O Iluminado

Hoje não posso deixar de prestar homenagem a um dos meus grandes ídolos, um dos caras que mais me fizeram ter amor pela ciência e pela popularização da ciência: o iluminado Stephen Hawking.

Iluminado sim, pois sua mente prodigiosa, mesmo aprisionada num corpo paralisado, nos auxiliou a compreender melhor os mistérios da nossa existência. Considerado o físico mais importante de nosso tempo e o mais insigne depois de Newton e Einstein, Hawking de certo modo complementou a obra desses outros dois gênios. Seu trabalho consistiu em explicar como o Universo surgiu e como evoluiu desde então, e por que as leis da física são como são.

Mais do que isso, seu pensamento tocou em questões ontológicas que perturbam a todos os que somos dotados de alguma curiosidade e temos espírito aberto: por que existimos? por que a realidade existe em vez do nada? poderia o nada existir? se o Universo existe, é porque ele foi criado?

Ateu convicto, Hawking tinha respostas convincentes a todas essas questões, embora sua modéstia, típica dos sábios, o levasse a nunca afirmar nada peremptoriamente. Afinal, diferentemente da religião, que tem respostas prontas para tudo (e sempre as mesmas respostas ao longo de milênios), a ciência não se baseia em argumentos de autoridade ou em verdades pretensamente reveladas, mas em pesquisa, isto é, observação meticulosa, investigação, experimentação e raciocínio lógico. Hawking sabia como ninguém que não existem verdades prontas e acabadas, o que existe é a possibilidade de o engenho humano descobrir mais e mais, chegando sempre mais perto da verdade sem jamais atingi-la por completo. Uma de suas frases célebres diz: “há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona”. É o que vemos todos os dias: a ciência provando suas teorias e demolindo as crenças religiosas. Pena que ela seja acessível a poucos.

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Por isso mesmo, o iluminado Hawking também teve a generosidade de partilhar conosco, simples mortais, suas descobertas e seu conhecimento. Ele foi um incansável e magistral divulgador da ciência, e sua paixão pela comunicação do saber o fez transpor as limitações de sua condição física, jamais deixando de escrever para o público leigo e de dar palestras em todo o mundo, mesmo tendo de usar um sintetizador de voz para falar. Seus livros tornaram-se best-sellers e ele, uma celebridade pop, digna de aparecer nos Simpsons, no Laboratório de Dexter, em The Big Bang Theory, em Star Trek, e de ter sua vida retratada em filme (A Teoria de Tudo, 2014).

Seu trabalho incansável de divulgador científico levou milhares de jovens a se apaixonar pela ciência e a abraçá-la como carreira, bem como iluminou a mente de muitas pessoas, livrando-as do obscurantismo da crendice e da superstição. Para mim, que tento ser um divulgador da ciência da linguagem e milito no campo das Humanas, às vezes tão avesso ao método científico, tão apegado ao dogmatismo marxista, Hawking é uma inspiração, alguém que me motiva a seguir adiante apesar de todas as diversidades.

Mas a vida de Stephen Hawking também tem a mística da trajetória dos grandes homens. Nascido no dia em que se completavam 300 anos da morte de Galileu e no ano em que se comemorava o 300º aniversário de nascimento de Newton, faleceu no dia do aniversário de nascimento de Einstein, no qual também é celebrado o Dia do Pi, a famosa constante matemática 3,14… (é que 14 de março se escreve em inglês como 3/14). E faleceu aos 76 anos, como o gênio alemão. Todas essas coincidências – ou sincronicidades, se preferirem – são peças que a realidade nos prega, talvez tentando nos revelar seus caprichos mais sutis. Pois, como disse Einstein, a natureza é sutil, mas não maliciosa.

Além de tudo, ele teve a grandeza moral dos fanais da humanidade. Preso a uma cadeira de rodas, ele viu melhor que ninguém e nos mostrou mais claramente o mundo que habitamos, qual um Beethoven tirando a mais bela música do silencio da surdez, qual um Aleijadinho que, sem mãos, esculpiu na pedra o orgulho da nossa nacionalidade, qual um Homero cego cantando a Ilíada.

Caro Steve, você fará uma baita falta!

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O literalismo das traduções de livros no Brasil

Gosto muito de ler livros de divulgação científica. Mas, como a maioria dessas obras é escrita originalmente em inglês, e os livros importados são caros e relativamente raros no mercado, acabo optando por ler as edições brasileiras desses textos, traduzidas para o português por profissionais de alto gabarito – pelo menos, é o que eu deduzo, já que uma editora investe muito dinheiro nessa produção.

Entretanto, muitos desses tradutores com livre trânsito pelas grandes editoras pecam pelo literalismo das traduções, isto é, pela adoção de soluções pouco naturais ao espírito da língua portuguesa, visto que são traduções (quase) literais de expressões idiomáticas inglesas, embora soluções melhores estejam disponíveis em nosso idioma.

Tenho encontrado frequentemente nessas traduções palavras e expressões como “alegadamente”, “como resultado”, “evolucionário”, “em contraste”, “incluindo” (no sentido de “dentre os quais”), “presente” (no sentido de “atual”), e assim por diante.

“Alegadamente” é uma tradução literal do inglês allegedly, cuja melhor tradução para o português é “supostamente”: “as estrelas de nêutrons alegadamente existentes na Via Láctea…”.

“Como resultado”, expressão que, de tão usada, já se incorporou ao repertório de muitos autores brasileiros (inclusive eu, confesso) é tradução literal do inglês as a result, quando temos em português várias expressões equivalentes e menos forçadas, como “consequentemente”, “por conseguinte” “em decorrência”, etc.

Livros sobre teoria da evolução e biologia evolutiva com frequência trazem o adjetivo “evolucionário”, que até consta nos dicionários de português, mas a maioria dos biólogos de língua portuguesa – com exceção, claro, daqueles muito servis ao americanismo – emprega em seu lugar o mais consentâneo “evolutivo”, como, aliás, empreguei no início deste parágrafo.

in contrast é uma expressão idiomática inglesa que introduz uma oposição entre duas ideias ou a introdução de um novo tópico, diferente do anterior. O equivalente português usado por muitos tradutores de livros de divulgação científica (suponho que em outros gêneros de literatura ocorra o mesmo), “em contraste”, é uma expressão que, a rigor, não existe na língua portuguesa (ou melhor, agora existe, graças ao uso, tão reiterado quanto inadequado, que esses tradutores fazem). A ferramenta gramatical mais fluente que temos em português para indicar uma oposição ou mudança de tópico é o advérbio “já”: “Meu irmão gosta muito de matemática; já eu prefiro história”. (Observe também o uso que fiz de “já” no início deste parágrafo.) Veja agora o emprego de “em contraste” em português: “Meu irmão gosta muito de matemática; em contraste, eu prefiro história”. Perceberam?

E o que dizer de “incluindo” quando se quer destacar elementos de um determinado conjunto? Prestem atenção à seguinte frase: “Muitos escritores românticos, incluindo Shelley e Keats, utilizaram esse recurso estilístico”. O original inglês é: Many romantic writers, including Shelley and Keats, employed this stylistic feature. Não é óbvio que o uso de “dentre os quais” ou “dentre eles” soa muito mais natural em português do que o literal “incluindo”?

Mas a cereja do bolo para mim é o emprego do adjetivo “presente” e do advérbio “presentemente” com o sentido de “atual” e “atualmente”: “As presentes pesquisas na área têm confirmado esse resultado”; “Presentemente, os cientistas estão empenhados numa outra linha de investigação”. Ocorre que em inglês actual não significa “atual” e sim “efetivo”, assim como actually quer dizer “efetivamente”, “na verdade” e não “atualmente”. Para indicar atualidade, o inglês lança mão dos adjetivos present (the present President of the United States, Barack Obama) ou current (the current events compel us to disagree with this hypothesis). Por sinal, já vi traduções do tipo “os correntes eventos nos compelem a discordar dessa hipótese” quando o que diríamos em bom português é “os atuais acontecimentos nos obrigam a discordar dessa hipótese”.

Outra gafe dos tradutores é empregar “evidência” (em inglês, evidence) no sentido de “prova”: “o local foi totalmente isolado para que não se perca nenhuma evidência do crime”.

A lista é longa: “localização” (isto é, location) em lugar de “local”, “manufaturar” (manufacture) em vez de “fabricar”, “acurácia” (accuracy) por “precisão” ou “minúcia”, “mais tarde” (later on) no sentido de “mais adiante (neste livro)”, etc. etc.

Há ainda o problema da inadequação gramatical, especialmente em relação a verbos. Coisas como “os cientistas têm estado estudando a questão” são o transplante para o português de um tempo verbal (o present perfect continuous) que nossa língua não têm (dizemos, em vez disso, “os cientistas têm estudado” ou “vêm estudando”).

Outro erro é manter o gerúndio quando o que cabe é o infinitivo: “Indo a encontros e festas é a melhor maneira de fazer networking”. (Em inglês: Going to meetings and parties is the best way to network.)

Também soa estranha a omissão do artigo definido em casos nos quais o português sempre o usa. Por exemplo, “Mulheres são mais propensas do que homens a esse tipo de acidente”, quando o natural em nosso idioma é “As mulheres são mais propensas do que os homens…”. É que em inglês não se usa artigo quando se fala de determinada coisa ou pessoa em sentido genérico ou coletivo (é o chamado artigo partitivo, que se aplica aos substantivos incontáveis, ou uncountable nouns).

Mas o pior de tudo é quando o tradutor não domina o assunto do livro e traduz quantum physics por “física do quantum” ao invés de “física quântica”, Avestan por “avestano” (o nome correto dessa língua da antiga Pérsia é “avéstico”), e por aí vai.

Um dos maiores erros que já vi nesse sentido foi a tradução de Galileo’s inclined planes (os planos inclinados de Galileu, que todos estudamos nas aulas de física do colégio) por “aviões inclinados de Galileu” (plane em inglês significa tanto “plano” quanto “avião, aeroplano”). Como é possível um tradutor de ciência não saber que no início do século XVII, época em que Galileu viveu, o avião ainda demoraria trezentos anos para ser inventado?

A que conclusão chegamos? Primeiro, certos tradutores que prestam serviços a grandes editoras não dominam tão bem o inglês ou o português quanto deveriam. Segundo, a revisão de texto é bastante falha. Terceiro, essas editoras são pouco exigentes em relação à qualidade do trabalho. O que é de admirar, visto que esse tipo de obra se destina a leitores cultos, muitas vezes com conhecimento técnico na área, e, portanto, com alto grau de exigência. Como eu, por exemplo.