente sul-americano por pura sorte. Ele também navegava para a Índia. Os bens cobiçados no comércio com a Ásia incluíam, dentre outros, especiarias, pedras preciosas e seda. Os negócios contribuíram para tornar Portugal uma grande potência com colônias em vários continentes.

O mundo lusófono

Os países de língua portuguesa fazem parte do chamado mundo lusófono. Luso- remete ao deus romano Lusus, e -fono vem da palavra grega para “som, voz”. A parte ocidental da península ibérica é chamada Lusitânia.

As 10 línguas mais faladas no mundo

  1. chinês
  2. espanhol
  3. inglês
  4. hindi
  5. árabe
  6. português
  7. bengali
  8. russo
  9. japonês
  10. punjabi

3 perguntas para Henrik Brandão Jönsson

Você é de Malmö, como você foi parar no Brasil?

No verão de 1998, morei em Lisboa e trabalhei na exposição mundial Expo ’98. Aprendi português e no ano seguinte fui para Cabo Verde. Uma noite, quando estava na praia e olhei para o Atlântico, eu disse ao meu colega fotógrafo: “Em algum lugar por aí fica o Brasil. A gente tem que ir para lá”. No ano seguinte, nós voamos para lá e mais ou menos depois disso eu não voltei mais para casa.

O português tem algo em comum com o dialeto de Malmö?

Os ditongos são os mesmos. Para um nativo da Escânia, é bem mais fácil aprender português do que para qualquer outra pessoa na Suécia.

Como os brasileiros fazem frente ao espanhol?

O Brasil sempre se viu culturalmente mais perto dos Estados Unidos, Europa e África do que de seus vizinhos. Há 15 anos, quando Lula da Silva se tornou presidente, isso mudou. O número de brasileiros conhecedores da língua espanhola tem aumentado desde então.

Viver eternamente: você quer?

Pesquisadores do Vale do Silício, na Califórnia, estudam maneiras de prolongar indefinidamente a vida humana (confira em http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2017/09/troca-de-orgaos-e-restauracao-de-dna-podem-ser-chave-da-longevidade.html). Numa das frentes, eles tentam eliminar os fatores que provocam o envelhecimento e as doenças degenerativas e, com isso, nos manter infinitamente jovens. Como a morte é o desfecho do envelhecimento (nosso organismo é geneticamente programado para degenerar-se progressivamente até parar de funcionar), eliminar tais fatores significa em tese impedir a morte. Ou seja, promover a vida eterna.

Outra frente de pesquisa pretende, por meio da inteligência artificial, “salvar” numa espécie de backup a consciência humana em robôs para depois transplantá-la no cérebro de um clone da pessoa morta. Com isso, o falecido voltaria à vida num novo corpo igual ao que já teve e com todas as suas memórias preservadas, ou seja, com o seu eu original instalado em um cérebro novinho em folha.

Todas essas pesquisas parecem promissoras à primeira vista, afinal um dos grandes sonhos do ser humano é a imortalidade. Tanto que, se lançássemos no ar a pergunta “Quem gostaria de viver para sempre?”, quase todos levantariam a mão. Não é à toa que as religiões que têm mais seguidores são as que prometem a vida eterna após a morte ou então a reencarnação do espírito num novo corpo.

Mas, analisando a fundo essa questão, chego à conclusão de que esses pesquisadores não passam de uns nerds sem nenhuma sensibilidade social ou capacidade de reflexão filosófica. Senão, vejamos.

O planeta está superpovoado, e a população humana segue crescendo (seremos 8 bilhões de habitantes em 2030) a despeito da escassez e do esgotamento dos recursos naturais. No ritmo atual, já é possível prever um futuro próximo sombrio em termos de nossa sobrevivência como espécie. Aumentar a longevidade das pessoas só contribuiria para agravar o problema. Aliás, um dos impasses criados pelo contínuo envelhecimento da população é o colapso da previdência social, problema que já estamos vivenciando no Brasil. Como seria sustentar um contingente tão grande de idosos?

Bem, mas a ideia é que as pessoas possam viver 150, 200 anos sem ficar velhas, certo? Portanto, é de se imaginar que elas começarão a trabalhar aos 20 anos ou antes, como atualmente, e só se aposentarão por volta dos 120, 130 anos. Você topa?

Se você ama o que faz, beleza! Mas, será que a maioria das pessoas gostaria de trabalhar 100 anos para conquistar o direito ao descanso? Mesmo pessoas altamente criativas, como os artistas, acabam sentindo um certo esgotamento da inspiração com o passar dos anos. Será que, se Beethoven estivesse vivo até hoje, suas atuais composições ainda teriam a mesma qualidade? E será que ainda fariam sucesso?

Esse é o segundo ponto: a sociedade evolui não porque as pessoas evoluem, mas porque elas morrem e dão lugar a novas pessoas, com novas ideias. Uma humanidade repleta de indivíduos com mais de 100 anos seria ainda mais conservadora do que já é, e novas ideias teriam muito mais dificuldade de ser adotadas. Por sinal, o conflito de gerações seria muito mais aguerrido do que é hoje, em que pais e filhos com uma diferença de cerca de 30 anos de idade já não se entendem.

Outra coisa: imagine que alguém que nasceu no século XVIII, à época da Inconfidência Mineira, estivesse vivo ainda hoje. Quantas mudanças no mundo essa pessoa teria visto! Ela teria nascido num Brasil colônia, assistido à formação e à queda do império, e a todas as mazelas de nossa vida republicana desde Deodoro até Temer. Será que ela se adaptaria a todas as mudanças por que o mundo passou? Nascer num mundo em que o único meio de transporte terrestre era o cavalo e em que só havia luz de velas e hoje ter de lidar com internet e realidade virtual, quem conseguiria, se hoje, aos trinta e poucos anos de idade, já nos sentimos antiquados e obsoletos diante das novas tecnologias?

Além disso, a maior parte da população humana é pobre ou miserável. Seria agradável viver na penúria por várias décadas a mais? Ou será que, como sempre, só os ricos terão o privilégio da longevidade turbinada?

Outra pergunta que me ocorre: qual teria de ser o tamanho da nossa memória para vivermos tantos séculos? Embora a expectativa de vida venha aumentando ano após ano, e vivamos hoje em média muito mais do que há cem anos, o fato é que estamos programados por nossa própria biologia para viver cerca de 80 a 90 anos. Tanto hoje quanto séculos atrás, raríssimas pessoas romperam essa barreira etária. E aos 80 anos, muitas de nossas memórias já se apagaram. Se pudéssemos viver 300 anos com a mesma capacidade de armazenamento de dados na mente que temos hoje, sequer lembraríamos de quanto tempo já teríamos vivido. Ou seja, de que adianta viver muito e não lembrar da maioria das coisas que vivemos?

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Mas imagine agora que você foi contemplado com a imortalidade. Sim, a imortalidade! Aconteça o que acontecer, você jamais morrerá. Isso parece o sonho de muitos incautos, mas, na realidade, jamais morrer tem mais a ver com pesadelo. O fato é que viver cansa. Mesmo que tivéssemos um corpo eternamente jovem e saudável, após algum tempo, o mundo se tornaria enfadonho em sua mesmice, em sua constante evolução na qual, paradoxalmente, as aparências mudam o tempo todo mas a essência é sempre a mesma. Basta estudar a história para ver que, na novela da humanidade, muda o cenário, mudam os atores, mas o enredo é sempre o mesmo. E é sempre um enredo farsesco e barato, indigno de um Nobel de literatura. Como diria o Leopardo, personagem do romance homônimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, “tudo muda o tempo todo para que, no fundo, nada mude”.

Disse certa vez o poeta mexicano Octavio Paz, “sabermo-nos mortais nos condena à cultura”. Se imortais fôssemos, jamais teríamos construído as pirâmides do Egito ou o Taj Mahal, jamais teríamos escrito livros, pintado telas, conquistado territórios, edificado nações, enviado sondas ao espaço, amado e odiado – numa palavra, jamais teríamos deixado qualquer vestígio de nossa existência, pois para um imortal tudo pode ser adiado indefinidamente, nada é urgente, criar não é urgente, amar não é urgente, viver não é urgente. Eu não estaria aqui escrevendo estas palavras se tivesse a eternidade toda pela frente. Poderia me dedicar a todas as carreiras que quisesse e realizar uma grande obra em cada uma delas, mas não agora, não neste milênio, pra que a pressa? Afinal, a eternidade dá uma preguiça!

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Mas, sobretudo, viver para sempre é impossível porque nada durará para sempre, nem o próprio Universo. Dentro de mais alguns séculos, se continuarmos nesse andar da carruagem, a Terra será um planeta inóspito e inabitável, e por nossa própria culpa. Claro, até lá já teremos desenvolvido tecnologia para nos mudarmos para outro planeta habitável, onde reiniciaremos nossa devastação. Se esse planeta for muito longínquo do nosso atual habitat, não importa: sendo imortais, chegaríamos vivos ao destino após viajar milhões de anos-luz. O que, viajando à velocidade da luz – caso isso fosse possível sem nos desintegrarmos –, representaria uma viagem de alguns milhões de anos. O problema é encontrar o que fazer para passar o tempo durante a travessia!

O fato é que, mais cedo ou mais tarde, teríamos de enfrentar o fim. Em qualquer planeta que estejamos, um dia a estrela que ele orbita se expandirá até engolir tudo à sua volta para ao final explodir como uma supernova e quem sabe virar um enorme buraco negro do qual nada escapa – nem a consciência. Que triste fim teríamos, não?

Por isso, a vida eterna apregoada pelas religiões e agora também pela ciência é um prêmio a que só os tolos anseiam; para mim, jamais poder cerrar os olhos pela última vez é o pior dos castigos. Não sei quando vou morrer, mas a consciência de que isso acontecerá um dia, longe de ser um peso, é para mim um alento.

Tudo na natureza nasce, vive por um tempo e morre – inclusive ela própria. E mamãe natureza sempre tem razão, ela sempre faz tudo certo. Todas as vezes que o homem resolve subverter as leis naturais para satisfazer seus caprichos, ele se dá mal (taí o aquecimento global que não me deixa mentir). Portanto, viver algumas décadas, realizar o melhor que pudermos no tempo que tivermos, deixar um mundo melhor para quem vier depois de nós, esse é o melhor dos mundos – o resto, sonho de tolos e de nerds.

A censura ideológica

Estamos vivendo tempos estranhos e perigosos. Na era da pós-verdade, opiniões valem mais do que fatos, e posições divergentes da ideologia dominante, isto é, ditada por certos grupos de influência, são prontamente criminalizadas. Hoje, a democracia  nos permite pensar e dizer o que quisermos, desde que pensemos e falemos “dentro de certas caixinhas”, a mais famosa das quais atende pelo nome de “politicamente correto”.

Atualmente, a ciência está desacreditada. A opinião arrogante de políticos populistas vale mais do que o parecer de dezenas, centenas de especialistas. Basta ver o modo como Donald Trump trata a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas – que para ele não passam de invenção dos chineses para arruinar a economia americana.

A formatação das ideias é promovida hoje em dia tanto pela esquerda quanto pela direita, e tanto em regimes de força como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte quanto em sociedades supostamente democráticas, como os Estados Unidos e o Brasil.

Discutir temas polêmicos ou delicados, como os que envolvem drogas, aborto, religião, homossexualidade, racismo ou diversidade cultural, longe de ser algo salutar para o convívio social e o aperfeiçoamento democrático, como já foi no passado, tornou-se algo extremamente perigoso: basta ferir a suscetibilidade de algum grupo de pressão – as chamadas “minorias” – para ser colocado na berlinda e exposto à execração pública, além de sofrer consequências mais graves, como demissão, processo judicial, etc.

Não há como negar que o acesso à voz e à visibilidade por parte de grupos que anteriormente não eram sequer levados em conta representou um grande progresso social, assim como a luta por direitos iguais, uma questão indiscutível de justiça, só pode ser digna de aplauso. O problema é quando os papéis se invertem, e o grupo oprimido se torna opressor. Toda vez que se rompe o equilíbrio dos contrários, e um dos lados subjuga o outro, o resultado é violência, seja ela física ou simbólica.

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Terça-feira passada, dia 8, o engenheiro de software americano James Damore acabou demitido do Google por ter publicado em seu blog pessoal um artigo em que justifica a ausência de diversidade de gênero (leia-se “reduzido número de mulheres”) no Vale do Silício por diferenças biológicas entre os dois sexos. Sua publicação foi considerada “uma asneira sexista”, que dissemina “estereótipos de gênero”, dentre outras tantas críticas.

Em seu artigo, Damore afirmou que “as opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte devido a causas biológicas, e essas diferenças podem explicar por que não existe uma representação igual de mulheres (em posições) de liderança”.

Segundo o engenheiro, aptidões naturais levam os homens a ser programadores de informática enquanto as mulheres tendem mais “aos sentimentos e à estética do que às ideias”, o que as levaria a escolher carreiras nas áreas “social e artística”.

A argumentação de Damore, considerada sexista pela imprensa americana, reacendeu a polêmica sobre a existência de uma certa cultura machista no universo da tecnologia, majoritariamente composto por homens. No próprio Google, 69% dos funcionários são homens, proporção que chega a 80% na área tecnológica; no Facebook, 73% dos cargos de chefia eram ocupados por homens em 2016. Na Apple, o percentual chega a 63%.

A questão é que a diversidade de aptidões entre homens e mulheres é objeto de discussão até no meio acadêmico, em que, de um lado, especialistas das ciências biológicas, como neurocientistas, apresentam dados concretos, obtidos em experimentos controlados e com a utilização de alta tecnologia, mostrando as diferenças entre o cérebro masculino e o feminino e suas repercussões na realização das mais diversas atividades, e, de outro, estudiosos das ciências sociais argumentam que a histórica preferência das mulheres por carreiras humanísticas é fruto de condicionamento social e não de pendor genético.

Pelo menos, já está provado cientificamente que homens e mulheres têm habilidades distintas, o que, teoricamente, impactaria na escolha da profissão. Qualquer um sabe que as mulheres são em geral mais habilidosas que os homens na realização de tarefas que exijam coordenação motora fina (além, é claro, de terem mãos mais delicadas), o que faz com que as indústrias prefiram ter mulheres na linha de montagem de equipamentos minúsculos, por exemplo. A mesma ciência demonstra que os homens têm geralmente mais facilidade para lidar mentalmente com sistemas tridimensionais, que envolvam as noções de espaço e profundidade, como a concepção de estruturas arquitetônicas ou a operação de veículos. (Um amigo meu costuma comentar maldosamente que é fácil descobrir num estacionamento quais carros pertencem a mulheres.) Portanto, não se pode excluir por princípio a hipótese de que a aptidão lógica e matemática também esteja ligada a fatores sexuais.

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Todos sabemos que bilhões de anos de evolução biológica moldaram diferentemente os cérebros do homem e da mulher em função das próprias necessidades de sobrevivência da espécie. Foi a tarefa de caçar o que fez no macho desenvolverem-se os músculos, assim como a delicadeza da fêmea era essencial no cuidado da prole. Essa divisão primitiva de tarefas, que partilhamos com muitas outras espécies animais, certamente moldou também nossas capacidades cerebrais.

A ideia de que os homens são mais agressivos, decididos, pragmáticos, lógicos, materialistas, enquanto as mulheres são mais sensíveis, carinhosas, atenciosas, delicadas, místicas, é, sem dúvida, um estereótipo. Mas os estereótipos, assim como os preconceitos, nascem da observação de certas tendências que se repetem. Dito de outro modo, todo estereótipo tem um fundo de verdade. O erro está na generalização. Há homens sensíveis e mulheres com instinto de liderança. Há decoradores e engenheiras, bailarinos e jogadoras de futebol. Mas que há um predomínio masculino nas profissões “tecnológicas”, assim como uma maior presença feminina em áreas como Letras, Pedagogia, Psicologia e Fonoaudiologia, é um fato inegável. Se é produto de nossa biologia ou de nossa cultura patriarcal, trata-se de um ponto ainda em aberto, mas as pesquisas nesse campo avançam sem parar, e em breve deveremos ter uma resposta definitiva.

De todo modo, defender qualquer das duas correntes é legítimo, já que a própria ciência ainda não bateu o martelo. O problema é que, nos dias de hoje, a ciência, mesmo com seu método lógico, sistemático e abundantemente provido de evidências concretas, nada pode contra a ideologia, essa tapa que se tenta pôr nos olhos das pessoas para que vejam apenas a parte da realidade que interessa a certos grupos que elas vejam. Pouco importa que as geleiras estejam derretendo, o nível dos oceanos subindo e ilhas paradisíacas já estejam desaparecendo do mapa; tudo não passa de invenção dos chineses!

As razões da desigualdade entre ricos e pobres, entre a Europa e a África, entre homens e mulheres, entre gays e héteros, nada disso pode ser livre e democraticamente discutido, mesmo que à luz da ciência, quando o debate é sombreado pelo medo da represália, pela censura ideológica, pela ameaça da excomunhão moral, versão moderna da Inquisição. Não importa quantas evidências você tenha em favor de um argumento; se ele consta no index das opiniões não autorizadas pela patrulha do politicamente correto, é melhor calar-se para preservar sua paz de espírito – e seu pescoço!

Transporte público ou privado: o que é melhor?

O trânsito engarrafado das grandes cidades e o consequente tempo que o cidadão perde todos os dias entre a casa e o trabalho têm feito com que cada vez mais se discuta o incentivo ao transporte público e coletivo, para o que são necessárias muitas melhorias nos serviços e a ampliação da rede que atende à população. Afinal, se todos deixassem o carro em casa e fossem trabalhar de transporte público, o sistema entraria em colapso: se ele já não dá conta da demanda atual, como poderia atender os novos usuários?

A posição que defendo pode causar polêmica, mas o fato é que sou um “autoativista”. Sim, um autoativista! Assim como há os cicloativistas (mais conhecidos como ciclochatos), que defendem o uso da bicicleta, eu defendo o uso do automóvel. E, antes que você desista de ler este texto, deixe-me explicar por quê.

Dita assim de chofre, a minha posição pode parecer política e ecologicamente incorreta, mas vou fazer aqui uma comparação entre o transporte público coletivo e o privado individual para ver qual oferece mais vantagens ao cidadão.

Vários amigos têm me exortado a deixar o carro na garagem e viajar de ônibus ou metrô. Eles dizem que chegam mais rápido e com mais conforto por esse meio, já que os ônibus, pelo menos na cidade de São Paulo, de onde escrevo, agora têm ar-condicionado e conexão wi-fi à internet, e trafegam por faixas exclusivas. Com isso, uma viagem de ônibus que antes durava uma hora e meia agora dura uma hora. Em compensação, a implantação das faixas exclusivas de ônibus, somadas ainda às ciclovias, tornaram o trânsito de automóveis bem mais moroso, a ponto de um trajeto que antes levava meia hora de carro hoje durar o dobro.

Portanto – e esse é meu primeiro argumento –, se vou levar uma hora quer indo de automóvel ou de ônibus, prefiro viajar no meu carro, onde vou sentado, com ar-condicionado regulado ao meu gosto, ouvindo música e com o principal, que eu não teria dentro de um ônibus: privacidade.

Não falo sem conhecimento de causa. Já viajei muito de ônibus e metrô, e o fato é que o convívio com certas pessoas dentro desses meios de transporte nem sempre é agradável ou inócua; já tive de aturar bêbados cheirando a cachaça, trabalhadores suados exalando o famoso “bodum”, idosos que adoram conversar e puxam assunto com quem quer que esteja ao seu lado, mesmo que essa pessoa visivelmente não esteja a fim de papo. Também já tive de suportar os inconvenientes vendedores ambulantes que, com a conivência dos motoristas de ônibus e agentes do metrô, adentram os veículos entoando seu invariável pregão: “eu podia estar roubando, estuprando e matando, mas estou aqui vendendo estas balinhas por apenas um real, etc. etc.”.

Além disso, nas horas de pico há mais pessoas viajando em pé, seja no ônibus, no trem urbano ou no metrô, do que sentadas, prato cheio para punguistas e molestadores de mulheres. E não adianta aumentar a frota de ônibus ou o número de linhas de metrô: tive a oportunidade de andar em ambos os meios em cidades de Primeiro Mundo como Londres, Paris e Roma, que se gabam de ter uma estação de metrô a cada dois quarteirões, e o problema é o mesmo: superlotação, convívio com pessoas indesejáveis, batedores de carteira…

Além disso, os ônibus param de ponto em ponto e os trens, de estação em estação. Onde há faixa exclusiva para ônibus, não é raro ver uma longa fila indiana desses veículos aguardando que o primeiro embarque e desembarque seus passageiros para que a fila possa andar dez metros.

E que tal caminhar até a parada de ônibus num dia de chuva? Ou desembarcar à noite e caminhar sozinho por ruas escuras até o seu destino?

E quando os trens reduzem a velocidade ou param no meio do caminho por problemas técnicos? De carro, é sempre possível fugir do engarrafamento por vias paralelas, mas o que fazer dentro de um metrô parado com as portas fechadas?

Outro inconveniente são os assaltos e arrastões a ônibus, trens e metrôs. Uma pessoa estará sempre menos vulnerável dentro de um carro insulfilmado com as portas travadas e janelas fechadas do que num transporte público ao qual todos têm acesso – inclusive os criminosos.

E o que dizer das greves de motoristas de ônibus e funcionários da companhia de metrô? E o que dizer do tempo de espera nos pontos ou nas estações (incluído aí o tempo de espera pelo próximo veículo, visto que o primeiro já chega lotado)?

Enquanto isso, os únicos inconvenientes do automóvel são os custos do combustível, do IPVA, dos estacionamentos e da manutenção (afinal, o carro é uma segunda família, não é?), fora algum problema mecânico repentino, acidente de trânsito ou pneu furado, coisas que, convenhamos, raramente acontecem e podem ser minimizadas com manutenções regulares e condução defensiva.

Mas o automóvel não é altamente poluidor? E as ruas não iriam ficar lotadas de carros caso todos usassem um? Como então defender o uso do automóvel?

Bem, a questão da poluição pode ser resolvida com a adoção de tecnologias modernas e combustíveis limpos – as pesquisas nesse sentido estão adiantadas. Aliás, os primeiros automóveis a circular, ainda em princípios do século passado, eram movidos a hidrogênio, que, como todos sabem, faz parte da composição da atmosfera. A produção de carros movidos a hidrogênio foi desestimulada e ao final extinta pela forte pressão do lobby da indústria petrolífera, que até hoje tenta obstar o avanço das tecnologias limpas e sustentáveis.

Quanto à questão do trânsito enlouquecedor, a culpa não é do uso do automóvel, como se poderia pensar de maneira mais rasa e precipitada, e sim da superpopulação mundial, sobretudo das grandes metrópoles. O ser humano é a única espécie biológica que cresce sem parar, violando todas as leis da natureza. Esse crescimento, que vem se acelerando de um século para cá, já põe em risco as reservas naturais de alimentos e minerais, de modo que, dentro de mais algumas décadas, teremos países em guerra pela disputa de água, migração de populações inteiras – na maioria, de miseráveis – numa escala muito maior do que a que assistimos hoje na Europa, e muitos outros transtornos. Na verdade, a superpopulação é a responsável pelas mudanças climáticas, pela fome, pela miséria, pelo aumento da violência nos grandes centros, pelas guerras de ocupação de territórios, pelo esgotamento das fontes não renováveis de energia, pela transformação de florestas em pastos e lavouras, e muito mais.

Ou seja, controlando a explosão demográfica, resolveremos não só o problema do tráfego nas cidades como também a maioria dos problemas que afligem hoje a humanidade. Apenas receio que agora seja um pouco tarde para começarmos: o alerta deveria ter sido dado sessenta, setenta anos atrás.

Uma cidade como São Paulo comporta no máximo três milhões de pessoas, mas sua população já chega aos 12 milhões. Não há obras públicas de mobilidade urbana que deem conta desse gigantismo, além do que a velocidade de crescimento populacional é maior do que a capacidade do poder público de dar solução ao problema.

Um último dado: pesquisa feita tempos atrás na cidade de São Paulo constatou que a maioria dos usuários do transporte público gostaria de ter um carro.

Portanto, defender o uso do automóvel não me parece tão politicamente incorreto quanto se poderia pensar a princípio. Respeito muito aqueles que optam pela bicicleta ou pelo transporte público, mas continuo acreditando que faço um bom negócio em andar de carro.