O que é arte, afinal?

As recentes polêmicas em torno das exposições Queermuseu, promovida pelo Banco Santander em Porto Alegre, e Brasil em Multiplicação, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e patrocinada pelo Banco Itaú, têm colocado em discussão os limites da liberdade de expressão, a legislação e a moral da nossa sociedade, além do problema do (mau) uso do dinheiro público. Sem entrar no mérito dessas questões ou no do embate político-ideológico que subjaz a elas, quero refletir aqui sobre um ponto que me é particularmente caro e sobre o qual já me debrucei algumas vezes, como quando escrevi o livro Anatomia da cultura: uma nova visão sobre ciência, arte, religião, esporte e técnica (Ed. Palas Athena, 2003). Trata-se da pergunta: “O que é arte?”.

Nesta última exposição, o artista Wagner Schwartz jaz nu sobre um tatame na performance intitulada La Bête, em que emula a obra Bicho, de Lygia Clark. O problema que quero discutir aqui não é a presença do nu na arte, existente desde a Pré-História, e sim se uma pessoa, nua ou não, deitada num tatame pode ser considerada uma obra de arte.

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Desde o advento da arte moderna, o limite entre o que é arte e o que não é vem-se tornando cada vez mais fluido, e o conceito de arte vem-se expandindo cada vez mais. Até aí, tudo bem, pois um dos atributos da arte é justamente alargar nossa visão sobre o fenômeno estético, buscando novas possibilidades de expressão e de provocar sensações e sentimentos por meio de estímulos sensoriais. Aliás, “provocar sensações e sentimentos por meio de estímulos sensoriais” é decerto a própria função primeira da arte.

Entretanto, nem tudo o que provoca reações emocionais através dos sentidos pode ser considerado arte, sob o risco de acharmos que tudo é arte. De repente, vejo uma mancha de mofo na parede do sótão, e essa visão provoca em mim, além do desconforto inicial de reconhecer a sujeira e umidade do ambiente (e consequente necessidade de uma boa limpeza ou pintura da parede), uma curiosidade sobre as formas ali estampadas a esmo, por obra da natureza e seus fungos. Lembro-me de quando era criança e ficava horas descobrindo formas familiares – um rosto, um cavalo, uma forma geométrica – nas nuvens do céu; a contemplação daquela proliferação de micro-organismos na parede esquecida de um cômodo idem me traz um momento de prazer contemplativo, logo empanado pela constatação racional de que aquela mancha, mesmo com todo o seu insuspeito lirismo, não deveria estar ali, fosse o ambiente mais arejado e mais frequentemente saneado.

A questão é: tudo o que é belo ou provoca sensações estéticas é arte? Uma mancha na parede, uma nuvem no céu, o rabisco de uma criança, as pegadas de um animal, isso é arte?

Em 1917, o francês Marcel Duchamp expôs um mictório numa instalação chamada La Fontaine (A Fonte) – e, fato pouco comentado pelos historiadores da arte, ele fez isso de pura gozação. No entanto, talvez tenha sido esse o divisor de águas entre a certeza e a dúvida em relação ao que pode ou não ser considerado arte. Afinal, até então, toda obra de arte, mesmo a mais vanguardista, pressupunha algum labor de seu criador, alguma técnica que precisava ser aprendida (daí as escolas de belas-artes, os conservatórios musicais, etc.), além, sobretudo, de algum talento, algo que ou se tem ou não se tem, já que é inato. Contudo, Duchamp lançava o conceito de ready made, um objeto pronto, sem nenhum trabalho do “artista” exceto o de nomeá-lo como obra de arte.

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Tive um professor na faculdade que certa vez foi à Bienal de Arte de São Paulo empurrando um carrinho de bebê. Até então, nada suspeito, afinal, que mal há em um pai levar seu filhinho a uma exposição de arte? Dentro da exposição, esse professor estacionou estrategicamente o carrinho – que obviamente não tinha bebê algum – em meio a outras esculturas e instalações e tirou de dentro uma placa onde se lia “Objeto n.º 24”. Depois escondeu-se atrás de uma pilastra e ficou a observar o comportamento dos passantes. Alguns simplesmente ignoravam o objeto, outros balançavam a cabeça em sinal de reprovação, mas um número não desprezível de pessoas parava, olhava, punha a mão no queixo, coçava a cabeça, rodeava o objeto como um cão diante de uma possível presa e, passado algum tempo, havia certa aglomeração de pessoas em volta do suposto objeto artístico, e algumas, com ar de superioridade intelectual, discursavam sobre os possíveis significados daquela obra, a mensagem a ser passada pelo artista, da alegoria ao nascimento da vida até o dilema transcendental que a sociedade hipercapitalista pós-moderna vive diante do impasse da intransponibilidade das fronteiras do concreto em face da inescapável finitude orgânica da Civilização Ocidental.

Quando Monteiro Lobato lançou no jornal Folha S. Paulo o libelo contra a exposição de Anita Malfatti, sob o título “Paranoia ou Mistificação?”, ainda havia indubitável valor artístico nas exposições, fato reconhecido pelo próprio Lobato, que admitiu o talento de Anita apesar das críticas ao seu trabalho. Entretanto, depois disso surgiram muitas outras formas de “arte”: do compositor que cria suas peças musicais derramando bolinhas de pingue-pongue sobre as cordas do piano (é a chamada “música estocástica”) ao pintor que simplesmente atira aleatoriamente jatos de tinta sobre uma tela ou então deixa que seu cachorro patinhe sobre ela; de John Cage, que em 1952 compôs a música 4’33”, ou seja, quatro minutos e meio de silêncio (desde então, todas as folhas de partitura em branco vendidas em papelarias são, na verdade, reproduções da obra de Cage) ao escultor búlgaro Christo, cuja obra-prima foi embrulhar em plástico seu xará, o Cristo Redentor do Rio de Janeiro.

Há até aquela anedota do pintor abstracionista cujos borrões de tinta estavam sendo muito elogiados em seu vernissage até que ele, constrangido, notou que um dos quadros que faziam mais sucesso estava de cabeça para baixo. Desvirou o quadro e… tomou tremenda vaia, pois agora a obra tinha-se transformado num amontoado de borrões sem significado nenhum!

 

 

A arte pós-moderna tem exemplos mais grotescos do que esses, como o do escultor que expõe cadáveres de animais vitrificados ou o do compositor que acrescenta ruídos de digestão e excreção às suas “músicas”.

A questão é: se qualquer objeto, inclusive os produzidos pela natureza, como pedras e galhos de árvore, pode ser um ready made, se qualquer ruído, humano ou não, pode ser música, então chega-se à conclusão de que tudo, absolutamente tudo, é arte. Só que, quando tudo é arte, nada é arte, afinal só se pode definir algo por oposição ao que ele não é. Só sei que sou brasileiro porque sei que há no mundo argentinos, americanos, japoneses… Se a humanidade não fosse dividida em nações, se falássemos todos a mesma língua e vivêssemos todos sob o mesmo governo, faria algum sentido dizer que sou brasileiro e não argentino?

Por mais que a arte evolua (e tem de evoluir para não se tornar repetição enfadonha, mais do mesmo, como é a música “breganeja” ou os filmes de ação americanos, por exemplo), alguns critérios básicos precisam ser mantidos para que se possa distinguir entre a arte legítima, produto do talento e da técnica, e a mistificação oportunista, que explora a boa-fé das pessoas incautas e dá voz a pseudointelectuais que posam de “mentes privilegiadas”, capazes de depreender significações profundas onde a turba ignara percebe apenas sujeira e ruído. Em outras palavras, por mais que a técnica evolua, inclusive graças à tecnologia moderna, é indispensável a mão do artista; por mais que um dos objetivos da arte seja provocar estranheza, chocar, dar um soco no estômago da sociedade, algum bom gosto, alguma sutileza, alguma marca de talento astucioso precisa estar presente. Por isso, continuo fiel à definição de arte que dei no meu supracitado livro e que agora reformulo, aperfeiçoada (e tremendamente aumentada): arte é um discurso social, materialmente palpável ou não, produzido exclusivamente pelo ser humano, com ou sem o auxílio de instrumentos, usando de um talento não disponível a qualquer pessoa e mediante uma técnica adquirida (autodidaticamente ou não, intuitivamente ou não) que a maioria das pessoas não tem, com finalidade principal ou única de produzir prazer estético, isto é, por meio dos sentidos.

Trocando em miúdos, o que é produto exclusivo da natureza, como pedras, nuvens, manchas de mofo ou rabiscos de um chimpanzé, ainda que exposto numa galeria, não é arte. O que não foi criado para produzir efeito estético como função principal (como um mictório ou um carrinho de bebê) não é arte (ainda que o fabricante de mictórios ou de carrinhos tenha tido alguma preocupação estética no design do produto). O que não foi concebido pela mente humana não é arte. O que não demanda nenhum tipo de técnica ou destreza para ser feito (isto é, o que qualquer um pode fazer) não é arte. O que não demanda talento, ou mais precisamente um elevado grau das inteligências linguística (na literatura), musical (na música), espacial (nas artes plásticas) e corporal-cinestésica (na dança e no teatro), não é arte. O que só causa repulsa ou indiferença, mas nenhum prazer, não é arte.

A performance de Wagner Schwartz no MAM até pode ser tachada de obscena, e daí? Muitas obras de arte em seu tempo também o foram. (Se fere alguma lei ou direito é outra discussão.) O que me preocupa é se tal performance pode ser chamada de arte, pois hoje em dia muitas manifestações, até defecar em público, têm tentado impor-se à sociedade e conquistar seu respeito sob o pretexto de que são formas de arte, de que refletem o direito à liberdade de expressão do pensamento e da criatividade. Ou seja, hoje em dia até bosta é arte.

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O caipirês de “Êta Mundo Bom”

Têm corrido as redes sociais alguns comentários criticando o sotaque caipira dos personagens da telenovela Êta Mundo Bom (Rede Globo, 18 horas). Segundo tais comentários, a pronúncia dos atores do núcleo interiorano do folhetim estaria exagerada, já que ninguém fala desse modo.

Em outra oportunidade, eu já havia discutido essa questão de como atores baseados no Rio de Janeiro ou em São Paulo imitam pronúncias regionais ou sotaques estrangeiros no artigo Sotaque de novela.

É evidente que o sotaque que ouvimos nessa novela é carregado e por vezes pouco verossímil, mas neste caso parece que a intenção é essa mesmo – afinal, trata-se de uma obra cômica, que busca o tom caricato. O público pode gostar ou não do gênero, mas não cabe dizer que a pronúncia está errada; fosse uma telenovela dramática, as críticas seriam pertinentes.

Além disso, quem conhece o interior sabe que em certas regiões, principalmente da zona rural, a pronúncia é de fato carregada, em especial entre os mais velhos e os menos escolarizados.

O que chama a atenção de um especialista em linguística não é, portanto, o sotaque, mas um erro comum quando um cidadão urbano, como são os atores, tenta imitar o “caipirês”: como se sabe, os habitantes da roça costumam trocar “l” final de sílaba por “r” (“animar”, “arma”, “artura” por “animal”, “alma”, “altura”). Só que, como na maior parte do Brasil o “l” e o “u” finais de sílaba soam igual, alguns atores acabam pronunciando “cér” e “armento” por “céu” e “aumento”.

No verdadeiro português caipira, só o “l” é trocado por “r”; o “u” permanece tal e qual se a sílaba é tônica (caso de “céu” e “capiau”) ou então o ditongo a que pertence se reduz a uma vogal “o” ou “u” se a sílaba é átona (“omento”, “Oropa”, “uvido” em lugar de “aumento”, “Europa”, “ouvido”).

É que o dialeto caipira (sim, o caipirês é um dialeto) descende diretamente do português falado pelos nossos primeiros colonizadores e, como se sabe, os portugueses fazem clara distinção entre “l” e “u” (“mal” e “mau” não têm a mesma pronúncia em Portugal, razão pela qual eles não têm a mesma dificuldade que nós em grafar essas palavras).

Seja como for, mesmo essa impropriedade fonética deve ser relevada como “licença poética”, pois se trata de uma comédia, em que todos os exageros são permitidos em nome do humor.

Que booking babaquice!

O site de reservas de hotéis Booking.com está veiculando atualmente uma campanha publicitária na TV chamada The Booking Hero (“o herói das reservas”, numa tradução literal – mas há outra, de duplo sentido, da qual falarei mais adiante). O comercial foi produzido originalmente em inglês pela agência W+K de Amsterdã. Assista à versão no idioma original: https://www.youtube.com/watch?v=tk_pFjr5aV4.

O anúncio veiculado no Brasil é exatamente o mesmo, apenas adaptado ao português. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=1UFAecLGLC8.

É nessa adaptação (que os tradutores chamam tecnicamente de localização) que os problemas se iniciam. Desde que a nossa mídia foi invadida por propagandas estrangeiras (antes da globalização, os comerciais eram todos produzidos no Brasil por publicitários brasileiros, e nessa época nossa propaganda era considerada a segunda melhor do mundo), adaptar para nossa língua e nossa cultura tiradas de humor ou frases de duplo sentido concebidas originalmente em outro idioma e apontando para outros referenciais culturais tem sido um constante desafio – nem sempre vencido com sucesso.

Vamos ao caso em questão. Uma família com feições nórdicas (quantas pessoas no Brasil se identificam com esses tipos?) chega estraçalhada ao hotel reservado e então se surpreende com a beleza do local e a qualidade das instalações. O texto diz “(…) Até este exato booking minuto. A vida pode ser assim quando você é o booking herói das reservas”. Que sentido faz isso em português?

Explicando: a palavra inglesa booking (reserva) foi usada como um trocadilho de fucking, termo de baixo calão, muito usado na linguagem coloquial, que pode ser agregado a qualquer substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, etc., para enfatizá-lo. Por exemplo, a fucking weekend quer dizer mais ou menos o mesmo que “um p… final de semana”; Drop that fucking gun! se traduziria por “Larga a p… dessa arma!”. Por sinal, essa propaganda gerou protestos no Reino Unido, onde os telespectadores se sentiram ofendidos pelo trocadilho malicioso.

Mas vamos ao que interessa: em primeiro lugar, a “tradução” da interjeição inglesa yeah por uau não produz o mesmo efeito de sentido. Quando o chefe da família pronuncia yeah fazendo um gesto com o punho cerrado, o sentido é de vitória (como convém a um herói, tema da campanha), algo como “Viva, acertei!”. Já “uau” indica em português apenas surpresa diante de algo, não o sentimento de triunfo. Sem falar que é bem estranho o protagonista do comercial articular a palavra yeah (como se pode deduzir por leitura labial) enquanto o narrador pronuncia “uau”.

Mas o mais grave é a manutenção da palavra booking no texto em português, exigência óbvia do anunciante. O que é um booking minuto? Ou um booking herói? Quantos falantes do português conhecem a expressão original inglesa a ponto de entender a piada? E mesmo quem domina a língua de Shakespeare será que acha graça nesse jogo de palavras? Ou seja, o que era para ser cômico se torna patético. E revela a subserviência de nossa publicidade aos ditames estrangeiros.

Basta ver quantos anúncios no Brasil terminam com slogans em outros idiomas: Find new roads (Chevrolet), Motion and emotion (Peugeot), Créative technologie (Citroën), Das Auto (Volkswagen), The power to do more (Dell), Open your world (Heineken)… Será que temos de ser poliglotas para consumir? E o que dizer quando a própria marca do produto é pronunciada com sotaque estrangeiro (“chevrolei” por Chevrolet, “riandei” por Hyundai, “djip” por Jeep), às vezes por um locutor brasileiro?

Quando lecionava em cursos de publicidade e propaganda e via tantos novos talentos surgindo ali na sala de aula, tantas mentes criativas com carreiras promissoras pela frente, comecei a defender a tese de que deveria haver uma reserva de mercado para a publicidade brasileira: acho que deveríamos ter uma lei determinando que toda propaganda veiculada no Brasil fosse inteiramente produzida aqui, por profissionais brasileiros. E que a língua desses anúncios fosse obrigatoriamente o português. (Já tive o desprazer de ver na TV brasileira um comercial totalmente falado em inglês.)

Em tempos em que qualquer nacionalismo pode ser confundido com esquerdopatia e uma medida dessas pode parecer saída da cabeça de algum petista, devo avisar que países com tradição liberal bem mais arraigada que a nossa costumam ser bastante ciosos na defesa de sua cultura e seu mercado de trabalho. Enquanto isso, nós tupiniquins ficamos com a pecha de aculturados, com complexo de vira-latas, e assim por diante.

Pode ser que muitos dos meus leitores achem normal essa globalização da publicidade, ou pelo menos um mal inevitável (algo do tipo “aceita que dói menos”), mas para mim comerciais como o do Booking.com parecem pura babaquice. Uma booking babaquice!

A língua portuguesa e as novelas de época

Não é de hoje que as telenovelas e séries brasileiras de época entram em conflito com a língua portuguesa. Parece incrível que milhões são investidos nessas produções entre cenários, figurino, locações, fotografia, caracterização dos atores (e as produções brasileiras estão cada vez mais primorosas), mas cometem-se falhas bobas no tratamento da língua. Isso se deve, talvez, à falta de uma consultoria linguística especializada (que na planilha de custos da produção seria um dos itens menos relevantes).

Lembro-me de Lado a Lado, exibida pela Rede Globo no horário das 18 horas e premiada com o Emmy Internacional de melhor telenovela de 2013, que, no entanto, punha na boca dos personagens expressões e cacoetes linguísticos que certamente não existiam à época da Proclamação da República.

Ontem (dia 6 de janeiro) foi ao ar o terceiro capítulo da excelente minissérie Ligações Perigosas, cuja trama, originalmente passada na França do século XVIII, foi adaptada pela Globo para o Brasil dos anos 1920. Toda a reconstituição de época está impecável: móveis, roupas, calhambeques, a caneta-tinteiro, a cigarreira, as cédulas de réis, o gramofone tocando charleston… Mas eis que, numa das cenas, a câmera revela uma carta escrita pela protagonista Isabel d’Ávila de Alencar em que aparece o nome do amante de Cecília, o professor de música Felipe. E noutra cena, Cecília e Felipe encontram-se numa praia deserta, em cuja areia desenham um coração a enlaçar os nomes de ambos. Até aí, tudo muito lindo e romântico, não fosse o fato de que, até a reforma ortográfica de 1943, “Felipe” se grafava “Philippe”, com direito a “ph” e tudo! “Felipe” com “f” só em Portugal e nos países de língua espanhola. Mesmo assim, a reforma ortográfica em Portugal havia-se dado em 1911, portanto qualquer adulto nos anos ’20 só poderia ser Philippe e não Felipe ou Filipe.

E agora a Globo também anuncia a estreia de Êta Mundo Bom, assim mesmo, com acento circunflexo em “eta”, como se pode ver no logotipo da novela.

Êta_Mundo_Bom!

Para que esse circunflexo? Será que alguém em sã consciência pronunciaria “éta”? E mesmo que exista essa pronúncia (trata-se do nome da letra grega “η”), quem pensaria no alfabeto grego em se tratando de uma novela de temática caipira? Ou seja, não tem desculpa, foi erro de português mesmo!

Fica aqui a pergunta: será que a Globo não tem nenhum consultor para assuntos de língua dando assessoria aos produtores? Ou será que esses erros são propositais, cometidos por quem subestima a inteligência e a cultura dos telespectadores? Seja como for, senhores diretores da Rede Globo, se precisarem de uma consultoria linguística, estou à disposição. E faço um precinho bem camarada.