Afinal, qual é o nome correto da rua da cracolândia?

As recentes ações da Prefeitura de São Paulo na famigerada cracolândia da Rua Helvetia colocaram essa antes pacata via do centro da cidade no noticiário e, de quebra, suscitaram a questão: afinal, como é que se pronuncia “Helvetia”?

Antes de mais nada, vamos esclarecer o que vem a ser a tal Helvetia, que dá nome à rua. O nome Helvetia vem do latim (em português é “Helvécia”) e designa uma região do antigo Império Romano que corresponde aproximadamente à parte ocidental da atual Suíça. Por essa razão mesma, essa república europeia tem como nome oficial “Confederação Helvética”.

A Helvetia ou Helvécia, situada na região entre os Alpes suíços e a cordilheira do Jura era assim chamada por ser habitada pela tribo celta dos helvécios (Helvetii). Até aproximadamente o século I d.C., esse nome se pronunciava em latim exatamente como se escrevia. No entanto, como as línguas evoluem, aos poucos o t seguido de i semivocálico começou a ser pronunciado pelos romanos como “ts”, e o nome Helvetia passou a soar “Helvétsia”, pronúncia que ainda se mantém no italiano hoje em dia. Como todo ti latino com som de “tsi” é grafado e pronunciado em português como “ci”, Helvetia acabou aportuguesado para “Helvécia”. De todo modo, é costume nos países de língua portuguesa pronunciar o ti dos nomes latinos como “ci” mesmo quando a grafia é mantida em latim.

Sem título

Portanto, a Rua Helvetia deve ser chamada de “Helvécia”, mesmo a grafia estando em latim. O problema é que os próprios moradores da rua, especialmente os mais jovens – aí incluídos os frequentadores da cracolândia – desconhecem a origem latina do nome (temo que desconheçam até o seu significado) e o pronunciam conforme o leem na placa de rua. Para complicar, a própria placa traz a incorreta grafia “Helvétia”, com um acento agudo que jamais existiu em latim. Talvez fosse uma boa providência que a Prefeitura alterasse a grafia das placas para o aportuguesado “Helvécia”: isso romperia com uma tradição secular, já que essa denominação remonta a princípios do século passado e a Achilles Isella, empresário suíço que ali tinha seu estabelecimento comercial chamado Casa Helvetia, mas, sem dúvida, facilitaria a pronúncia pelas pessoas que desconhecem latim e a história da rua.

É claro que mais urgente do que mexer nas placas é mexer na cracolândia, tarefa que desafia prefeito após prefeito.

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Drogadito?

Outro dia, um coronel da Polícia Militar de São Paulo declarou no rádio que as ações policiais na cracolândia paulistana estão permitindo dar maior atendimento ao drogadito. Drogadito?! Seria isto um diminutivo carinhoso de drogado, assim como temos rapaz/rapazito, cabra/cabrito, e assim por diante? Só depois de algum tempo entendi que ele se referia ao droga-adicto, isto é, àquele que tão bem conhecemos como viciado em drogas. Em outra ocasião, uma assistente social falava também ao rádio sobre as estratégias de combate à adição. Pensei comigo: mas por que combater a adição?! E por que não a subtração e a divisão, operações aritméticas tão mais perniciosas que a adição, já que diminuem o resultado ao invés de aumentá-lo? Mais uma vez não se tratava de adição, mas de adicção, isto é, vício em drogas, dependência química.

Ora, essas palavras estranhas nada mais são do que decalques malfeitos a partir do inglês addiction e drug addict. Esse tipo de decalque — como chamar educador artístico de “arte-educador”, na esteira do inglês art educator, me parece pura macaquice. Em especial porque já possuímos termos próprios em nossa língua para expressar tais conceitos. Qualquer falante do português sabe o que é um viciado; já um adicto…

Quão humano é ser desumano?

 “A humanidade é desumana”
Renato Russo

Lá pelos idos de 2008, após uma visita a várias penitenciárias brasileiras, o então relator da Comissão Parlamentar de Inquérito do sistema carcerário, deputado federal Domingo Dutra, afirmou que “grande parte dos presídios visitados não serve nem para bichos”. Essa frase, cunhada para produzir indignação na opinião pública pelas condições subumanas em que se encontravam (e ainda se encontram) os presos no Brasil, causou, na época, algumas manifestações de indignação em sentido inverso e revela muito da ideologia subjacente à língua. Afinal, o que se subentende é que criminosos, inclusive os frios, violentos e irrecuperáveis, merecem um tratamento mais digno do que animais inocentes e indefesos apenas por serem… humanos.

Volta e meia, ouve-se algum comentário de que os pacientes do sistema público de saúde brasileiro são tratados como bichos, ou de que o filho rebelde trata a mãe feito um bicho. No entanto, a expressão “tratado como bicho”, usada para indicar desrespeito à dignidade humana, não é exclusividade do português, já que existe em muitas outras línguas.

Na verdade, ao usar a metáfora animal para criticar os presídios brasileiros, o deputado valeu-se de uma retórica que remete à ética judaico-cristã, segundo a qual o homem é a imagem e semelhança de Deus e, portanto, a vida humana – inclusive a dos mais abjetos criminosos – é sagrada; já a dos animais não é, tanto que os judeus tinham o hábito de sacrificá-los em honra ao sanguinário deus Javé. Alguns desses sacrifícios eram bem cruéis (deixava-se sangrar um carneiro até que morresse de hemorragia; outras vezes, imolava-se o animal vivo), e tudo isso era feito com os mais elevados sentimentos “humanos”.

Pela mesma razão, a Igreja Católica se opõe veementemente ao aborto e à eutanásia entre humanos, mas nada diz das milhares de clínicas veterinárias que, todos os dias, “sacrificam” (percebam a conotação religiosa desse termo) cães e gatos sem nenhum drama de consciência, nem dos médicos nem dos donos, provavelmente porque “animal não tem alma”, logo não vai para o Paraíso nem para o inferno. (Por que será que “Paraíso” se escreve com maiúscula e “inferno” não?)

A ética, predominante em nossa cultura, que norteia a expressão “tratar como bicho” não tem por critério de julgamento categorias como puro x impuro, inocente x criminoso, útil x nocivo, etc. Seu critério é humano x não humano. Por essa ética, o mais sórdido e canalha dos seres humanos ainda é melhor do que o mais puro e indefeso dos animais só porque é humano. Trata-se de uma ética especista enraizada na língua. (Especismo é a discriminação que o ser humano pratica contra as demais espécies biológicas. Portanto, algo não menos abominável do que o racismo, com a diferença de que este, por se dar contra humanos, causa mais revolta – pelo menos hoje em dia, quando a Igreja já reconheceu que negros e índios são humanos e, por conseguinte, têm alma, coisa que eles não tinham no tempo da escravidão.)

Mas o que significa, afinal, o termo “humano”? Como designação de uma espécie biológica – o ser humano, ou Homo sapiens –, “humano” opõe-se a “inumano” (isto é, animal, vegetal, mineral, extraterrestre, ou o que mais se possa imaginar). Já oposto a “desumano”, “humano” refere-se a certos atributos de bondade, generosidade e piedade que, supostamente, só nós humanos possuímos. (A crença de que só nós temos essas qualidades de caráter é bem questionável: animais também se expõem ao perigo para salvar seus filhotes ou mesmo seu dono, humano. Podem dizer que isso é instinto; mas, nesse caso, o altruísmo humano também o seria.) A língua inglesa faz uma interessante distinção entre human e humane, em que o primeiro termo tem sentido biológico e o segundo, moral.

Todo conceito linguístico implica seu oposto. No livro Semântica estrutural, o linguista e semioticista lituano Algirdas J. Greimas demonstrou que qualquer significado se organiza numa rede semântica que estabelece ligações com seus contrários e contraditórios – mesmo quando nem todos esses termos lógicos encontrem expressão linguística em determinada língua. Portanto, “bondade” implica “maldade” e também “não bondade” e “não maldade” (é possível não ser nem bom nem mau: é o chamado termo neutro da semiótica greimasiana). Se nos vangloriamos de ter a virtude da bondade, é porque está implícito em nós o vício da maldade. Os animais não são nem bons nem maus: são naturais.

A palavra “desumano” como sinônimo de “cruel” remete ao seu antônimo “humano” como sinônimo de “generoso, piedoso, solidário”. Está implícita aí a associação do atributo de humanidade ao de bondade. No entanto, o homem é o único ser na face da Terra capaz de ser desumano. A crueldade é um atributo típica e exclusivamente humano (os animais podem ser ferozes, jamais cruéis), afinal o homem é o único ser que tortura e mata por prazer. Enquanto nos outros animais a violência é um instinto de sobrevivência e, portanto, desprovida de maldade, em animais autodenominados “racionais” como nós, que podemos refletir sobre os nossos atos e garantir a nossa sobrevivência por outros meios, a brutalidade deliberada é movida por um desejo sádico de prazer. Por isso, nos regalamos com o sofrimento de nossos inimigos (aliás, só o homem tem inimigos – os animais têm predadores).

A natureza selvagem nos parece bruta, cruel, por isso mesmo imperfeita, como se Deus tivesse criado o mundo de maneira displicente e deixado a nós, humanos, a tarefa de concluir o trabalho, criando uma segunda natureza, chamada civilização, em que as “falhas” deixadas pelo Criador seriam corrigidas por nossa racionalidade e senso ético. A caçada, com toda a sua sanguinolência, seria substituída por uma prática bem mais racional e piedosa: a pecuária. Entretanto, a maneira como o gado ou as aves são tratados em criadouros para o abate (isto é, tratados “como bichos”) é bem pior – e mais desleal – do que o modo como um leão caça um antílope.

Em resumo, na natureza não há bem nem mal: os juízos morais são invenção humana. É por isso que reconhecemos em nós mesmos – e apenas em nós mesmos – os atributos da bondade e da maldade. Porém, somos presunçosos o suficiente para estabelecer – inclusive linguisticamente – que em nós a bondade é natural e a maldade, um desvio. Não obstante, todos nós praticamos ou aceitamos que se pratiquem crueldades contra a natureza (como a derrubada de árvores, as queimadas nas florestas, o abate, a caça predatória, o uso de animais em experiências científicas e até mesmo a poluição ambiental para a qual todos nós contribuímos, consciente ou inconscientemente) ou contra nossos semelhantes e, mesmo assim, continuamos dormindo com a consciência tranquila. Essa visão antropocêntrica da realidade, eivada de juízos de valor altamente tendenciosos, não poderia deixar de se refletir na língua que falamos e, portanto, nas expressões que utilizamos. E aí caímos num círculo vicioso: a ideologia especista enseja expressões linguísticas que, usadas inconscientemente no dia a dia, reforçam e reafirmam essa ideologia. É por isso que o relator da CPI dos presídios conseguiu provocar indignação com sua frase – embora, em alguns casos, por motivo oposto ao pretendido.

Uma última reflexão: um grande amigo meu costuma dizer que a educação serve para ensinar o que é certo, pois o errado se aprende sozinho. Nada mais verdadeiro, nada mais “humano”.

Transporte público ou privado: o que é melhor?

O trânsito engarrafado das grandes cidades e o consequente tempo que o cidadão perde todos os dias entre a casa e o trabalho têm feito com que cada vez mais se discuta o incentivo ao transporte público e coletivo, para o que são necessárias muitas melhorias nos serviços e a ampliação da rede que atende à população. Afinal, se todos deixassem o carro em casa e fossem trabalhar de transporte público, o sistema entraria em colapso: se ele já não dá conta da demanda atual, como poderia atender os novos usuários?

A posição que defendo pode causar polêmica, mas o fato é que sou um “autoativista”. Sim, um autoativista! Assim como há os cicloativistas (mais conhecidos como ciclochatos), que defendem o uso da bicicleta, eu defendo o uso do automóvel. E, antes que você desista de ler este texto, deixe-me explicar por quê.

Dita assim de chofre, a minha posição pode parecer política e ecologicamente incorreta, mas vou fazer aqui uma comparação entre o transporte público coletivo e o privado individual para ver qual oferece mais vantagens ao cidadão.

Vários amigos têm me exortado a deixar o carro na garagem e viajar de ônibus ou metrô. Eles dizem que chegam mais rápido e com mais conforto por esse meio, já que os ônibus, pelo menos na cidade de São Paulo, de onde escrevo, agora têm ar-condicionado e conexão wi-fi à internet, e trafegam por faixas exclusivas. Com isso, uma viagem de ônibus que antes durava uma hora e meia agora dura uma hora. Em compensação, a implantação das faixas exclusivas de ônibus, somadas ainda às ciclovias, tornaram o trânsito de automóveis bem mais moroso, a ponto de um trajeto que antes levava meia hora de carro hoje durar o dobro.

Portanto – e esse é meu primeiro argumento –, se vou levar uma hora quer indo de automóvel ou de ônibus, prefiro viajar no meu carro, onde vou sentado, com ar-condicionado regulado ao meu gosto, ouvindo música e com o principal, que eu não teria dentro de um ônibus: privacidade.

Não falo sem conhecimento de causa. Já viajei muito de ônibus e metrô, e o fato é que o convívio com certas pessoas dentro desses meios de transporte nem sempre é agradável ou inócua; já tive de aturar bêbados cheirando a cachaça, trabalhadores suados exalando o famoso “bodum”, idosos que adoram conversar e puxam assunto com quem quer que esteja ao seu lado, mesmo que essa pessoa visivelmente não esteja a fim de papo. Também já tive de suportar os inconvenientes vendedores ambulantes que, com a conivência dos motoristas de ônibus e agentes do metrô, adentram os veículos entoando seu invariável pregão: “eu podia estar roubando, estuprando e matando, mas estou aqui vendendo estas balinhas por apenas um real, etc. etc.”.

Além disso, nas horas de pico há mais pessoas viajando em pé, seja no ônibus, no trem urbano ou no metrô, do que sentadas, prato cheio para punguistas e molestadores de mulheres. E não adianta aumentar a frota de ônibus ou o número de linhas de metrô: tive a oportunidade de andar em ambos os meios em cidades de Primeiro Mundo como Londres, Paris e Roma, que se gabam de ter uma estação de metrô a cada dois quarteirões, e o problema é o mesmo: superlotação, convívio com pessoas indesejáveis, batedores de carteira…

Além disso, os ônibus param de ponto em ponto e os trens, de estação em estação. Onde há faixa exclusiva para ônibus, não é raro ver uma longa fila indiana desses veículos aguardando que o primeiro embarque e desembarque seus passageiros para que a fila possa andar dez metros.

E que tal caminhar até a parada de ônibus num dia de chuva? Ou desembarcar à noite e caminhar sozinho por ruas escuras até o seu destino?

E quando os trens reduzem a velocidade ou param no meio do caminho por problemas técnicos? De carro, é sempre possível fugir do engarrafamento por vias paralelas, mas o que fazer dentro de um metrô parado com as portas fechadas?

Outro inconveniente são os assaltos e arrastões a ônibus, trens e metrôs. Uma pessoa estará sempre menos vulnerável dentro de um carro insulfilmado com as portas travadas e janelas fechadas do que num transporte público ao qual todos têm acesso – inclusive os criminosos.

E o que dizer das greves de motoristas de ônibus e funcionários da companhia de metrô? E o que dizer do tempo de espera nos pontos ou nas estações (incluído aí o tempo de espera pelo próximo veículo, visto que o primeiro já chega lotado)?

Enquanto isso, os únicos inconvenientes do automóvel são os custos do combustível, do IPVA, dos estacionamentos e da manutenção (afinal, o carro é uma segunda família, não é?), fora algum problema mecânico repentino, acidente de trânsito ou pneu furado, coisas que, convenhamos, raramente acontecem e podem ser minimizadas com manutenções regulares e condução defensiva.

Mas o automóvel não é altamente poluidor? E as ruas não iriam ficar lotadas de carros caso todos usassem um? Como então defender o uso do automóvel?

Bem, a questão da poluição pode ser resolvida com a adoção de tecnologias modernas e combustíveis limpos – as pesquisas nesse sentido estão adiantadas. Aliás, os primeiros automóveis a circular, ainda em princípios do século passado, eram movidos a hidrogênio, que, como todos sabem, faz parte da composição da atmosfera. A produção de carros movidos a hidrogênio foi desestimulada e ao final extinta pela forte pressão do lobby da indústria petrolífera, que até hoje tenta obstar o avanço das tecnologias limpas e sustentáveis.

Quanto à questão do trânsito enlouquecedor, a culpa não é do uso do automóvel, como se poderia pensar de maneira mais rasa e precipitada, e sim da superpopulação mundial, sobretudo das grandes metrópoles. O ser humano é a única espécie biológica que cresce sem parar, violando todas as leis da natureza. Esse crescimento, que vem se acelerando de um século para cá, já põe em risco as reservas naturais de alimentos e minerais, de modo que, dentro de mais algumas décadas, teremos países em guerra pela disputa de água, migração de populações inteiras – na maioria, de miseráveis – numa escala muito maior do que a que assistimos hoje na Europa, e muitos outros transtornos. Na verdade, a superpopulação é a responsável pelas mudanças climáticas, pela fome, pela miséria, pelo aumento da violência nos grandes centros, pelas guerras de ocupação de territórios, pelo esgotamento das fontes não renováveis de energia, pela transformação de florestas em pastos e lavouras, e muito mais.

Ou seja, controlando a explosão demográfica, resolveremos não só o problema do tráfego nas cidades como também a maioria dos problemas que afligem hoje a humanidade. Apenas receio que agora seja um pouco tarde para começarmos: o alerta deveria ter sido dado sessenta, setenta anos atrás.

Uma cidade como São Paulo comporta no máximo três milhões de pessoas, mas sua população já chega aos 12 milhões. Não há obras públicas de mobilidade urbana que deem conta desse gigantismo, além do que a velocidade de crescimento populacional é maior do que a capacidade do poder público de dar solução ao problema.

Um último dado: pesquisa feita tempos atrás na cidade de São Paulo constatou que a maioria dos usuários do transporte público gostaria de ter um carro.

Portanto, defender o uso do automóvel não me parece tão politicamente incorreto quanto se poderia pensar a princípio. Respeito muito aqueles que optam pela bicicleta ou pelo transporte público, mas continuo acreditando que faço um bom negócio em andar de carro.

O Brasil é de fato uma democracia?

Desde o fim do regime militar, diz-se que o Brasil é uma democracia. Aliás, o processo de passagem de um regime a outro foi chamado de “redemocratização”. De fato, com o fim da era militar, passamos a ter eleições diretas em todos os níveis, desapareceram o arbítrio e a censura, e a tortura passou a ser crime. Mas, recorrendo à própria etimologia da palavra, democracia é o governo do povo, isto é, aquele em que as leis e os atos de governo correspondam à vontade popular. Portanto, democracia não é apenas eleição direta e ausência de censura ou de tortura.

A democracia verdadeira se inicia por um parlamento que realmente represente os cidadãos e ao qual estes tenham acesso direto e poder de influência. Ora, no Brasil, dos atuais 513 deputados federais, constitucionalmente definidos como representantes dos cidadãos (os senadores são representantes dos Estados), apenas 36 foram eleitos com seus próprios votos; os demais 477 chegaram ao poder alavancados pelo chamado quociente eleitoral. Funciona assim: se um candidato a deputado recebe mais votos do que o estabelecido por esse quociente (que é a divisão entre o número de votos válidos e o número de cadeiras na Câmara dos Deputados), ele transfere os votos excedentes a outros candidatos do mesmo partido que não tenham atingido o tal quociente. Somem-se a isso os suplentes, eleitos com poucos votos, que em muitos casos passam um mandato inteiro substituindo seus titulares.

Conclusão: você se sente realmente representado por esse Congresso? Na prática, o que fazemos ao eleger um parlamentar é dar-lhe carta branca para fazer o que bem entender durante os quatro anos de seu mandato. E, como os parlamentares não têm nenhum compromisso com os cidadãos, eles simplesmente legislam em causa própria ou na de poderosos lobbies que os patrocinam. E como não temos nenhum mecanismo institucional de controle das ações de nossos supostos “representantes” – como um recall por exemplo –, a única coisa que nos resta fazer quando não concordamos com os rumos da política é sair às ruas em passeata (o que, convenhamos, não é algo fácil de se articular) – isso quando não somos reprimidos pela força policial da “democracia”.

No Brasil, os ministros do Supremo Tribunal Federal são indicados pelo Presidente da República e sabatinados apenas pro forma pelo Congresso (na prática, jamais um candidato a ministro indicado pela Presidência foi rejeitado pelo parlamento). Isso significa que o STF, órgão judiciário máximo da República, é uma corte aparelhada pelo Executivo. Nessa corte, antiguidade na função de magistrado ou mérito pessoal (aferível por meio de concurso público) nada contam: o que vale é a sintonia política com o governo.

Em nosso país, toda noite, às 19 horas, as emissoras de rádio são obrigadas a interromper sua programação e transmitir a Voz do Brasil. Todos os dias, durante uma hora, somos obrigados a ouvir os enfadonhos comunicados oficiais do Estado ou então desligar o rádio. Além disso, ao longo de quase todo o ano, as emissoras de televisão são obrigadas a dispor de dez minutos de seu tempo de programação (até um passado recente era uma hora) duas vezes por semana para transmitir propaganda partidária. Mais uma vez, ou escutamos um rosário de mentiras e de promessas demagógicas ou desligamos a TV (a menos que tenhamos TV por assinatura, é claro). E ainda tem a propaganda eleitoral obrigatória durante 60 dias a cada dois anos.

No Brasil somos todos iguais perante a lei, só que portadores de diploma de curso superior (isto é, a elite) têm direito a cela especial quando presos, e políticos com mandato, quando julgados, têm direito a foro privilegiado, um verdadeiro passaporte para a impunidade.

Se quisermos propor uma lei ao Congresso Nacional, existe o mandado de injunção, uma espécie de abaixo-assinado popular. Só que, para conseguir que a proposta de lei de iniciativa popular seja protocolada no Legislativo, são necessários um milhão de assinaturas (e assinatura digital pela internet não vale). Apesar desse milhão de assinaturas, o Congresso tem toda a liberdade para modificar, emendar, suprimir ou acrescentar trechos e mesmo rejeitar in toto (isto é, no todo) a proposta.

Para terminar, o voto no Brasil é obrigatório, enquanto na maior parte do mundo é facultativo. O Brasil faz parte de um pequeno grupo de países, quase todos ditaduras, em que o eleitor é obrigado a votar e está sujeito a punições se não o fizer, mesmo que ele considere que nenhum candidato merece seu voto.

Afinal, você, cidadão brasileiro, se sente representado, ouvido e respeitado pelo Estado? Você tem a sensação de que a sua vontade é feita por aqueles que receberam o seu voto? Em suma, será que o Brasil é de fato uma democracia?

Quem matou Domingos Montagner?

A morte do ator Domingos Montagner, o Santo da novela Velho Chico, afogado nas águas do rio São Francisco na última quinta-feira, provocou comoção geral entre os brasileiros. Muito se falou sobre as causas dessa morte trágica: teria sido resultado da imprudência do ator e de sua colega, a atriz Camila Pitanga, que com ele nadava? Da falta de sinalização para o perigo de nadar no local? Teria sido uma fatalidade, ou, para os mais místicos, a mão do destino ou, quem sabe, um desígnio divino?

Nada disso: quem matou Domingos Montagner foi a corrupção, sempre ela! Explico: o local do acidente, conhecido como Prainha, passou por uma reforma realizada pela prefeitura do município de Canindé de São Francisco há poucos meses. Um dos itens dessa reforma era a recolocação no local de placas de sinalização alertando os banhistas para os riscos oferecidos pela correnteza do rio, bem como a contratação de salva-vidas e a reinstalação de boias limitando o acesso dos visitantes à área segura. Digo recolocação e reinstalação porque essas medidas de segurança existiam antes da reforma.

Ocorreu que o Ministério Público Federal mandou suspender a obra por indícios de irregularidades (leia-se “desvio de dinheiro público”). Por determinação dos procuradores federais ou por mau entendimento por parte das autoridades locais do despacho do MPF, as medidas que garantiriam a segurança dos turistas não foram implementadas. Ou seja, a suspeita de corrupção motivou o MPF a sustar a obra, e a burocracia em que se afunda o Estado brasileiro, em que ninguém sabe a quem compete tomar essa ou aquela medida, com o consequente jogo de empurra, causou a paralisia da prefeitura em relação a providências que poderiam ter salvado a vida do ator.

Além das milhares de pessoas que morrem nas filas dos hospitais públicos à espera de atendimento e além das centenas que morrem em rodovias sem manutenção pelo poder público, em ambos os casos por falta de verba (que foi desviada), a corrupção também mata quando, por sua causa, se interrompem obras de interesse do cidadão como essas na Prainha.

O triste retrato da ciência brasileira – e o que as universidades públicas têm a ver com isso

Leio com tristeza no site da revista Piauí que a aclamada neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel jogou a toalha e, cansada de tentar tirar leite de pedra – isto é, de tentar fazer ciência num país de aborígines –, decidiu deixar o Brasil rumo a Nashville, EUA, onde tem um cargo à sua espera na prestigiada Universidade Vanderbilt.

Para quem não conhece, Suzana é uma das mais importantes neurocientistas do mundo. Nos últimos anos, publicou diversos artigos que representaram um breakthrough no conhecimento da área, como a identificação do que são feitos os cérebros das mais diversas espécies animais (inclusive a nossa), o desenvolvimento de um método mais simples de contagem dos neurônios do cérebro e a hipótese de que o advento da comida cozida teria marcado uma aceleração no desenvolvimento cerebral.

Mas talvez você conheça Suzana. Afinal, ela é também um dos maiores nomes da nossa divulgação científica. Começou com um site criado por ela mesma chamado O cérebro nosso de cada dia, que logo se transformou em livro. Além desse, publicou outros seis livros dirigidos ao grande público. Já teve quadro no Fantástico, é colunista da Folha de S. Paulo e trabalhou como divulgadora no Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz.

Segundo a própria, a decisão de deixar o emprego na UFRJ, onde é docente concursada, e se mudar de mala e cuia para os EUA, se prende à falência da pesquisa científica no Brasil. Apesar de suas influentes pesquisas e da repercussão positiva que elas geram ao país, as verbas para seu laboratório vêm minguando, a ponto de ela ter tido de lançar mão de uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo, em inglês) para custear suas investigações.

Outro motivo apontado pela pesquisadora a ter pesado em sua decisão de trocar de emprego é o engessamento da carreira docente em nossas universidades públicas (praticamente as únicas que fazem pesquisa no Brasil). Em suas palavras, “não importa o quanto um cientista produza, o quanto se esforce, quanto financiamento ou reconhecimento público traga para a universidade – o salário será sempre o mesmo dos colegas que fazem o mínimo necessário para não chamar a atenção”.

Ou seja, o grande problema da pesquisa cientifica no Brasil é que, contrariamente ao que acontece nos EUA, ela é quase toda realizada em universidades públicas, que têm uma estrutura típica de “repartições”, com todos os vícios do funcionalismo público e do estatalismo que nós cidadãos estamos fartos de conhecer: burocracia exasperante, inchaço da máquina administrativa, má gestão dos recursos, empreguismo, peleguismo sindical (que faz do serviço público o setor que mais faz greves), politicagem, aparelhamento político-partidário, desmotivação e acomodação do pessoal administrativo, baixos salários, falta de dinamismo, ausência de comunicação com a sociedade, impossibilidade de demitir os incompetentes…

Enquanto universidades do Primeiro Mundo convidam as grandes mentes para integrar seus quadros (e com isso obtêm sucessivas indicações ao prêmio Nobel), no Brasil o pesquisador, seja ele quem for, precisa se submeter a um concurso público – ou seja, não é a universidade que vai em busca de talentos, são os talentos que têm de bater à porta da universidade. E esse concurso é, muitas vezes, para inglês ver: apesar do rigor das provas (arguição de currículo e projeto de pesquisa, prova escrita, prova didática, prova prática), a banca examinadora já tem escolhido de antemão o nome do vencedor, que, por vezes, é uma figura de perfil acadêmico acanhado e desempenho medíocre, recém-formado e pouco experiente, que apenas teve a sorte de ter sido orientando do presidente da banca. Ou seja, como tudo no Brasil, a universidade pública acaba sendo uma extensão dos interesses privados daqueles que têm seu feudo ali dentro.

Em minha opinião, há uma série de medidas que as universidades brasileiras deveriam tomar para tornar-se competitivas em termos internacionais. Em primeiro lugar, a esfera administrativa dessas instituições deveria ser terceirizada, isto é, deixada a cargo de empresas privadas especializadas em gestão, o que tornaria os processos mais eficientes e reduziria a burocracia estatal. O rígido controle dos conselhos universitários sobre essas empresas garantiria, por outro lado, que a universidade pública não caísse na vala comum das instituições privadas “caça-níqueis”, para quem ensino e pesquisa são meios e o lucro é o fim.

Outra solução, embora não tão boa, seria a contratação do pessoal administrativo pelo regime da CLT, como ocorreu na USP na década de 1980, processo infelizmente revertido após alguns anos.

Quanto à remuneração dos docentes, esta deveria ser proporcional à sua produtividade. E falo em produtividade não em termos de quantidade, mas de qualidade, o que é facilmente mensurável por meio dos índices de impacto dos trabalhos publicados (existe até uma área chamada cienciometria, que trata da medição do impacto acadêmico das pesquisas). A partir de um salário-base inicial, correspondente à titulação do docente, seriam acrescidos bônus proporcionais à relevância de seu trabalho. Iniciativas como divulgação científica ao público leigo também seriam computadas. Esses bônus não seriam incorporados ao salário, de modo que o pesquisador que se acomodasse e deixasse de ter produção relevante teria redução em seus vencimentos (algo como as comissões que os vendedores recebem a cada venda efetuada).

Além disso, os docentes deveriam ser submetidos a avaliações periódicas (digamos, um concurso a cada cinco anos): aquele professor que venha demonstrando desempenho medíocre seria demitido e substituído por outro, aprovado no concurso.

Finalmente, para garantir a lisura dos concursos, a banca examinadora deveria ser composta por maioria de docentes de outras universidades (hoje, apenas dois dos cinco integrantes da banca devem ser de fora do departamento em que ocorre o concurso – e fora do departamento não significa fora da universidade!). O presidente deveria ser escolhido por sorteio, e as notas deveriam ser atribuídas aos candidatos de forma totalmente individual e secreta (hoje, os membros da banca podem confabular e assim “combinar” as notas). Por fim, todo esse processo deveria ser auditado para minimizar o risco de fraudes.

As universidades brasileiras também deveriam ter a possibilidade de convidar pesquisadores nacionais ou estrangeiros de reconhecida proeminência científica para integrar seus quadros, mediante aprovação do conselho universitário ou outra instância colegiada pertinente.

Essas medidas são apenas sugestões. O importante é que se abra o debate sobre a reforma da estrutura das universidades para torná-las mais dinâmicas e competitivas em âmbito internacional (atualmente, USP e Unicamp são praticamente as únicas instituições brasileiras a figurar no ranking das grandes universidades mundiais, mesmo assim em posições de pouco destaque). E não se trata de competir apenas com as grandes do Primeiro Mundo: até universidades chinesas, indianas e sul-africanas costumam aparecer nos rankings em posições melhores que as brasileiras.

O fato é que, se esse debate não for aberto e medidas não forem tomadas, ainda perderemos muitas outras Suzanas, como já perdemos Miguel Nicolelis e Marcelo Gleiser.