A metáfora do museu

O incêndio que destruiu o Museu Nacional no último domingo, 2 de setembro, foi, para repetir o já tão desgastado clichê, uma tragédia anunciada. E que teve dois infelizes precedentes: o incêndio no Museu da Língua Portuguesa em 2015 e o no Instituto Butantan em 2010. Nos três casos, perdas, a maior parte delas irreparáveis, para a história, a ciência e a cultura do nosso país.

Há muito tempo, a pesquisa científica, a preservação do patrimônio histórico e artístico e a de nossas riquezas biológicas vem sendo relegada a segundo, terceiro plano. Nos últimos anos, o orçamento destinado ao Museu Nacional decresceu, resultado de uma crise econômica provocada por incompetência dos governos e de uma corrupção desenfreada, aliada ainda a uma escolha política que prioriza privilégios em detrimento do essencial – saúde, educação, segurança, ciência, cultura.

Conforme explica a renomada neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel em vídeo disponível no YouTube, não existe no Brasil a profissão de cientista. Os cargos de direção dos setores responsáveis pela pesquisa, educação, cultura e patrimônio histórico do governo brasileiro – como, de resto, todos os cargos governamentais – são preenchidos por indicação política e não por critérios de mérito e competência técnica.

Sobre a inversão de valores na eleição das prioridades e a cultura do privilégio, leia-se matéria no site InfoMoney mostrando que a remuneração anual de um juiz ou o custo da troca dos carpetes do Senado poderiam suprir o orçamento do Museu Nacional.

Esse museu era um dos (poucos) motivos de orgulho do país. Com exatos 200 anos de história, o museu detinha 50 milhões de itens históricos, artísticos, arqueológicos, paleontológicos, mineralógicos e outros, incluindo a maior e melhor coleção de egiptologia da América Latina e o fóssil mais antigo de um ser humano habitante das Américas. Isso tudo, além do próprio valor histórico do prédio que o abrigava, lar de um rei e dois imperadores e local da assinatura da declaração de independência do Brasil, ironicamente num mesmo 2 de setembro.

Grande parte desse acervo foi amealhada por Dom Pedro II, homem progressista e entusiasta da ciência. Ao contrário da imagem retrógrada que a República procurou disseminar a respeito da Monarquia, nosso imperador era apaixonado por novidades tecnológicas e tratava de trazê-las ao Brasil tão logo surgiam. Basta dizer que o Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal, três anos após sua invenção na Inglaterra. Ferrovias, cabo telefônico submarino, as primeiras instituições de ensino superior, ideias liberais e abolicionistas, defesa das liberdades e combate ao preconceito foram algumas das contribuições de seu reinado. Muito respeitado no Exterior, Pedro II era um estadista do tipo que nunca mais tivemos no Brasil. Que andava nas ruas travestido de cidadão comum para ouvir as queixas do povo. Que jamais roubou um centavo do erário. Naquela época, nosso país era proporcionalmente mais desenvolvido do que é hoje, não ficando muito atrás das grandes potências da época, como França, Grã-Bretanha e os emergentes Estados Unidos.

O Brasil é uma grande nação, com inúmeras riquezas naturais, um imenso território e um povo trabalhador e criativo, mas que não tem um Estado à sua altura. A nação brasileira é muito maior e melhor do que o Estado brasileiro; na verdade, é o Estado, tal qual está desenhado pela atual Constituição, o grande empecilho a que o Brasil se torne um país desenvolvido e uma potência mundial.

O incêndio no Museu Nacional não deixa de ser uma metáfora do que acontece atualmente no Rio de Janeiro e no Brasil. O descaso dos últimos governos com a coisa pública, com seu ápice no desgoverno Dilma-Temer, fez do Brasil uma nação em chamas, das quais só restará um rescaldo de cinzas. Em que nosso passado, nosso patrimônio, nossa identidade, carbonizados pelo fogo da incompetência e da corrupção, serão da mesma cor que nosso futuro.

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O sentido linguístico da vida

Muitos livros, como As quatro faces do Universo, de Robert M. Kleinman, discutem o sentido da existência (e, particularmente, da existência humana), procurando provar, se é que isso é possível, que a nossa vida tem um propósito. Em muitos casos — este é um deles —, criticam a ciência, acusando-a de limitada, de reduzir a realidade à pura matéria, não dando conta da dimensão “espiritual” da existência. (Será que esses livros dão conta dessa dimensão?)

A ideia de que nossa vida não é mero produto do acaso ou do determinismo físico, que somos mais do que um amontoado de células organizadas pela seleção natural e que temos uma missão a cumprir é inegavelmente reconfortante, ainda que não tenhamos nenhuma garantia de que seja verdade. (Aliás, todas as evidências científicas, que tais livros questionam, apontam em sentido contrário.)

O fato é que vários pensadores, tanto místicos quanto racionalistas, vêm ao longo do tempo buscando uma resposta a essa questão. Para eles, sentido não é apenas propósito, mas direção, isto é, para onde vamos.

Não vou tratar aqui dos aspectos ontológicos do problema, que não teriam nada a ver com um artigo sobre linguagem, mas quero exatamente mostrar o que há de “linguístico” nessa questão.

O emprego da palavra sentido para denominar o propósito da existência não é gratuito: afinal, encontrar sentido em algo é descobrir o seu significado, é relacioná-lo a alguma experiência anterior, a alguma vivência que temos armazenada na memória, tal qual uma palavra, símbolo ou gesto evocam na mente uma imagem, concreta ou abstrata, de algo que conhecemos. O propósito dos signos é justamente significar, representar, ou seja, evocar algo à consciência. Portanto, encontrar sentido na vida, no trabalho ou num relacionamento é compreender o que tudo isso significa para nós, a que sentimentos ou vivências está ligado.

Para o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que se dedicou à relação entre o pensamento e a linguagem, o significado não existe em si, é arbitrário e estabelecido pelo homem. Isso tem uma série de implicações importantes. Em primeiro lugar, remete à ideia, também presente nas ciências da linguagem, de que não vivemos num mundo “real”, mas no mundo artificialmente criado pela nossa própria língua.

Em segundo lugar, sugere que muitos dos nossos conflitos existenciais e ideológicos — Deus existe? Por que há o Ser em vez do Nada? E o que é o Nada? O tempo flui ou somos nós que nos deslocamos nele? Mas, afinal, o que é o tempo? O que não pode ser pensado pode existir? Por que estamos aqui? Qual o sentido da vida? — dependem basicamente do significado (arbitrário e culturalmente estabelecido) que atribuímos às palavras Deus, tempo, Ser, Nada

Mais ainda, dependem da própria existência dessas palavras, o que indica, sobretudo no caso de conceitos abstratos, que, inversamente ao que acontece com objetos concretos, é a palavra que institui a “coisa”.

Os quasares já existiam antes de tomarmos conhecimento deles, isto é, de criarmos a palavra que os designa. Mas será que “propósito”, “sentido”, “missão”, “consciência”, “infinito”, “eternidade” existem objetivamente na natureza ou somos nós que, com nossas palavras, criamos esses objetos?

Segundo consta, nós, humanos, somos as únicas criaturas do planeta a fazer perguntas ontológicas, a questionar a nossa própria existência. E isso se dá exatamente porque somos a única espécie dotada de linguagem. (Observe que falo em “linguagem” e não em “comunicação”, pois esta todas as espécies superiores possuem.) Em outras palavras, é a linguagem que permite a consciência.

Há três grandes mistérios a torturar o intelecto humano: a origem do Universo (e, portanto, de tudo o que existe), a origem da vida e a origem da consciência (isto é, de uma forma de vida que sabe que está viva e que o Universo ao redor existe). Mas este último mistério se prende a um quarto e bem menos explorado: a origem da linguagem, tema que também trato no vídeo Falo, logo existo.

Quatro condições são necessárias à existência da consciência. Em primeiro lugar, vida: seres inanimados não têm consciência (embora alguns filósofos new age afirmem que sim). Em segundo lugar, atividade mental: amebas são vivas mas não conscientes. Em terceiro, memória: só posso compreender que um pássaro em voo está em movimento porque me lembro de que, um instante atrás, ele estava em outro lugar do céu; só posso saber que estou vivo e quem sou porque me lembro do meu passado. Se eu não tivesse memória, cada instante da minha existência seria como o primeiro, e eu viveria um eterno “nascimento”. Enfim, a consciência está ligada à sensação, não importa se real ou ilusória, da passagem do tempo.

Finalmente, a quarta condição para a consciência é a linguagem. Animais superiores, como cães e chimpanzés, são vivos, inteligentes, dotados de memória e, no entanto, não parecem ter consciência de si mesmos além de suas sensações, sentimentos e pulsões de satisfazer necessidades fisiológicas.

Eles amam, sentem medo, fome, libido, procuram por comida ou afeto, mas nunca se fazem perguntas ontológicas. E não porque não tenham palavras (muitos animais domésticos compreendem palavras humanas e as relacionam a objetos ou ações), nem porque não tenham conceitos (eles os têm, pois reconhecem padrões familiares, como a casa, a comida, o rosto ou o cheiro do dono), mas porque não têm como associar conceitos para formar enunciados e sobretudo porque não têm conceitos abstratos.

Somente a linguagem humana realiza abstrações, ou seja, cria um mundo “que não existe” a partir do que existe. Por isso, o maior impasse da filosofia não é descobrir se a realidade que vemos está aí ou não (é bem provável que sim, ainda que não seja exatamente como a vemos); é saber se a realidade que só vemos em nossa mente existe fora dela. Enfim, nossa vida tem algum sentido ou somos nós que damos sentido a ela?

Desvendando a caixa-preta – 2ª parte

Na semana passada, falei sobre a decifração de escritas enigmáticas e, particularmente, sobre o chamado Manuscrito Voynich, uma obra renascentista de 240 páginas que desafia os maiores especialistas em códigos secretos do mundo. Pois, no início deste mês, o historiador britânico Nicholas Gibbs anunciou em artigo publicado na revista The Times Literary Supplement ter finalmente desvendado o mistério.

Em seu artigo, Gibbs afirma que o manuscrito é “um livro de referências de remédios retiradas dos tratamentos padrão do período medieval, um manual de instruções para a saúde e o bem-estar para as mulheres mais abastadas da sociedade, e que muito possivelmente foi escrito para uma única pessoa”.

Durante muito tempo se acreditou que o texto do manuscrito estaria criptografado, isto é, escrito em código. Agora, Gibbs apresenta uma nova teoria a respeito: para ele, os estranhos símbolos que compõem o “alfabeto” do texto são, na verdade, abreviações de termos em latim.

Na Idade Média, era muito comum os copistas utilizarem abreviações para economizar espaço na folha e tempo na preparação dos manuscritos, já que o pergaminho era muito caro e o trabalho era todo manual. Essas abreviações consistiam muitas vezes em ligaduras tipográficas, ou seja, entrelaçamento de duas ou mais letras num único símbolo, como ocorre até hoje com os caracteres “æ” (a + e), “œ” (o + e) e “&” (e + t).

Diz Gibbs: “Como alguém com uma longa experiência na interpretação de inscrições em latim em monumentos clássicos, nas tumbas e em chapas metálicas de igrejas inglesas, reconheci no Manuscrito Voynich sinais reveladores de um formato abreviado de latim”.

E segue: “Para aqueles que estudaram medicina medieval, e possuem um bom conhecimento de suas origens, os médicos clássicos Galeno (129-210 d.C.), Hipócrates (460-370 a.C.) e Sorano (98-138 d.C.) dentre eles, a incorporação pelo manuscrito Voynich de um herbário ilustrado (coleção de remédios de plantas), gráficos de zodíaco, instruções em termas (banhos) e um diagrama que mostra a influência das Plêiades lado a lado não será surpreendente”.

Com base em livros medievais dedicados aos tratamentos de saúde à base de banhos, como Trotula, De Balneis Puteolanis e Herbarium Apuleius Platonicus, Gibbs diz ter reconhecido nas ilustrações do Manuscrito Voynich as velhas receitas de banhos terapêuticos com infusões de ervas sob a suposta influência dos astros que remontam aos médicos e sábios da Antiguidade, como Galeno, Hipócrates e Plínio. Isso explicaria as ilustrações com mulheres nuas imersas em líquidos escuros, ervas diversas e cartas zodiacais: trata-se de um manual sobre doenças ginecológicas e seus tratamentos. Segundo Gibbs, esses tratados costumavam trazer abreviações de palavras em latim, cuja chave para sua decodificação era um índice que acompanhava a obra. No caso do Manuscrito Voynich, esse índice provavelmente se perdeu.

Gibbs afirma ter decifrado pelo menos duas ligaduras: eius e etiam; diversas outras abreviações corresponderiam a palavras relacionadas a plantas e infusões, como aq = aqua (água), dq = decoque/decoctio (decocção), con = confundo (mistura), ris = radacis/radix (raiz) e s aiij = seminis ana iij (3 grãos de cada).

O exemplo de decifração fornecido por Gibbs é o seguinte:

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No entanto, o trabalho de Gibbs recebeu críticas de outros especialistas, para quem o exemplo dado é pequeno demais para sustentar a argumentação do historiador. Para eles, o caso ainda não está solucionado, e serão necessárias mais evidências que comprovem tratar-se realmente de um manual todo grafado com abreviaturas.

Aguardemos os lances dos próximos capítulos.

Desvendando a caixa-preta – 1ª parte

Na pesquisa linguística, não é raro encontrar línguas sobre as quais nada se sabe, como ocorre com expedições que fazem contato com tribos indígenas pela primeira vez. Diante de uma língua que é uma verdadeira “caixa-preta”, sobre a qual não temos informação prévia (não sabemos nada de sua gramática ou vocabulário nem a que família pertence), por onde começar a estudá-la?

Para solucionar o problema, desenvolveram-se técnicas de análise, como a tagmêmica, proposta pelo americano Kenneth Pike na década de 1940 para estudar as línguas ameríndias. A tagmêmica e outras tecnologias similares partem do princípio de que todas as línguas, mesmo aquelas que ainda não conhecemos, têm características universais, como a presença de estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas que obedecem a certas leis gerais.

O primeiro passo nesse tipo de pesquisa consiste em gravar a maior quantidade possível de amostras de fala (línguas de comunidades tribais nunca têm expressão escrita) e analisar o material coletado, muitas vezes com o auxílio de softwares especiais.

Em primeiro lugar, procura-se reconhecer os sons da língua, isto é, as realizações articulatórias que se repetem sistematicamente nas amostras. A partir da comparação entre as falas de vários informantes, é possível determinar quais os sons distintivos de significado (ou seja, os fonemas) e suas variantes (chamadas de alofones). É possível até descobrir quais são variantes pessoais (ligadas aos hábitos articulatórios de um dado falante) e quais são contextuais (determinadas pelo contexto em que ocorre o fonema, isto é, os fonemas que o precedem ou sucedem). Num momento seguinte, pode-se deduzir a estrutura silábica da língua a partir das combinações recorrentes de fonemas.

Na medida em que certas sequências de fonemas se repetem na fala, deduzem-se as palavras. Há dois tipos de palavras que tendem a se repetir num ato de fala: as gramaticais, como artigos, pronomes, preposições, etc., e as palavras-tema, aquelas diretamente ligadas ao assunto da fala. É possível ainda depreender de certas sequências que diferem por um único elemento afixos, desinências e demais marcadores de flexão das palavras.

Reconhecidas as estruturas fonológica e morfológica do idioma em questão, passa-se ao reconhecimento das estruturas sintáticas: determina-se o limite das frases e, sabendo-se previamente quais são as palavras lexicais e gramaticais, procura-se descobrir como elas se combinam, num processo semelhante à análise sintática que se faz nas aulas de português.

Por fim, resta a semântica do texto. Quando pesquisadores interagem com os informantes a fim de obter o registro de sua fala, geralmente apontam objetos ou deixam que os falantes apontem. Com isso, começa-se a relacionar palavras com coisas: o processo evidentemente parte de conceitos mais concretos e corriqueiros até chegar a abstrações complexas.

Uma situação semelhante a esse tipo de investigação são os métodos de decifração de códigos secretos. A lógica deles é a mesma das tecnologias de descrição de línguas desconhecidas, com a diferença de que os códigos secretos se apresentam em mensagens escritas (geralmente numa simbologia também secreta).

Exemplo disso é o código Voynich, um misterioso manuscrito, datado pela técnica do carbono 14 como sendo do século 15 ou 16, escrito num alfabeto desconhecido e ilustrado com imagens de plantas, mapas astronômicos e mulheres nuas imersas em vasos de líquido escuro. O manuscrito leva o nome do livreiro americano de origem polonesa Wilfrid Michael Voynich, que o adquiriu em 1912 na Itália.

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O caso Voynich

O documento está redigido da esquerda para a direita (é possível deduzir isso a partir do alinhamento da última linha de cada parágrafo) num alfabeto de cerca de 40 caracteres, alguns dos quais aparecem uma única vez em todo o texto (mais ou menos como k, w e y aparecem raramente nos textos em português). Todas as tentativas de decifrá-lo fracassaram, até as dos maiores especialistas em criptografia que atuaram na Segunda Guerra Mundial.

Chegou-se a cogitar que o manuscrito não passasse de um embuste, um texto sem nexo escrito no século 16 num alfabeto fictício para ser oferecido às cortes europeias, que então pagavam fortunas por obras esotéricas. Uma carta de 1666 adquirida junto com o documento afirmava ter ele pertencido ao imperador germânico Rodolfo II e sido escrito pelo filósofo medieval inglês Roger Bacon. A novidade é que cientistas têm utilizado técnicas de estatística linguística para verificar se a distribuição dos caracteres e palavras no texto é compatível com o padrão das línguas naturais.

Um artigo publicado há alguns anos por físicos brasileiros na revista PLoS One (mais informações em revistapesquisa.fapesp.br/2013/08/13/o-codigo-voynich) explica como eles utilizaram algoritmos que permitem detectar palavras-chave no texto (mais ou menos como faz o Google em suas buscas), bem como elaboraram redes de dispersão que medem o grau de proximidade ou distância entre palavras.

Até agora, os resultados apontam para padrões compatíveis com os de textos dotados de significado. O problema, neste caso, é que o manuscrito Voynich não está relacionado a nenhum referencial externo – exceto as próprias figuras do texto –, o que dificulta o reconhecimento de uma semântica subjacente.

Muitas hipóteses já foram aventadas sobre sua origem, desde a transcrição fonética por um europeu, num alfabeto inventado, de um texto ditado por um nativo do Leste asiático, até a atribuição da autoria do manuscrito a sábios medievais e charlatães renascentistas. Recentemente, um historiador britânico afirmou ter descoberto a chave para decifrar o enigmático documento. Mas isso é assunto para a próxima semana.

O que importa é que a busca pelo significado do código Voynich tem representado um belo exercício de aplicação das teorias linguísticas a um fim particular – no caso, a decifração de um texto engenhosamente criptografado.

Qualquer que seja a língua na qual o código foi redigido, se é uma língua natural, então deve obedecer aos princípios fonológicos e morfossintáticos que regem todos os idiomas, e, portanto, a utilização de tecnologias de análise como a tagmêmica deve produzir resultados satisfatórios também nesse caso.

Topônimos portugueses que se perderam

O português é, das grandes línguas de cultura da Europa ocidental, a menos difundida. Embora a comunidade lusófona seja uma das maiores do mundo, idiomas de comunidades relativamente menores, como o italiano e o alemão, despertam mais interesse do que a nossa língua por força do peso de suas respectivas culturas. Não fosse talvez a crescente presença brasileira no cenário internacional, essa situação seria ainda pior.

No entanto, entre os séculos 15 e 16, Portugal foi uma grande potência marítima e comercial, que deixou sua marca em muitos topônimos ao redor do globo. Lastimavelmente, isso também foi se perdendo com o tempo, à medida que cidades e países batizados pelos portugueses tiveram seus nomes trocados ou então modificados pela fonética estrangeira.

Na África, Camarões, Serra Leoa e Moçambique, dentre outros, são denominações portuguesas. Na Ásia, nossa língua nomeou Formosa; no Canadá, a terra do Lavrador e, na Argentina, o estreito de Magalhães. Só que, hoje, pouco ou nada resta desses nomes nos outros idiomas – em alguns casos, nem no nosso.

A República dos Camarões é “Cameroun” em francês, “Cameroon” em inglês e “Camerún” em espanhol, todos originários dos holandês “Cameroen” (pronunciado /kamerun/), que adaptou um pouco a grafia e muito a pronúncia do nome original.

Serra Leoa é internacionalmente conhecida por “Sierra Leone”, corrupção do espanhol “sierra leona” talvez por influência do francês. A península canadense também se chama (inclusive em português atual) Labrador, forma hispânica que suplantou a nossa.

Por sinal, topônimos como Moçambique e Iguaçu também são grafados nas demais línguas à moda espanhola (Mozambique, Iguazu), quem sabe por aversão ao cê-cedilha, que a maioria dos alfabetos estrangeiros não possui.

Que Formosa passou a Taiwan os mais velhos ainda se lembram, pois essa mudança se consolidou em português há poucas décadas. Enquanto isso, a denominação chinesa já era a única conhecida na maioria dos países.

Finalmente, o estreito de Magalhães se chama Magellan em vários idiomas (em espanhol é Magallanes). O próprio Fernão de Magalhães, que emprestou seu nome ao acidente geográfico, é conhecido no exterior por Ferdinand Magellan. Tanto que quase nenhum falante do português deve saber que o nome da sonda espacial norte-americana Magellan – que também já foi marca de software – é uma homenagem ao navegador luso.

Morte morrida e morte matada

O grego tem dois adjetivos, ambrósios e athanásios, para designar o que chamamos em português de “imortal”. Mas há uma diferença entre eles que nós não fazemos. Ambrósios significa literalmente algo como “imorrível” (ou “imorredouro”, como manda o bom português); já athanásios quer dizer “imatável”. Estranho? Pois, se para nós tanto faz, os gregos distinguiam duas situações que não são, a rigor, idênticas. Nós, seres humanos, somos, digamos assim, morríveis e matáveis, pois podemos morrer tanto de “morte morrida” (por causas naturais) quanto de “morte matada” (por acidente ou crime). Mas há seres – pelo menos em tese – que podem morrer espontaneamente mas não ser mortos, enquanto outros só morrem quando assassinados, nunca de morte natural. Exemplos? Um vampiro é uma criatura condenada à vida eterna, exceto se alguém lhe cravar uma estaca ao coração ou o alvejar com balas de prata. Ou seja, o vampiro é matável, mas não morrível. Já os vírus morrem espontaneamente após concluir o ciclo de infecção do organismo, mas até agora a medicina não desenvolveu nenhum medicamento capaz de fulminá-los. Por isso, quando se está gripado, é usual tratar os sintomas e esperar pacientemente o ciclo infeccioso chegar a seu fim por si próprio. Dito de outro modo, vírus são morríveis mas não matáveis – pelo menos por enquanto.

Essa distinção entre o matável e o morrível, o matado e o morrido, tem, aliás, implicações gramaticais. Se “estar” indica estado transitório, e “ser”, condição definitiva, por que se diz que alguém “está morto” e não que “é morto”, se a morte é definitiva? Afinal, não é pela mesma lógica que se diz que fulano “está resfriado” (mal passageiro), mas “é diabético” (doença sem cura)? A razão é que “morto” é particípio breve de dois verbos em português: “matar” e “morrer”. Portanto, “morto” significa tanto “matado” quanto “morrido”. Como muitos verbos em português admitem dois particípios, um longo e um breve (entregado/entregue, aceitado/aceito, pagado/pago, suspendido/suspenso, acendido/aceso, etc.), convencionou-se que, com os verbos “ser” e “estar”, deve-se usar o particípio breve, e com “ter” e “haver”, o longo. Mas, se digo que o leão foi morto pelo caçador, o que quero dizer é que o caçador havia matado o leão (o leão foi “matado” pelo caçador). Já se digo que o leão está morto, é porque ele havia morrido (isto é, está “morrido”). Logo, se, ao encontrar o cadáver do leão, eu dissesse que ele “é morto” em vez de “está morto”, estaria me referindo à ação de matar e não ao estado de alguém que morreu.

Por sinal, um comentarista esportivo da televisão, aludindo, certa feita, à frase de Pelé de que no futebol é preciso matar um leão por dia para provar que se é caçador, disse que “neste campeonato, um leão é matado a cada jogo”.

A divulgação científica no Brasil, o lugar da linguística – e o meu lugar nisso tudo

Sempre fui apaixonado por duas coisas: arte e ciência. Vejo mesmo muita semelhança entre ambas. Afinal, ambas são produtos do espírito, formas de invenção (sim, a ciência não é só descoberta, ela é em grande parte criação, construção) e, de certa forma, ambas buscam a beleza, a elegância, a regularidade. A arte e a ciência são, por isso mesmo, o território do talento e da genialidade. A grande diferença entre elas é que a arte está quase totalmente voltada ao público em geral e tem como missão primeira ou única o entretenimento, ao passo que a maior parte da produção científica se volta ao próprio meio acadêmico e visa a solucionar problemas práticos do ser humano.

É verdade que há as artes aplicadas, como o design de embalagens, por exemplo, mas, quando se fala em arte, é nas exposições, nos espetáculos, nos concertos e shows, nos livros de ficção que se pensa. Ao contrário, a palavra “ciência” nos remete as mais das vezes a um laboratório de pesquisa, a pessoas de jaleco branco, a fórmulas matemáticas ininteligíveis… Se há um lado cultural e de entretenimento na ciência, é o da divulgação científica, também conhecida como popularização científica ou popularização do saber.

Confesso que eu sempre quis ser artista, mas a vocação que me faltou para as artes acabou se revelando na atividade científica. Para quem não sabe, cursei cinco semestres de física antes de perceber que a minha aptidão e o meu destino eram mesmo a linguística. Mas, mesmo como cientista, nunca deixei de ter o imenso desejo de me comunicar com a sociedade e não só com meus colegas. Tampouco perdi de vista que o conhecimento científico, mesmo oferecendo soluções tecnológicas para os problemas sociais, só se justifica plenamente quando chega, ele próprio, às pessoas. Afinal, todos nós usamos a tecnologia provida pela ciência todos os dias, mas poucos de nós são capazes de discutir temas científicos, ainda mais quando contrapostos a crendices populares, opiniões subjetivas e dogmas religiosos. Cabe ao divulgador científico a missão de tornar a ciência um assunto palatável e, mais do que isso, agradável.

No mundo desenvolvido, há uma grande oferta de produtos culturais ligados às ciências e às humanidades: livros de divulgação escritos por grandes cientistas, palestras públicas de pesquisadores e intelectuais, exposições de ciência, e muito mais. Os países que mais produzem conhecimento científico são também os que mais se preocupam em difundir ciência ao público leigo. Embora em todos os lugares a porcentagem de cientistas que divulgam abertamente seu trabalho seja relativamente pequena em relação ao total de pesquisadores, no Brasil ela é menor ainda. Ou seja, ainda não desenvolvemos uma cultura de difusão pública do saber com propósito cultural. Na área da filosofia, já temos alguns “pop stars”, como Mário Sérgio Cortella, Lenadro Karnal e Luiz Filipe Pondé; nas ciências naturais, nossos maiores divulgadores são o físico Marcelo Gleiser e a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que, no entanto, vivem e trabalham nos Estados Unidos.

A realidade é que não temos no Brasil figuras do alcance e abrangência – e talvez nem do talento – de um Carl Sagan na astronomia, de um Richard Dawkins na biologia, de um Stephen Hawking na física… E estes, juntamente com o matemático Keith Devlin e os linguistas David Crystal e Steven Pinker, são meus ídolos desde sempre.

O fato é que eu sempre tentei humildemente fazer divulgação científica no Brasil com os recursos que eu tinha disponíveis. E, pior ainda, divulgação de uma ciência que sempre teve pouco prestígio e pouquíssima difusão entre nós: a linguística.

Embalado pelos meus ídolos, me lancei a escrever uma coluna mensal na extinta revista Língua Portuguesa e depois um blog semanal no portal da mesma revista, falando sobre os aspectos curiosos e interessantes da(s) língua(s), sempre com viés científico, mas em linguagem acessível aos leigos razoavelmente escolarizados.

Após o fim da revista, decidi continuar por conta própria meu trabalho de cronista da língua por meio deste blog pessoal. Também compilei meus principais artigos em livro que aguarda uma editora interessada em publicá-lo.

Capa Canal Planeta Língua - Pedro

E agora, acabo de dar meu passo mais importante até o momento nessa trilha da divulgação do conhecimento sobre a nossa língua, as outras línguas e a linguagem humana em geral: lancei um canal no YouTube. Pois é, já está no ar o canal Planeta Língua. Nele, toda sexta-feira vou postar um vídeo novo tratando de algum assunto referente a esse universo, além de entrevistar pessoas da área ou que de alguma forma tenham a ver com ela, comentar livros e responder às perguntas do público sobre linguística, gramática, origem das palavras e o que mais aparecer. Vocês, meus leitores, estão obviamente convidados a visitar o canal e, se gostarem, a inscrever-se nele, curtir, comentar e compartilhar os vídeos, além de enviar perguntas e sugestões de pauta.

Confesso que não está sendo pequena essa empreitada, pois elaborar vídeos dá muito trabalho, desde a escolha do tema, a pesquisa a respeito, passando pela roteirização, filmagem, edição, finalização, até chegar à publicação e subsequente divulgação nas mídias sociais. E isso toda semana para que, na sexta-feira, chegue até vocês conteúdo fresquinho e de qualidade. Como não leciono mais, hoje trabalho full time com pesquisa e divulgação científicas. Para ajudar a custear todo esse trabalho, também lancei o canal na plataforma Patreon, que angaria patrocinadores, isto é, pessoas comuns, incluindo seguidores do canal e apreciadores do meu trabalho, que estejam dispostas a dar uma pequena contribuição mensal (simbólica mesmo) para manter o canal no ar com qualidade e periodicidade. Em troca, ofereço a esses “patronos” alguns privilégios que, com o progresso do canal, tenderão a ficar cada vez maiores.

Enfim, o carinha que ama música mas é desafinado e toca mal violão, que sonhava gravar discos e dar shows mas acabou escrevendo livros e artigos e dando palestras e aulas sobre língua agora também é vlogueiro – isso mesmo, vlogueiro com “v” de vídeo. Confiram e vejam se tenho futuro.

A quem pertence a Seleção Brasileira?

A cada quatro anos, em época de Copa do Mundo de Futebol, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico. Afinal, Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, a derrota da seleção brasileira no Mundial é vista como uma derrota da nacionalidade, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de quatro anos atrás, a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos – e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol não cria mais uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados. Quem está desempregado e desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise econômica e sobretudo moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torci pela Seleção. E claro que eu fiquei chateado com a desclassificação. Mas em nenhum momento deixei que esses sentimentos se misturassem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desviei minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.

Quantas línguas portuguesas existem?

De todas as línguas transcontinentais, isto é, faladas em mais de um continente, o português me parece a mais problemática em termos de difusão mundial. Em que pese o grande número de falantes (273 milhões), que a torna a quinta língua nativa mais falada do mundo, o português é pouco conhecido e frequentemente confundido com seu irmão mais famoso, o espanhol. Aliás, a importância que este último assumiu nas décadas mais recentes como língua internacional, somada à semelhança entre ambos os idiomas, explica em parte porque o português acaba ofuscado. Mas não é só isso. Nossa língua também padece de problemas intrínsecos que embaraçam os estrangeiros que queiram aprendê-la. A acentuada diferença entre as variedades lusitana e brasileira em termos não só de pronúncia e léxico, mas principalmente de sintaxe, têm obrigado até mesmo sites internacionais, softwares e aplicativos a disponibilizar textos redigidos em ambas as variedades. Nada semelhante ocorre em relação ao inglês, francês e espanhol, as outras grandes línguas internacionais e intercontinentais.

A distância entre as variedades europeia e brasileira do português fez o linguista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, chegar a propor que o português brasileiro seja considerado um idioma distinto do lusitano. Claro que ainda não chegamos a esse ponto, e tal separação teria hoje um caráter mais político do que linguístico, mas o fato é que, de certa forma, caminhamos a passos largos para essa cisão se não houver esforços de ambos os lados para uma reaproximação das variedades.

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Outro dia, recebi por e-mail o anúncio de um determinado serviço de armazenamento de dados em nuvem com o seguinte título: “Está a procurar mais espaço para a partilha de ficheiros? Temos a melhor solução para si”. Em português brasileiro, teríamos “Você está procurando mais espaço para o compartilhamento de arquivos? Temos a melhor solução para você”. O estranhamento que a frase em português luso me provoca é quase tão grande quanto seria se eu estivesse lendo um anúncio em outro idioma. Essa mesma chamada publicitária não precisaria de duas versões caso fosse escrita em espanhol, francês ou inglês. Bastaria redigir “¿Está buscando más espacio para compartir archivos? Tenemos la mejor solución para usted” que na Espanha e em toda a América espanhola todos entenderiam sem dificuldade e sem estranheza. Bastaria dizer “Cherchez-vous plus d’espace pour partager des fichiers? Nous avons la meilleure solution pour vous” que todos os falantes do francês se identificariam imediatamente com a mensagem. Bastaria escrever “Are you looking for more space for sharing files? We have the best solution for you” e todo o mundo anglofalante reconheceria ali seu idioma. E vejam que todas essas línguas também têm variedades nacionais distintas.

Em inglês, há duas grandes vertentes, a britânica e a americana, com vocabulários em pequena parte diferentes e mesmo grafias distintas aqui e ali. Em espanhol, há pequenas diferenças vocabulares de país a país e, na região platina (Argentina, Uruguai, Chile), ocorre também o uso de um pronome pessoal vos que não se usa na Espanha e restante da América; em compensação, os espanhóis utilizam o pronome vosotros, que na América Latina já caiu há muito em desuso. Fora isso, o castelhano é uma língua bastante homogênea. Entre o francês europeu, o americano (Canadá, Haiti, Antilhas Francesas, Guiana Francesa) e o africano há umas poucas diferenças lexicais e só.

Embora o aspecto que mais salte à vista – ou melhor, ao ouvido – na distinção das variedades lusa e brasileira seja a pronúncia, o fato é que fortes diferenças de pronúncia existem em todas as línguas, especialmente nas transnacionais, isto é, as faladas em vários países. Diferenças de vocabulário também são frequentes, embora no caso do português tais diferenças atinjam não só palavras de uso muito corrente como até nomes próprios de cidades e nações.

Quanto às divergências gráficas, só o português e o inglês as têm, com a ressalva de que em inglês a diferença de grafia não implica diferença de pronúncia; já em português palavras como “fato” e “facto”, “gênio” e “génio” efetivamente soam de modo distinto lá e cá, o que dificulta a unificação ortográfica.

Mas, já que o português lusitano e o brasileiro estão mais distantes entre si do que o espanhol ibérico e o latino-americano, o inglês britânico e o norte-americano, ou ainda o francês europeu e o ultramarino, é necessário não só que haja uma reaproximação cultural entre Brasil e Portugal, com efetivo intercâmbio de bens de cultura (hoje o fluxo de produtos culturais parece unidirecional, do Brasil para Portugal, vide telenovelas, filmes, música popular, Rock’n’Rio, etc.), como também que haja uma unificação da norma culta, vale dizer, que, pelo menos no registro formal, portugueses e brasileiros se expressem da mesma maneira. É claro que a língua falada continuará com suas peculiaridades regionais, mas ao menos os manuais de instruções e outros documentos de circulação internacional seriam redigidos de modo uniforme.

Evidentemente, para que isso ocorra é preciso que se façam algumas escolhas. “Trem” ou “comboio”? “Ônibus” ou “autocarro”? “Guarda-roupas” ou “guarda-fatos”? “Moscou” ou “Moscovo”? “Bagdá” ou “Bagdade”? “Estou fazendo” ou “estou a fazer”? “Tem trabalhado” ou “tem vindo a trabalhar”? Eu particularmente penso que deveríamos preferir as formas mais consoantes às demais línguas europeias. Alguns regionalismos seriam mantidos, como ocorre em todas as línguas. É o caso, por exemplo, de chamar “filão de pão” de “cacete” ou “chope” de “imperial”. Mas nomes próprios e palavras de alta frequência deveriam ser uniformizados, e essa norma padrão única, ensinada em todas as escolas de todos os países lusófonos.

É claro que para isso precisaríamos vencer o bairrismo dos portugueses e a péssima escolarização dos brasileiros.

As bases da educação

O Brasil tem finalmente uma base comum curricular nacional, que garante igualdade de conteúdo a todos os estudantes, em todas as escolas. Também tem um novo currículo para o ensino médio, mais flexível do que os anteriores, portanto mais afinado com as demandas da realidade atual. No entanto, além de a qualidade do ensino no Brasil continuar péssima, principalmente na escola pública, não fica muito claro a que interesses ele serve – ou tenta servir.

A indústria, por exemplo, pleiteia por meio de suas federações um ensino focado em competências, já que hoje os jovens entram totalmente despreparados no mercado de trabalho. Entretanto, competência é diferente de conhecimento, e uma educação centrada nela na verdade forma apertadores de botões e não cabeças pensantes. Certamente porque, na visão dos empresários, um trabalhador não precisa ser mais do que um autômato sofisticado, que até pode e deve tomar certas decisões, desde que restritas ao escopo de sua tarefa. Em outras palavras, o operário deve ser intelectualmente superior a uma máquina, mas não precisa ser – e é melhor que não seja – um cidadão.

Mas será que a escola serve apenas para formar mão de obra? Será que o ensino, especialmente o público, deve estar somente a serviço do mercado de trabalho? Eu particularmente penso que não, até porque a formação de profissionais deve estar a cargo do ensino profissionalizante, seja ele de nível médio ou superior. O ensino básico, e dentro dele mais especificamente o ensino fundamental, deve estar voltado antes de mais nada à formação de cidadãos. Não acho que seja dever da escola transmitir aos estudantes noções que eles deveriam aprender em casa, como civilidade, boas maneiras e respeito ao próximo, e nesse sentido acho que a escola pública, justamente por não ser um comércio como é a privada, tem o direito de ser coercitiva com pais de alunos que abdicam do dever de educar seus filhos. Como bem diz o educador e filósofo Mário Sérgio Cortella, à escola cabe escolarizar, o dever de educar é da família.

Por isso mesmo, acho que se perde muito tempo com disciplinas como educação sexual, ideologia de gênero e educação para o trânsito, e com isso se desobriga as famílias de tratar esses temas com as crianças e adolescentes. (Aqui um parêntese: é claro que eu não ignoro que na escola pública há muitos filhos de famílias desestruturadas, incapazes de educá-los adequadamente, mas não seria justamente tarefa da educação contribuir, junto a outros órgãos públicos, para o combate a esse problema?) Enquanto a escola pública dá peixes em vez de ensinar a pescar, aquilo que eu considero realmente o objetivo principal da escola, a transmissão de conhecimento e a formação do senso crítico, acaba se perdendo.

Mas então que bases a educação deveria ter no meu entendimento? Não sou pedagogo e jamais dei aulas a não ser em universidades, mas, como fui professor e sou acima de tudo um cidadão consciente, me permito opinar, até porque a educação formatada pelos especialistas do governo definitivamente fracassou, o que me dá certo crédito para também dar meus pitacos.

Defendo uma educação assentada basicamente em quatro pilares:

1) Ética e cidadania. Embora eu acredite que os valores éticos devam vir de casa, isto é, do berço, penso que certas questões, como a corrupção e a ética na política são às vezes complexas demais para que os pais lidem com elas sozinhos. Por isso, acho bem-vindo o reforço desses valores na escola, mesmo porque é este o primeiro espaço público que a criança frequenta e onde ela pode pôr em prática aquilo que aprende em casa na teoria. Honestidade, lisura, respeito ao outro e à coisa pública, noções de justiça, equidade e solidariedade, além da compreensão do funcionamento das instituições (mas, por favor, nada chato como as antigas aulas de Educação Moral e Cívica, hein!) são essenciais à formação do cidadão. Além disso, deve haver uma base lógica no ensino da ética, isto é, que mostre ao aluno que, sendo éticos, todos ganham, ao passo que, numa sociedade sem ética, mais cedo ou mais tarde todos perdem. Que faça o estudante sentir a ética não como uma obrigação, mas como uma necessidade. Aqui eu embutiria até o ensino da teoria dos jogos de Neumann e Morgenstern, mas, evidentemente, sem seu arcabouço matemático altamente abstrato, focando, em vez disso, situações concretas do dia a dia.

2) Raciocínio lógico e senso crítico. Ao contrário do que se poderia pensar num primeiro momento, o exercício da lógica não é útil apenas às profissões das áreas de Exatas, Economia e Gestão, mas todo aquele que não pensa logicamente acaba sendo ludibriado, portanto todo cidadão que se preze precisa ser capaz de perceber as falácias do discurso alheio, compreender onde está o “pulo do gato”, distinguir a verdade da mentira e desenvolver o senso crítico que o tornará imune a manipulações, seja da mídia, dos políticos ou de líderes religiosos. Defendo mesmo a inclusão da disciplina Lógica no currículo escolar, cujo ensino se faça não sobre esquemas abstratos como os da lógica matemática mas sobre situações do cotidiano, como a análise de propagandas, discursos políticos e outros. Por sinal, um ótimo adjuvante no ensino da lógica é a prática do xadrez. Países de Primeiro Mundo ensinam as crianças a jogar xadrez, e não é inútil lembrar que os estrategistas russos que derrotaram o exército nazista na Segunda Guerra Mundial eram todos exímios enxadristas. Outra ferramenta que viria a calhar é a Análise do Discurso, mais uma vez sem grandes teorizações, mas com foco na desmontagem e desnudamento das informações que nos bombardeiam todos os dias.

3) Método científico. Defendo uma grande ênfase no ensino de matemática e ciências da natureza (física, química, biologia), mas não como uma mera decoreba de fórmulas que serão cobradas no vestibular, pois o ensino da fórmula sem a compreensão do raciocínio que lhe deu origem transforma a ciência num conjunto de dogmas comparável à sua grande antítese, que é a religião. Nenhuma forma de conhecimento é tão precisa e poderosa quanto a ciência, contudo muito poucas pessoas dão crédito a ela porque não a entendem e, com isso, preferem confiar na opinião do amigo, do vizinho, do pastor, do político, do vendedor… Compreender o método científico, isto é, como funciona a mente do cientista, como ele observa e testa a realidade à sua volta, e como utiliza o raciocínio lógico para chegar a um conhecimento que funciona na prática e que se autocorrige quando erra, é mais importante para o cidadão comum, qualquer que seja a sua profissão, do que a simples memorização de fórmulas matemáticas. Claro que sem as fórmulas não se faz ciência, mas sem raciocínio lógico e primazia do fato e da prova sobre a opinião e a crença, não se têm cidadãos críticos e sim marionetes nas mãos dos poderosos. Portanto, que se ensine a teoria, mas que se mostrem também os dilemas que perturbaram os grandes cientistas, sua luta contra a tirania da Igreja e o dogmatismo da religião, o modo como encontraram soluções criativas e respostas plausíveis a grandes problemas sem jamais apelar para o sobrenatural, bem como todos os benefícios que a ciência nos proporciona todos os dias.

4) Gramática, leitura e redação. É mais do que óbvio que cidadãos bem formados precisam dominar a norma culta, sobretudo sabendo quando devem usá-la e quando não, assim como precisam saber se expressar nela e entender o que significam os textos que leem. Neste ponto, tenho uma posição intermediária entre os gramáticos conservadores, que defendem um ensino eugenista de uma norma padrão ultrapassada, baseada nos clássicos literários de outros séculos e no uso lusitano da língua, e os pseudolinguistas pós-modernosos, para quem basta que o destinatário compreenda a mensagem e tudo bem. De um lado, sempre defendi a modernização e a racionalização da gramática normativa, mas, de outro, penso que é o português culto que tem de ser o objeto de estudo das aulas de Língua Portuguesa, pois no registro popular os alunos já são proficientes. Tenho visto aulas de português que utilizam até letras de funk como objeto e sinceramente não vejo como isso possa contribuir para a formação linguística do estudante; no máximo, funciona como entretenimento.

Quanto à leitura, me parece óbvio que quem lê mas não compreende não se informa, e quem não tem informação é presa fácil dos manipuladores de consciências. Mais do que isso, vivemos num mundo em que até a compreensão de um manual de instruções ou bula de remédio pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Por fim, o cidadão que não sabe se expressar linguisticamente em nível formal não obtém bons empregos, não consegue exigir seus direitos nem se fazer entender pelos outros; creio mesmo que quem se expressa mal no fundo raciocina mal.

Fica aqui, portanto, a minha humilde contribuição para a melhoria da educação em nosso país. Comentários e críticas, como sempre, são bem-vindos.