Bullying e bolinar: alguma coisa a ver?

A recente tragédia no colégio Goyases, em Goiânia, em que um adolescente de 14 anos matou a tiros dois colegas e feriu outros quatro, traz de volta não só a questão da violência nas escolas, mas também a preocupação com a prática do bullying, já que este foi o motivo alegado pelo autor para a prática do crime (desculpem, do “ato infracional”).

O termo “bullying” é de introdução recente em português. Já a prática que ele nomeia é mais velha do que o mundo. Suspeito que, desde que existe essa instituição chamada escola, a chacota e a intimidação contra os alunos mais fracos ou “diferentes” façam parte dela, como o feijão e o caruncho. Talvez antes mesmo de surgirem as instituições de ensino, já no tempo das cavernas se praticasse essa traumática e humilhante demonstração de superioridade, como a dominância que um animal exerce sobre outro montando-lhe nas costas. Enfim, o bullying parece ser um resquício de nossas raízes animais, reminiscência deixada pela evolução numa espécie que, mesmo tendo deixado a selva, jamais deixou de ser selvagem.

Mas vamos ao que interessa: desde que a palavra “bullying” passou a circular no vocabulário escolar, estudantes alegam ter sido “bolinados” ou que fulaninho é um “bolinador”. Há algo em comum entre “bullying” e o verbo “bolinar”?

A aproximação das duas palavras é uma dessas curiosas peças que a língua, em seus cegos meandros, nos prega, mais ou menos como a súbita relação que se estabeleceu em italiano entre o substantivo choc (“choque”, de origem francesa) e o verbo scioccare (“chocar”, derivado de sciocco, “bobo”) por causa da pronúncia comum – o sci do italiano tem o mesmo som do francês ch (e que é o som do nosso x de “xaxim”). Ou seja, os italianos identificam o ato de chocar com o de deixar alguém abobado, o que não deixa de fazer sentido, mesmo sendo só coincidência. Em português, o casamento de “bullying” com “bolinar” foi facilitado pela pronúncia “bulinar”, de longe a mais corrente no Brasil.

O fato é que “bolinar” é palavra bem mais antiga que “bullying” e veio da linguagem náutica. Bolinar é apontar a embarcação na direção do vento, navegar à bolina, de viés. E, segundo o dicionário Michaelis, bolina, do inglês bowline, é “cada uma de duas chapas de aço ou outras saliências longitudinais semelhantes a uma nadadeira, fixadas uma em cada lado arredondado do fundo do navio para evitar grandes balanços”.

Da navegação, “bolinar” passou ao linguajar sexual, designando, segundo o Houaiss, o ato de “apalpar ou encostar-se a uma outra pessoa com fins libidinosos, geralmente de modo furtivo”. Para o Michaelis, é “tocar em alguém com intuitos libidinosos”. Ou seja, o que muitos cafajestes fazem com as mulheres dentro de ônibus e trens lotados.

Já “bullying” vem do inglês bully, definido pelo American Heritage Dictionary como uma pessoa habitualmente cruel, especialmente com pessoas menores ou mais fracas. A etimologia do termo é obscura, sendo que o dicionário em questão a atribui possivelmente ao holandês medieval boele, “namorado/a”. Outro étimo apontado é a palavra bull, “touro”, talvez pela semelhança entre a impetuosidade desse animal e a truculência do bully.

Mas como “bolinar” assumiu conotação sexual? E o que isso tem a ver com chacota e intimidação? Segundo o etimólogo Antenor Nascentes, o sentido libidinoso de “bolinar” data de 1892: o bolinador senta-se ao lado de uma mulher, como um navio à espera de vento favorável. Mas quem sabe a explicação seja mais complexa do que isso. Perscrutar a origem de expressões populares é um dos grandes desafios da etimologia, já que documentação comprobatória na maioria dos casos não existe. No entanto, eu lançaria mão de um terceiro elemento, o verbo “bulir”, sinônimo de “mexer”, que, como este, também significa “incomodar, importunar, caçoar”. Ora, o bolinador escolar aborrece, importuna, leva à loucura suas vítimas (além desse recente caso de homicídio, há também casos de suicídio de crianças assediadas na escola); além disso, quando se dirige às meninas, em geral seu assédio envolve sexo: propostas indecorosas, obscenidades cochichadas ao ouvido, apalpadelas…

Essa convergência de sons e sentidos pode ter reunido três palavras de origens tão diversas numa única família semântica: “bullying”, “bulir” e “bolinar”. Caprichos da língua. O fato é que essa inusitada relação que se estabeleceu nos últimos tempos entre o substantivo “bullying” e o verbo “bolinar” coincide com a progressiva diminuição do emprego de “bolinar” em seu sentido anterior, sexual: por volta dos anos 1950, era comum chamar um galanteador descarado de bolina e seu ato de bolinação; hoje, essa prática se chama assédio sexual. E se, 60 anos atrás, um bolina era tido apenas como um sujeito importuno, hoje ele é um criminoso.

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O instante do momento

Por trás de toda palavra, frase ou texto há sempre um significado oculto – ou muitos. Não raro, o que queremos dizer é muito diferente, quando não exatamente o oposto, do que nossa fala diz. A riqueza maior da linguagem reside em sua capacidade de “dizer” muito mais do que é efetivamente dito. Além do discurso literal, denotativo – que Roland Barthes chamou de “grau zero” da linguagem –, temos as quase infinitas possibilidades da conotação, com suas figuras retóricas (daí falarmos em linguagem figurada).

Além disso, a escolha, nem sempre consciente, que nossos antepassados fizeram para nomear certos conceitos ou dar conta de certas situações revela muito do que eles pensavam, de como viam o mundo. E, na medida em que utilizamos essas mesmas palavras, reproduzimos essa mesma visão de mundo, ou, como se costuma dizer tecnicamente, essa mesma ideologia.

Muitas vezes, usamos certas palavras ou expressões para ser enfáticos e abusamos de metáforas, hipérboles, sinédoques, catacreses e outros recursos estilísticos. Mas quando fazemos o caminho de volta, isto é, realizamos uma leitura literal do que foi dito, acabamos nos surpreendendo.

Quando, por exemplo, queremos aludir à desmesurada concentração populacional de uma megalópole como São Paulo, dizemos que essa cidade é um verdadeiro formigueiro humano. Ora, precisamente nessa frase o formigueiro não é “verdadeiro”, mas apenas uma metáfora. Não é curioso que se enfatize (até mesmo acentuando a entonação) o mais denotativo de todos vocábulos num contexto em que ele é totalmente conotativo?

E quando aquele conhecido a quem você deve inúmeros favores pergunta se você não poderia lhe emprestar algum dinheiro? É possível que você responda, por exemplo, “lógico!” ou “naturalmente!”. Mas o que há de lógico ou natural em fazer algo que não queremos? Na verdade, nada.

Prestar favores não é um instinto natural, é uma norma cultural. A lógica que há nisso – se é que há alguma – é que a manutenção dos liames sociais se baseia em grande parte na reciprocidade. Como nosso instinto animal é muito mais competitivo do que solidário, o altruísmo é uma mutação de nossa natureza. Diante de um pedido que não gostaríamos de atender, o lógico e natural é responder “não”.

Mas a língua tem muitos outros aspectos aparentemente contraditórios. Por exemplo, se perguntamos por alguém e recebemos como resposta que ele, “com certeza”, saiu, é porque quem nos responde não tem realmente certeza do paradeiro da pessoa indagada.

E as palavras que denominam as menores frações de tempo? “Momento” vem do latim momentum, “movimento”, e refere-se ao balanço do pêndulo dos relógios. Tanto que a física chama esse movimento pendular de “momento angular”. Cada ida ou vinda do pêndulo é um “momento”.

Ou seja, um “momento” não era, na sua origem, o mesmo que um tempo infinitesimal, mas uma duração suficiente para que algo se movesse de forma perceptível aos olhos. Já “instante” (do latim instans) significa “insistente, que perdura”. Não é paradoxal que o instante seja justamente o intervalo de tempo mais fugaz que existe?

Aquela história de que em português “pois sim” significa “não” e “pois não” significa “sim” já virou até piada. Mas quando comparamos o modo como dizemos as coisas em português com a maneira como as outras línguas expressam os mesmos conceitos, descobrimos fatos interessantes.

Em inglês, por exemplo, “ganhar dinheiro” se diz make money, literalmente “fazer dinheiro”, o que dá a ideia de produção, trabalho, geração de riqueza. Já a nossa expressão “ganhar dinheiro” remete à ideia de presente, prêmio, lucro fácil, pois ganhar é sempre de graça, sem dar nada em troca. Será por isso que os países de língua inglesa são mais ricos e desenvolvidos que os de língua portuguesa?

Uma última: “canhão” em francês é canon. E na França canon significa também “mulher bonita, mulherão” (daquelas de parar o trânsito). Já no Brasil, como se sabe, “canhão” é mulher feia. Pela escolha do termo, parece que ambas matam: uma, de prazer; a outra, de desespero.

A origem da palavra “feriado”

Eis que chega mais um feriadão prolongado, e as pessoas já se preparam para viajar e curtir um pouco a vida fora das grandes cidades, em seus refúgios na praia ou no campo. Mas por que existem feriados? Se hoje a principal função dessas datas em que não se trabalha é descansar, de preferência em algum lugar agradável longe de casa, o sentido primeiro do feriado – e consequentemente da palavra – era o de dia santo, em que o trabalho era suspenso para que os fiéis pudessem ir à igreja venerar o santo do dia. “Feriado” deriva de “féria”, que, além de sua acepção mais conhecida de ganho diário dos taxistas e outros trabalhadores diaristas, também significa “dia de semana” (daí as denominações “segunda-feira”, “terça-feira”, etc., em que “feira”, na verdade, quer dizer “féria”, isto é, dia útil) e “dia santificado”, portanto dia de descanso.

Logo, o feriado é, em princípio, um dia consagrado às obrigações religiosas, em que, à maneira do sábado (Shabbat, dia de descanso e orações dos judeus) e do domingo (dominicus, dia do Dominus, “o Senhor”), cessa todo o trabalho e os corações e mentes se voltam ao sagrado.

Sendo o feriado um dia de descanso, as férias nada mais são do que uma sequência de feriados: embora a palavra “férias” seja pluralícia, isto é, só se empregue no plural, não deixa de ser o plural de “féria”, assim como o inglês holidays, “férias”, é plural de holiday, “feriado”.

Mas de onde vem a palavra “féria”, que deu tantos derivados? A resposta está no latim feria, mais comum no plural feriae, “repouso em honra dos deuses”. Essa palavra está etimologicamente ligada a outras como festum, “festa” (em geral em louvor aos deuses)”, festus, “festivo”, fas, “justiça divina”, nefas, “violação da lei divina, pecado”, e nefastus, “nefasto, pecaminoso”. Aliás, a própria palavra “feira” vem do latim feria, já que nas festas populares era comum a montagem de barracas onde se vendiam comes e bebes. Daí, “feira” passou a ser sinônimo de comércio, especialmente ao ar livre, como são as feiras livres no Brasil, mas também em grandes centros de exposições (por exemplo, feira de informática, feirão de automóveis, etc.).

A relação de todas essas palavras com a ideia de divindade se encontra em sua ancestral, a raiz indo-europeia *dhēs‑ (para quem não sabe, o indo-europeu, falado no Cáucaso cerca de 6 mil anos atrás, é a língua-mãe, dentre outros, do latim e do grego, e o asterisco antes da raiz indica que se trata de forma não documentada, mas reconstruída pelos linguistas). Essa raiz, que queria dizer “sagrado”, é também a fonte do grego theós, “deus”, que nos deu as palavras “teologia” e “ateu”, dentre outras.

Portanto, “feira”, “féria”, “férias”, “feriado”, festa”, têm todas uma conotação de sagrado (embora esse fato seja ignorado pela maioria dos falantes). Tanto é assim que boa parte dos feriados são datas comemorativas da Igreja Católica, como o dia de Nossa Senhora Aparecida, comemorado amanhã, embora também haja os feriados cívicos (Independência, República, Tiradentes, fundação das cidades, etc.).

Então, pessoal, partiu comemorar o feriado, mas com prudência nas estradas e moderação na comida e bebida, para que a festa não se transforme num dia nefasto. E até a volta!

A crase: um problema cognitivo?

Existem dois tipos de pessoas: as que sabem usar a crase e as que não sabem. Questão de educação, dirão muitos. Mas o incrível é que muitas pessoas que não sabem distinguir quando o “a” leva crase ou não (ou, como querem os gramáticos puristas, leva acento grave indicativo de crase) são tão escolarizadas quanto as que sabem. Ora, a questão da crase não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu diria que, com umas poucas aulas de treino e aprendizado, qualquer um pode dominar a regra. No entanto, há pessoas que, por mais que tenham sido ensinadas sobre preposições e artigos, por mais que tenham memorizado regrinhas, como a da substituição da preposição “a” por “para” ou “até”, ou a da substituição da palavra feminina pela masculina correspondente, são simplesmente incapazes de aplicar o sinalzinho gráfico corretamente. Tanto que até um deputado, de nome João Hermann, certa vez sugeriu a abolição por decreto do malsinado acento – o que indica que ele, provavelmente, faz parte da legião dos que se embaraçam com a crase.

Às vezes chego a pensar que a crase é um divisor de águas – e de mentes – entre as pessoas: é como se aquelas que têm facilidade em usar o sinal tivessem um intelecto superior, isto é, fossem dotadas de uma capacidade cognitiva que as demais simplesmente não têm.

O fato é que, por mais que se aprendam regrinhas, elas não dão conta de todos os casos. Em “seguir à risca”, o “a” é craseado porque “à” pode ser substituído por “para a”, “até a”, etc.? Ou porque podemos substituir “à risca” por “ao risco”? Nada disso. Será porque é locução adverbial? Então por que “a sangue frio” não tem crase? Sobretudo, regrinhas como estas funcionam se a pessoa sabe que ali, naquele ponto da frase, existe uma preposição e o que está em jogo é saber se existe também o artigo. Só que muitas pessoas sequer sabem quando há ou não preposição (e por isso dizem “isso é devido o fato…”).

Ora, nada substitui o conhecimento da gramática do idioma, a compreensão do que seja a contração de uma preposição “a” e de um artigo feminino “a” – o que implica saber quando se usa tal preposição e tal artigo. E isso a escola básica sempre ensinou, desde os tempos em que o ensino tinha qualidade no Brasil. E desde aquela época, já havia dois tipos de pessoas: as que acertam e as que erram a crase.

Fica aos neurocientistas o convite para que investiguem o caso.

Jacaré fêmeo e cobra macha

Em 2013, quando eu mantinha um blog no portal da extinta revista Língua Portuguesa, o leitor Jota Paschoal me enviou a seguinte pergunta: “Se o adjetivo segue o gênero do substantivo (menina bonita, rapaz malvado), então é correto dizermos ‘jacaré fêmeo’ e ‘cobra macha’?”. Como outro leitor, Patrick Medeiros, me pede agora para republicar a resposta, aqui vai.

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Como na canção Macha, Fêmeo, de Arnaldo Antunes, os adjetivos “macho” e “fêmeo” admitem flexão de gênero e número. No dicionário Houaiss, “macho” é definido como “relativo ou próprio do sexo masculino”, e “fêmeo” (assim mesmo, no masculino, como costuma ser a entrada de todos os adjetivos no dicionário) define-se como “relativo a fêmea ou a mulher” e também “diz-se de qualquer objeto que se ajusta a outro, que nele penetra (o macho)” e exemplifica com “tomada fêmea” (mas poderíamos ter também “plugue fêmeo”).

A estranheza se dá pela confusão que por vezes se faz entre gênero gramatical e sexo biológico. É o caso do adjetivo “grávido”, que parece incoerente com o fato de que somente fêmeas engravidam. No entanto, nesse caso é possível pensar em machos grávidos (por exemplo, o cavalo-marinho é uma espécie de peixe em que é o macho quem gesta as ovas) ou empregar o termo em sentido metafórico: muitos maridos se dizem grávidos enquanto suas esposas é que esperam o bebê. Há até uma peça teatral em cartaz atualmente com esse título. Grávido também é o nome de uma canção que Gonzaguinha compôs durante a gestação de sua mulher.

Mas voltando à questão levantada pelo amigo Jota Paschoal, por que dizemos “jacaré-fêmea” e “cobra-macho”? Como se sabe, os nomes de alguns animais são substantivos epicenos ou comuns de dois gêneros (embora algumas pessoas erradamente façam o feminino de “jacaré” como “jacaroa”), o que torna necessário lançar mão de um expediente morfológico para distinguir os gêneros. Esse expediente consiste em formar uma palavra composta com os substantivos “macho” e “fêmea”. E aí está a explicação de por que não se diz “jacaré fêmeo” ou “cobra macha”: é que “macho” e “fêmea” neste caso são substantivos e não adjetivos. É por isso também que tais palavras se escrevem com hífen.

Ou seja, “jacaré-fêmea” é a fêmea do jacaré; “cobra-macho” é o macho da cobra, e assim por diante. Entretanto, não está errado dizer “este jacaré é fêmeo” ou “esta cobra é macha”. Só que, dado o conflito entre gênero e sexo acima mencionado, prefere-se dizer “este jacaré é (uma) fêmea” e “esta cobra é (um) macho”. Em outras palavras, prefere-se empregar o substantivo no lugar do adjetivo. Isso se aplica até a “mulher-macho”, como na canção eternizada por Luiz Gonzaga.

No labirinto da linguagem

A linguagem permitiu ao homem a consciência, a memória e a imaginação, mas também deu origem às neuroses

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, dividiu as patologias mentais em dois grupos: as psicoses, de origem orgânica, distorcem o senso de realidade a ponto de levar o paciente a ser classificado como louco; e as neuroses, de natureza emocional, causam transtornos e infelicidade, mas não afetam a percepção da realidade. Segundo Freud, o que causa uma neurose não é o fato em si, mas o modo como o concebemos, a representação mental que fazemos da realidade.

Se a neurose tem a ver com representação simbólica e significação, pode-se dizer que é uma doença decorrente de sermos dotados de linguagem. O que produz o sofrimento emocional é o diálogo interior em que o eu se divide em dois e um deles “envenena” o outro com afirmações e perguntas que geram medo e insegurança.

Objetivamente falando, não há fatos bons ou maus: há fatos. Por isso, alguns, após uma tragédia, caem em desespero; outros “levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima”. Por isso, há pobres e anônimos felizes ao mesmo tempo que celebridades milionárias se afundam no álcool e nas drogas para fugir da realidade. Isso reforça a ideia, surpreendente para muitos, de que não vivemos no mundo real, mas numa realidade virtual criada por nossos próprios símbolos.

Sem dúvida, a linguagem trouxe vantagens ao homem. Afinal, permite a consciência, a memória e a imaginação. E é por isso que produz neuroses: recém-nascidos ou animais não criam as próprias neuroses, podem no máximo ser induzidos a elas.

Um animal confinado ou privado de sono pode desenvolver comportamentos neuróticos (automutilação, atos repetitivos, etc.), mas só o homem é capaz de sentir medo dos próprios pensamentos. Isso não quer dizer que animais não pensem. Eles fazem representações mentais, planejam, sonham, imaginam… Mas sua atividade psíquica, segundo mostram pesquisas científicas, está focada no aqui e agora. Ante ameaças, antecipam mentalmente ações que ainda não realizaram (atacar, fugir, etc.), tomam decisões (por qual lado ir) e aprendem com a experiência, o que equivale a arquivar informações e esquemas cognitivos no cérebro sob a forma de representações simbólicas. Mas é pouco provável que criem mentalmente situações que não existem – os animais não são bons ficcionistas. Menos provável ainda é que acreditem naquilo que imaginaram, confundindo realidade objetiva com representação simbólica. Pois é isso que faz um neurótico.

Embora estejamos falando de uma patologia, no âmbito da saúde mental o limite entre normalidade e distúrbio não é questão de presença ou ausência de sintomas, mas de gradação. Todo mundo tem momentos de melancolia; o que caracteriza a depressão é a frequência e intensidade desse estado de espírito.

O desenvolvimento da linguagem nos permitiu um salto evolutivo em relação às demais espécies porque tornou possível o “pensamento desconectado”. O termo, criado por neurocientistas, indica a capacidade de concebermos mentalmente situações passadas, futuras ou hipotéticas, por mais fantasiosas ou absurdas que sejam – em resumo, desconectadas da realidade efetiva, do aqui e agora.

É o que nos permite fazer abstrações e aplicar a novas situações um esquema abstrato deduzido de outras situações análogas, anteriormente experimentadas. Esse pensamento é chamado What-If Thought (pensamento “e-se…?”). Diante de uma ocorrência qualquer, somos capazes de formular perguntas e hipóteses do tipo: “O que aconteceria se…?”, “E se eu fizesse isso em vez daquilo?”.

Essa habilidade de visualizar prospectivamente o desenrolar de uma situação é o que nos permite criar de projetos de engenharia a romances policiais. Mas, na neurose, o pensamento desconectado formula cenários um pouco diferentes, algo como: “Será que isso vai acontecer? E se acontecer?”. Combinado a uma baixa autoestima, que leva o indivíduo a crer no pior, esse padrão de pensamento supervaloriza a exceção, num misto de fatalismo e pessimismo.

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Código artificial

Portanto, há uma distância entre as coisas em si e o significado que damos a elas. Até porque as coisas em si não têm significado; a ideia de que algo significa (isto é, representa, substitui) algo só é concebível por uma cabeça pensante. Só seres complexos como nós são capazes de perceber e, a seguir, conceber o mundo (pedras não veem nem ouvem, muito menos criam representações da realidade). Se nossa percepção já é falha, dadas as limitações da biologia, nossas concepções são ainda piores, já que resultam não só do uso de um sistema de símbolos criados por nós mesmos, mas da interferência de nossas experiências e vivências, o que inclui os valores culturais introjetados em nossa formação sem que tenhamos consciência.

Como diria Platão, vivemos no interior de uma caverna e tudo o que vemos são vultos da realidade exterior projetados na parede. A diferença é que, para ele, habitamos o mundo das coisas, mas a Verdade está no mundo das ideias, ao qual só se chega pelo pensamento. Já para a ciência moderna, vivemos no mundo das ideias – isto é, de signos, linguagem –, e a verdade, inatingível em si, está nas coisas. O que gera a neurose, a alucinação, a loucura, é a crença de que os signos são as coisas.

Afinal, qual é o nome correto da rua da cracolândia?

As recentes ações da Prefeitura de São Paulo na famigerada cracolândia da Rua Helvetia colocaram essa antes pacata via do centro da cidade no noticiário e, de quebra, suscitaram a questão: afinal, como é que se pronuncia “Helvetia”?

Antes de mais nada, vamos esclarecer o que vem a ser a tal Helvetia, que dá nome à rua. O nome Helvetia vem do latim (em português é “Helvécia”) e designa uma região do antigo Império Romano que corresponde aproximadamente à parte ocidental da atual Suíça. Por essa razão mesma, essa república europeia tem como nome oficial “Confederação Helvética”.

A Helvetia ou Helvécia, situada na região entre os Alpes suíços e a cordilheira do Jura era assim chamada por ser habitada pela tribo celta dos helvécios (Helvetii). Até aproximadamente o século I d.C., esse nome se pronunciava em latim exatamente como se escrevia. No entanto, como as línguas evoluem, aos poucos o t seguido de i semivocálico começou a ser pronunciado pelos romanos como “ts”, e o nome Helvetia passou a soar “Helvétsia”, pronúncia que ainda se mantém no italiano hoje em dia. Como todo ti latino com som de “tsi” é grafado e pronunciado em português como “ci”, Helvetia acabou aportuguesado para “Helvécia”. De todo modo, é costume nos países de língua portuguesa pronunciar o ti dos nomes latinos como “ci” mesmo quando a grafia é mantida em latim.

Sem título

Portanto, a Rua Helvetia deve ser chamada de “Helvécia”, mesmo a grafia estando em latim. O problema é que os próprios moradores da rua, especialmente os mais jovens – aí incluídos os frequentadores da cracolândia – desconhecem a origem latina do nome (temo que desconheçam até o seu significado) e o pronunciam conforme o leem na placa de rua. Para complicar, a própria placa traz a incorreta grafia “Helvétia”, com um acento agudo que jamais existiu em latim. Talvez fosse uma boa providência que a Prefeitura alterasse a grafia das placas para o aportuguesado “Helvécia”: isso romperia com uma tradição secular, já que essa denominação remonta a princípios do século passado e a Achilles Isella, empresário suíço que ali tinha seu estabelecimento comercial chamado Casa Helvetia, mas, sem dúvida, facilitaria a pronúncia pelas pessoas que desconhecem latim e a história da rua.

É claro que mais urgente do que mexer nas placas é mexer na cracolândia, tarefa que desafia prefeito após prefeito.

Ética e moral são a mesma coisa?

Nesta semana, respondo à pergunta de um assíduo leitor desta coluna. Edilson Zafira de Sousa, de São Paulo, questiona:

Qual é a etimologia de ética e de moral? São sinônimas?

“A ética está ligada à filosofia. A moral está ligada à religião.” Está correta essa definição?

Embora no linguajar corrente ambos os termos sejam utilizados como sinônimos – e a razão disso explico mais abaixo –, eles têm diferentes significados. “Moral” deriva do latim mores, “usos, costumes”, e corresponde ao conjunto das práticas toleradas e mesmo recomendadas por uma sociedade a seus membros – os chamados “bons costumes”. Portanto, moral é algo aceito como normal pela coletividade, seja um povo inteiro ou uma comunidade restrita (as Forças Armadas, a Igreja Católica, um determinado colégio).

A moral é fruto de uma convenção social e, por isso mesmo, muda com o passar do tempo e de uma sociedade para outra. Muitas práticas comuns hoje em dia, como usar biquíni na praia, já foram noutros tempos consideradas imorais. O topless ainda é visto como atentado ao pudor pela maioria dos brasileiros, mas em lugares como Ibiza (Espanha) e Saint-Tropez (França) é prática normal e corrente.

Como se pode ver, a moral é relativa e está intimamente ligada à cultura, embora, para os membros da comunidade que a adotam, tenha valor de verdade indiscutível.

A ética, por outro lado, é a especulação filosófica a respeito da moral e dos costumes. Derivada do grego éthos, “modo, jeito de ser, costume”, a ética busca valores universais, como o bem comum. Para Sócrates, o segredo do bem viver é viver com sabedoria, algo que só se atinge pelo autoconhecimento. Já Aristóteles, em sua Ética a Nicômano, afirma que somos o produto de nossas escolhas. Cada um tem a liberdade de fazer o que quiser, mas, se todos fizerem isso, a convivência social se torna impossível. Portanto, a reflexão filosófica visa responder à pergunta: o que posso ou não posso, devo ou não devo fazer se quiser viver em paz comigo mesmo e com os outros? A resposta parece ser a chamada Regra de Prata: “não faça aos outros o que não quer que os outros lhe façam”. E que pode ser complementada pela Regra de Ouro, ensinada por Jesus: “faça aos outros o que quer que os outros lhe façam”. Ou, simplesmente, “amai-vos uns aos outros”. Sendo uma reflexão filosófica, guiada pois pela razão, a ética pode até mesmo confrontar regras morais vigentes por considerá-las ultrapassadas ou injustas. A ética reflete sobre o bem comum, o bem da coletividade, ao passo que a moral disciplina o comportamento individual.

Mas, se, na teoria, ética e moral são coisas diferentes (a ética seria o estudo filosófico da moral), na prática elas se confundem, pois é comum usarmos o nome de uma ciência para designar o próprio objeto dessa ciência. É assim que “economia” é tanto o conjunto dos bens e recursos de uma sociedade quanto a ciência que estuda a circulação desses bens e recursos; “história” é tanto o conjunto dos fatos passados de uma sociedade quanto a disciplina que estuda esses fatos.

Portanto, é possível falar em moral católica ou em ética empresarial como códigos de conduta a ser seguidos. Na verdade, a sociedade ocidental, que por séculos viveu dominada pela ideologia religiosa, ainda atrela, mesmo que inconscientemente, a moral secular aos preceitos do Cristianismo, por sua vez herdados do Judaísmo. É nesse sentido que muitos setores da nossa sociedade veem como imoralidade a nudez em público ou o homossexualismo.

É preciso lembrar, no entanto, que nem tudo que é ético é estritamente moral, assim como nem tudo o que é legal é moral ou ético. Furar fila não é ilegal, mas não é moral, pois contraria os ensinamentos que todos deveríamos trazer do berço, nem tampouco é ético, já que ninguém gosta de ter seu direito violado. Mentir é geralmente visto como atitude reprovável, logo imoral, mas, e se mentimos para salvar uma vida? Não seria algo perfeitamente ético e mesmo louvável?

Portanto, ética e moral não têm necessariamente a ver com fé religiosa, embora na maioria das sociedades ainda seja a religião a principal referência do bom comportamento. Sobretudo a ética busca o justo, o que garanta a harmonia social.

Nesses nossos tempos em que a ética parece andar tão distante da política, em que basta que um gesto não seja ilegal para que seja considerado moral, recordar o significado dessas duas palavras pode ser de algum proveito.

A distância entre língua e dialeto

Uma das distinções mais nebulosas da linguística continua criando polêmica entre os curiosos

O Brasil, frequentemente se diz, é um país de sorte porque, apesar das dimensões continentais, aqui não há dialetos – todos falamos a mesma língua. Também é comum ouvir que as línguas europeias têm muitos dialetos ou que na África as línguas oficiais (dos colonizadores) convivem com dialetos nativos. O que é, então, língua e dialeto?

Para o linguista Max Weinreich, “língua é um dialeto com um exército e uma marinha”. Não está longe da verdade. Afinal, a tradicional distinção entre língua e dialeto está fundada em critérios mais políticos do que linguísticos.

Língua é um sistema de comunicação formado de sons vocais (fonemas), que se agrupam para formar unidades dotadas de significado (morfemas), que se agrupam para formar palavras, que se agrupam (ih, ficou monótono!) para formar frases, que se agrupam para formar textos.

Do ponto de vista estritamente linguístico não há nada que distinga língua de dialeto. Ambos os sistemas têm léxico (um inventário de palavras) e gramática (conjunto de regras de como as palavras se combinam para formar frases, parágrafos e textos). Quem fala um idioma nacional e um dialeto regional é tão bilíngue quanto quem fala dois idiomas. Então por que alguns sistemas são chamados de idiomas e outros, não?

Dialeto vem do grego diálektos, composto de diá, “através”, e léktos, “fala”. Seria, segundo alguns, uma espécie de fala “atravessada”, um linguajar defeituoso, não conforme às normas do falar estabelecidas pelos gramáticos. A primeira definição de dialeto (que, por sinal, teria inspirado as posteriores) baseava-se numa visão preconceituosa que a elite ateniense do período clássico tinha em relação à fala tanto das camadas populares quanto dos estrangeiros (não-atenienses, inclusive gregos de cidades vizinhas).

Hoje, costuma-se chamar de dialeto qualquer expressão linguística que não seja reconhecida como língua oficial de um país. Assim, um dialeto pode ser tanto uma variedade linguística regional do idioma oficial quanto uma língua sem qualquer parentesco com ele.

O occitano (ou provençal) e o bretão, falados na França, são tidos como dialetos. O primeiro é uma língua românica aparentada ao francês, que já produziu uma esplêndida literatura séculos atrás. Já o bretão é uma língua pertencente à família celta, sem parentesco direto com o francês. Hoje, ambas são usadas, em escala regional e paralelamente ao francês, na conversação diária e na comunicação de massa.

Em geral, o que faz uma língua ser considerada dialeto e não idioma é a ausência de literatura ou de tradição literária, o seu não reconhecimento pelo Estado ou mesmo a sua falta de prestígio. Alguns dialetos reúnem essas três condições, mas basta que uma esteja presente para que um falar regional veja irem por água abaixo suas aspirações de ser língua.

Em relação à presença de literatura, é preciso lembrar que algumas línguas ágrafas, como as nativas da África e da América, têm rica literatura oral, transmitida por gerações em séculos. Mas, para as línguas europeias, ciosas de sua tradição escrita, elas não possuem literatura simplesmente por não produzirem livros.

Critérios

O reconhecimento de uma variedade linguística como língua é uma questão meramente política. O catalão foi reconhecido pela Espanha como língua oficial, ao lado do castelhano, galego e basco, depois de ter sido violentamente reprimido pela ditadura franquista. Em Barcelona, é possível comprar edições bilíngues de diários como El Periódico de Catalunya, em catalão e espanhol, cem páginas cada. Sua língua-irmã, o occitano, não é reconhecida pelo governo francês, que teme uma onda de separatismo, já que o reconhecimento de uma língua é o primeiro passo para a afirmação de nacionalidade.

A questão mais delicada é a que diz respeito ao “prestígio” de uma variedade. Alguns falares, mesmo próximos da língua-padrão, são estigmatizados por motivos históricos ou sociais. No Brasil, que busca lugar no olimpo do Primeiro Mundo, tudo o que lembre o passado rural é alvo de desprezo. Daí o preconceito contra o dialeto caipira e o nordestino, eleitos como ícones do atraso cultural.

Na tentativa de estabelecer uma distinção entre língua e dialeto que não se apoiasse em fatores políticos ou sociológicos, alguns buscaram critérios relacionados aos aspectos comunicacionais. O linguista romeno Eugenio Coseriu propôs o chamado critério da intercompreensão, segundo o qual dois falares podem ser considerados dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes.

Esse critério não é muito bom, porque se apoia num dado subjetivo: o grau de intercompreensão entre falantes. Falantes do português e do espanhol podem entender-se relativamente, portanto seriam dialetos, segundo Coseriu. Já o português e o francês seriam línguas distintas, de acordo com o mesmo critério. Mas e o italiano em relação ao português?

Irmãos separados

Como os falares vão diferindo pouco a pouco à medida que nos deslocamos num dado território, é natural que a comunicação entre moradores de duas aldeias vizinhas seja total, ao passo que o diálogo entre habitantes de cidades distantes milhares de quilômetros é quase impossível.

Além disso, esse critério era válido enquanto a escolarização e os meios de comunicação não uniformizaram a linguagem nos territórios nacionais. Na Idade Média, quem viajasse de Paris a Florença percebia a lenta mudança que os falares sofriam no caminho, sem ruptura ou descontinuidade. Hoje, o francês de Paris e o italiano de Florença, idiomas oficiais da França e da Itália, convivem na fronteira entre esses dois países.

Estima-se que nos próximos cem anos 90% das línguas desaparecerão, a maioria por não ter o status de idiomas nacionais, sendo em muitos casos línguas ágrafas, de comunidades tribais. A causa dessa extinção em massa de línguas é a pressão dos idiomas de cultura, seja o idioma nacional do país, seja o inglês como língua global. Nas comunidades tribais da África e da América, o imperialismo linguístico-cultural branco tem mais um forte aliado: os pregadores religiosos de seitas cristãs fundamentalistas, que combatem não só as crenças mas também as línguas dos nativos como “coisa do diabo”. Ou seja, hoje em dia língua também é um dialeto com um missionário.

Palavra da semana: raivosidade

Na semana que passou, a língua portuguesa viu surgir uma nova palavra. É que, quarta-feira passada, o presidente Michel Temer disse em discurso que é preciso pacificar o país, já que os brasileiros vivem ultimamente um clima de certa “raivosidade”. Com certeza, o Presidente estava referindo-se à atmosfera de raiva (eu diria melhor, de ódio) que divide o nosso povo em petistas e antipetistas. E pediu licença para empregar o termo, já que ele próprio deve ter a consciência de que esse vocábulo não está dicionarizado.

Até aí, nenhum problema. Afinal, usamos todos os dias palavras que ainda não chegaram ao “estado de dicionário”, como diria Drummond. O problema é que parte da imprensa, fazendo coro aos defensores do purismo em questões de língua, se insurgiu contra o inusitado neologismo. Muitos disseram categoricamente que essa palavra não existe. Para estes, uma palavra só existe quando consta nos dicionários, esquecendo-se de que o dicionário é uma fotografia do passado: a língua do dia a dia, tanto a oral quanto a escrita, está sempre inovando, e somente algum tempo depois que o uso de determinado termo se generaliza é que os dicionários vão lavrar sua certidão de nascimento. Logo, dicionários e gramáticas são sempre mais conservadores que a língua viva.

Se fôssemos obrigados a utilizar somente as palavras de que já dispomos, a língua não evoluiria. Consequentemente, o léxico da língua portuguesa ainda seria o mesmo do século XII, época dos primeiros registros escritos da última flor do Lácio, inculta e bela.

Foram até veiculadas na imprensa sugestões de como o Presidente deveria ter-se expressado. Um professor de português assinalou que Temer poderia ter simplesmente empregado “raiva” em lugar de “raivosidade”, visto que esta última forma é um substantivo abstrato que indica qualidade de raivoso; e que raivoso é aquele que sente raiva. Portanto, raiva e raivosidade seriam sinônimos; logo, por que inventar uma palavra se já temos outra de mesmo significado?

Outro professor de português (é interessante como certos professores de português se sentem os guardiões da pureza do vernáculo) argumentou que existe na língua a palavra “nervosidade” e que, portanto, o Presidente poderia ter optado por falar em combater a nervosidade que divide o povo brasileiro.

Quanto a “nervosidade”, além de ser palavra de raríssimo uso, desconhecida pois da maioria dos falantes (talvez não do Sr. Michel Temer, homem de alta e vasta cultura), é substantivo abstrato que designa o estado de quem é ou está nervoso. Seria, então, equivalente ao bem mais difundido “nervosismo”.

Só que o sentimento que permeia os cidadãos envolvidos nesse Fla-Flu político não é de nervoso, é de raiva mesmo, de ódio sanguinolento. Partidários e detratores do PT e demais partidos de esquerda estão verdadeiramente raivosos uns com os outros. Raivosos não de raiva, sentimento humano de desapreço menos intenso que o ódio, mas da raiva canina, que faz espumar a boca ao ouvir ou ler qualquer referência ao inimigo.

Nesse sentido, “raivosidade” tem conotações que nem “raiva” nem “nervosidade” ou “nervosismo” expressam. Do contrário, por que nosso Presidente, erudito que é, faria uso de um termo heterodoxo se, supostamente, dispunha de vários outros já canônicos?

Aí está uma das grandes qualidades da língua, o poder de se reinventar, isto é, de criar novos recursos na medida da necessidade de expressar novas ideias, novos sentimentos, novos insights. Assim se deu com o “imexível” do então ministro do governo Collor, Antônio Rogério Magri, que é diferente do “inalterável”, “insubstituível”, “inamovível”, etc., dos dicionários. Assim se deu com o “indeletável” de José Alencar, vice-presidente do primeiro mandato de Lula, que é totalmente distinto do dicionarizado “indelével”. Assim se deu com o “inconvivível” de Fernando Henrique. Assim se deu e se dá com todas as novas palavras, às quais os puristas torcem o nariz, mas que, mais cedo ou mais tarde, acabam usando.

E por que essas palavras “bárbaras”, “ameaçadoras da integridade do idioma”, acabam se consolidando no uso cotidiano, inclusive no uso culto da língua? É justamente porque elas exprimem conceitos e nuances semânticas que nenhuma palavra já registrada consegue exprimir. É porque elas representam o frescor da língua, o doce perfume da manhã contra o cheiro de mofo das velhas e batidas expressões. É, finalmente, porque a língua muda o tempo todo, ainda que sob os protestos de certos professores de português, jornalistas e leitores conservadores. E é por mudar o tempo todo que a língua continua sendo o melhor sistema de comunicação de que dispomos.