Desvendando a caixa-preta – 1ª parte

Na pesquisa linguística, não é raro encontrar línguas sobre as quais nada se sabe, como ocorre com expedições que fazem contato com tribos indígenas pela primeira vez. Diante de uma língua que é uma verdadeira “caixa-preta”, sobre a qual não temos informação prévia (não sabemos nada de sua gramática ou vocabulário nem a que família pertence), por onde começar a estudá-la?

Para solucionar o problema, desenvolveram-se técnicas de análise, como a tagmêmica, proposta pelo americano Kenneth Pike na década de 1940 para estudar as línguas ameríndias. A tagmêmica e outras tecnologias similares partem do princípio de que todas as línguas, mesmo aquelas que ainda não conhecemos, têm características universais, como a presença de estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas que obedecem a certas leis gerais.

O primeiro passo nesse tipo de pesquisa consiste em gravar a maior quantidade possível de amostras de fala (línguas de comunidades tribais nunca têm expressão escrita) e analisar o material coletado, muitas vezes com o auxílio de softwares especiais.

Em primeiro lugar, procura-se reconhecer os sons da língua, isto é, as realizações articulatórias que se repetem sistematicamente nas amostras. A partir da comparação entre as falas de vários informantes, é possível determinar quais os sons distintivos de significado (ou seja, os fonemas) e suas variantes (chamadas de alofones). É possível até descobrir quais são variantes pessoais (ligadas aos hábitos articulatórios de um dado falante) e quais são contextuais (determinadas pelo contexto em que ocorre o fonema, isto é, os fonemas que o precedem ou sucedem). Num momento seguinte, pode-se deduzir a estrutura silábica da língua a partir das combinações recorrentes de fonemas.

Na medida em que certas sequências de fonemas se repetem na fala, deduzem-se as palavras. Há dois tipos de palavras que tendem a se repetir num ato de fala: as gramaticais, como artigos, pronomes, preposições, etc., e as palavras-tema, aquelas diretamente ligadas ao assunto da fala. É possível ainda depreender de certas sequências que diferem por um único elemento afixos, desinências e demais marcadores de flexão das palavras.

Reconhecidas as estruturas fonológica e morfológica do idioma em questão, passa-se ao reconhecimento das estruturas sintáticas: determina-se o limite das frases e, sabendo-se previamente quais são as palavras lexicais e gramaticais, procura-se descobrir como elas se combinam, num processo semelhante à análise sintática que se faz nas aulas de português.

Por fim, resta a semântica do texto. Quando pesquisadores interagem com os informantes a fim de obter o registro de sua fala, geralmente apontam objetos ou deixam que os falantes apontem. Com isso, começa-se a relacionar palavras com coisas: o processo evidentemente parte de conceitos mais concretos e corriqueiros até chegar a abstrações complexas.

Uma situação semelhante a esse tipo de investigação são os métodos de decifração de códigos secretos. A lógica deles é a mesma das tecnologias de descrição de línguas desconhecidas, com a diferença de que os códigos secretos se apresentam em mensagens escritas (geralmente numa simbologia também secreta).

Exemplo disso é o código Voynich, um misterioso manuscrito, datado pela técnica do carbono 14 como sendo do século 15 ou 16, escrito num alfabeto desconhecido e ilustrado com imagens de plantas, mapas astronômicos e mulheres nuas imersas em vasos de líquido escuro. O manuscrito leva o nome do livreiro americano de origem polonesa Wilfrid Michael Voynich, que o adquiriu em 1912 na Itália.

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O caso Voynich

O documento está redigido da esquerda para a direita (é possível deduzir isso a partir do alinhamento da última linha de cada parágrafo) num alfabeto de cerca de 40 caracteres, alguns dos quais aparecem uma única vez em todo o texto (mais ou menos como k, w e y aparecem raramente nos textos em português). Todas as tentativas de decifrá-lo fracassaram, até as dos maiores especialistas em criptografia que atuaram na Segunda Guerra Mundial.

Chegou-se a cogitar que o manuscrito não passasse de um embuste, um texto sem nexo escrito no século 16 num alfabeto fictício para ser oferecido às cortes europeias, que então pagavam fortunas por obras esotéricas. Uma carta de 1666 adquirida junto com o documento afirmava ter ele pertencido ao imperador germânico Rodolfo II e sido escrito pelo filósofo medieval inglês Roger Bacon. A novidade é que cientistas têm utilizado técnicas de estatística linguística para verificar se a distribuição dos caracteres e palavras no texto é compatível com o padrão das línguas naturais.

Um artigo publicado há alguns anos por físicos brasileiros na revista PLoS One (mais informações em revistapesquisa.fapesp.br/2013/08/13/o-codigo-voynich) explica como eles utilizaram algoritmos que permitem detectar palavras-chave no texto (mais ou menos como faz o Google em suas buscas), bem como elaboraram redes de dispersão que medem o grau de proximidade ou distância entre palavras.

Até agora, os resultados apontam para padrões compatíveis com os de textos dotados de significado. O problema, neste caso, é que o manuscrito Voynich não está relacionado a nenhum referencial externo – exceto as próprias figuras do texto –, o que dificulta o reconhecimento de uma semântica subjacente.

Muitas hipóteses já foram aventadas sobre sua origem, desde a transcrição fonética por um europeu, num alfabeto inventado, de um texto ditado por um nativo do Leste asiático, até a atribuição da autoria do manuscrito a sábios medievais e charlatães renascentistas. Recentemente, um historiador britânico afirmou ter descoberto a chave para decifrar o enigmático documento. Mas isso é assunto para a próxima semana.

O que importa é que a busca pelo significado do código Voynich tem representado um belo exercício de aplicação das teorias linguísticas a um fim particular – no caso, a decifração de um texto engenhosamente criptografado.

Qualquer que seja a língua na qual o código foi redigido, se é uma língua natural, então deve obedecer aos princípios fonológicos e morfossintáticos que regem todos os idiomas, e, portanto, a utilização de tecnologias de análise como a tagmêmica deve produzir resultados satisfatórios também nesse caso.

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A divulgação científica no Brasil, o lugar da linguística – e o meu lugar nisso tudo

Sempre fui apaixonado por duas coisas: arte e ciência. Vejo mesmo muita semelhança entre ambas. Afinal, ambas são produtos do espírito, formas de invenção (sim, a ciência não é só descoberta, ela é em grande parte criação, construção) e, de certa forma, ambas buscam a beleza, a elegância, a regularidade. A arte e a ciência são, por isso mesmo, o território do talento e da genialidade. A grande diferença entre elas é que a arte está quase totalmente voltada ao público em geral e tem como missão primeira ou única o entretenimento, ao passo que a maior parte da produção científica se volta ao próprio meio acadêmico e visa a solucionar problemas práticos do ser humano.

É verdade que há as artes aplicadas, como o design de embalagens, por exemplo, mas, quando se fala em arte, é nas exposições, nos espetáculos, nos concertos e shows, nos livros de ficção que se pensa. Ao contrário, a palavra “ciência” nos remete as mais das vezes a um laboratório de pesquisa, a pessoas de jaleco branco, a fórmulas matemáticas ininteligíveis… Se há um lado cultural e de entretenimento na ciência, é o da divulgação científica, também conhecida como popularização científica ou popularização do saber.

Confesso que eu sempre quis ser artista, mas a vocação que me faltou para as artes acabou se revelando na atividade científica. Para quem não sabe, cursei cinco semestres de física antes de perceber que a minha aptidão e o meu destino eram mesmo a linguística. Mas, mesmo como cientista, nunca deixei de ter o imenso desejo de me comunicar com a sociedade e não só com meus colegas. Tampouco perdi de vista que o conhecimento científico, mesmo oferecendo soluções tecnológicas para os problemas sociais, só se justifica plenamente quando chega, ele próprio, às pessoas. Afinal, todos nós usamos a tecnologia provida pela ciência todos os dias, mas poucos de nós são capazes de discutir temas científicos, ainda mais quando contrapostos a crendices populares, opiniões subjetivas e dogmas religiosos. Cabe ao divulgador científico a missão de tornar a ciência um assunto palatável e, mais do que isso, agradável.

No mundo desenvolvido, há uma grande oferta de produtos culturais ligados às ciências e às humanidades: livros de divulgação escritos por grandes cientistas, palestras públicas de pesquisadores e intelectuais, exposições de ciência, e muito mais. Os países que mais produzem conhecimento científico são também os que mais se preocupam em difundir ciência ao público leigo. Embora em todos os lugares a porcentagem de cientistas que divulgam abertamente seu trabalho seja relativamente pequena em relação ao total de pesquisadores, no Brasil ela é menor ainda. Ou seja, ainda não desenvolvemos uma cultura de difusão pública do saber com propósito cultural. Na área da filosofia, já temos alguns “pop stars”, como Mário Sérgio Cortella, Lenadro Karnal e Luiz Filipe Pondé; nas ciências naturais, nossos maiores divulgadores são o físico Marcelo Gleiser e a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que, no entanto, vivem e trabalham nos Estados Unidos.

A realidade é que não temos no Brasil figuras do alcance e abrangência – e talvez nem do talento – de um Carl Sagan na astronomia, de um Richard Dawkins na biologia, de um Stephen Hawking na física… E estes, juntamente com o matemático Keith Devlin e os linguistas David Crystal e Steven Pinker, são meus ídolos desde sempre.

O fato é que eu sempre tentei humildemente fazer divulgação científica no Brasil com os recursos que eu tinha disponíveis. E, pior ainda, divulgação de uma ciência que sempre teve pouco prestígio e pouquíssima difusão entre nós: a linguística.

Embalado pelos meus ídolos, me lancei a escrever uma coluna mensal na extinta revista Língua Portuguesa e depois um blog semanal no portal da mesma revista, falando sobre os aspectos curiosos e interessantes da(s) língua(s), sempre com viés científico, mas em linguagem acessível aos leigos razoavelmente escolarizados.

Após o fim da revista, decidi continuar por conta própria meu trabalho de cronista da língua por meio deste blog pessoal. Também compilei meus principais artigos em livro que aguarda uma editora interessada em publicá-lo.

Capa Canal Planeta Língua - Pedro

E agora, acabo de dar meu passo mais importante até o momento nessa trilha da divulgação do conhecimento sobre a nossa língua, as outras línguas e a linguagem humana em geral: lancei um canal no YouTube. Pois é, já está no ar o canal Planeta Língua. Nele, toda sexta-feira vou postar um vídeo novo tratando de algum assunto referente a esse universo, além de entrevistar pessoas da área ou que de alguma forma tenham a ver com ela, comentar livros e responder às perguntas do público sobre linguística, gramática, origem das palavras e o que mais aparecer. Vocês, meus leitores, estão obviamente convidados a visitar o canal e, se gostarem, a inscrever-se nele, curtir, comentar e compartilhar os vídeos, além de enviar perguntas e sugestões de pauta.

Confesso que não está sendo pequena essa empreitada, pois elaborar vídeos dá muito trabalho, desde a escolha do tema, a pesquisa a respeito, passando pela roteirização, filmagem, edição, finalização, até chegar à publicação e subsequente divulgação nas mídias sociais. E isso toda semana para que, na sexta-feira, chegue até vocês conteúdo fresquinho e de qualidade. Como não leciono mais, hoje trabalho full time com pesquisa e divulgação científicas. Para ajudar a custear todo esse trabalho, também lancei o canal na plataforma Patreon, que angaria patrocinadores, isto é, pessoas comuns, incluindo seguidores do canal e apreciadores do meu trabalho, que estejam dispostas a dar uma pequena contribuição mensal (simbólica mesmo) para manter o canal no ar com qualidade e periodicidade. Em troca, ofereço a esses “patronos” alguns privilégios que, com o progresso do canal, tenderão a ficar cada vez maiores.

Enfim, o carinha que ama música mas é desafinado e toca mal violão, que sonhava gravar discos e dar shows mas acabou escrevendo livros e artigos e dando palestras e aulas sobre língua agora também é vlogueiro – isso mesmo, vlogueiro com “v” de vídeo. Confiram e vejam se tenho futuro.

A legião dos imbecis

As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de imbecis que antes só falavam na mesa de bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade. Eram rapidamente silenciados, mas agora têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.

Umberto Eco ao jornal La Stampa

A ciência ainda não sabe com certeza quando o homem começou a falar. Alguns estudiosos acreditam que essa faculdade tenha surgido há menos de 30 mil anos – cálculos mais conservadores falam em 15 mil – enquanto outros tantos pesquisadores sugerem que a linguagem seja tão antiga quanto nossa própria espécie, cujo surgimento se estima em torno de 200 mil anos atrás. O fato é que, por milênios, os únicos tipos de comunicação possíveis entre os seres humanos foram o interpessoal (duas ou três pessoas conversando) e o grupal (alguém falando a uma pequena plateia). O maior alcance que um discurso podia ter era propiciado por inscrições em pedra ou manuscritos em papiro ou pergaminho com um número limitadíssimo de exemplares. Ou seja, tudo o que se escrevia era lido por no máximo algumas centenas de pessoas.

De certa forma, a comunicação em massa surgiu com a invenção da imprensa por Gutenberg em 1452. Claro que no começo os textos impressos ainda tinham poucos leitores, já que a maior parte da população era analfabeta, o que desestimulava a produção de grandes tiragens de livros. Porém, a partir do momento em que se multiplicaram os livros e, em seguida, os jornais, era possível, em tese, comunicar-se com o mundo.

Mas a comunicação de massa teve seu impulso definitivo em princípios do século XX, com o surgimento dos chamados mass media (rádio, televisão, cinema, fonógrafo, revistas); agora era possível efetivamente falar a milhões de pessoas, em todos os lugares do planeta. Só que a comunicação de massa é unidirecional: alguém apenas fala e multidões apenas escutam. Esse sistema pode parecer hoje em dia pouco democrático, já que o diálogo é sempre mais salutar que o monólogo. No entanto, se havia tão pouco espaço para falar, era natural que esse espaço fosse destinado preferencialmente a quem tivesse algo relevante a dizer. O que não significa que irrelevâncias não fossem também veiculadas. Mas, se não era possível publicar tudo o que todos queriam dizer, editoras, gravadoras, estúdios de cinema e de TV, emissoras de rádio e empresas jornalísticas optavam por publicar aquilo que certamente interessaria a mais pessoas. Com isso, o que era de fato divulgado tendia a ter alguma qualidade ou, pelo menos, alguma pertinência. Aliás, na comunicação de massa a busca pela qualidade é um princípio norteador da produção de conteúdo: uma cena é refilmada ou uma canção regravada tantas vezes quantas forem necessárias para que o resultado seja não menos que perfeito; um texto escrito é burilado, reescrito e revisado até que se achem as melhores palavras para expressar as melhores ideias.

Isso foi exclusivamente assim até a última década do século passado. Então surgiu a internet e, com ela, as redes sociais. A partir desse momento, a comunicação de massa começou sofrer a concorrência da comunicação em rede, sistema em que, teoricamente, todos conversam com todos, isto é, todos têm direito – e espaço – de se expressar e dizer o que pensam, e todos podem reagir expressando-se pelos mesmos canais. Já não somos mais obrigados a apenas ouvir, mas também podemos falar. O grande intelectual, o artista famoso, o ídolo das multidões e o simples mortal, o cidadão anônimo, o zé-ninguém agora estão lado a lado. O presidente da nação mais poderosa do mundo e a criança de sete anos têm os mesmos 280 caracteres à sua disposição. A maior rede de televisão do país concede a todos seus quinze segundos de fama, desde que o celular esteja na horizontal. Tudo muito democrático. Só que não.

A promessa de uma comunicação igualitária, em que todos os habitantes do planeta podem falar e ouvir, levou a humanidade não ao entendimento geral, mas ao maior desentendimento que a História poderia registrar: todos falam, poucos ouvem e ninguém tem razão. Antes, muitos desconfiavam da imprensa, mas o que os jornais diziam tinha grande credibilidade; hoje, em que qualquer pessoa pode ser fonte de informação, não sabemos como lidar com as fake news, e os limites entre a verdade e a pós-verdade (ou verdade alternativa) são nebulosos. Antes, nos irritávamos com certas propagandas no rádio ou na TV; hoje, nossa caixa de e-mails fica lotada de spams em poucos segundos. Antes, quem se sentisse alvo de calúnia pelos meios de comunicação tinha direito de resposta; hoje, pratica-se o linchamento moral de qualquer um, principalmente de quem diz a verdade. Antes, uma criança tinha de lidar com a caçoada dos coleguinhas de classe; hoje, o bullying se dá pelas redes sociais, em escala nacional ou mundial. Antes, era preciso saber cantar para ser cantor e saber escrever para ser escritor; hoje, já nem tanto. Por fim, hoje todos odeiam alguém e todos são odiados por alguém, sempre on line, bastando digitar. A paradoxal sensação de anonimato num meio em que todos se expõem parece nos dar o direito de atacar o outro sem responsabilidade, não importa se justa ou injustamente, desde que com crueldade. Como diz o historiador e pop star Leandro Karnal, somos todos contra todos, ou, segundo o sábio Umberto Eco, foi dada a palavra à legião dos imbecis. O consolo é que, mesmo nesse ambiente de caos e barbárie comunicacional, grande parte das pessoas ainda prefere ouvir quem tem algo relevante a dizer. Ou seja, mesmo dentro da rede existem nichos de comunicação de massa, predominantemente unidirecional: gente inteligente que sabe ouvir escuta gente inteligente que sabe falar. Enquanto isso, no restante da rede, os imbecis se digladiam.

Direitos humanos e o direito à liberdade de expressão do pensamento

Dois fatos recentes – a decisão judicial que proibiu os examinadores do Enem de anular as provas de redação que porventura ferissem os direitos humanos e o afastamento do jornalista William Waack da Rede Globo após o vazamento de um vídeo com suposto teor racista – nos fazem pensar sobre os limites da liberdade de expressão do pensamento e da criminalização da linguagem.

Até a decisão liminar da ministra do Superior Tribunal Federal Carmen Lúcia sobre ação impetrada pelo movimento Escola sem Partido, os examinadores das provas de redação do Enem podiam zerar a nota de uma redação que eles entendessem ofensiva aos direitos humanos sem examinar qualquer outro quesito. Como professor de português, sempre achei questionável esse critério de avaliação – ou melhor, de não avaliação – de uma prova de redação, já que o que deve estar em julgamento é a capacidade de se expressar com clareza, coesão, coerência e correção gramatical, que todo aluno concluinte do ensino médio e pretendente a uma vaga universitária deve ter, e não suas posições ideológicas.

Da mesma forma como, durante o regime militar, era proibido e, mais do que isso, perigoso expressar opiniões que pudessem ser consideradas “de esquerda”, parece que hoje o jogo se inverteu, e o que é proibido ou execrável é ter posições que sejam vistas por certos grupos detentores de poder como “de direita”. Em tempos em que até a intolerância ao glúten pode ser vista como crime de intolerância, fica a impressão de que, para entrar na universidade, é preciso estar alinhado ideologicamente com aqueles que ditam as regras nas instâncias superiores da educação brasileira.

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Hoje se tipifica um novo tipo de crime, o chamado crime de ódio, em que o criminoso tem como motivação de seu ato o pertencimento da vítima a um determinado grupo social, definido pela raça, religião, orientação sexual, deficiência física, etnia, nacionalidade, etc. Embora motivado pelo ódio (que é preciso distinguir de preconceito), o crime de ódio é fundamentalmente um crime, isto é, um ato de violência física, psicológica ou moral contra alguém. É, portanto, diferente da simples expressão do ódio, pública ou privadamente.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, há uma diferença fundamental entre o ódio puro e simples e a violência praticada em razão dele. Odiar é uma prerrogativa humana (e creio que exclusivamente humana) decorrente do fato biológico de termos sentimentos. Isso significa que, assim como posso amar chocolate, viagens, MPB, um determinado time de futebol ou astro do cinema, certas pessoas em particular (amigos, parentes, o cônjuge), também posso odiar certas comidas, lugares e pessoas. E como os sentimentos não são racionais, mas são o oposto cognitivo da razão, não preciso de um motivo lógico para amar ou odiar algo ou alguém. A questão é: a simples expressão verbal do meu ódio é por si só um crime de ódio? Não sou versado em Direito, mas quero crer que não, afinal a Constituição Federal garante a todos o direito à livre expressão do pensamento (e eu acrescentaria, do sentimento). Mesmo os pensamentos e sentimentos mais vis estariam sob essa garantia, pois a vileza ou não daquilo que se pensa ou sente é questão de valor e não de verdade.

Quanto ao preconceito, tal como definido pelos dicionários como um julgamento prévio que fazemos de algo ou alguém, ele não é, em princípio, nem bom nem mau. Qualquer juízo que eu faça sem conhecer profundamente o que ou quem estou julgando é um preconceito. O que significa que ele pode ser também positivo: posso superestimar precipitadamente as qualidades do objeto em questão, como supor que a comida de um restaurante é muito boa apenas porque sua fachada é bonita ou chique.

Na verdade, o preconceito é um mecanismo mental de que a natureza nos dotou e que tem sido imprescindível à nossa sobrevivência: é graças a julgamentos prévios e por vezes superficiais que tomamos a decisão de nos arriscar ou não em certas situações. O mesmo preconceito que pode me fazer desconfiar injustamente de uma pessoa mal-encarada numa rua escura pode salvar a minha vida caso minha suspeita esteja correta.

O fato é que posso ter certos preconceitos, mesmo que infundados, sem que eles se transformem em ódio, assim como posso nutrir ódio por certos indivíduos sem que ele se transforme em violência. Posso, finalmente, expressar o meu ódio ou reprovação a uma pessoa ou grupo de pessoas sem que isso configure crime. Especialmente se faço isso em situação privada, de modo que o próprio alvo da minha desafeição não saiba o que penso dele.

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E aí chegamos ao caso William Waack. Sem dúvida, dizer que buzinar insistentemente é “coisa de preto” revela preconceito negativo. Aliás, preconceitos desse tipo pecam por generalização. Não é porque um negro trafega com os vidros do carro abertos e o som do funk no volume máximo que todos os negros se comportam assim (e, é óbvio, há brancos que também assim se comportam). Mas o que proponho à reflexão é: a expressão do desapreço injustificado por toda uma raça por causa de uma buzina insistente é em si um crime? Ainda mais se feita em contexto privado e que deveria ser mantido privado, não fosse a má-fé de algum desafeto que tornou pública essa manifestação, por meio do hoje tão em moda “vazamento seletivo”?

É claro, Waack não está sendo processado criminalmente (ainda), pois não cometeu crime algum, o que ele está é sendo moralmente linchado por ter revelado involuntariamente um lado politicamente incorreto que todos nós temos, principalmente em momentos de intimidade e descontração. Quem nessas situações nunca fez um comentário maldoso acerca de alguém, quem nunca riu de uma piada racista ou sexista, quem nunca aludiu à sexualidade alheia de modo depreciativo, que atire a primeira pedra!

O fato é que, hoje, as redes sociais amplificam a repercussão de algo que deveria ser estritamente íntimo e dão voz a um novo tipo de pessoas, os haters, odiadores profissionais, que fazem da expressão pública do ódio a quem consideram fora dos parâmetros de sua ideologia a razão de sua existência. Ou seja, em nome de seu direito de condenar a manifestação do ódio alheio, eles odeiam e praticam a violência moral contra pessoas cuja biografia lhes faz inveja. E odeiam você por sua opinião, seja ela qual for, preconceituosa ou não, odienta ou não, desde que não concordem com ela. E, nesse afã, impedem a diversidade de opiniões dentro da universidade simplesmente impedindo que os portadores de certas opiniões entrem na universidade. Ou ignoram todas as boas contribuições sociais que uma pessoa deu ao longo da vida, em seu trabalho sério e competente, por causa de um deslize verbal, por vezes impensado – ou mal interpretado –, que todos nós cometemos no dia a dia, sobretudo imersos que estamos numa cultura de herança patriarcal, escravista, colonialista e censitária, da qual nem nos damos conta.

O que é arte, afinal?

As recentes polêmicas em torno das exposições Queermuseu, promovida pelo Banco Santander em Porto Alegre, e Brasil em Multiplicação, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e patrocinada pelo Banco Itaú, têm colocado em discussão os limites da liberdade de expressão, a legislação e a moral da nossa sociedade, além do problema do (mau) uso do dinheiro público. Sem entrar no mérito dessas questões ou no do embate político-ideológico que subjaz a elas, quero refletir aqui sobre um ponto que me é particularmente caro e sobre o qual já me debrucei algumas vezes, como quando escrevi o livro Anatomia da cultura: uma nova visão sobre ciência, arte, religião, esporte e técnica (Ed. Palas Athena, 2003). Trata-se da pergunta: “O que é arte?”.

Nesta última exposição, o artista Wagner Schwartz jaz nu sobre um tatame na performance intitulada La Bête, em que emula a obra Bicho, de Lygia Clark. O problema que quero discutir aqui não é a presença do nu na arte, existente desde a Pré-História, e sim se uma pessoa, nua ou não, deitada num tatame pode ser considerada uma obra de arte.

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Desde o advento da arte moderna, o limite entre o que é arte e o que não é vem-se tornando cada vez mais fluido, e o conceito de arte vem-se expandindo cada vez mais. Até aí, tudo bem, pois um dos atributos da arte é justamente alargar nossa visão sobre o fenômeno estético, buscando novas possibilidades de expressão e de provocar sensações e sentimentos por meio de estímulos sensoriais. Aliás, “provocar sensações e sentimentos por meio de estímulos sensoriais” é decerto a própria função primeira da arte.

Entretanto, nem tudo o que provoca reações emocionais através dos sentidos pode ser considerado arte, sob o risco de acharmos que tudo é arte. De repente, vejo uma mancha de mofo na parede do sótão, e essa visão provoca em mim, além do desconforto inicial de reconhecer a sujeira e umidade do ambiente (e consequente necessidade de uma boa limpeza ou pintura da parede), uma curiosidade sobre as formas ali estampadas a esmo, por obra da natureza e seus fungos. Lembro-me de quando era criança e ficava horas descobrindo formas familiares – um rosto, um cavalo, uma forma geométrica – nas nuvens do céu; a contemplação daquela proliferação de micro-organismos na parede esquecida de um cômodo idem me traz um momento de prazer contemplativo, logo empanado pela constatação racional de que aquela mancha, mesmo com todo o seu insuspeito lirismo, não deveria estar ali, fosse o ambiente mais arejado e mais frequentemente saneado.

A questão é: tudo o que é belo ou provoca sensações estéticas é arte? Uma mancha na parede, uma nuvem no céu, o rabisco de uma criança, as pegadas de um animal, isso é arte?

Em 1917, o francês Marcel Duchamp expôs um mictório numa instalação chamada La Fontaine (A Fonte) – e, fato pouco comentado pelos historiadores da arte, ele fez isso de pura gozação. No entanto, talvez tenha sido esse o divisor de águas entre a certeza e a dúvida em relação ao que pode ou não ser considerado arte. Afinal, até então, toda obra de arte, mesmo a mais vanguardista, pressupunha algum labor de seu criador, alguma técnica que precisava ser aprendida (daí as escolas de belas-artes, os conservatórios musicais, etc.), além, sobretudo, de algum talento, algo que ou se tem ou não se tem, já que é inato. Contudo, Duchamp lançava o conceito de ready made, um objeto pronto, sem nenhum trabalho do “artista” exceto o de nomeá-lo como obra de arte.

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Tive um professor na faculdade que certa vez foi à Bienal de Arte de São Paulo empurrando um carrinho de bebê. Até então, nada suspeito, afinal, que mal há em um pai levar seu filhinho a uma exposição de arte? Dentro da exposição, esse professor estacionou estrategicamente o carrinho – que obviamente não tinha bebê algum – em meio a outras esculturas e instalações e tirou de dentro uma placa onde se lia “Objeto n.º 24”. Depois escondeu-se atrás de uma pilastra e ficou a observar o comportamento dos passantes. Alguns simplesmente ignoravam o objeto, outros balançavam a cabeça em sinal de reprovação, mas um número não desprezível de pessoas parava, olhava, punha a mão no queixo, coçava a cabeça, rodeava o objeto como um cão diante de uma possível presa e, passado algum tempo, havia certa aglomeração de pessoas em volta do suposto objeto artístico, e algumas, com ar de superioridade intelectual, discursavam sobre os possíveis significados daquela obra, a mensagem a ser passada pelo artista, da alegoria ao nascimento da vida até o dilema transcendental que a sociedade hipercapitalista pós-moderna vive diante do impasse da intransponibilidade das fronteiras do concreto em face da inescapável finitude orgânica da Civilização Ocidental.

Quando Monteiro Lobato lançou no jornal Folha S. Paulo o libelo contra a exposição de Anita Malfatti, sob o título “Paranoia ou Mistificação?”, ainda havia indubitável valor artístico nas exposições, fato reconhecido pelo próprio Lobato, que admitiu o talento de Anita apesar das críticas ao seu trabalho. Entretanto, depois disso surgiram muitas outras formas de “arte”: do compositor que cria suas peças musicais derramando bolinhas de pingue-pongue sobre as cordas do piano (é a chamada “música estocástica”) ao pintor que simplesmente atira aleatoriamente jatos de tinta sobre uma tela ou então deixa que seu cachorro patinhe sobre ela; de John Cage, que em 1952 compôs a música 4’33”, ou seja, quatro minutos e meio de silêncio (desde então, todas as folhas de partitura em branco vendidas em papelarias são, na verdade, reproduções da obra de Cage) ao escultor búlgaro Christo, cuja obra-prima foi embrulhar em plástico seu xará, o Cristo Redentor do Rio de Janeiro.

Há até aquela anedota do pintor abstracionista cujos borrões de tinta estavam sendo muito elogiados em seu vernissage até que ele, constrangido, notou que um dos quadros que faziam mais sucesso estava de cabeça para baixo. Desvirou o quadro e… tomou tremenda vaia, pois agora a obra tinha-se transformado num amontoado de borrões sem significado nenhum!

 

 

A arte pós-moderna tem exemplos mais grotescos do que esses, como o do escultor que expõe cadáveres de animais vitrificados ou o do compositor que acrescenta ruídos de digestão e excreção às suas “músicas”.

A questão é: se qualquer objeto, inclusive os produzidos pela natureza, como pedras e galhos de árvore, pode ser um ready made, se qualquer ruído, humano ou não, pode ser música, então chega-se à conclusão de que tudo, absolutamente tudo, é arte. Só que, quando tudo é arte, nada é arte, afinal só se pode definir algo por oposição ao que ele não é. Só sei que sou brasileiro porque sei que há no mundo argentinos, americanos, japoneses… Se a humanidade não fosse dividida em nações, se falássemos todos a mesma língua e vivêssemos todos sob o mesmo governo, faria algum sentido dizer que sou brasileiro e não argentino?

Por mais que a arte evolua (e tem de evoluir para não se tornar repetição enfadonha, mais do mesmo, como é a música “breganeja” ou os filmes de ação americanos, por exemplo), alguns critérios básicos precisam ser mantidos para que se possa distinguir entre a arte legítima, produto do talento e da técnica, e a mistificação oportunista, que explora a boa-fé das pessoas incautas e dá voz a pseudointelectuais que posam de “mentes privilegiadas”, capazes de depreender significações profundas onde a turba ignara percebe apenas sujeira e ruído. Em outras palavras, por mais que a técnica evolua, inclusive graças à tecnologia moderna, é indispensável a mão do artista; por mais que um dos objetivos da arte seja provocar estranheza, chocar, dar um soco no estômago da sociedade, algum bom gosto, alguma sutileza, alguma marca de talento astucioso precisa estar presente. Por isso, continuo fiel à definição de arte que dei no meu supracitado livro e que agora reformulo, aperfeiçoada (e tremendamente aumentada): arte é um discurso social, materialmente palpável ou não, produzido exclusivamente pelo ser humano, com ou sem o auxílio de instrumentos, usando de um talento não disponível a qualquer pessoa e mediante uma técnica adquirida (autodidaticamente ou não, intuitivamente ou não) que a maioria das pessoas não tem, com finalidade principal ou única de produzir prazer estético, isto é, por meio dos sentidos.

Trocando em miúdos, o que é produto exclusivo da natureza, como pedras, nuvens, manchas de mofo ou rabiscos de um chimpanzé, ainda que exposto numa galeria, não é arte. O que não foi criado para produzir efeito estético como função principal (como um mictório ou um carrinho de bebê) não é arte (ainda que o fabricante de mictórios ou de carrinhos tenha tido alguma preocupação estética no design do produto). O que não foi concebido pela mente humana não é arte. O que não demanda nenhum tipo de técnica ou destreza para ser feito (isto é, o que qualquer um pode fazer) não é arte. O que não demanda talento, ou mais precisamente um elevado grau das inteligências linguística (na literatura), musical (na música), espacial (nas artes plásticas) e corporal-cinestésica (na dança e no teatro), não é arte. O que só causa repulsa ou indiferença, mas nenhum prazer, não é arte.

A performance de Wagner Schwartz no MAM até pode ser tachada de obscena, e daí? Muitas obras de arte em seu tempo também o foram. (Se fere alguma lei ou direito é outra discussão.) O que me preocupa é se tal performance pode ser chamada de arte, pois hoje em dia muitas manifestações, até defecar em público, têm tentado impor-se à sociedade e conquistar seu respeito sob o pretexto de que são formas de arte, de que refletem o direito à liberdade de expressão do pensamento e da criatividade. Ou seja, hoje em dia até bosta é arte.

O caipirês de “Êta Mundo Bom”

Têm corrido as redes sociais alguns comentários criticando o sotaque caipira dos personagens da telenovela Êta Mundo Bom (Rede Globo, 18 horas). Segundo tais comentários, a pronúncia dos atores do núcleo interiorano do folhetim estaria exagerada, já que ninguém fala desse modo.

Em outra oportunidade, eu já havia discutido essa questão de como atores baseados no Rio de Janeiro ou em São Paulo imitam pronúncias regionais ou sotaques estrangeiros no artigo Sotaque de novela.

É evidente que o sotaque que ouvimos nessa novela é carregado e por vezes pouco verossímil, mas neste caso parece que a intenção é essa mesmo – afinal, trata-se de uma obra cômica, que busca o tom caricato. O público pode gostar ou não do gênero, mas não cabe dizer que a pronúncia está errada; fosse uma telenovela dramática, as críticas seriam pertinentes.

Além disso, quem conhece o interior sabe que em certas regiões, principalmente da zona rural, a pronúncia é de fato carregada, em especial entre os mais velhos e os menos escolarizados.

O que chama a atenção de um especialista em linguística não é, portanto, o sotaque, mas um erro comum quando um cidadão urbano, como são os atores, tenta imitar o “caipirês”: como se sabe, os habitantes da roça costumam trocar “l” final de sílaba por “r” (“animar”, “arma”, “artura” por “animal”, “alma”, “altura”). Só que, como na maior parte do Brasil o “l” e o “u” finais de sílaba soam igual, alguns atores acabam pronunciando “cér” e “armento” por “céu” e “aumento”.

No verdadeiro português caipira, só o “l” é trocado por “r”; o “u” permanece tal e qual se a sílaba é tônica (caso de “céu” e “capiau”) ou então o ditongo a que pertence se reduz a uma vogal “o” ou “u” se a sílaba é átona (“omento”, “Oropa”, “uvido” em lugar de “aumento”, “Europa”, “ouvido”).

É que o dialeto caipira (sim, o caipirês é um dialeto) descende diretamente do português falado pelos nossos primeiros colonizadores e, como se sabe, os portugueses fazem clara distinção entre “l” e “u” (“mal” e “mau” não têm a mesma pronúncia em Portugal, razão pela qual eles não têm a mesma dificuldade que nós em grafar essas palavras).

Seja como for, mesmo essa impropriedade fonética deve ser relevada como “licença poética”, pois se trata de uma comédia, em que todos os exageros são permitidos em nome do humor.

Que booking babaquice!

O site de reservas de hotéis Booking.com está veiculando atualmente uma campanha publicitária na TV chamada The Booking Hero (“o herói das reservas”, numa tradução literal – mas há outra, de duplo sentido, da qual falarei mais adiante). O comercial foi produzido originalmente em inglês pela agência W+K de Amsterdã. Assista à versão no idioma original: https://www.youtube.com/watch?v=tk_pFjr5aV4.

O anúncio veiculado no Brasil é exatamente o mesmo, apenas adaptado ao português. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=1UFAecLGLC8.

É nessa adaptação (que os tradutores chamam tecnicamente de localização) que os problemas se iniciam. Desde que a nossa mídia foi invadida por propagandas estrangeiras (antes da globalização, os comerciais eram todos produzidos no Brasil por publicitários brasileiros, e nessa época nossa propaganda era considerada a segunda melhor do mundo), adaptar para nossa língua e nossa cultura tiradas de humor ou frases de duplo sentido concebidas originalmente em outro idioma e apontando para outros referenciais culturais tem sido um constante desafio – nem sempre vencido com sucesso.

Vamos ao caso em questão. Uma família com feições nórdicas (quantas pessoas no Brasil se identificam com esses tipos?) chega estraçalhada ao hotel reservado e então se surpreende com a beleza do local e a qualidade das instalações. O texto diz “(…) Até este exato booking minuto. A vida pode ser assim quando você é o booking herói das reservas”. Que sentido faz isso em português?

Explicando: a palavra inglesa booking (reserva) foi usada como um trocadilho de fucking, termo de baixo calão, muito usado na linguagem coloquial, que pode ser agregado a qualquer substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, etc., para enfatizá-lo. Por exemplo, a fucking weekend quer dizer mais ou menos o mesmo que “um p… final de semana”; Drop that fucking gun! se traduziria por “Larga a p… dessa arma!”. Por sinal, essa propaganda gerou protestos no Reino Unido, onde os telespectadores se sentiram ofendidos pelo trocadilho malicioso.

Mas vamos ao que interessa: em primeiro lugar, a “tradução” da interjeição inglesa yeah por uau não produz o mesmo efeito de sentido. Quando o chefe da família pronuncia yeah fazendo um gesto com o punho cerrado, o sentido é de vitória (como convém a um herói, tema da campanha), algo como “Viva, acertei!”. Já “uau” indica em português apenas surpresa diante de algo, não o sentimento de triunfo. Sem falar que é bem estranho o protagonista do comercial articular a palavra yeah (como se pode deduzir por leitura labial) enquanto o narrador pronuncia “uau”.

Mas o mais grave é a manutenção da palavra booking no texto em português, exigência óbvia do anunciante. O que é um booking minuto? Ou um booking herói? Quantos falantes do português conhecem a expressão original inglesa a ponto de entender a piada? E mesmo quem domina a língua de Shakespeare será que acha graça nesse jogo de palavras? Ou seja, o que era para ser cômico se torna patético. E revela a subserviência de nossa publicidade aos ditames estrangeiros.

Basta ver quantos anúncios no Brasil terminam com slogans em outros idiomas: Find new roads (Chevrolet), Motion and emotion (Peugeot), Créative technologie (Citroën), Das Auto (Volkswagen), The power to do more (Dell), Open your world (Heineken)… Será que temos de ser poliglotas para consumir? E o que dizer quando a própria marca do produto é pronunciada com sotaque estrangeiro (“chevrolei” por Chevrolet, “riandei” por Hyundai, “djip” por Jeep), às vezes por um locutor brasileiro?

Quando lecionava em cursos de publicidade e propaganda e via tantos novos talentos surgindo ali na sala de aula, tantas mentes criativas com carreiras promissoras pela frente, comecei a defender a tese de que deveria haver uma reserva de mercado para a publicidade brasileira: acho que deveríamos ter uma lei determinando que toda propaganda veiculada no Brasil fosse inteiramente produzida aqui, por profissionais brasileiros. E que a língua desses anúncios fosse obrigatoriamente o português. (Já tive o desprazer de ver na TV brasileira um comercial totalmente falado em inglês.)

Em tempos em que qualquer nacionalismo pode ser confundido com esquerdopatia e uma medida dessas pode parecer saída da cabeça de algum petista, devo avisar que países com tradição liberal bem mais arraigada que a nossa costumam ser bastante ciosos na defesa de sua cultura e seu mercado de trabalho. Enquanto isso, nós tupiniquins ficamos com a pecha de aculturados, com complexo de vira-latas, e assim por diante.

Pode ser que muitos dos meus leitores achem normal essa globalização da publicidade, ou pelo menos um mal inevitável (algo do tipo “aceita que dói menos”), mas para mim comerciais como o do Booking.com parecem pura babaquice. Uma booking babaquice!

A língua portuguesa e as novelas de época

Não é de hoje que as telenovelas e séries brasileiras de época entram em conflito com a língua portuguesa. Parece incrível que milhões são investidos nessas produções entre cenários, figurino, locações, fotografia, caracterização dos atores (e as produções brasileiras estão cada vez mais primorosas), mas cometem-se falhas bobas no tratamento da língua. Isso se deve, talvez, à falta de uma consultoria linguística especializada (que na planilha de custos da produção seria um dos itens menos relevantes).

Lembro-me de Lado a Lado, exibida pela Rede Globo no horário das 18 horas e premiada com o Emmy Internacional de melhor telenovela de 2013, que, no entanto, punha na boca dos personagens expressões e cacoetes linguísticos que certamente não existiam à época da Proclamação da República.

Ontem (dia 6 de janeiro) foi ao ar o terceiro capítulo da excelente minissérie Ligações Perigosas, cuja trama, originalmente passada na França do século XVIII, foi adaptada pela Globo para o Brasil dos anos 1920. Toda a reconstituição de época está impecável: móveis, roupas, calhambeques, a caneta-tinteiro, a cigarreira, as cédulas de réis, o gramofone tocando charleston… Mas eis que, numa das cenas, a câmera revela uma carta escrita pela protagonista Isabel d’Ávila de Alencar em que aparece o nome do amante de Cecília, o professor de música Felipe. E noutra cena, Cecília e Felipe encontram-se numa praia deserta, em cuja areia desenham um coração a enlaçar os nomes de ambos. Até aí, tudo muito lindo e romântico, não fosse o fato de que, até a reforma ortográfica de 1943, “Felipe” se grafava “Philippe”, com direito a “ph” e tudo! “Felipe” com “f” só em Portugal e nos países de língua espanhola. Mesmo assim, a reforma ortográfica em Portugal havia-se dado em 1911, portanto qualquer adulto nos anos ’20 só poderia ser Philippe e não Felipe ou Filipe.

E agora a Globo também anuncia a estreia de Êta Mundo Bom, assim mesmo, com acento circunflexo em “eta”, como se pode ver no logotipo da novela.

Êta_Mundo_Bom!

Para que esse circunflexo? Será que alguém em sã consciência pronunciaria “éta”? E mesmo que exista essa pronúncia (trata-se do nome da letra grega “η”), quem pensaria no alfabeto grego em se tratando de uma novela de temática caipira? Ou seja, não tem desculpa, foi erro de português mesmo!

Fica aqui a pergunta: será que a Globo não tem nenhum consultor para assuntos de língua dando assessoria aos produtores? Ou será que esses erros são propositais, cometidos por quem subestima a inteligência e a cultura dos telespectadores? Seja como for, senhores diretores da Rede Globo, se precisarem de uma consultoria linguística, estou à disposição. E faço um precinho bem camarada.