A distância entre língua e dialeto

Uma das distinções mais nebulosas da linguística continua criando polêmica entre os curiosos

O Brasil, frequentemente se diz, é um país de sorte porque, apesar das dimensões continentais, aqui não há dialetos – todos falamos a mesma língua. Também é comum ouvir que as línguas europeias têm muitos dialetos ou que na África as línguas oficiais (dos colonizadores) convivem com dialetos nativos. O que é, então, língua e dialeto?

Para o linguista Max Weinreich, “língua é um dialeto com um exército e uma marinha”. Não está longe da verdade. Afinal, a tradicional distinção entre língua e dialeto está fundada em critérios mais políticos do que linguísticos.

Língua é um sistema de comunicação formado de sons vocais (fonemas), que se agrupam para formar unidades dotadas de significado (morfemas), que se agrupam para formar palavras, que se agrupam (ih, ficou monótono!) para formar frases, que se agrupam para formar textos.

Do ponto de vista estritamente linguístico não há nada que distinga língua de dialeto. Ambos os sistemas têm léxico (um inventário de palavras) e gramática (conjunto de regras de como as palavras se combinam para formar frases, parágrafos e textos). Quem fala um idioma nacional e um dialeto regional é tão bilíngue quanto quem fala dois idiomas. Então por que alguns sistemas são chamados de idiomas e outros, não?

Dialeto vem do grego diálektos, composto de diá, “através”, e léktos, “fala”. Seria, segundo alguns, uma espécie de fala “atravessada”, um linguajar defeituoso, não conforme às normas do falar estabelecidas pelos gramáticos. A primeira definição de dialeto (que, por sinal, teria inspirado as posteriores) baseava-se numa visão preconceituosa que a elite ateniense do período clássico tinha em relação à fala tanto das camadas populares quanto dos estrangeiros (não-atenienses, inclusive gregos de cidades vizinhas).

Hoje, costuma-se chamar de dialeto qualquer expressão linguística que não seja reconhecida como língua oficial de um país. Assim, um dialeto pode ser tanto uma variedade linguística regional do idioma oficial quanto uma língua sem qualquer parentesco com ele.

O occitano (ou provençal) e o bretão, falados na França, são tidos como dialetos. O primeiro é uma língua românica aparentada ao francês, que já produziu uma esplêndida literatura séculos atrás. Já o bretão é uma língua pertencente à família celta, sem parentesco direto com o francês. Hoje, ambas são usadas, em escala regional e paralelamente ao francês, na conversação diária e na comunicação de massa.

Em geral, o que faz uma língua ser considerada dialeto e não idioma é a ausência de literatura ou de tradição literária, o seu não reconhecimento pelo Estado ou mesmo a sua falta de prestígio. Alguns dialetos reúnem essas três condições, mas basta que uma esteja presente para que um falar regional veja irem por água abaixo suas aspirações de ser língua.

Em relação à presença de literatura, é preciso lembrar que algumas línguas ágrafas, como as nativas da África e da América, têm rica literatura oral, transmitida por gerações em séculos. Mas, para as línguas europeias, ciosas de sua tradição escrita, elas não possuem literatura simplesmente por não produzirem livros.

Critérios

O reconhecimento de uma variedade linguística como língua é uma questão meramente política. O catalão foi reconhecido pela Espanha como língua oficial, ao lado do castelhano, galego e basco, depois de ter sido violentamente reprimido pela ditadura franquista. Em Barcelona, é possível comprar edições bilíngues de diários como El Periódico de Catalunya, em catalão e espanhol, cem páginas cada. Sua língua-irmã, o occitano, não é reconhecida pelo governo francês, que teme uma onda de separatismo, já que o reconhecimento de uma língua é o primeiro passo para a afirmação de nacionalidade.

A questão mais delicada é a que diz respeito ao “prestígio” de uma variedade. Alguns falares, mesmo próximos da língua-padrão, são estigmatizados por motivos históricos ou sociais. No Brasil, que busca lugar no olimpo do Primeiro Mundo, tudo o que lembre o passado rural é alvo de desprezo. Daí o preconceito contra o dialeto caipira e o nordestino, eleitos como ícones do atraso cultural.

Na tentativa de estabelecer uma distinção entre língua e dialeto que não se apoiasse em fatores políticos ou sociológicos, alguns buscaram critérios relacionados aos aspectos comunicacionais. O linguista romeno Eugenio Coseriu propôs o chamado critério da intercompreensão, segundo o qual dois falares podem ser considerados dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes.

Esse critério não é muito bom, porque se apoia num dado subjetivo: o grau de intercompreensão entre falantes. Falantes do português e do espanhol podem entender-se relativamente, portanto seriam dialetos, segundo Coseriu. Já o português e o francês seriam línguas distintas, de acordo com o mesmo critério. Mas e o italiano em relação ao português?

Irmãos separados

Como os falares vão diferindo pouco a pouco à medida que nos deslocamos num dado território, é natural que a comunicação entre moradores de duas aldeias vizinhas seja total, ao passo que o diálogo entre habitantes de cidades distantes milhares de quilômetros é quase impossível.

Além disso, esse critério era válido enquanto a escolarização e os meios de comunicação não uniformizaram a linguagem nos territórios nacionais. Na Idade Média, quem viajasse de Paris a Florença percebia a lenta mudança que os falares sofriam no caminho, sem ruptura ou descontinuidade. Hoje, o francês de Paris e o italiano de Florença, idiomas oficiais da França e da Itália, convivem na fronteira entre esses dois países.

Estima-se que nos próximos cem anos 90% das línguas desaparecerão, a maioria por não ter o status de idiomas nacionais, sendo em muitos casos línguas ágrafas, de comunidades tribais. A causa dessa extinção em massa de línguas é a pressão dos idiomas de cultura, seja o idioma nacional do país, seja o inglês como língua global. Nas comunidades tribais da África e da América, o imperialismo linguístico-cultural branco tem mais um forte aliado: os pregadores religiosos de seitas cristãs fundamentalistas, que combatem não só as crenças mas também as línguas dos nativos como “coisa do diabo”. Ou seja, hoje em dia língua também é um dialeto com um missionário.

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Palavra da semana: raivosidade

Na semana que passou, a língua portuguesa viu surgir uma nova palavra. É que, quarta-feira passada, o presidente Michel Temer disse em discurso que é preciso pacificar o país, já que os brasileiros vivem ultimamente um clima de certa “raivosidade”. Com certeza, o Presidente estava referindo-se à atmosfera de raiva (eu diria melhor, de ódio) que divide o nosso povo em petistas e antipetistas. E pediu licença para empregar o termo, já que ele próprio deve ter a consciência de que esse vocábulo não está dicionarizado.

Até aí, nenhum problema. Afinal, usamos todos os dias palavras que ainda não chegaram ao “estado de dicionário”, como diria Drummond. O problema é que parte da imprensa, fazendo coro aos defensores do purismo em questões de língua, se insurgiu contra o inusitado neologismo. Muitos disseram categoricamente que essa palavra não existe. Para estes, uma palavra só existe quando consta nos dicionários, esquecendo-se de que o dicionário é uma fotografia do passado: a língua do dia a dia, tanto a oral quanto a escrita, está sempre inovando, e somente algum tempo depois que o uso de determinado termo se generaliza é que os dicionários vão lavrar sua certidão de nascimento. Logo, dicionários e gramáticas são sempre mais conservadores que a língua viva.

Se fôssemos obrigados a utilizar somente as palavras de que já dispomos, a língua não evoluiria. Consequentemente, o léxico da língua portuguesa ainda seria o mesmo do século XII, época dos primeiros registros escritos da última flor do Lácio, inculta e bela.

Foram até veiculadas na imprensa sugestões de como o Presidente deveria ter-se expressado. Um professor de português assinalou que Temer poderia ter simplesmente empregado “raiva” em lugar de “raivosidade”, visto que esta última forma é um substantivo abstrato que indica qualidade de raivoso; e que raivoso é aquele que sente raiva. Portanto, raiva e raivosidade seriam sinônimos; logo, por que inventar uma palavra se já temos outra de mesmo significado?

Outro professor de português (é interessante como certos professores de português se sentem os guardiões da pureza do vernáculo) argumentou que existe na língua a palavra “nervosidade” e que, portanto, o Presidente poderia ter optado por falar em combater a nervosidade que divide o povo brasileiro.

Quanto a “nervosidade”, além de ser palavra de raríssimo uso, desconhecida pois da maioria dos falantes (talvez não do Sr. Michel Temer, homem de alta e vasta cultura), é substantivo abstrato que designa o estado de quem é ou está nervoso. Seria, então, equivalente ao bem mais difundido “nervosismo”.

Só que o sentimento que permeia os cidadãos envolvidos nesse Fla-Flu político não é de nervoso, é de raiva mesmo, de ódio sanguinolento. Partidários e detratores do PT e demais partidos de esquerda estão verdadeiramente raivosos uns com os outros. Raivosos não de raiva, sentimento humano de desapreço menos intenso que o ódio, mas da raiva canina, que faz espumar a boca ao ouvir ou ler qualquer referência ao inimigo.

Nesse sentido, “raivosidade” tem conotações que nem “raiva” nem “nervosidade” ou “nervosismo” expressam. Do contrário, por que nosso Presidente, erudito que é, faria uso de um termo heterodoxo se, supostamente, dispunha de vários outros já canônicos?

Aí está uma das grandes qualidades da língua, o poder de se reinventar, isto é, de criar novos recursos na medida da necessidade de expressar novas ideias, novos sentimentos, novos insights. Assim se deu com o “imexível” do então ministro do governo Collor, Antônio Rogério Magri, que é diferente do “inalterável”, “insubstituível”, “inamovível”, etc., dos dicionários. Assim se deu com o “indeletável” de José Alencar, vice-presidente do primeiro mandato de Lula, que é totalmente distinto do dicionarizado “indelével”. Assim se deu com o “inconvivível” de Fernando Henrique. Assim se deu e se dá com todas as novas palavras, às quais os puristas torcem o nariz, mas que, mais cedo ou mais tarde, acabam usando.

E por que essas palavras “bárbaras”, “ameaçadoras da integridade do idioma”, acabam se consolidando no uso cotidiano, inclusive no uso culto da língua? É justamente porque elas exprimem conceitos e nuances semânticas que nenhuma palavra já registrada consegue exprimir. É porque elas representam o frescor da língua, o doce perfume da manhã contra o cheiro de mofo das velhas e batidas expressões. É, finalmente, porque a língua muda o tempo todo, ainda que sob os protestos de certos professores de português, jornalistas e leitores conservadores. E é por mudar o tempo todo que a língua continua sendo o melhor sistema de comunicação de que dispomos.

A hora, o minuto, o segundo

Mais um mês está começando, e este ano parece que está voando, não é mesmo? O ser humano sempre desejou domar o tempo, mas este foge como a água escorre pelas mãos. Tempus fugit, “o tempo foge”, já diziam os romanos. Compreender sua natureza é algo tão complexo que Santo Agostinho disse certa vez: “Se me perguntarem o que é o tempo, eu sei o que é, mas, se eu tiver de explicar o que é o tempo a quem me perguntou, agora já não sei”. A ciência moderna e suas teorias, como a relatividade e a mecânica quântica, apenas começam a compreender a natureza do tempo.

Mas, se nunca conseguimos controlar e muito menos frear a passagem do tempo, pelo menos começamos desde cedo a medi-la, criando dispositivos, como a ampulheta e o relógio, e palavras para nomear suas divisões e subdivisões.

A origem das palavras que designam as frações do tempo, como hora, minuto e segundo, é bem curiosa. “Hora” foi herdada do latim hora, que por sua vez chegou por empréstimo do grego hóra, “período, estação do ano”. Esta, embora não pareça à primeira vista, é parente do inglês year e do alemão Jahr, “ano”. O que acontece é que todas essas palavras provêm de uma raiz indo-europeia *jer‑, que deu origem a muitas palavras referentes ao tempo nas línguas descendentes do indo-europeu. (Para quem não sabe, o indo-europeu foi uma língua falada há cerca de 6 mil anos no Cáucaso, a qual originou a quase totalidade das línguas da Europa e várias do Oriente Médio.)

Muito antigamente, não havia relógios mecânicos e muito menos eletrônicos, por isso a única maneira que se tinha de medir o tempo era por meio de relógios de água (clepsidras), de areia (ampulhetas) e dos chamados relógios de sol (um disco com a borda numerada de 1 a 12 e uma haste no centro, cuja sombra ia percorrendo os números à medida que o Sol cruzava o céu).

Assim como os babilônios, cerca de 1.500 anos antes de Cristo, já haviam dividido o dia em 24 horas, o astrônomo grego Ptolomeu (século 2 d.C.) criou um sistema sexagesimal, que portanto dividia a hora em 60 minutos e o minuto em 60 segundos. À primeira divisão os romanos deram o nome de pars horae minuta prima (primeira parte miúda da hora) e à segunda, pars horae minuta secunda (segunda parte miúda da hora). Foi daí que surgiram, por simplificação, as denominações minuta e secunda, posteriormente adotadas pelas línguas europeias em geral. É daí que vêm a nossa hora, o nosso minuto e o nosso segundo.

De linguagem, planetas e empresas

A estrutura dos idiomas obedece ao princípio da hierarquia, que se encontra em toda a natureza – dos átomos às galáxias

O que as línguas, os sistemas planetários e as instituições têm em comum? Aparentemente nada, não é verdade? No entanto, existe um princípio de organização que se encontra em toda a natureza – nos átomos, células, sociedades, galáxias – e também na língua. Trata-se do princípio da hierarquia. No Universo, todas as coisas se organizam hierarquicamente. Satélites giram em torno de planetas, que giram em torno de estrelas, formando sistemas solares, que giram em torno de buracos negros, formando galáxias. Elétrons giram em volta do núcleo atômico, células têm núcleo e citoplasma, cidades, estados e civilizações têm centro e periferia, países têm capital e interior (este também formado de capitais regionais), e assim por diante.

Esse princípio – algo está ligado a algo, que está ligado a algo – é o que chamamos de estrutura. A maioria das estruturas que existem apresenta dois tipos de relações entre suas partes (isto é, dois tipos de ligações): horizontais, que se estabelecem entre elementos de mesma função ou importância na estrutura, e verticais, em que um elemento menos importante depende de outro, mais importante.

 

Molécula

Assim, podemos ter vários planetas gravitando em torno de uma estrela. Esses planetas se equivalem em importância (o sistema poderia ter mais ou menos planetas, sem que isso alterasse o funcionamento do sistema), mas, sem a estrela em torno da qual orbitam, os planetas se perderiam no espaço.

 

Planetas

Igualmente, numa empresa há vários profissionais trabalhando num só setor e exercendo as mesmas funções. Estão coordenados entre si e subordinados a um superior. Esses superiores (chefes de seção, por exemplo) se reportam a líderes (diretores), que respondem ao presidente da empresa. Tal hierarquia funcional é visível no organograma da instituição.

Portanto, estruturas implicam em hierarquia, e esta é um conjunto de relações de coordenação e subordinação entre as partes constituintes da estrutura. A essa altura você já deve ter se lembrado das orações coordenadas e subordinadas da análise sintática, não é? Pois saiba que esse princípio se aplica a todos os níveis da linguagem, das sílabas aos textos.

Todo enunciado linguístico (palavra, sintagma, oração, frase, parágrafo, texto) compõe-se de uma estrutura do tipo base + adjunto. Cada estrutura base + adjunto pode, por sua vez, constituir nova base capaz de receber novos adjuntos (que, por sinal, podem ter uma estrutura base + adjunto). Na nossa analogia planetária, a Terra funciona como base para seus satélites (Lua e satélites artificiais), que são seus adjuntos. Esse complexo Terra + satélites, ao lado dos demais planetas e suas luas, atua como adjunto em relação ao Sol, e assim sucessivamente.

Palavras e sintagmas

Em português, toda sílaba tem uma estrutura do tipo C1C2VC3C4, o que significa que, no centro da sílaba, sempre deve existir uma vogal (V). Sem vogal, não há sílaba em português. (Mesmo línguas como o sânscrito e o tcheco, que admitem consoante no centro da sílaba, atribuem a ela papel vocálico, tanto que somente consoantes constritivas e vozeadas como l, n e r podem ocupar essa posição, jamais uma oclusiva como p ou t.) Antes e depois da vogal, podemos ou não ter consoantes ou semivogais. Além disso, em cada uma das casas C1, C2, C3 e C4, só certos tipos de consoantes ou semivogais podem ocorrer, com exclusão das demais. Por exemplo, na sílaba trans (de “transnacional”), temos uma estrutura do tipo:

C1

C2 V C3 C4

t

r

a n

s

As combinações rtasn ou tsrna seriam impossíveis em português, o que reafirma a estrutura hierárquica da sílaba.

Mas também as palavras obedecem a essa organização estrutural. Na palavra “transnacional”, reconhecemos um prefixo trans-, um radical nacion‑ (isto é, “nação”) e um sufixo ‑al. O centro da palavra é o radical, que, por sinal, é o suporte do significado. Já os afixos trans‑ e ‑al exercem apenas a função gramatical de produzir uma palavra derivada.

Portanto, o radical é a base, e os afixos e desinências, os adjuntos. Mesmo numa palavra composta, em que há dois radicais, um funciona como adjunto do outro. Em azul-claro, claro é o determinante (adjunto) e azul, o determinado (base).

Há uma operação morfossintática chamada decomposição em constituintes imediatos (CI), que revela como podemos eliminar os adjuntos de uma palavra até chegarmos ao seu núcleo, na ordem inversa do processo da derivação.

Assim, primeiro decompomos “intransitividade” em intransitivo + ‑dade, a seguir intransitivo em in‑ + transitivo, este em transir + ‑tivo. Finalmente, transir se decompõe em trans‑ + ir (este último, o verbo ir, é o radical da palavra).

Sintagmas também têm uma base e adjuntos. Em “Minha camisa verde e nova”, o núcleo do sintagma é “camisa”. Subordinado a ele, estão os adjuntos adnominais “minha”, “verde” e “nova”, coordenados entre si. O núcleo pode prescindir de adjuntos, mas estes não subsistem sem uma base na qual estejam “pendurados”. Por isso, posso ter “minha camisa verde”, “minha camisa nova”, “camisa verde e nova”, ou apenas “camisa”, mas não posso ter “minha verde e nova”.

Orações e períodos

Numa oração, os sintagmas se organizam hierarquicamente. Os sintagmas nominais (sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, agente da passiva) subordinam-se ao sintagma verbal, ao passo que os adjuntos adnominais se subordinam aos nominais, e os adjuntos adverbiais ao verbal. É por isso que as orações têm termos essenciais e acessórios.

Mas as orações se combinam para formar períodos compostos por coordenação ou subordinação. E agora você já deve ter entendido por que essas orações têm esses nomes. As orações coordenadas são autônomas entre si, enquanto as subordinadas dependem de uma oração principal. Sem a principal, não há subordinadas, e estas não podem constituir períodos sozinhas.

Parágrafos e textos

Aprendemos nas aulas de redação que parágrafos se dividem em tópico frasal e desenvolvimento. E que o desenvolvimento se divide em frases principais e secundárias de explanação. Ora, o tópico frasal é a frase mais importante do parágrafo, a que resume seu conteúdo. Tanto que podemos ter parágrafos sem desenvolvimento, mas este é sempre o desenvolvimento de um tópico frasal. Sem tópico (mesmo implícito) não há desenvolvimento. E dentro deste temos frases que desenvolvem diretamente o tópico frasal (frases principais de explanação) e as que complementam as principais, desenvolvendo o tópico frasal indiretamente. Tudo de maneira hierárquica.

Finalmente, um texto é o desenvolvimento em parágrafos de um tema predefinido. O tema, apresentado na introdução do texto, é desenvolvido em partes, capítulos, subcapítulos, itens, subitens, todos eles formados de parágrafos.

Princípio universal

Na língua, todos os elementos se organizam em relações estruturais. A sintaxe – que em grego significa “ordenação” – se constitui de dois processos: a parataxe, ou ordenação horizontal (isto é, coordenação), em que há ausência de hierarquia; e a hipotaxe, ou ordenação vertical (subordinação), que estabelece uma hierarquia entre os elementos linguísticos.

Há sintaxe (e, portanto, coordenação e subordinação) em todos os níveis da linguagem, pois dois elementos linguísticos só podem acoplar-se de duas maneiras: horizontal ou verticalmente. Essa regra vale para os átomos, moléculas, células, galáxias, cargos de uma empresa e para a linguagem. Nesta, tal regra preside a formação de sílabas, palavras, orações, frases, parágrafos e textos. Trata-se de princípio geral da linguagem, que tem a ver com a própria maneira como a mente pensa. E, evidentemente, tem a ver com a maneira como a natureza funciona.

Questão de gênero

Atualmente, usam-se cada vez mais expressões como “questão de gênero” quando se debatem problemas relativos à discriminação e aos direitos das mulheres, dos homossexuais e dos transexuais (já correntemente chamados de “transgêneros”). Já que não se trata de questão linguística, mas de diferença e discriminação entre os seres humanos quanto a seu sexo, é apropriado o uso da palavra “gênero” nesse caso?

Nota-se, de algum tempo para cá, a tendência a empregar a palavra “gênero”, antes reservada ao discurso da gramática, no sentido de “sexo” (masculino ou feminino). Existe uma óbvia diferença entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Afinal, alguns idiomas atribuem gênero masculino ou feminino a substantivos inanimados ou assexuados, enquanto outros atribuem gênero neutro a esses substantivos ou então prescindem completamente da noção de gênero. Mesmo em línguas que fazem essa distinção, o gênero gramatical não necessariamente coincide com o sexo biológico: em alemão, por exemplo, Mädchen (“menina”) é do gênero neutro.

De onde veio, então, essa tendência a usar “gênero” em lugar de “sexo”? Vários fatores concorreram para isso.

Em primeiro lugar, a ambiguidade da palavra “sexo”, que tanto pode se referir à distinção masculino/feminino quanto ao ato sexual. (Há até algumas anedotas brincando com essa ambiguidade, como a do sujeito que, ao preencher um formulário, respondeu: nome – José da Silva; idade – 38 anos; sexo – 7 vezes por semana.)

Em segundo lugar, há uma pitada de “politicamente correto” nessa história, já que “gênero” seria, supostamente, uma palavra mais “neutra”, sem conotações sexistas.

Em terceiro lugar, temos a influência do jargão acadêmico, já que esse emprego surge primeiramente em textos de sociologia e antropologia, sobretudo em inglês. Aliás, é cada vez mais comum nos países de língua inglesa o uso de gender em lugar de sex em formulários e cadastros, tanto que o biólogo britânico Richard Dawkins, o maior evolucionista da atualidade, se levanta contra esse uso no livro Desvendando o arco-íris, até porque “gênero” em biologia designa outro conceito, o de subgrupo que reúne várias espécies de uma mesma família (por exemplo, o gênero Homo, ou gênero humano).

Ou seja, se um cientista do porte de Dawkins considera equivocado esse emprego, é algo a ser seriamente considerado. Outro dado a ser levado em conta é que a maioria dos dicionários ainda não abonou o emprego de “gênero” nessa acepção, exceto no discurso das ciências sociais. Daí porque, do meu ponto de vista, a acepção de “gênero” como “sexo” ainda está restrita ao jargão sociológico. Só que é cada vez mais comum que termos técnicos escapem do universo estritamente acadêmico para invadir até os bate-papos de boteco. Foi assim que “neurose” e “esquizofrênico” deixaram há muito de ser termos exclusivos do ambiente médico.

Em resumo, quando se emprega numa conversa ou em matéria jornalística a expressão “questão de gênero”, faz-se óbvia referência ao discurso sociológico. Não dá para dizer que esse uso está errado; no entanto, em hipótese alguma se pode afirmar que o emprego de “questão de sexo” esteja. Qualquer objeção nesse sentido não passa de patrulhamento ideológico.

As controversas origens do Carnaval

A etimologia da palavra “Carnaval” é uma das mais controversas que existem. Assim como a origem dessa festividade remonta à Pré-História e a ritos pagãos da fertilidade, em que se comemorava o início do ano agrícola e pedia-se aos deuses uma boa safra, a origem da palavra também se perde na escuridão do passado. Alguns autores, como Körting (Lateinisches-Romanisches Wörterbuch, “Dicionário Latino-Românico”), sustentam que teria vindo do latim carrus navalis, barco ornamentado que entre os romanos abria desfiles alegóricos como os das Saturnalia e das Bacchanalia, festas em celebração da chegada da primavera e do vinho.

Outros, porém, como Antenor Nascentes, na esteira de vários estudiosos, apontam a origem em carnem levare, “suspender a carne”, isto é, suprimir o consumo desse alimento durante a Quaresma, portanto já no período cristão do Império Romano. Wilhelm Meyer-Lübke, no seu Romanisches Etymologisches Wörterbuch (Dicionário Etimológico Românico), dá essa origem para o francês e o provençal. Policarpo Petrocchi apresenta o baixo latim carnelevamen, depois modificado para carnelevare, como étimo do antigo pisano carnelevare, do napolitano carnolevare, do calabrês carnalevare, do siciliano carnilivari, do vicentino carlavare e do veneziano carlevar. A forma primitiva carnelevare teria sido depois mudada para carnelevale em milanês (1130) e, por etimologia popular, em carne, vale!, isto é, “adeus, carne!”.

Em espanhol, a forma paralela carnal teria sido a responsável pela mudança da vogal, de carneval para carnaval. A ideia básica de suspensão do consumo de carne é reforçada por formas paralelas como o espanhol carnestolendas  e o catalão carnestoltes (ambas do latim tollere, “retirar”), o italiano carnelasciare e carnasciare, assim como o romeno lăsatul de carne, todas do latim laxare, “deixar, abandonar”. O próprio latim já apresentava carneprivium, “privação da carne”, o que dá alguma convicção a essa etimologia. De certo, somente que o antecessor do termo em todas as línguas modernas é o italiano carnevale, especialmente em face da grande fama dos carnavais italianos (o de Veneza, principalmente) durante a Renascença.

O darwinismo da linguagem

“As línguas são organismos que nascem, se desenvolvem, se reproduzem e morrem.” Esse lema, instituído pela linguística histórico-comparativa, fundou-se na semelhança encontrada pelos historiadores das línguas entre a evolução linguística e a biológica. A teoria da evolução das espécies, proposta por Charles Darwin em 1859, influenciou profundamente o pensamento científico do século XIX, com reflexos evidentes na linguística, que então dava seus primeiros passos. Foi nesse momento que a filologia, que até então partia do conhecimento de língua para reconstituir textos, passou também a partir dos textos para reconstituir as línguas, numa espécie de “arqueologia” ou “paleontologia” linguística.

A metáfora biológica, considerada uma heresia durante a maior parte do século XX, mais voltado aos aspectos sociais, culturais — numa palavra, “humanos” — da língua, hoje volta com toda a força graças aos avanços tanto da linguística quanto das biociências e da neurociência. Se a linguística do século XIX se ocupou da evolução histórica, e a do século XX, da organização estrutural da língua, hoje o que se busca é a articulação de ambas as perspectivas para compreender a linguagem como fenômeno a um tempo cultural e biológico.

Os mesmos enfoques estrutural e evolutivo são dados ao estudo das espécies biológicas. É o que fazem a paleontologia, a anatomia e a fisiologia. Mas também há uma disciplina que faz a ligação entre a evolução e a estruturação das espécies biológicas: a genética. Ela explica como ocorrem nos espécimes e se transmitem aos descendentes as mutações que, a longo prazo, acarretam a mudança da espécie. E pode fornecer ferramentas para compreendermos também como a estrutura linguística evolui enquanto funciona e funciona enquanto evolui.

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Nas últimas décadas, a linguística evolucionária vem ocupando cada vez mais o interesse de especialistas, e novas teorias, como a do proto-sapiens e a da torre de Babel têm sido propostas, sobretudo graças às contribuições mútuas entre disciplinas humanísticas e biológicas, como a filologia, a arqueologia, a paleoantropologia, a genética e a ciência cognitiva. A iminente extinção em massa de línguas, com a perda da diversidade linguística (catástrofe comparável à perda da biodiversidade), precipita a catalogação e descrição de línguas ágrafas, em especial africanas, ameríndias e polinésias, o que reaviva o interesse dos linguistas pela origem das línguas.

Vários estudos nestas décadas correlacionam dados genéticos e culturais, especialmente a língua. Para o geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza, a transmissão linguística faz parte da transmissão cultural. Segundo sua teoria da Eva Africana, se, analogamente aos genes, a língua se transmite de uma geração a outra (embora por meios diferentes), é possível que todas as línguas atuais descendam de uma língua falada na África há cerca de 200 mil anos.

Segundo o biólogo britânico Richard Dawkins, fatos culturais (que ele chama de memes) transmitem-se aproximadamente conforme a mesma dinâmica da transmissão dos genes. Os fatos linguísticos e a própria língua seriam então um caso particular de memes, objeto de estudo da memética.[1]

Na realidade, o modelo biológico evolucionário de sistema é universal, isto é, pode ser aplicado, com as devidas restrições e adaptações, a línguas, sociedades, civilizações, economias, sistemas computacionais, comunicacionais, semióticos não verbais e cibersemióticos, geológicos e mesmo cosmológicos. Em suma, a qualquer sistema dotado de uma propriedade chamada autopoiese (forma de organização na qual o sistema produz e substitui seus próprios componentes, e se autorreproduz, numa contínua articulação com o meio).

Portanto, não surpreende que a língua seja passível do mesmo método de estudo que é aplicado aos sistemas complexos adaptativos naturais, como a vida. Muito cedo se percebeu que a língua é um sistema regido por leis bastante claras, que, como hoje se sabe, são fruto da natureza biológica da linguagem. O que perturbava os estudiosos eram as inúmeras exceções, que punham uma certa dose de caos na aparente ordem da gramática. Uma compreensão mais profunda dos sistemas naturais permitiu perceber que as irregularidades também são previsíveis e explicáveis racionalmente. A teoria dos sistemas permitiu agregar a linguística ao rol das ciências ditas “positivas”.

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Com isso, a metáfora biológica da linguagem volta a fazer sentido, com a única ressalva de que os linguistas histórico-comparativos e filólogos do século XIX erraram ao comparar a língua a um organismo, isto é, a um espécime. Os fatos linguísticos estruturam-se em três níveis, língua, norma e fala. Assim, a língua, que é um fenômeno social, corresponderia à espécie, e os atos de fala dos inúmeros falantes, vivos ou mortos, presentes ou passados (fenômenos individuais), corresponderiam aos espécimes que compõem a espécie. Entre esses dois níveis situam-se as normas, fenômenos linguísticos grupais (como as gírias, por exemplo), equivalentes a subespécies ou raças.

Decorre daí que não há línguas mortas, há falas mortas. As línguas não morrem, mas evoluem para outras línguas ou então se extinguem, quando não deixam descendentes. O equívoco em comparar uma língua a um organismo biológico está em que espécies não morrem, quem morre são os indivíduos, sejam eles animais, plantas ou falantes. Do mesmo modo como uma espécie animal ou vegetal é o resultado de uma abstração e categorização feitas a partir da análise dos indivíduos isolados — os espécimes — para reconhecer-lhes os traços morfológicos e genéticos em comum, as línguas também são abstrações realizadas a partir dos atos de fala, única realidade palpável e observável pelo linguista.

O procedimento de classificar animais, plantas e micro-organismos em famílias, gêneros, espécies, etc., é o mesmo que dá origem às árvores genealógicas das línguas. E, curiosamente, há uma forte correlação entre a árvore da evolução genética e a da evolução linguística do ser humano.

Poderíamos dizer, em linguagem figurada, que o homem é o produto da interação entre um hardware, um software e o contexto social. O hardware (o cérebro) foi capaz de gerar um software (a linguagem) que se autoproduz e interage com a sociedade como um organismo interage com o meio. A linguagem permite o pensamento simbólico, que desencadeia a ação, e por sua vez produz a mudança social. Esta acarreta a mudança (ou mutação) linguística, que enseja novos pensamentos, num ciclo interminável.

A linguagem altera a sociedade, que altera a linguagem. É por isso que a língua muda enquanto funciona (interage com o meio, com os falantes) e funciona enquanto muda. Se parasse de evoluir, cairia em desuso, pois não daria mais conta da mudança social. Por outro lado, quando uma língua cai em desuso, ela deixa de evoluir e permanece fossilizada nos registros que deixou.

O termo “mutação linguística” é um empréstimo tomado à biologia. Afinal, a inovação linguística ocorre segundo um princípio similar ao da mutação genética. Nos seres vivos, as moléculas de DNA produzem cópias de si mesmas. A falha nesse processo resulta numa cópia imperfeita da molécula original. Conforme o DNA prossegue se autorreplicando, essas falhas, ou mutações, vão se acumulando, de modo que, após gerações, alterações significativas nos organismos já podem ser notadas.

Analogamente, como todo ato de fala é uma recombinação de elementos e modelos preestabelecidos na língua, que o falante internalizou (léxico, construções sintáticas, pronúncia dos fonemas, etc.), cada novo ato de fala é uma tentativa de reproduzir a expressão e o conteúdo de mensagens anteriores, tentativa que produz, porém, uma cópia “falha”, isto é, diferente, ainda que mínima e imperceptivelmente, do original, tanto no significado quanto na forma fônica dos elementos linguísticos.

As formas correntes e as mutantes sofrem o mesmo processo de seleção que as espécies biológicas. Não se trata de seleção natural, mas cultural.[2]

A nova forma (mutante) compete com a velha, de tal modo que convivem por um tempo, depois uma suplanta a outra. A nova palavra (ou pronúncia, construção sintática, significado, expressão idiomática, etc.) pode, com o tempo, impor-se a mais e mais falantes, assim como palavras e expressões correntes podem tornar-se arcaísmos (quem hoje em dia ainda diz madeixa ou supimpa?). Mas uma inovação pode ser abandonada pouco depois de ter sido criada. São os modismos. (Um modismo recente, que já começa a cair em desuso é empreguete.) A inovação pode também permanecer restrita à fala do seu criador, sem conseguir a adesão dos demais.

É a adaptação da nova forma linguística às necessidades sociais de comunicação que determina sua sobrevida. A diferença é que a mutação genética se transmite só de uma geração a outra (por herança), ao passo que a mutação linguística também circula entre membros contemporâneos da mesma sociedade (por contágio).

Esse mecanismo explica o processo da dialetação: pequenas mudanças fonéticas, gramaticais, semânticas ou lexicais criam, ao se acumular no tempo, dialetos; o acúmulo dessas mudanças, sobretudo por força do distanciamento geográfico ou social dos falantes, leva, ao fim de um longo período, ao surgimento de novas línguas. Enfim, o “erro” é na verdade uma mutação.

Os fenômenos evolutivos são a causa tanto da diversidade linguística quanto da biodiversidade. A evolução linguística suscita semelhanças inusitadas com problemas de natureza biológica. No livro Jurassic Park, Michael Crichton sugere a clonagem de animais extintos a partir do dna de fóssil preservado. Ora, a ressurreição de uma língua como o extinto hebraico, mantido “fossilizado” nos textos do judaísmo e reavivado com a fundação do Estado de Israel em 1948, pode ser comparada ao mesmo processo.[3]

A paleontologia reconstrói a história dos seres vivos estudando o substrato geológico em que seus fósseis foram gravados, enquanto a geologia reconstitui a história desses substratos pela análise dos fósseis. Da mesma forma, a linguística histórica estuda a história das línguas por meio dos textos que elas produziram e fornece subsídios para que a filologia reconstrua a história dos textos por meio do conhecimento da evolução das línguas.

[1] Sobre a teoria dos memes, leia O gene egoísta, de Richard Dawkins.

[2] O preconceito contra a fala de certos grupos (regionais, culturais, sociais), bem como tudo que é estranho (“estrangeiro”) ao grupo dominante, não deixa de ser uma forma de seleção cultural, uma competição em que o mais forte (dominante) vence o mais fraco (excluído) e impõe a sua “genética” (isto é, o seu linguajar).

[3] O hebraico já era uma língua morta à época de Jesus, em que os judeus falavam aramaico, língua descendente do hebraico. Durante séculos, o hebraico se manteve apenas como idioma litúrgico do judaísmo (do mesmo modo que o latim em relação ao catolicismo). Nesse período, os judeus espalhados pelo mundo falavam o idioma de seus países de adoção, além de línguas veiculares como o iídiche, uma espécie de dialeto alemão, e o ladino, espécie de dialeto espanhol.

O bom e o melhor

Estamos o tempo todo comparando coisas mentalmente, por uma aptidão estatística inata

As gramáticas afirmam que os adjetivos e os advérbios de modo possuem dois graus: comparativo e superlativo. A primeira coisa que precisa ser dita a respeito disso é que os graus do adjetivo e do advérbio na verdade são três: o grau “zero”, normal ou neutro (Este livro é bom. Ele escreve bem.), o comparativo (Este livro é melhor do que aquele. Ele escreve melhor do que eu.) e o superlativo (Este é o melhor livro que já li. Ele escreve o melhor que consegue.). Não se deve esquecer também que o comparativo pode ser de igualdade (tão bom quanto), de superioridade (melhor do que) ou de inferioridade (menos bom do que), e o superlativo pode ser absoluto (ótimo, muito bom) ou relativo (o melhor).

Em português, só os adjetivos grande, pequeno, bom e mau e os advérbios bem e mal admitem formas comparativas sintéticas, herdadas do latim: maior, menor, melhor e pior. Os demais adjetivos e advérbios formam o comparativo e o superlativo de forma analítica: mais rico, mais facilmente, etc.

Primitivos e derivados

Porém, se considerarmos muito (Ele tem muito dinheiro. Ele trabalha muito.) e pouco (Ele tem pouco dinheiro. Ele trabalha pouco.) como adjetivos ou advérbios – as gramáticas os classificam como pronomes indefinidos –, então teremos mais dois comparativos sintéticos em português: mais e menos (Ele tem mais dinheiro do que eu. Ele trabalha menos do que seu irmão.).

Segundo as gramáticas, bom, mau, grande, pequeno, muito e pouco são adjetivos primitivos, enquanto melhor, pior, maior, menor, mais e menos são derivados, senão etimologicamente, ao menos semanticamente. Afinal, melhor é literalmente “mais bom”, maior é “mais grande” (em Portugal, não é proibido usar mais grande e mais pequeno no lugar de maior e menor).

De acordo com certos princípios lógicos e com o bom senso, isso implica que é preciso primeiro saber o significado de “bom” para compreender o significado de “melhor”, não é?

Pois experiências conduzidas por linguistas e neurocientistas têm demonstrado que, para a cognição humana, bom, mau, grande, pequeno, etc., são conceitos subjetivos e relativos, ao passo que melhor, pior, maior, menor são objetivos e absolutos. Para definir o que é grande ou pequeno, é preciso primeiro ter uma noção do que seja maior e menor. Parece absurdo? Nem tanto.

Os experimentos, realizados com crianças e adultos de variados graus de escolaridade e pertencentes às mais diversas culturas – de universitários suecos a aborígines australianos –, mostram que a noção de comparação é universal: dados dois objetos de mesma natureza (por exemplo, duas pedras) e tamanhos diferentes, em 100% dos casos os informantes determinam com precisão qual é o maior ou o menor. No superlativo, a comparação se dá entre três ou mais objetos. A estratégia nesse caso é comparar os objetos dois a dois para determinar qual é o maior (ou o menor). Ou seja, o superlativo é um comparativo entre um objeto e um conjunto de outros objetos (“Paulinho é o melhor aluno da classe” equivale a “Paulinho é melhor do que qualquer outro aluno da classe”).

formiga-e-elefante

Referencial

Mas esses experimentos mostram que as noções de grande e pequeno dependem de referencial. (É evidente, o mesmo se aplica aos conceitos de bom e mau, novo e velho, etc.) A formiga é grande ou pequena? O elefante é grande ou pequeno? Se comparada a um átomo, uma formiga é gigantesca. Já o elefante, em relação ao Sol, parecerá minúsculo.

Então, como sabemos se algo ou alguém é grande ou pequeno, bom ou ruim, novo ou velho, rico ou pobre…? Na verdade, o que essas experiências indicam é que todo ser humano possui uma espécie de aptidão estatística inata, capacidade intuitiva de estabelecer médias ou padrões. Na prática, estamos o tempo todo comparando coisas mentalmente. Por isso, quando digo que uma formiga é pequena e um elefante é grande, provavelmente estou tomando como padrão de medida o meu próprio tamanho. Nesse caso, dizer que a formiga é pequena equivale a dizer que ela é menor do que eu – ou os humanos em geral. Em resumo, grande significa “maior do que o normal, a média, o esperado”.

Da mesma forma, quando se diz que fulano é rico, o que está implícito é que ele tem mais dinheiro do que a maioria. O surpreendente aí é que, sem nos darmos conta, estamos o tempo todo estabelecendo médias e comparando os fatos da realidade a essas médias. A prova foi muito difícil? É porque ela deve ter sido mais difícil do que a média que eu estabeleci (a maioria das provas que já fiz). Não é à toa que o que é difícil para uns é fácil para outros. Noções como “bem” e “mal” são relativas. Por isso, a própria ética é uma mera convenção social e não uma ciência. Afinal, não se pode determinar objetivamente o que seja bom ou mau; o que os filósofos, legisladores e líderes religiosos fazem é estabelecer um padrão com base numa média de comportamentos. Por exemplo, se todos cometerem assassinato, a sociedade se autodestrói. A convivência pacífica é melhor do que o crime, o que a leva a ser tomada como padrão. O homicídio então é considerado um desvio da norma.

Essa ideia de norma – e de “normal” – existe em todos os povos, até entre os que desconhecem a matemática e não contam além de três, como os ágrafos. Isso parece indicar que, em algum lugar de nosso cérebro, operamos um cálculo intuitivo em que atribuímos valores quantitativos até a conceitos qualitativos como “bom” e “mau”. Nosso julgamento da realidade se processa como uma equação em que somamos esses valores e os dividimos pelo total para obter médias. É claro, isso se dá por estimativa: para afirmar que fulano é rico não preciso somar a renda anual de todos os brasileiros e dividir pelo número total de habitantes. Mesmo sem conhecer a exata renda média do brasileiro, sabemos intuitivamente se um indivíduo em particular está acima ou abaixo desse padrão.

Padrões diferentes

O problema é que sociedades diferentes adotam padrões distintos para tudo: o que é belo num lugar e período pode ser feio em outro; os gostos variam, as opiniões e crenças, idem. O grau de pontualidade de cada povo depende da conceituação subjetiva e cultural do que seja “cedo” ou “tarde”. Comer saúva frita causa repulsa em muitos lugares, mas para os chineses se trata de iguaria afrodisíaca.

Embora nem mesmo as concepções de bem e mal sejam universais, a convicção de que existe um Bem e um Mal absolutos tem levado à intolerância, ao preconceito, a conflitos religiosos e perseguições ideológicas de todo tipo.

Expressões como menos ruim – que é diferente de melhor – indicam que, ao comparar duas coisas, a primeira é melhor que a segunda (ou a segunda é pior que a primeira, tanto faz), mas ambas estão abaixo da média, portanto ambas são ruins. Já a expressão melhor indica que ao menos uma é boa, está na média ou acima dela em termos de qualidade.

A descoberta de que, em matéria de comparativos, o primitivo é derivado e vice-versa traz uma série de implicações ao estudo do funcionamento do cérebro humano e ao da língua. E mostra que a gramática nem sempre – quase nunca – é codificada segundo princípios científicos.

Drogadito?

Outro dia, um coronel da Polícia Militar de São Paulo declarou no rádio que as ações policiais na cracolândia paulistana estão permitindo dar maior atendimento ao drogadito. Drogadito?! Seria isto um diminutivo carinhoso de drogado, assim como temos rapaz/rapazito, cabra/cabrito, e assim por diante? Só depois de algum tempo entendi que ele se referia ao droga-adicto, isto é, àquele que tão bem conhecemos como viciado em drogas. Em outra ocasião, uma assistente social falava também ao rádio sobre as estratégias de combate à adição. Pensei comigo: mas por que combater a adição?! E por que não a subtração e a divisão, operações aritméticas tão mais perniciosas que a adição, já que diminuem o resultado ao invés de aumentá-lo? Mais uma vez não se tratava de adição, mas de adicção, isto é, vício em drogas, dependência química.

Ora, essas palavras estranhas nada mais são do que decalques malfeitos a partir do inglês addiction e drug addict. Esse tipo de decalque — como chamar educador artístico de “arte-educador”, na esteira do inglês art educator, me parece pura macaquice. Em especial porque já possuímos termos próprios em nossa língua para expressar tais conceitos. Qualquer falante do português sabe o que é um viciado; já um adicto…

O que o canavial tem a ver com a cana?

Posta assim, a pergunta do título parece ter resposta óbvia: se um canavial é uma plantação de cana (em geral de açúcar), então a palavra “canavial”, assim como suas cognatas “canavieira” (planta gramínea) e “canavieiro” (relativo a cana, que cultiva cana), deriva de “cana”, certo? Errado.

Senão, como explicar o surgimento desse elemento ‑avi‑ entre o radical can‑ e o sufixo formador de coletivos ‑al? Algum desavisado poderia sugerir que se trata de um elemento de ligação (tecnicamente, um interfixo) a engatar o radical e o sufixo uma vez que a simples justaposição de amos daria “canal”, que evidentemente significa outra coisa. Mas, na verdade, a história é outra.

“Canavial” era originalmente uma plantação de cânave, ou cânhamo, erva fibrosa de origem asiática cuja denominação científica é Cannabis ruderalis. Portanto, parente da Cannabis sativa, mais conhecida como maconha.

Resultado de imagem para cânhamo Resultado de imagem para cana da india Resultado de imagem para cana de açucar Foto: flickr.com/edwardthebonobo
Cânhamo                     Cana da índia               Cana de açúcar                     Maconha

O nome dessa planta se origina do grego kannábis, que nos chegou via latim cannabis (proparoxítono, que deu “cânave” em português) e cannabus, que resultou no espanhol cáñamo, étimo de “cânhamo” em nosso idioma.

Em resumo, um canavial era uma plantação de cânhamo, vegetal muito utilizado na fabricação de papel. A lavoura de cana passou a ser chamada de canavial muito mais por associação fonética do que por ligação etimológica, que, aliás, não existe, já que “cana” provém do latim canna e não de cannabis.

Por sinal, a própria denominação “cana” engloba espécies muito diferentes de plantas, desde a cana da índia, da família das canáceas (ou Cannaceae), até a cana do reino (Arundo donax) e a cana de açúcar (Saccharum officinarum).