A etimologia e as eleições

Estamos a menos de uma semana das eleições, e mais uma vez teremos um pleito marcado por tensão, ressentimento e ódio. Mas não é propriamente disso que quero falar. A etimologia das palavras relacionadas ao processo eleitoral é bastante sugestiva das metáforas cognitivas de que lançamos mão para falar de algo essencialmente moderno usando radicais linguísticos que remontam à Pré-História.

Embora “eleição” provenha do latim, e o português seja uma língua latina, essa palavra não existia no português arcaico, tendo sido introduzida posteriormente por via culta. Ela provém do latim electionem, caso acusativo (isto é, forma de objeto direto) de electio, com mutação fonética de ct para it e tradução do sufixo ‑tionem pelo correspondente vernáculo ‑ção. Ou seja, um falante culto do português em algum momento da Idade Média cunhou esse vocábulo por imitação da palavra correspondente latina, fazendo as devidas adaptações fonéticas e morfológicas para aclimatar o termo no português. Quem cunhou a palavra e quando é algo que não se sabe, pois só podemos recuar no tempo até o primeiro registro escrito de que dispomos, datado do século XIII, o qual pode não ter sido o original.

O fato é que o latim electio deriva do verbo eligere, por sua vez composto do prefixo ex, “fora”, e legere, “catar, colher”, provenientes respectivamente do indo-europeu *eks (ou *eghs) e *leg‑. (Para saber mais sobre o indo-europeu, assista ao vídeo A língua mais importante do mundo em todos os tempos no meu canal do YouTube.) Portanto, eleger alguma coisa é extraí-la de seu conjunto, como se faz quando se tira um grão de feijão de um saco.

Já “concorrer”, do latim concurrere, é literalmente “correr juntos” e referia-se à competição esportiva da corrida na Roma antiga. Até hoje a metáfora da competição, inclusive eleitoral, como uma corrida permanece ligada ao verbo “concorrer” e seus cognatos “concorrência”, “concorrente”, “concurso”, etc. A imprensa, por exemplo, volta e meia se refere à “corrida presidencial”.

“Voto” vem do latim votum, particípio do verbo vovere, “prometer, jurar solenemente, fazer um voto (de castidade, por exemplo), fazer votos (de felicidade, etc.)”. Do voto com sentido religioso passou-se ao voto político, que era pronunciado solenemente em voz alta no senado romano. Por sinal, “voto” é da mesma origem que “voz”, e em ambos os casos há a ideia de fala. Por isso mesmo, criou-se a expressão aliterativa “direito a voz e voto”.

Urna, na Roma antiga, era um vaso de gargalo estreito e bojo largo que servia para guardar água, óleo, cinzas e… votos. Por incrível que pareça, urna é da mesma origem que urina, e ambas remontam à raiz indo-europeia *wod‑, “água”, que deu water em inglês e vodka (a água que passarinho não bebe) em russo.

Finalmente, “candidato” vem do latim candidatus, aquele que se vestia de branco (candidus em latim) para concorrer a uma vaga no senado, pois a túnica branca era uma espécie de traje oficial dos políticos da época, assim como o terno hoje em dia. Candidus deu “cândido” e “candura” em português. E como o branco é a cor da pureza, uma pessoa cândida é uma pessoa pura, sem máculas de caráter. Já que cândido é branco, sem manchas, existe até um alvejante de roupas com essa marca. E a lição que fica é que os candidatos a cargos públicos deviam ser pessoas cândidas de caráter, isto é, políticos “ficha limpa”. (Será que eram mesmo?)

“Cândido” é da mesma origem de “candeia”, “candelabro”, incandescente”, “candente”, “incêndio”, etc. E todos provêm da raiz indo-europeia *kand‑, que quer dizer “brilhar”. Como o brilho resulta da luz, que na Pré-História só podia provir do fogo ou do Sol (que também é, grosso modo, uma bola de fogo), daí a relação entre a cor branca e o fogo, ambos dotados de brilho e resumidos na raiz *kand‑.

Como vemos, numa eleição há vestígios de conceitos imemoriais, como catar, correr, voz, vaso, água, brilhar, branco… Só não se pode dizer que haja pureza!

Boa eleição a todos!

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A hora, o minuto, o segundo

Mais um mês está começando, e este ano parece que está voando, não é mesmo? O ser humano sempre desejou domar o tempo, mas este foge como a água escorre pelas mãos. Tempus fugit, “o tempo foge”, já diziam os romanos. Compreender sua natureza é algo tão complexo que Santo Agostinho disse certa vez: “Se me perguntarem o que é o tempo, eu sei o que é, mas, se eu tiver de explicar o que é o tempo a quem me perguntou, agora já não sei”. A ciência moderna e suas teorias, como a relatividade e a mecânica quântica, apenas começam a compreender a natureza do tempo.

Mas, se nunca conseguimos controlar e muito menos frear a passagem do tempo, pelo menos começamos desde cedo a medi-la, criando dispositivos, como a ampulheta e o relógio, e palavras para nomear suas divisões e subdivisões.

A origem das palavras que designam as frações do tempo, como hora, minuto e segundo, é bem curiosa. “Hora” foi herdada do latim hora, que por sua vez chegou por empréstimo do grego hóra, “período, estação do ano”. Esta, embora não pareça à primeira vista, é parente do inglês year e do alemão Jahr, “ano”. O que acontece é que todas essas palavras provêm de uma raiz indo-europeia *jer‑, que deu origem a muitas palavras referentes ao tempo nas línguas descendentes do indo-europeu. (Para quem não sabe, o indo-europeu foi uma língua falada há cerca de 6 mil anos no Cáucaso, a qual originou a quase totalidade das línguas da Europa e várias do Oriente Médio.)

Muito antigamente, não havia relógios mecânicos e muito menos eletrônicos, por isso a única maneira que se tinha de medir o tempo era por meio de relógios de água (clepsidras), de areia (ampulhetas) e dos chamados relógios de sol (um disco com a borda numerada de 1 a 12 e uma haste no centro, cuja sombra ia percorrendo os números à medida que o Sol cruzava o céu).

Assim como os babilônios, cerca de 1.500 anos antes de Cristo, já haviam dividido o dia em 24 horas, o astrônomo grego Ptolomeu (século 2 d.C.) criou um sistema sexagesimal, que portanto dividia a hora em 60 minutos e o minuto em 60 segundos. À primeira divisão os romanos deram o nome de pars horae minuta prima (primeira parte miúda da hora) e à segunda, pars horae minuta secunda (segunda parte miúda da hora). Foi daí que surgiram, por simplificação, as denominações minuta e secunda, posteriormente adotadas pelas línguas europeias em geral. É daí que vêm a nossa hora, o nosso minuto e o nosso segundo.

Em busca das laringais perdidas

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A quase totalidade dos idiomas da Europa, assim como boa parte das línguas do Oriente Médio até a Índia, se origina de uma língua ancestral que, por isso mesmo, foi chamada de indo-europeu. Essa língua, hoje morta e nunca documentada, deve ter sido falada em algum lugar do Cáucaso ou da Anatólia (região onde se localiza atualmente a Turquia) cerca de 4 mil anos a.C., portanto em plena Pré-História.

Um dos maiores feitos da ciência do século 19 foi a reconstrução do indo-europeu a partir da comparação entre línguas documentadas cujo parentesco se tornara evidente. Num primeiro momento, o sistema consonantal do sânscrito e o sistema vocálico do grego formaram uma boa base para a reconstrução do indo-europeu, já que o sânscrito havia transtornado bastante as vogais (que convergiram quase todas para a), mas conservara bem as consoantes, assim como o grego transformou muito suas consoantes, mas manteve praticamente intactas as vogais.

Juntaram-se a essas duas línguas as evidências do latim, do gótico (e de outras línguas germânicas antigas, cuja comparação permitiu também a reconstrução do protogermânico), do eslavônico ou eslavo eclesiástico (o mais antigo registro de uma língua eslava), do avéstico (antigo persa) e, posteriormente, de outras línguas aparentadas cujos registros foram sendo descobertos, como o tocário, falado nas estepes asiáticas, e o hitita, falado na Anatólia.

Mas essa reconstrução, por mais prodigiosa que tenha sido, deixou algumas lacunas que permanecem até hoje não totalmente preenchidas. Uma delas era a existência de um misterioso fonema (ou fonemas, pois poderia ser mais de um) na língua-mãe, não atestado diretamente em nenhuma língua-filha, mas cuja fantasmagórica presença deixara anomalias no comportamento dessas línguas.

Em primeiro lugar, o grego e o hitita apresentavam muitas vezes uma vogal inicial onde as demais línguas indo-europeias não tinham vogal alguma. Por exemplo, compare-se o grego éruthros com o latim ruber ou o alemão rot, palavras para “vermelho”. Esse fonema não deveria ser originalmente uma vogal plena, ou não se teria perdido na maioria das línguas, mas sim um som fugidio, com características meio vocálicas, meio consonantais. O fato de, em grego, essa vogal inicial ser às vezes e, às vezes a ou o, parecia indicar a possibilidade de haver até três diferentes fonemas nessa posição.

Em segundo lugar, sabia-se que todo a breve do indo-europeu resultava em a na maioria das línguas-filhas. Mas havia certos casos em que ao a das demais línguas, o sânscrito respondia com i, como, por exemplo, na palavra para “pai”: grego patér, latim pater, gótico fadar, antigo irlandês athir, mas sânscrito pitá. Isso indicava que o fonema que evoluía para i em sânscrito e para a nas demais línguas não era o mesmo que produzia a em todas as línguas, inclusive no sânscrito (como, por exemplo, em ájras, “campo”, a par do grego agrós, do latim ager e do alemão Acker).

Em terceiro lugar, sabia-se que em indo-europeu havia um fenômeno fonético com implicações gramaticais chamado apofonia (ou Ablaut), que consiste na variação do timbre vocálico dentro de um radical. Esse fenômeno é muito visível em línguas como o grego (légo, “digo”; lógos, “fala, discurso”) e o inglês (sing, “canto, cantar”; sang, “cantei, cantou”; sung, “cantado”). Assim, dada uma palavra cuja forma básica (ou grau pleno, como é chamado) tem a vogal e, havia dois outros graus, o grau-o (cuja vogal é obviamente o) e o grau zero (sem vogal alguma). Além disso, a vogal dos graus pleno e o podia ser breve ou longa.

Sobretudo nos verbos, essa sequência apofônica eo-zero era bastante evidente, já que correspondia aos tempos presente, pretérito e particípio. (A sequência inglesa singsangsung é remanescente da indo-europeia.) Só que, ao lado desses verbos “regulares”, havia outros cuja apofonia era aoa ou ainda ooa.

Havia ainda um problema adicional: em sânscrito existiam duas séries de verbos, chamadas anit e set. Nos verbos da série set, surgia um i após o radical se a seguir viesse uma terminação iniciada por consoante. Assim, dados os verbos srávati (“escorrer”) e bhávati (“ser”), tínhamos os futuros srosyáti (“escorrerá”) e bhavisyáti (“será”), o que indicava a presença, nos verbos da série set, do mesmo fonema (ou fonemas) fugaz já mencionado.

Por último, havia verbos que, nos graus pleno e o, apresentavam vogal longa e, no grau zero apresentavam uma vogal breve, que era sempre a na maioria das línguas-filhas, mas podia ser e, a ou o em grego e era sempre i em sânscrito.

Todas essas evidências formavam um complicado quebra-cabeças que exigia uma solução criativa. Foi então que, em 1879, o jovem Ferdinand de Saussure, com apenas 21 anos de idade, publicou um trabalho intitulado Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes, em que reexaminou o sistema de apofonias em sânscrito, grego e latim, postulando a existência de dois coeficientes sonânticos, *A e *O (atualmente denominados *h2 e *h3).[1] Mais tarde, propôs-se um terceiro coeficiente *E (atualmente *h1).

Num primeiro momento, a teoria de Saussure não recebeu muita atenção. Todavia, com a descoberta e subsequente decifração do hitita no início do século 20, o linguista polonês Jerzy Kurylowicz mostrou que o fonema h dessa língua ocorria exatamente nas posições em que Saussure previra a ocorrência de *A. Outro linguista, o dinamarquês Hermann Möller, sustentou que esses coeficientes seriam consoantes e não vogais e que sua articulação se daria na região mais posterior do aparelho fonador, daí chamá-los de laringais ou laríngeos.

Ao longo de praticamente todo o século 19, não se suspeitou desses fonemas nem se viu necessidade de supor sua existência. Foi justamente a descoberta do hitita e de algumas outras línguas da Anatólia, como o luvita, registradas em inscrições cuneiformes, que trouxe o problema à tona, pois essas eram as únicas descendentes do indo-europeu a conservar sons laríngeos (ou pelo menos as únicas a conservar registro de tais sons na escrita).

O fato é que admitir a existência desses fonemas simplificava bastante as explicações sobre as mudanças vocálicas do indo-europeu e sua evolução histórica.

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A teoria das laringais

Em princípio, seriam três os fonemas laringais (segundo o americano Winfred Lehmann, seriam quatro): *h1, a laringal “neutra”; *h2, que teria a capacidade de “colorir” a vogal adjacente com o timbre de a; e *h3, que coloriria com timbre de o.

Essa ideia de que uma consoante articulada na região mais posterior da cavidade bucal (na laringe ou faringe) pode mudar o “colorido” de uma vogal, transformando-a em outra, é familiar às línguas semíticas, como o hebraico e o árabe. A existência de consoantes desse tipo tanto nessas línguas quanto no indo-europeu reforçaria, por sinal, a tese de uma ancestralidade comum para o protoindo-europeu e o protossemítico.

Como resultado, deduz-se que, nos radicais verbais indo-europeus, a vogal básica do presente é e, a do pretérito é o, e a do particípio é “zero” (ou seja, não há vogal). Se o radical não contém laringal alguma, a série eo-zero permanece inalterada. Se contém *h1, temos a série eoa; a presença de *h2 explicaria a série aoa, e a de *h3, a série ooa. A presença das laringais também explica por que algumas vogais são longas no grau pleno, por que algumas consoantes se vocalizam em certos casos, além de solucionar uma série de outros problemas. Por tudo isso, pode-se dizer que é uma teoria bastante consistente e aceita quase sem restrições pelos indo-europeístas. Isso não quer dizer que seja uma teoria pronta e acabada: ainda há dúvidas se *h1 é uma única consoante ou são duas, bem como até hoje não se sabe exatamente como soavam essas laringais. De todo modo, não deixa de ser admirável a genialidade do jovem Saussure ao ter descoberto precocemente a solução de um problema que ainda nem existia.

[1] Em linguística, o asterisco antes de uma forma indica que esta nunca foi documentada e, portanto, é produto de reconstrução.