Predicativos, adjuntos e os dois modos de estar

O verbo estar pode ser de ligação (estar feliz, triste, doente, atrasado) ou intransitivo (estar bem, estar na sala, etc.). No primeiro caso, pede como complemento um predicativo do sujeito, que pode ser um adjetivo, como nos exemplos acima, ou um substantivo (“Eu não sou ministro, eu estou ministro”). No segundo caso, estar só pode ser complementado por um adjunto adverbial. É o caso de “estar bem”, “estar mal”, etc. (adjunto adverbial de modo) e o de “estar na sala”, “estar aqui”, etc. (adjunto adverbial de lugar). Em “estar bem”, “estar mal”, que se referem ao estado de saúde, estar tem aproximadamente o mesmo significado de passar: “ele está bem” equivale a “ele passa bem”. Só que estar também poderia ser interpretado aqui como verbo de ligação. Por isso, muita gente diz “Eu estou bom”, “Ela está boa”, no lugar de “Eu estou bem”, e assim por diante. Por sinal, em inglês popular, “He is good” tem o mesmo sentido de “He is well”. Já em “He is alright”, em que alright é tanto adjetivo quanto advérbio, fica impossível decidir se o verbo to be é de ligação ou intransitivo.

O predicativo, seja do sujeito ou do objeto, é uma classe sintática ambígua, pois, em muitos casos, funciona como um adjunto adverbial. “João entrou na sala silencioso” tem o mesmo valor semântico de “João entrou na sala silenciosamente”. A situação se complica porque muitos advérbios de modo prescindem do sufixo -mente: em “Este livro custou caro”, caro é advérbio e equivale a um hipotético caramente. A indistinção entre o adjunto adverbial e o predicativo é que leva algumas pessoas a dizer “Estes livros custaram caros” em vez de “custaram caro”. O famoso slogan da cerveja que “desce redondo” já causou muita polêmica e ensejou inúmeras questões em vestibulares e concursos públicos, pois, na realidade, é válido considerar que redondo pode referir-se tanto a cerveja (a cerveja desce redonda) quanto a descer (e aí, desce redondo).

Não por acaso, muitos termos que, numa língua, são adjetivos usados como predicativos, em outra, são advérbios invariáveis. Em português, dizemos que fulano e beltrano chegaram juntos (ou separados), o que mostra, pela flexão dessas palavras (juntos/juntas, separados/separadas) que se trata de adjetivos e, portanto, de predicativos. No mesmo contexto, o inglês usa together ou apart, vocábulos que constam nos dicionários ingleses como advérbios. Só que, na língua de Shakespeare, os adjetivos também são invariáveis, o que torna ainda mais opaca a distinção entre um adjetivo e um advérbio e, por conseguinte, entre um predicativo e um adjunto adverbial. Tanto que well é o advérbio de modo correspondente ao adjetivo good (assim como bem corresponde a bom), mas a possibilidade de intercâmbio entre well e good (“He is good/well”), como, aliás, também ocorre em português (“Ele está bem/bom”), fez que, com o tempo, well passasse a ser sentido como predicativo e, portanto, adjetivo, o que propiciou o surgimento do substantivo abstrato wellness, “bem-estar”. Para isso contribuiu, sem dúvida, a prévia existência de illness, “doença, mal-estar”, derivado de ill, que pode ser tanto adjetivo quanto advérbio.

Esse é um dos típicos casos em que a gramática normativa pouco esclarece. Já os estudos linguísticos apontam para a singularidade dos verbos designativos de essência ou existência, como ser e estar, que têm ao mesmo tempo características de verbos lexicais (também chamados de verbos cheios ou pesados) e de verbos gramaticais (ou vazios ou leves), em que são meras cópulas ou, no dizer da gramática normativa, verbos de ligação.

A própria distinção entre predicado verbal e predicado nominal fica abalada quando se introduz a semântica na questão. Afinal, qual a diferença entre “Ele é diabético” e “Ele tem diabetes”? Do ponto de vista da semântica profunda, nenhuma, pois ambas as frases denotam a relação entre um ente (no caso, uma pessoa) e um estado (no caso, doença). Para a gramática, no entanto, ter é verbo transitivo, tanto quanto ver ou matar, por exemplo, mesmo não admitindo voz passiva (“A diabetes é tida por ele” é um enunciado inaceitável em português). Ocorre que ter é mais um desses verbos vazios. Mas isso é assunto para outro post.

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O ser e o devir

A ontologia é a parte da filosofia que estuda o ser em si, independente de suas qualidades. Um dos primeiros filósofos a se preocupar com a questão do ser foi Parmênides, para quem “o ser é, o não-ser não é”. Essa afirmação algo enigmática pressupõe a imutabilidade do real e a inexistência do nada: a realidade é perene e eterna em sua plenitude, e a mudança que percebemos no mundo, mera ilusão.

Contrapondo-se a essa visão estática do ser, Heráclito afirmou que tudo flui e nada permanece, portanto não se pode atravessar duas vezes o mesmo rio. Estava instaurada a noção de “devir”, isto é, “tornar-se”, do latim devenire, que produziu o francês devenir e o italiano diventare.

Aristóteles procurou conciliar essas duas visões da realidade postulando a diferença entre potência e ato: a realidade é o que é, mas contém também a possibilidade do vir a ser (assim como a semente é uma árvore em potencial).

Se o ser é visto como algo estático, permanente, o devir é a mudança, o movimento. Talvez por isso os verbos que nomeiam esse processo de passar de um estado a outro (de um ser a um não ser e então a um novo ser) estejam relacionados ao deslocamento, seja de longe para perto (do ausente ao presente, diríamos), representado pelo “vir” (latim devenire, inglês become, português “vir a ser”), seja o deslocamento em torno ao próprio eixo (de costas para a frente), como algo que, ao girar, se nos apresenta.

Essa segunda concepção do devir como volta, giro, está presente no grego pélein, proveniente da raiz indo-europeia *kwel, que também deu pólos (polo, eixo), kýklos (círculo) e em latim produziu colere (revolver, cultivar), collum (pescoço), em sânscrito cakram (chacra, círculo) e em inglês wheel (roda).

Além do grego pélein, a ação de tornar-se se expressa em várias línguas com termos que significam “virar, verter”: alemão werden, espanhol volverse e convertirse, além do próprio português “tornar-se” (de “torno”) e “virar”, este último de uso popular. É como se aquilo que se transforma girasse em torno do próprio eixo e, ao completar a volta, fosse outro (como o super-herói disfarçado de cidadão comum que, ao girar rapidamente, ressurge já com sua máscara e sua capa, pronto para combater o mal).

Essa recorrência da imagem do giro como transformação espontânea é o que chamamos de metáfora cognitiva: é tão intuitivo associar mudança a movimento e a mudança de si mesmo ao giro em torno do próprio centro que muitos povos e culturas recorrem a essa concepção para nomear o devir. Talvez a própria percepção de que os movimentos do cosmos são cíclicos nos tenha levado a ver a transformação como ciclo: a realidade é um constante e eterno embate entre o ser e o devir – no fundo, um eterno retorno.