As enganosas palavras do grego moderno

O grego moderno é bem diferente do antigo, mas muitas palavras continuam as mesmas. Por isso, é comum reconhecermos em manchetes de jornais gregos (isto é, supondo que saibamos transliterar do alfabeto helênico para o nosso, latino) palavras que já conhecemos. O problema é que essas palavras em geral têm significado diferente daquele a que estamos habituados. Por exemplo, Demokratía Hellás, que é o nome oficial do Estado grego, não significa “Democracia Grega”, mas “República Grega”. Em frente ao Parlamento, em Atenas, há uma praça que ficou famosa pelas manifestações contra o pacote de ajuste fiscal imposto pela União Europeia para salvar a Grécia da falência em 2015. É a Praça Sýntagma, ou Praça da Constituição. Só que para nós sintagma é uma figura de gramática. Aliás, a metáfora, outra figura presente em nossas gramáticas, aparece com frequência em caminhões-baú na Grécia. É que metaphorá quer dizer mudança.

Voltando a falar naquela crise financeira grega, quando o FMI e a União Europeia aprovaram o empréstimo bilionário ao governo grego, os partidos políticos tiveram de selar um acordo para a aprovação de duras medidas de austeridade. No dia seguinte, os jornais gregos estamparam a manchete “Acordo!”, que em grego é Symphonía!.

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Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será?

Uma pesquisa recentemente publicada na revista científica PLOS One revela que pessoas que se sentem incomodadas com os erros gramaticais alheios e, mais ainda, tendem a corrigi-los, têm personalidade menos agradável e mais julgadora – ou seja, são chatas!

O estudo mostrou também que a personalidade pode determinar como ela reage aos erros de gramática dos outros, inclusive àqueles que pululam nas redes sociais.

Julie Boland e Robin Queen, ambas da Universidade de Michigan, fizeram experimentos com 83 participantes para saber como se comportavam diante de e-mails escritos. Algumas dessas mensagens propositalmente continham erros de digitação ou de gramática.

Os participantes deveriam julgar os autores dos e-mails do ponto de vista de sua suposta inteligência – ou falta dela. Além disso, tinham de comentar os erros das mensagens e dizer se causaram incômodo durante a leitura.

Por fim, foram submetidos a um teste de personalidade que mede traços como simpatia, grau de extroversão e até mesmo neuroticidade.

A maioria dos participantes classificou de modo mais negativo os autores de e-mails com erros. E os mais introvertidos foram mais severos em relação a tais erros do que as pessoas mais abertas e extrovertidas.

Em linhas gerais, a pesquisa conclui que as pessoas mais “fechadas” são mais sensíveis a erros, sejam de digitação ou gramaticais, e que as mais rigorosas em relação à gramática são também as mais desagradáveis no trato social.

Bem, se esse estudo estiver correto, eu devo ser um chato de galochas, afinal sou muito rigoroso com erros de escrita em geral, ou porque revelam falta de cuidado e esmero (no caso dos erros de digitação) ou falta de cultura (no caso dos erros gramaticais). Não que eu saia por aí corrigindo meus interlocutores, pois isso seria falta de educação: quem fala ou escreve errado (isto é, fora do padrão culto) o faz certamente porque não teve oportunidade de estudar. Mas o fato é que fui por um bom tempo professor de português, e, como vocês sabem, o hábito do cachimbo deixa a boca torta. Mais do que isso, como amante das letras e das línguas, fico incomodado não tanto pelos erros em si quanto pela quantidade deles. Se o modo como as pessoas escrevem a própria língua é um termômetro da saúde cultural de um povo, posso afirmar sem erro que o Brasil está na UTI.

A origem da palavra “trabalho”

Hoje, Dia do Trabalho, o assunto não podia ser outro se não ele mesmo, o trabalho – ou melhor, a palavra trabalho. Se hoje se acredita que o trabalho dignifica o homem (isto é, o ser humano, o que inclui evidentemente as mulheres), a origem da palavra não é tão digna assim. Afinal, durante muito tempo, a ideia de trabalho esteve ligada às classes mais baixas da sociedade, ou seja, escravos, servos e operários. Tanto que trabalho se origina do latim tardio tripalium, um instrumento de tortura formado de três estacas de madeira cruzadas (tripalium quer dizer literalmente “três paus”), em que os escravos eram amarrados para ser açoitados.

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Tripalium romano, em que os escravos eram torturados

Essa palavra latina também passou a outras línguas românicas como o espanhol trabajo, o catalão treball e o francês travail, sempre com o sentido de “trabalho”. Do francês, passou ao inglês travel, “viajar”, pois, segundo consta, as estradas inglesas na Idade Média eram tão ruins que viajar por elas era um verdadeiro suplício.

Menos estigmatizada que trabalho era a palavra lavor, do latim labor, tanto que os intelectuais não se referiam à sua atividade como um trabalho e sim como um lavor do espírito.

Labor e seu derivado laborare deram em português, além de lavor, o verbo lavrar (isto é, trabalhar a terra para semeá-la) e, deste, os substantivos lavra e lavrador, assim como lavoura (do latim laboria, derivado de labor). “Trabalho” em italiano é até hoje lavoro, derivado de lavorare, do latim laborare. Esse verbo também aparece em termos cultos como elaborar e colaborar, designativos de ações que implicam a ideia de trabalho: elaborar é criar do nada, e colaborar é trabalhar juntos.

O adjetivo “trabalhista” em espanhol é laboral e o partido trabalhista inglês é o Labour Party.

Mas também em outros idiomas a palavra para “trabalho” remete às classes baixas. Por exemplo, o alemão Arbeit provém de uma raiz indo-europeia *orbh, que significava “órfão” (por sinal, o português órfão vem do grego orphanós, que descende dessa raiz indo-europeia). Mas o que tem o órfão a ver com trabalho? É que, na Antiguidade e Idade Média, as crianças órfãs eram recolhidas pelas famílias na condição de serviçais, ou seja, não tinham os direitos que tem hoje uma criança adotada; os órfãos eram meros prestadores de serviços, em troca dos quais recebiam casa e comida, mas não tinham direito a herança. (E aqui vai mais uma curiosidade: a palavra alemã para “herdeiro” é Erbe, que também procede da raiz indo-europeia *orbh. É que o herdeiro só tinha acesso aos bens dos pais quando estes morressem, ou seja, quando se tornasse órfão.

Mas vou parando por aqui porque este texto está me dando trabalho, e hoje, Dia do Trabalho, é dia de descanso. Até a próxima!

A origem do nome da Páscoa

Estamos na Semana Santa (por sinal, uma semana particularmente triste para os franceses e os amantes da civilização, dado o incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris), e, assim, achei oportuno falar um pouco sobre a origem da palavra Páscoa. Esse termo nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a “estrela d’alva” ou “estrela da manhã”).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Feliz Páscoa a todos!

Ainda sobre o aportuguesamento de palavras

Na semana passada, tratei aqui neste blog (ou blogue) do aportuguesamento da palavra inglesa tweet, que resultou no substantivo tuíte e no verbo tuitar. É bem verdade que o verbo inglês to google, “pesquisar no Google”, que deu googlar em português, ainda não se transformou em guglar, mas isso pode acontecer a qualquer momento. Meu leitor Patrick menciona já ter visto short e funk grafados como xorte e funque (e, neste último caso, suponho que a pronúncia seja de fato funque e não fanque). Isso me faz ressuscitar duas postagens do tempo em que eu tinha um blog (ou blogue) no site (ou saite) da extinta revista Língua, os quais passo a reproduzir abaixo.

Os blogues da internete

Até 1943, o português tinha uma ortografia de base etimológica (pharmacia, physica, etc.). Isso incluía não só palavras de origem grega ou latina, mas também estrangeirismos como abat-jour, kimono, football, club, etc. (até hoje alguns times têm Football Club no nome).

Com a reforma ortográfica daquele ano, que substituiu o critério puramente etimológico por um misto (predominantemente fonológico, com resquícios de etimologia), passou-se a adaptar à nova grafia muitas palavras estrangeiras, inclusive nomes próprios. Com isso, Garibaldi, no Rio Grande do Sul, virou Garibáldi, Mayrinck e Brodowsky, em São Paulo, tornaram-se Mairinque e Brodósqui, e assim por diante. Na contramão disso, como que para dar um certo charme, Bahia manteve o h, Joinville os dois ll, e Paraty o y. Nem mesmo nomes de personagens históricos foram poupados: Ruy Barbosa hoje é Rui Barbosa, Gregorio de Mattos atualmente se assina Gregório de Matos, e por aí vai. (Nada semelhante ocorre em outras línguas: Shakespeare não virou Shakespear, Debussy não se tornou Debussi nem Goethe hoje é Göte; a prosseguir essa tendência, daqui a um século serei Bizóqui.)

Atualmente, termos recentes vindos da linguagem da informática também estão passando por esse processo. Por isso, já se lê aqui e ali blogue em lugar de blog e – pasmem – internete em lugar de internet.

Diante da permanente importação de palavras estrangeiras, fenômeno corrente em todas as épocas, mas ainda mais em tempos de globalização, as línguas costumam adotar certos critérios sobre o que fazer com a palavra recém-chegada. Idiomas como o francês e o inglês, de ortografia radicalmente etimológica, simplesmente adotam essas palavras tal qual se escrevem na língua de origem. Idiomas que tendem a adaptar a grafia em geral pesam os prós e os contras dessa adaptação. Por isso, mesmo nessas línguas há uma grande quantidade de palavras que mantêm a grafia original, seja porque se manteve a fonética original, seja por conveniência do uso, inclusive do uso internacional.

Por essa razão, o italiano grafa Paraguay e Uruguay com y e Tokio e Pakistan com k mesmo não tendo essas letras em seu alfabeto. Por essa razão também grafa club, film, blog e internet mesmo que palavras terminadas em consoante sejam estranhas ao sistema fonológico italiano.

Enquanto isso, o português é a única língua europeia de maior alcance internacional a grafar Paraguai, Uruguai, Tóquio, Paquistão, clube, filme e agora também blogue e internete. É possível encontrar grafias diferentes, como blogg, klubb, internätt (e também internett ou internæt), Paragvæ ou Urugvaj, mas só em línguas escandinavas ou do Leste europeu.

A questão é até que ponto vale a pena adotar grafias que vão na direção contrária à dos demais idiomas? Num momento em que o português aspira a internacionalizar-se (e não são poucos os desafios a tal aspiração, mas não vou tratar dessa questão nesta postagem), a adoção de grafias que se afastam da tendência geral não parece uma política inteligente. A reforma ortográfica de 1943 e suas subsequentes de 1971 e 2009 tiveram o propósito de pôr ordem no caos e facilitar a grafia, não o de estabelecer uma doutrina ideológica de caráter purista ou xenófobo.

Você tem um sítio?

Que o vocabulário de uma língua varia de uma região para outra, e mais ainda de um país para outro de mesmo idioma, todo mundo sabe. No entanto, essas variações, às vezes sutis, podem pegar de surpresa até linguistas experientes como eu, que dirá o falante leigo e incauto? Basta viajarmos um pouco pelo Brasil para percebermos que a lomba (isto é, ladeira) dos gaúchos não tem nada a ver com a lombada (quebra-molas) dos paulistas, mas que a macaxeira dos nordestinos tem tudo a ver com o aipim ou mandioca do Centro-Sul do país.

Pois bem, estava eu certa vez participando de um congresso internacional e acabei travando contato com uma famosa linguista da Universidade de Lisboa. Depois de um bom tempo de conversa, ao nos despedirmos, trocamos cartões de visita; o meu continha, além de nome, endereço residencial, telefone e e-mail, o endereço do meu website. A professora, após ler atentamente o cartão, olhou fixamente nos meus olhos e perguntou: “Você tem um sítio?”

A primeira coisa que imaginei é que o meu endereço residencial lhe tivesse causado alguma estranheza e ela tivesse sido levada a acreditar que eu morava na zona rural. Respondi-lhe, um tanto envergonhado: “Não, não tenho sítio não, mas bem que eu gostaria. Na verdade, quando eu me aposentar, meu sonho é ir morar num sítio, bem longe do burburinho da cidade grande, no meio da bicharada!”

De repente, ela irrompeu numa gargalhada e me perguntou, perplexa: “Mas do que estás a falar? Perguntei-te se tu tinhas um sítio, pois, pelo que estou a ver aqui no teu cartão, tu tens!”

E eu insisti: “Não, não, a minha casa fica na cidade mesmo, num bairro bastante urbanizado.”

Vendo que eu não estava entendendo nada, a douta lusitana me questionou: “Ora, se não tens sítio, então que vem a ser este teu www.aldobizzocchi.com.br? Este sítio leva teu nome, não é teu por acaso?

Só então me dei conta de que ela estava se referindo ao sítio da internet, ou melhor, àquilo que nós brasileiros conhecemos quase exclusivamente como site. Assim como eu não me lembrei de imediato que em Portugal “site” se diz sítio, ela tampouco parecia saber que no Brasil sítio é uma pequena propriedade rural, algo como uma quinta em Portugal.

Desfeito o mal-entendido, ela prometeu que acederia ao meu sítio (isto é, acessaria o meu site) assim que chegasse ao hotel.

Moral da história: as línguas pregam peças até nos linguistas.

“Tuíte” e “tuitar”: aportuguesamento ou derivação?

O português é dessas línguas que costumam adaptar a grafia de palavras importadas ao seu próprio sistema ortográfico. Evidentemente, isso não acontece em todos os casos. Palavras como site e internet têm passado incólumes por esse processo – e olhe que já se vão lá quase trinta anos desde que surgiram em português. Às vezes, o aportuguesamento não se deu porque o empréstimo é ainda muito recente; às vezes, porque a adaptação gráfica resultaria numa forma estrambótica demais para ser assimilada pacificamente (pense-se em pitça e blutufe em lugar de pizza e bluetooth). Em alguns casos, como no universo da moda e da tecnologia, a manutenção da grafia original se deve ao status que esta carrega: imagine cordon bleu, termo chique (ou chic) de culinária, grafado cordomblê e sendo confundido com candomblé!

Mas alguns termos recém-chegados à nossa língua já estão sendo devidamente nacionalizados. É o caso de tuitar e tuíte, do inglês tweet, que significa tanto o verbo “piar” quanto o substantivo “pio”. Ao mesmo tempo, o nome da rede social que popularizou esses termos, o Twitter, permanece com sua grafia original, provavelmente por ser nome próprio, marca registrada e sobretudo um termo de difusão internacional.

Que o verbo inglês to tweet tenha dado tuitar e não tweetar em português parece natural. Afinal, toda palavra derivada de estrangeirismo costuma ter a grafia aportuguesada. Por isso, Corinthians é com th mas corintiano não; por isso, marketing é com k, mas marqueteiro, com qu, e assim por diante.

Mas como de tuitar se chega a tuíte? Aqui há duas explicações possíveis – e, a rigor, não há como saber qual delas é a verdadeira: ou o substantivo inglês tweet deu o nosso tuíte por empréstimo direto (evidência disso é que nas primeiras ocorrências da palavra ainda víamos a grafia tweet) e posterior aportuguesamento por analogia com tuitar, ou tuíte seria uma derivação regressiva de tuitar, assim como repasse vem de repassar, achincalhe de achincalhar, desfrute de desfrutar, etc. É claro que a primeira hipótese é a mais provável, principalmente porque a forma aportuguesada do termo surgiu na imprensa especializada em informática, cujos redatores não desconhecem a matriz inglesa da palavra. Mas nada impede que, daqui a alguns anos, professores de português e gramáticos ensinem que tuíte deriva de tuitar. E como os falantes têm memória curta (às vezes acho que gramáticos também), todos aceitarão passivamente essa explicação, que dá de ombros à história da língua. Especialmente porque, quando se trata do admirável mundo novo da tecnologia, o passado – isto é, uns poucos anos atrás – simplesmente não existe.

Pensando bem, talvez daqui a alguns anos o próprio Twitter não exista mais, suplantado por novidades tecnológicas ainda mais mirabolantes, o que fará tuitar e tuíte serem lançados ao arquivo morto dos arcaísmos ultra-antiquados, e então essa discussão sobre o ovo e a galinha (ou sobre o pio e o piar) não fará o menor sentido. É esperar para ver.

A pronúncia correta de “Roraima”

A atual crise na Venezuela, com suas repercussões no Brasil, mais especificamente na cidade de Pacaraima, em Roraima, suscita uma questão polêmica de língua portuguesa que de quando em quando vem à tona: qual é a pronúncia correta do nome do estado de Roraima – e agora também da cidade de Pacaraima. Como se pode perceber nos noticiários do rádio e da TV, alguns repórteres pronunciam “roráima”, com a aberto, enquanto outros dizem “rorâima”, com a fechado – e por vezes nasalizado (“rorãima”) –, mas todos pronunciam “pacaráima”.

Tradicionalmente, as pessoas do norte do país pronunciam “roráima” enquanto no sul predomina “rorâima” ou “rorãima”. Até que a televisão (leia-se Rede Globo) passou a impor, via locutores, a pronúncia com a aberto, para estranheza daqueles que preferem o a fechado quando seguido de consoante nasal (e em Roraima temos um m na sílaba seguinte).

A suposta justificativa dos produtores de TV, escorada em alguns gramáticos de pouca ou nenhuma formação científica, é que essa é a pronúncia corrente entre os próprios roraimenses (também conhecidos como “macuxis”). Isso traz à baila uma questão que tratei no texto Artigo de estado, publicado na revista Língua, n.º 81, de julho de 2012, sobre se a maneira dos próprios moradores de pronunciar o nome do lugar onde vivem deve ter preferência sobre outras. E argumentei que não. Aliás, muitas pessoas pronunciam errado o nome de suas ruas e bairros, especialmente quando se trata de nomes estrangeiros. Mas, mesmo quando se trata de nome vernáculo, se este admite como correta mais de uma forma, qualquer uma delas é legítima, não importa se é a mais usual entre os habitantes do local ou não.

É preciso lembrar que em português não há oposição fonológica (isto é, distinção de significado) entre vogais abertas e fechadas antes de consoante nasal. Por isso, tanto faz pronunciar “bánana” ou “bânana”, “nóme” ou “nôme”, “fizémos” ou “fizêmos”. Quer sejam pronunciadas abertas ou fechadas diante de m ou n, as vogais a, e e o não alteram o significado da palavra, diferentemente do que ocorre em outros contextos (por exemplo, leste com e fechado é pretérito do verbo ler; já com e aberto é um dos pontos cardeais). Por isso, aliás, a distinção ortográfica entre Brasil e Portugal em palavras como génio/gênio, económico/econômico, etc., é desnecessária. Poderíamos adotar qualquer uma das grafias como sendo a única, e cada povo continuaria a pronunciar como sempre pronunciou, afinal a ortografia só precisa dar conta daquilo que é fonologicamente pertinente, isto é, distingue significados. É por essa razão que, quer pronunciemos o o de nome como aberto ou fechado, a grafia é uma só: a diferença de pronúncia é um fenômeno de fala, não de língua.

Em relação a Roraima, qual é então a pronúncia correta, ou a mais recomendável: “rorâima” ou “roráima”? Se em português os timbres aberto e fechado do e e do o se neutralizam antes de m ou n, no caso de á e â, não há oposição fonológica nunca, o que equivale a dizer que os dois sons representam sempre o mesmo fonema (tecnicamente diríamos que são alofones do mesmo fonema /a/). O único caso de distinção apontado por algumas gramáticas mais conservadoras seria o da primeira pessoa do plural dos verbos da primeira conjugação, em que, por exemplo, chegamos é presente e chegámos é pretérito. Só que chegámos só existe em português lusitano, e não é possível postular a existência de um fonema com base em um único caso. Como resultado, podemos dizer “bânana” ou “bánana”, “Jáime” ou “Jâime”, “páineira” mas “pâina”, “plâino” mas “apláinar”, e assim por diante. Logo, podemos pronunciar indiferentemente “roráima” ou “rorâima”: ambas as pronúncias são corretas e legítimas em português. E, curiosamente, nenhuma delas corresponde à pronúncia original do nome no idioma taurepang, que é “roraíma”.

Quanto a Pacaraima, a única pronúncia em circulação é a dos próprios moradores da cidade, isto é, com a aberto, visto que, até estourar a crise dos imigrantes venezuelanos, ninguém no centro-sul do Brasil havia ouvido falar dessa pequena cidade.

A origem do terrorismo – e da palavra que o designa

Esta semana ficou marcada por pelo menos três ataques violentos – em Suzano (São Paulo), Christchurch (Nova Zelândia) e Utrecht (Holanda) – que podemos, sem dúvida, chamar de atentados terroristas, não importa se seus autores pertencem a organizações políticas consagradas a espalhar ódio, terror e pânico na sociedade ou se são meros “lobos solitários”, designação que se dá ao terrorista isolado, que pode até agir inspirado em alguma organização desse tipo, mas que formalmente não pertence a ela.

Nesses tempos de ódio generalizado, em que todos parecem estar contra todos, e as pessoas buscam motivos para sentir-se ofendidas, vale a pena revisitar a história das palavras atentado e terrorismo.

A primeira remonta ao latim tardio attentatum, “tentativa”, particípio do verbo attentare, também encontrado nas formas adtentare e attemptare, que, segundo o Dicionário Latino-Português de Francisco Torrinha, significa “pôr a mão em; tocar em; experimentar, ensaiar, tentar”, mas sobretudo “atacar, atentar contra”. Esse verbo, por sua vez, é um derivado de tentare ou temptare, que deu “tentar” e “tentação” em português e provém de uma raiz indo-europeia (sobre o indo-europeu, leia o meu artigo Em busca das laringais perdidas, neste mesmo blog) *ten‑, que significava algo como “segurar, estender, esticar, retesar”, presente em verbos latinos como tenere, que deu o nosso “ter”, e tendere, que resultou no português tender, atender, estender, etc.

terrorismo é palavra cunhada originalmente em francês à época da Revolução Francesa (final do século XVIII). Sua motivação é o período que ficou conhecido como o Terror (1793-1794), comandado por Maximilien de Robespierre, líder dos jacobinos, ocasião em que milhares de pessoas morreram na guilhotina.

Sua primeira acepção, de 1794, era “doutrina dos partidários do Terror”; em português, o termo teve seu primeiro registro em 1836.

Mas terrorismo deriva do latim terror, terroris, “terror, medo”, substantivo proveniente do verbo terrere, “tremer (de medo)”. Que é parente de tremere, “tremer”, e ambos radicam no indo-europeu *ter‑, “tremer”. Portanto, terrorismo é a prática da disseminação do terror entre as pessoas por meio de ações violentas. O sufixo ‑ismo, que primariamente evocava a ideia de “doutrina”, passou a indicar uma tática política.

O curioso é que a prática de atentados terroristas é muito mais antiga que a palavra, pois já existia na Antiguidade, segundo nos informa a Britannica Concise Encyclopedia. Entretanto, nada que se comparasse ao que estamos presenciando hoje em dia, especialmente depois do 11 de Setembro. Parece que este será o Século do Terrorismo, turbinado ainda pela internet e as redes sociais. É esperar para ver.

A tragédia de Suzano e os eufemismos da crônica policial

Eu havia programado outro assunto para tratar aqui no blog no dia de hoje, mas o massacre ocorrido em Suzano, SP, esta manhã me fez refletir sobre várias coisas: sobre os limites da maldade humana (ou a inexistência deles); sobre psicopatas que circulam discretamente entre as pessoas de bem e o risco que oferecem de, a qualquer momento, cometer as piores atrocidades; sobre o pânico dos jovens que presenciaram a chacina; sobre a dor dos familiares; sobre a facilidade de acesso às armas de fogo e a flexibilização da legislação a esse respeito… Mas, linguista que sou, chamou-me a atenção em especial o modo como a lei brasileira – e por tabela a imprensa – trata os crimes cometidos por menores. Os dois autores da matança de hoje de manhã, um de 17 e o outro de 25 anos, estão sendo chamados pelos telejornais de assassinos, e seu ato de crime hediondo, horrível massacre, chacina sanguinária, e por aí vai. No entanto, tivesse o menor de 17 anos, de nome Guilherme Taucci Monteiro, sido capturado vivo e não se suicidado, sua identidade não teria sido relevada, seu rosto apareceria na TV coberto por uma tarja preta ou então desfocado, estaria ele sendo chamado de “menor infrator”, e a barbárie que cometeu seria classificada como “ato infracional”. Mas como ele está morto, sabemos seu nome e sua face e podemos chamá-lo pelo que ele realmente é: um assassino. Ou seja, uma vez morto o criminoso, cessa a hipocrisia, e o nefasto linguajar politicamente correto não mais se aplica.

Com a violência crescente que assola o país, é cada vez mais comum ler ou ouvir notícias como “o menor foi apreendido pela polícia” ou “os suspeitos fugiram num carro roubado e trocaram tiros com os policiais”. A adoção pelos meios de comunicação do jargão jurídico costuma ser uma imposição dos “manuais de redação e estilo”, cartilhas elaboradas por cada veículo de imprensa para balizar a linguagem utilizada por seus redatores. Esses manuais foram instituídos para padronizar os textos de uma determinada publicação, conferindo-lhe uma marca própria, e também para limitar a liberdade criativa dos jornalistas, evitando que algum deles empregue termos cuja interpretação possa trazer problemas ao jornal, como um processo judicial, por exemplo.

A questão é que, ao fazer uma opção equivocada, o criador do manual propaga seu equívoco a todos os integrantes da redação. A meu ver, é bem esse o caso do emprego do juridiquês na pauta jornalística. Afinal, o repórter não escreve para juristas, mas para leitores leigos. E em tempos em que a impunidade institucionalizada bate em nossa cara todos os dias, palavras que amenizam a culpabilidade dos criminosos soam como um acinte à sociedade.

Suspeito

Segundo o Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, suspeito é o indivíduo “1) De quem há suspeitas ou desconfianças; 2) De fé ou integridade moral duvidosa. 3) Que dá causa ou origem a dúvidas, que não merece confiança. […] 8) Que parece ou se supõe ter algum defeito ou vício […]”. Ora, a suspeita é da esfera da dúvida, da possibilidade, não da certeza. Qual é a probabilidade de que indivíduos que fogem em alta velocidade num carro roubado e trocam tiros com a polícia sejam cidadãos de bem e não bandidos? Não se trata aí de possibilidade, mas de certeza.

O que acontece é que, no jargão jurídico, um indivíduo é suspeito até ser formalmente indiciado; a partir desse momento, passa a acusado e, só após a condenação em última instância, é que pode ser oficialmente chamado de criminoso. Trata-se de um cuidado que respeita o princípio da presunção de inocência. No entanto, a imprensa é a voz da sociedade, ela fala pela e para a sociedade. Logo, se por um lado os jornais não podem julgar e condenar, pois isso é prerrogativa do Poder Judiciário, por outro, soa hipócrita apresentar como mera hipótese a culpa de alguém preso em flagrante delito ou foragido em carro roubado após troca de tiros.

Apreendido

A mesma crítica pode ser feita a termos como “apreender um menor”, “ato infracional”, “medida socioeducativa”, etc. Se, para os operadores do direito, menores não cometem crimes, não podem ser presos nem cumprir pena (e por isso se instituíram eufemismos para falar sobre a criminalidade dos que têm menos de 18 anos), para a sociedade, um assassinato bárbaro praticado por um elemento de 17 anos e 362 dias não é um mero ato infracional, como o prova o atual clamor pela redução da maioridade penal. A questão é: de que lado estão os elaboradores de manuais de redação e estilo: do lado da sociedade, que clama por justiça, ou do lado dos juristas e legisladores, cuja concepção de justiça só é justa na opinião dos próprios?

Isso explica o sucesso dos programas de TV do chamado “jornalismo justiceiro”. Embora tenham um indisfarçável viés mercadológico, tais programas dizem o que o público quer ouvir e, por isso mesmo, têm tanta audiência. Nem é preciso ir tão longe: muitos comentaristas sérios, que diante das câmeras têm linguagem mais comedida, aproveitam os jornais e o rádio para, sem caluniar, injuriar ou difamar ninguém, “dar nomes aos bois”, tratando por bandido quem é bandido e por corrupto quem é corrupto. Afinal, a mesma justiça que presume a inocência do réu garante a chamada exceção da verdade: não é crime acusar alguém de um ato que ele efetivamente praticou.

De resto, meus sinceros sentimentos aos familiares das vítimas. E minha torcida para que essa prática da chacina em escolas, tão comum nos Estados Unidos, não vire moda no Brasil.

As controversas origens do Carnaval

Terminado o Carnaval (será que terminou mesmo?), republico aqui um artigo que publiquei no ano passado, acrescido de alguns novos dados, face à oportunidade da data e visto que ganhei muitos leitores desde então. Trata-se da origem da palavra Carnaval.

A etimologia da palavra Carnaval é uma das mais controversas que existem. Assim como a origem dessa festividade remonta à Pré-História e a ritos pagãos da fertilidade, em que se comemorava o início do ano agrícola e pedia-se aos deuses uma boa safra, a origem da palavra também se perde na escuridão do passado. Alguns autores, como Körting (Lateinisches-Romanisches Wörterbuch, “Dicionário Latino-Românico”), sustentam que teria vindo do latim carrus navalis, barco ornamentado que entre os romanos abria desfiles alegóricos como os das Saturnalia e das Bacchanalia, festas em celebração da chegada da primavera e do vinho.

Outros, porém, como Antenor Nascentes, na esteira de vários estudiosos, apontam a origem em carnem levare, “suspender a carne”, isto é, suprimir o consumo desse alimento durante a Quaresma, portanto já no período cristão do Império Romano. Wilhelm Meyer-Lübke, no seu Romanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Românico), dá essa origem para o francês e o provençal. Policarpo Petrocchi apresenta o baixo latim carnelevamen, depois modificado para carnelevare, como étimo do antigo pisano carnelevare, do napolitano carnolevare, do calabrês carnalevare, do siciliano carnilivari, do vicentino carlavare e do veneziano carlevar. A forma primitiva carnelevare teria sido depois mudada para carnelevale em milanês (1130) e, por etimologia popular, em carne, vale!, isto é, “adeus, carne!”. Essa etimologia é confirmada por Corominas em seu Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana. Já o Duden – Das Herkunftswörterbuch, o principal dicionário etimológico do alemão, apresenta ambas as hipóteses, dando, no entanto, mais crédito à segunda.

Em espanhol, a forma paralela carnal teria sido a responsável pela mudança da vogal, de carneval para carnaval. A ideia básica de suspensão do consumo de carne é reforçada por formas paralelas como o espanhol carnestolendas  e o catalão carnestoltes (ambas do latim tollere, “retirar”), o italiano carnelasciare e carnasciare, assim como o romeno lăsatul de carne, todas do latim laxare, “deixar, abandonar”. O próprio latim já apresentava carneprivium, “privação da carne”, o que dá alguma convicção a essa etimologia. De certo, somente que o antecessor do termo em todas as línguas modernas é o italiano carnevale, especialmente em face da grande fama dos carnavais italianos (o de Veneza, principalmente) durante a Renascença.