É sobre não macaquear os gringos

Não é de hoje que brasileiro adora imitar os estrangeiros, especialmente os americanos, incorporando ao português muitas palavras e expressões da língua inglesa. Mas há um outro fenômeno ocorrendo na atualidade, que é a imitação de construções sintáticas típicas do inglês, que por isso mesmo soam estranhas em português, até porque já temos construções de significado equivalente, podendo prescindir tranquilamente desses decalques. A macaquice da vez é a tradução literal para o português de it is about e it is not about, cuja melhor versão na língua de Camões é “trata-se de” e “não se trata de” (ou também “não é questão de”). No entanto, é cada vez mais comum ouvirmos “é sobre” e “não é sobre”. Exemplos? A canção Trem Bala, de Ana Vilela, que fez muito sucesso no ano passado, tem sua letra quase totalmente construída com base em “é sobre” e “não é sobre”: “Não é sobre ter todas pessoas do mundo pra si / É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti / É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz / É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós (…) Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu / É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu / É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações / E assim ter amigos contigo em todas as situações”.

Agora, um certo banco insufla o sentimento de brasilidade que, de quatro em quatro anos, dá as caras por ocasião da Copa do Mundo de Futebol com o slogan “É sobre mudar o jogo”. Peguem esses exemplos e troquem “é sobre/não é sobre” por “trata-se de/não se trata de”. Que tal? Mais natural, não acham? Pois é, mas parece que nosso complexo de vira-lata, aliado a outro igualmente pernicioso, o complexo de colônia, nos faz renegar o nosso idioma, pois o que é dito em inglês ou à moda inglesa tem mais força, mais credibilidade, como se certas línguas fossem melhores que outras, como se o sucesso de uma nação, a prosperidade de um povo, o progresso econômico, a lisura na política e o bom gosto em matéria de cultura tivessem a ver com o idioma que se fala. Fosse isso verdade, os países nórdicos, que falam línguas obscuras como sueco, norueguês e finlandês, jamais estariam no topo do ranking do IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, um termômetro do desenvolvimento – ou subdesenvolvimento – de uma sociedade. Fosse isso verdade, não seria a China, com seu complicado mandarim, a segunda potência econômica do planeta.

O fato é que ser uma nação decente, não apenas avançada economicamente, mas sobretudo evoluída em atitude, cidadania, respeito ao próximo e à coisa pública, não é sobre falar inglês ou falar como os ingleses e americanos, é sobre pensar e agir como eles, é sobre ter patriotismo todos os dias de todos os anos e não somente em Copas do Mundo, é sobre dar-se ao respeito como povo para poder ganhar o respeito dos outros povos. É, acima de tudo, sobre não ter vergonha da própria língua e da própria cultura.

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Cinquenta tons de racismo

A semana que passou assistiu a mais uma polêmica dessas que envergonham nosso país e viu emergirem duas novas palavras: colorismo e pigmentocracia. Trata-se do incidente envolvendo a cantora Fabiana Cozza, pressionada por movimentos negros a recusar o convite para interpretar Dona Ivone Lara num musical sob o estarrecedor argumento de que ela “não é negra o suficiente”.

Lendo-se blogs do próprio movimento negro, depreende-se que o colorismo e seu sinônimo pigmentocracia são refinações do racismo, pois, enquanto para este ou se é branco ou se é negro, e todo negro é igualmente merecedor de discriminação, para o colorismo a discriminação e o preconceito são tão mais acentuados quanto mais melanina a pele do indivíduo tiver. Trata-se do preconceito do mulato claro contra o mulato escuro.

Na lógica colorista ou pigmentocrata, há uma gradação no preconceito, que levaria os racistas a ser mais tolerantes com quem tem a pele mais clara. No entanto, o que se viu no infeliz episódio foi o racismo dos negros contra uma negra que se assume como negra e que, tirante o tom da pele, tem todas as credenciais artísticas para representar a grande dama do samba. Chego a suspeitar que o sobrenome italiano, embora não invocado pelos movimentos racistas negros como motivo, tenha pesado também na decisão de vetar o nome da cantora.

O fato é que o degradê racista inventa termos de feição erudita, com direito a radicais gregos e latinos, para justificar o fogo amigo sob a alegação de que é preciso dar visibilidade aos negros retintos.

Num país miscigenado como o nosso, em que pretos puros, isto é, sem nenhuma gota de sangue branco ou índio, são raros e, por isso mesmo, figuram pouco entre os grupos sociais mais discriminados – favelados, indigentes, subempregados, marginais, presidiários –, é curioso que movimentos apoiados por intelectuais e cientistas sociais advoguem o racismo reverso, e não só contra os brancos mas também contra os “semibrancos” (perdoem-me o neologismo, mas, se eles podem, eu também posso). E mais lamentável ainda é que os semibrancos incorporem o preconceito de cor contra os semipretos. Quem não se lembra da torcida do Grêmio, quatro anos atrás, chamando o então goleiro do Santos, Aranha, de macaco? Pois a TV mostrou que grande parte da furiosa torcida a gritar impropérios, como de resto grande parte do povo brasileiro, era formada de pardos. O que leva um pardo, sabedor de sua ascendência africana, a injuriar racialmente outro pardo? (Sim, Aranha é pardo e não preto, que é como o IBGE denomina os negros retintos.)

Nas favelas, não é de hoje que garotas mais claras, embora negras, são discriminadas pelas mais escuras, ao mesmo tempo em que “têm mais cartaz” entre os traficantes justamente por parecerem brancas. Ou seja, é o negro reproduzindo contra seus próprios pares o preconceito de que se diz vítima. E a língua portuguesa corre para dar conta de mais esse fenômeno típico de uma sociedade doente.

Como nascem os sotaques?

Você já deve ter notado que o aspecto mais difícil de aprender numa língua estrangeira é também o mais perceptível de todos: a sua pronúncia. Um estrangeiro que viva há muitos anos no Brasil pode falar português fluentemente, exibir uma correção gramatical de dar inveja aos brasileiros mais cultos e, mesmo assim, conservar, ainda que levemente, uma pronúncia que denuncia sua origem: é o famoso sotaque.

Mas por que é tão difícil perder o acento nativo quando se fala outro idioma? Por que é mais fácil dominar o léxico e a gramática de uma língua do que sua fonética?

Segundo as teorias científicas mais recentes, a aptidão para a linguagem é inata. A criança nasce com seu repertório linguístico “zerado” em termos de vocabulário, sintaxe e pronúncia, mas traz do berço módulos cerebrais que lhe permitem preencher esses vazios. Portanto, todos nós temos uma “língua do pensamento” que já vem pré-instalada “de fábrica”, como o sistema operacional dos computadores. Depois, com o aprendizado, vamos instalando outros softwares e gravando novos arquivos na mente.

Com a pronúncia não é diferente. Graças aos chamados neurônios-espelho, a criança é capaz de imitar com progressiva precisão os sons vocais emitidos pelos adultos à sua volta. Isso significa que ela sabe em que posição e lugar deve manter a língua para realizar um determinado som apenas observando os adultos, sem que ninguém precise lhe explicar – nem seria possível, obviamente. Além disso, a criança que aprende a falar é capaz de reconhecer e distinguir nuances mínimas dos sons, a ponto de perceber quais variações são funcionais para a distinção do significado e quais não. Ou seja, crianças em fase pré-linguística são foneticistas natas.

O problema é que, depois que aprendemos nossa primeira língua, as oposições funcionais entre os sons ficam cristalizadas em nossa mente, talvez até para evitar que as confundamos ao falar, mas isso com frequência nos causa embaraço quando temos de aprender novas oposições, o que ocorre quando estamos adquirindo um novo idioma. Por isso, tendemos a substituir, consciente ou inconscientemente, um som estranho por outro mais familiar, isto é, um som estrangeiro por um nativo. Isso é ainda mais frequente quando estão em jogo duas línguas próximas, como o português e o espanhol.

Antes de tudo, quando aprendemos nossa primeira língua, ou língua materna, estamos ao mesmo tempo aprendendo a nos relacionar com o mundo. Nossa língua é nossa realidade, é por meio dela que pensamos e conhecemos a vida ao nosso redor. Já, quando aprendemos uma segunda língua, em geral o fazemos por razões culturais ou profissionais. Mesmo que disso dependa nossa sobrevivência num país estrangeiro, somos capazes de viver e pensar ainda que não dominemos completamente esse novo instrumento de comunicação.

É por isso que crianças que aprendem dois idiomas simultaneamente na mais tenra infância tornam-se perfeitamente bilíngues, sendo capazes de falar fluentemente, sem sotaques ou interferências de qualquer tipo, ambas as línguas e, mais ainda, capazes de pensar em qualquer uma delas.

Mas o fato é que uma língua é um conjunto de hábitos arraigados. No caso do vocabulário e da gramática, trata-se de hábitos mentais, mas em relação à fonética esses hábitos são essencialmente articulatórios, portanto dependentes de uma habilidade motora. Ora, é mais fácil treinar neurônios do que músculos, o que explica por que é mais fácil aprender novas palavras ou construções do que novas maneiras de posicionar ao mesmo tempo a língua, os lábios e os dentes.

Some-se a isso o fato de que uma nova palavra é uma unidade de sentido, mas, ao mesmo tempo, uma pluralidade de sons. Se tenho de pronunciar rapidamente uma ou mais palavras estrangeiras, como numa frase, tenho de pensar na posição dos meus órgãos fonadores para cada um dos fonemas que se sucedem. E tenho de fazer isso a uma grande velocidade. O processamento simultâneo de todas essas informações requer uma coordenação motora extrema. É como aprender a tocar violão: levamos um tempo enorme para conseguir posicionar todos os dedos nas cordas certas e assim fazer um acorde; no entanto, mal conseguimos isso, já temos de passar para o acorde seguinte no ritmo da música. Esse processo só se torna eficiente com o treino e a automatização dos movimentos, até o ponto de fazermos isso mecanicamente, sem pensar.

Por sinal, a fonética é a parte mais mecânica e menos criativa da língua, a que exige menos esforço mental. Enquanto as regras sintáticas se contam às centenas, e as palavras, aos milhares, os sons fonéticos raramente passam de 40. Por ser mecânica e pouco criativa, a fonética sempre fica em segundo plano quando se trata de falar uma língua estrangeira. Estamos mais preocupados em nos fazer entender do que em pronunciar os sons estrangeiros com perfeição, o que parece ter importância mais estética do que funcional.

Essa dificuldade de incorporar hábitos articulatórios estranhos aos nossos não afeta apenas a capacidade de falar línguas estrangeiras, mas até os acentos regionais de uma mesma língua são difíceis de imitar. É por isso que os atores de televisão geralmente produzem um sotaque caipira ou nordestino caricato e pouco convincente nas novelas.

Além disso, a habilidade de reproduzir sons estrangeiros varia de pessoa a pessoa conforme certas aptidões inatas. Por isso se diz que determinado indivíduo tem melhor ou pior “ouvido” para línguas. Assim como há um “ouvido” musical (na verdade, a chamada inteligência musical de que fala Howard Gardner), que faz algumas pessoas serem mais afinadas do que outras, há uma espécie de inteligência fonética, parte da mais geral inteligência linguística. Por essa razão, embora qualquer um seja capaz de aprender novos idiomas, uns aprendem com mais facilidade do que outros, e alguns são capazes de passar a vida inteira num país estrangeiro e, ainda assim, conservar seu sotaque nativo.

Chega a ser hilário – embora aconteça com frequência – o fato de algumas pessoas nunca conseguirem pronunciar perfeitamente a língua de adoção e ainda acabarem falando com sotaque a própria língua nativa, numa espécie de meio-termo entre as duas, o que lembra aquela anedota em que o cidadão foi morar fora, não só não aprendeu a nova língua como ainda esqueceu a antiga. Conclusão: voltou para casa mudo.