Dia das Bruxas ou dia sagrado?

O espírito do Halloween conquistou definitivamente o Brasil, mesmo contra a vontade de alguns puristas que torcem o nariz para a importação de costumes. Já eu tendo a ver esse fenômeno com a mesma naturalidade com que nós brasileiros consumimos macarronada ou sushi: nenhuma cultura é impermeável ao empréstimo de práticas, costumes ou palavras. Tanto que a designação “Halloween” é mais popular entre nós do que “Dia das Bruxas” (uma pesquisa ao Google em português retorna mais de um bilhão de ocorrências da primeira contra 1,14 milhão da segunda).

Mas de onde veio essa denominação? Halloween (ou Hallowe’en, como também se escreve) é uma corruptela do inglês All Hallow Even, “Véspera de Todos os Santos”. É que o Dia das Bruxas cai na véspera do Dia de Todos os Santos (1º de novembro) e na antevéspera de Finados. Even é a forma arcaica de evening, “noite”, cognata de eve, “véspera” (isto é, a noite anterior, do latim vesper, “tarde, anoitecer, noitinha”). E hallow quer dizer “santo” na língua escocesa (sim, existe uma língua escocesa, chamada Scots, tida por muitos como um dialeto do inglês).

Em inglês, hallow subsiste apenas como o verbo “santificar”, cognato do alemão heiligen, de mesmo significado. E todos esses termos radicam no indo-europeu *koilos, “íntegro, intacto, puro” e, por extensão, “sagrado”, termo que também gerou o latim coelum, “céu”.

Quanto à intimidadora frase “Doces ou travessuras!”, pronunciada pelas crianças fantasiadas de bruxos ao bater à porta das casas, trata-se de uma tradução do inglês Trick-or-treat, brincadeira em que as crianças vão de casa em casa pedindo doces. Se o morador disser treat, isto é, “guloseima”, deve atender ao pedido das crianças, dando-lhes doces; se disser trick, “travessura”, deverá arcar com as consequências, que podem ir de um simples susto com as caretas e máscaras dos pequenos até transtornos como ter a fachada da casa recoberta de papel higiênico ou de spray de espuma colorida.

Como a expressão inglesa Trick or treat! contém uma deliciosa aliteração, o mais adequado em português seria usarmos “Gostosuras ou travessuras?”, que, pelo jeito, não pegaria por ser muito longa.

O fato é que não importa se essa tradição nos chegou por via norte-americana, o que importa é que veio para ficar e tem proporcionado muita alegria às crianças – afinal quem não gosta de ganhar doces?

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