Palavra da semana: raivosidade

Na semana que passou, a língua portuguesa viu surgir uma nova palavra. É que, quarta-feira passada, o presidente Michel Temer disse em discurso que é preciso pacificar o país, já que os brasileiros vivem ultimamente um clima de certa “raivosidade”. Com certeza, o Presidente estava referindo-se à atmosfera de raiva (eu diria melhor, de ódio) que divide o nosso povo em petistas e antipetistas. E pediu licença para empregar o termo, já que ele próprio deve ter a consciência de que esse vocábulo não está dicionarizado.

Até aí, nenhum problema. Afinal, usamos todos os dias palavras que ainda não chegaram ao “estado de dicionário”, como diria Drummond. O problema é que parte da imprensa, fazendo coro aos defensores do purismo em questões de língua, se insurgiu contra o inusitado neologismo. Muitos disseram categoricamente que essa palavra não existe. Para estes, uma palavra só existe quando consta nos dicionários, esquecendo-se de que o dicionário é uma fotografia do passado: a língua do dia a dia, tanto a oral quanto a escrita, está sempre inovando, e somente algum tempo depois que o uso de determinado termo se generaliza é que os dicionários vão lavrar sua certidão de nascimento. Logo, dicionários e gramáticas são sempre mais conservadores que a língua viva.

Se fôssemos obrigados a utilizar somente as palavras de que já dispomos, a língua não evoluiria. Consequentemente, o léxico da língua portuguesa ainda seria o mesmo do século XII, época dos primeiros registros escritos da última flor do Lácio, inculta e bela.

Foram até veiculadas na imprensa sugestões de como o Presidente deveria ter-se expressado. Um professor de português assinalou que Temer poderia ter simplesmente empregado “raiva” em lugar de “raivosidade”, visto que esta última forma é um substantivo abstrato que indica qualidade de raivoso; e que raivoso é aquele que sente raiva. Portanto, raiva e raivosidade seriam sinônimos; logo, por que inventar uma palavra se já temos outra de mesmo significado?

Outro professor de português (é interessante como certos professores de português se sentem os guardiões da pureza do vernáculo) argumentou que existe na língua a palavra “nervosidade” e que, portanto, o Presidente poderia ter optado por falar em combater a nervosidade que divide o povo brasileiro.

Quanto a “nervosidade”, além de ser palavra de raríssimo uso, desconhecida pois da maioria dos falantes (talvez não do Sr. Michel Temer, homem de alta e vasta cultura), é substantivo abstrato que designa o estado de quem é ou está nervoso. Seria, então, equivalente ao bem mais difundido “nervosismo”.

Só que o sentimento que permeia os cidadãos envolvidos nesse Fla-Flu político não é de nervoso, é de raiva mesmo, de ódio sanguinolento. Partidários e detratores do PT e demais partidos de esquerda estão verdadeiramente raivosos uns com os outros. Raivosos não de raiva, sentimento humano de desapreço menos intenso que o ódio, mas da raiva canina, que faz espumar a boca ao ouvir ou ler qualquer referência ao inimigo.

Nesse sentido, “raivosidade” tem conotações que nem “raiva” nem “nervosidade” ou “nervosismo” expressam. Do contrário, por que nosso Presidente, erudito que é, faria uso de um termo heterodoxo se, supostamente, dispunha de vários outros já canônicos?

Aí está uma das grandes qualidades da língua, o poder de se reinventar, isto é, de criar novos recursos na medida da necessidade de expressar novas ideias, novos sentimentos, novos insights. Assim se deu com o “imexível” do então ministro do governo Collor, Antônio Rogério Magri, que é diferente do “inalterável”, “insubstituível”, “inamovível”, etc., dos dicionários. Assim se deu com o “indeletável” de José Alencar, vice-presidente do primeiro mandato de Lula, que é totalmente distinto do dicionarizado “indelével”. Assim se deu com o “inconvivível” de Fernando Henrique. Assim se deu e se dá com todas as novas palavras, às quais os puristas torcem o nariz, mas que, mais cedo ou mais tarde, acabam usando.

E por que essas palavras “bárbaras”, “ameaçadoras da integridade do idioma”, acabam se consolidando no uso cotidiano, inclusive no uso culto da língua? É justamente porque elas exprimem conceitos e nuances semânticas que nenhuma palavra já registrada consegue exprimir. É porque elas representam o frescor da língua, o doce perfume da manhã contra o cheiro de mofo das velhas e batidas expressões. É, finalmente, porque a língua muda o tempo todo, ainda que sob os protestos de certos professores de português, jornalistas e leitores conservadores. E é por mudar o tempo todo que a língua continua sendo o melhor sistema de comunicação de que dispomos.

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O darwinismo da linguagem

“As línguas são organismos que nascem, se desenvolvem, se reproduzem e morrem.” Esse lema, instituído pela linguística histórico-comparativa, fundou-se na semelhança encontrada pelos historiadores das línguas entre a evolução linguística e a biológica. A teoria da evolução das espécies, proposta por Charles Darwin em 1859, influenciou profundamente o pensamento científico do século XIX, com reflexos evidentes na linguística, que então dava seus primeiros passos. Foi nesse momento que a filologia, que até então partia do conhecimento de língua para reconstituir textos, passou também a partir dos textos para reconstituir as línguas, numa espécie de “arqueologia” ou “paleontologia” linguística.

A metáfora biológica, considerada uma heresia durante a maior parte do século XX, mais voltado aos aspectos sociais, culturais — numa palavra, “humanos” — da língua, hoje volta com toda a força graças aos avanços tanto da linguística quanto das biociências e da neurociência. Se a linguística do século XIX se ocupou da evolução histórica, e a do século XX, da organização estrutural da língua, hoje o que se busca é a articulação de ambas as perspectivas para compreender a linguagem como fenômeno a um tempo cultural e biológico.

Os mesmos enfoques estrutural e evolutivo são dados ao estudo das espécies biológicas. É o que fazem a paleontologia, a anatomia e a fisiologia. Mas também há uma disciplina que faz a ligação entre a evolução e a estruturação das espécies biológicas: a genética. Ela explica como ocorrem nos espécimes e se transmitem aos descendentes as mutações que, a longo prazo, acarretam a mudança da espécie. E pode fornecer ferramentas para compreendermos também como a estrutura linguística evolui enquanto funciona e funciona enquanto evolui.

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Nas últimas décadas, a linguística evolucionária vem ocupando cada vez mais o interesse de especialistas, e novas teorias, como a do proto-sapiens e a da torre de Babel têm sido propostas, sobretudo graças às contribuições mútuas entre disciplinas humanísticas e biológicas, como a filologia, a arqueologia, a paleoantropologia, a genética e a ciência cognitiva. A iminente extinção em massa de línguas, com a perda da diversidade linguística (catástrofe comparável à perda da biodiversidade), precipita a catalogação e descrição de línguas ágrafas, em especial africanas, ameríndias e polinésias, o que reaviva o interesse dos linguistas pela origem das línguas.

Vários estudos nestas décadas correlacionam dados genéticos e culturais, especialmente a língua. Para o geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza, a transmissão linguística faz parte da transmissão cultural. Segundo sua teoria da Eva Africana, se, analogamente aos genes, a língua se transmite de uma geração a outra (embora por meios diferentes), é possível que todas as línguas atuais descendam de uma língua falada na África há cerca de 200 mil anos.

Segundo o biólogo britânico Richard Dawkins, fatos culturais (que ele chama de memes) transmitem-se aproximadamente conforme a mesma dinâmica da transmissão dos genes. Os fatos linguísticos e a própria língua seriam então um caso particular de memes, objeto de estudo da memética.[1]

Na realidade, o modelo biológico evolucionário de sistema é universal, isto é, pode ser aplicado, com as devidas restrições e adaptações, a línguas, sociedades, civilizações, economias, sistemas computacionais, comunicacionais, semióticos não verbais e cibersemióticos, geológicos e mesmo cosmológicos. Em suma, a qualquer sistema dotado de uma propriedade chamada autopoiese (forma de organização na qual o sistema produz e substitui seus próprios componentes, e se autorreproduz, numa contínua articulação com o meio).

Portanto, não surpreende que a língua seja passível do mesmo método de estudo que é aplicado aos sistemas complexos adaptativos naturais, como a vida. Muito cedo se percebeu que a língua é um sistema regido por leis bastante claras, que, como hoje se sabe, são fruto da natureza biológica da linguagem. O que perturbava os estudiosos eram as inúmeras exceções, que punham uma certa dose de caos na aparente ordem da gramática. Uma compreensão mais profunda dos sistemas naturais permitiu perceber que as irregularidades também são previsíveis e explicáveis racionalmente. A teoria dos sistemas permitiu agregar a linguística ao rol das ciências ditas “positivas”.

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Com isso, a metáfora biológica da linguagem volta a fazer sentido, com a única ressalva de que os linguistas histórico-comparativos e filólogos do século XIX erraram ao comparar a língua a um organismo, isto é, a um espécime. Os fatos linguísticos estruturam-se em três níveis, língua, norma e fala. Assim, a língua, que é um fenômeno social, corresponderia à espécie, e os atos de fala dos inúmeros falantes, vivos ou mortos, presentes ou passados (fenômenos individuais), corresponderiam aos espécimes que compõem a espécie. Entre esses dois níveis situam-se as normas, fenômenos linguísticos grupais (como as gírias, por exemplo), equivalentes a subespécies ou raças.

Decorre daí que não há línguas mortas, há falas mortas. As línguas não morrem, mas evoluem para outras línguas ou então se extinguem, quando não deixam descendentes. O equívoco em comparar uma língua a um organismo biológico está em que espécies não morrem, quem morre são os indivíduos, sejam eles animais, plantas ou falantes. Do mesmo modo como uma espécie animal ou vegetal é o resultado de uma abstração e categorização feitas a partir da análise dos indivíduos isolados — os espécimes — para reconhecer-lhes os traços morfológicos e genéticos em comum, as línguas também são abstrações realizadas a partir dos atos de fala, única realidade palpável e observável pelo linguista.

O procedimento de classificar animais, plantas e micro-organismos em famílias, gêneros, espécies, etc., é o mesmo que dá origem às árvores genealógicas das línguas. E, curiosamente, há uma forte correlação entre a árvore da evolução genética e a da evolução linguística do ser humano.

Poderíamos dizer, em linguagem figurada, que o homem é o produto da interação entre um hardware, um software e o contexto social. O hardware (o cérebro) foi capaz de gerar um software (a linguagem) que se autoproduz e interage com a sociedade como um organismo interage com o meio. A linguagem permite o pensamento simbólico, que desencadeia a ação, e por sua vez produz a mudança social. Esta acarreta a mudança (ou mutação) linguística, que enseja novos pensamentos, num ciclo interminável.

A linguagem altera a sociedade, que altera a linguagem. É por isso que a língua muda enquanto funciona (interage com o meio, com os falantes) e funciona enquanto muda. Se parasse de evoluir, cairia em desuso, pois não daria mais conta da mudança social. Por outro lado, quando uma língua cai em desuso, ela deixa de evoluir e permanece fossilizada nos registros que deixou.

O termo “mutação linguística” é um empréstimo tomado à biologia. Afinal, a inovação linguística ocorre segundo um princípio similar ao da mutação genética. Nos seres vivos, as moléculas de DNA produzem cópias de si mesmas. A falha nesse processo resulta numa cópia imperfeita da molécula original. Conforme o DNA prossegue se autorreplicando, essas falhas, ou mutações, vão se acumulando, de modo que, após gerações, alterações significativas nos organismos já podem ser notadas.

Analogamente, como todo ato de fala é uma recombinação de elementos e modelos preestabelecidos na língua, que o falante internalizou (léxico, construções sintáticas, pronúncia dos fonemas, etc.), cada novo ato de fala é uma tentativa de reproduzir a expressão e o conteúdo de mensagens anteriores, tentativa que produz, porém, uma cópia “falha”, isto é, diferente, ainda que mínima e imperceptivelmente, do original, tanto no significado quanto na forma fônica dos elementos linguísticos.

As formas correntes e as mutantes sofrem o mesmo processo de seleção que as espécies biológicas. Não se trata de seleção natural, mas cultural.[2]

A nova forma (mutante) compete com a velha, de tal modo que convivem por um tempo, depois uma suplanta a outra. A nova palavra (ou pronúncia, construção sintática, significado, expressão idiomática, etc.) pode, com o tempo, impor-se a mais e mais falantes, assim como palavras e expressões correntes podem tornar-se arcaísmos (quem hoje em dia ainda diz madeixa ou supimpa?). Mas uma inovação pode ser abandonada pouco depois de ter sido criada. São os modismos. (Um modismo recente, que já começa a cair em desuso é empreguete.) A inovação pode também permanecer restrita à fala do seu criador, sem conseguir a adesão dos demais.

É a adaptação da nova forma linguística às necessidades sociais de comunicação que determina sua sobrevida. A diferença é que a mutação genética se transmite só de uma geração a outra (por herança), ao passo que a mutação linguística também circula entre membros contemporâneos da mesma sociedade (por contágio).

Esse mecanismo explica o processo da dialetação: pequenas mudanças fonéticas, gramaticais, semânticas ou lexicais criam, ao se acumular no tempo, dialetos; o acúmulo dessas mudanças, sobretudo por força do distanciamento geográfico ou social dos falantes, leva, ao fim de um longo período, ao surgimento de novas línguas. Enfim, o “erro” é na verdade uma mutação.

Os fenômenos evolutivos são a causa tanto da diversidade linguística quanto da biodiversidade. A evolução linguística suscita semelhanças inusitadas com problemas de natureza biológica. No livro Jurassic Park, Michael Crichton sugere a clonagem de animais extintos a partir do dna de fóssil preservado. Ora, a ressurreição de uma língua como o extinto hebraico, mantido “fossilizado” nos textos do judaísmo e reavivado com a fundação do Estado de Israel em 1948, pode ser comparada ao mesmo processo.[3]

A paleontologia reconstrói a história dos seres vivos estudando o substrato geológico em que seus fósseis foram gravados, enquanto a geologia reconstitui a história desses substratos pela análise dos fósseis. Da mesma forma, a linguística histórica estuda a história das línguas por meio dos textos que elas produziram e fornece subsídios para que a filologia reconstrua a história dos textos por meio do conhecimento da evolução das línguas.

[1] Sobre a teoria dos memes, leia O gene egoísta, de Richard Dawkins.

[2] O preconceito contra a fala de certos grupos (regionais, culturais, sociais), bem como tudo que é estranho (“estrangeiro”) ao grupo dominante, não deixa de ser uma forma de seleção cultural, uma competição em que o mais forte (dominante) vence o mais fraco (excluído) e impõe a sua “genética” (isto é, o seu linguajar).

[3] O hebraico já era uma língua morta à época de Jesus, em que os judeus falavam aramaico, língua descendente do hebraico. Durante séculos, o hebraico se manteve apenas como idioma litúrgico do judaísmo (do mesmo modo que o latim em relação ao catolicismo). Nesse período, os judeus espalhados pelo mundo falavam o idioma de seus países de adoção, além de línguas veiculares como o iídiche, uma espécie de dialeto alemão, e o ladino, espécie de dialeto espanhol.