De Roma ao romance

E hoje vamos responder à dúvida da leitora Maria Helena Morgado Fontes, que pergunta:

 Bom Dia. Gostaria de saber se existe alguma relação entre a palavra “romance” e o nome “Roma”. Obrigado.

Cara Maria Helena, existe sim. Como se sabe, Roma constituiu um grande império da Antiguidade, que dominou a maior parte da Europa e vastas regiões do Oriente Próximo e norte da África. Nem todos esses territórios tinham o latim como língua materna, nem os romanos impuseram pela força o seu idioma. Mas a tendência era que os súditos do Império Romano falassem a língua latina, pelo menos em locais públicos ou como segunda língua.

Dada a extensão territorial do Império e a consequente dificuldade de comunicação entre as províncias, somada aos substratos linguísticos de cada região (isto é, as línguas nativas faladas concomitantemente ao latim), era natural que houvesse alguma dialetação. Por isso, passou-se a chamar de România o conjunto dos povos e territórios que falavam alguma forma de latim.

Depois que as invasões germânicas ocasionaram a queda do Império Romano, em 476 d.C., a diversidade linguística aumentou de tal modo que dialetos se transformaram progressivamente em línguas, às vezes não intercompreensíveis. Por essa época, já se fazia clara distinção entre o latim e os dialetos populares, chamados de românicos. Falava-se latim (latine loqui)  em situações formais e românico (romanice loqui) no dia a dia. É de romanice que provém a palavra romance. Portanto, romance era qualquer dialeto proveniente do latim.

Na Idade Média, vários desses romances tornaram-se o que hoje conhecemos por línguas românicas ou neolatinas, dentre as quais o português. Nessa mesma época, narrativas literárias escritas nessas línguas também eram chamadas de romances. Está aí a origem do romance como gênero literário. É claro que o formato atual do romance é uma criação do século XIX que tem pouco a ver com os romances medievais. Por sinal, a escola literária que o criou foi também a que mais se inspirou na atmosfera medieval: o Romantismo, cujo nome deriva igualmente da palavra romance (romant em francês antigo).

Como os romances daquele século transbordavam de situações amorosas (assim como também os romances medievais, com temas de cavalaria e amor galante), romance passou por metonímia a designar o caso amoroso, o relacionamento afetivo entre um homem e uma mulher. E romantismo deixou de ser apenas um movimento literário para denominar todo um conjunto de atitudes próprias de quem ama.

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As enganosas palavras do grego moderno

O grego moderno é bem diferente do antigo, mas muitas palavras continuam as mesmas. Por isso, é comum reconhecermos em manchetes de jornais gregos (isto é, supondo que saibamos transliterar do alfabeto helênico para o nosso, latino) palavras que já conhecemos. O problema é que essas palavras em geral têm significado diferente daquele a que estamos habituados. Por exemplo, Demokratía Hellás, que é o nome oficial do Estado grego, não significa “Democracia Grega”, mas “República Grega”. Em frente ao Parlamento, em Atenas, há uma praça que ficou famosa pelas manifestações contra o pacote de ajuste fiscal imposto pela União Europeia para salvar a Grécia da falência em 2015. É a Praça Sýntagma, ou Praça da Constituição. Só que para nós sintagma é uma figura de gramática. Aliás, a metáfora, outra figura presente em nossas gramáticas, aparece com frequência em caminhões-baú na Grécia. É que metaphorá quer dizer mudança.

Voltando a falar naquela crise financeira grega, quando o FMI e a União Europeia aprovaram o empréstimo bilionário ao governo grego, os partidos políticos tiveram de selar um acordo para a aprovação de duras medidas de austeridade. No dia seguinte, os jornais gregos estamparam a manchete “Acordo!”, que em grego é Symphonía!.

Pausa, pouso e repouso

Hoje vou responder a um e-mail do leitor Jackson Bezerra de Albuquerque, que diz:

Prezado Aldo, admiro muito o seu trabalho e grande conhecimento sobre línguas, mas a razão da minha consulta é uma curiosidade etimológica que você, como especialista no assunto, certamente poderá me esclarecer. É verdade que “pouso” tem a ver com “pausa”? E se tem, qual é a relação? Muito obrigado.

Prezado Jackson, você tem toda a razão: pausa e pouso têm tudo a ver. Em latim, a palavra pausa queria dizer o mesmo que em português: parada, cessação, interrupção de uma atividade. No entanto, se pausa e pausar nos chegaram por via culta, temos o verbo pousar e seu derivado regressivo pouso, da mesma origem, só que desta vez recebidos por herança.

Mas o que há de comum entre pausar e pousar? Se a pausa é a interrupção de uma atividade, então, dizer que uma ave pousou equivale a dizer que ela fez uma pausa, interrompeu o voo. E como as aves precisam pousar para descansar, o pouso é também o momento de descanso, ou de repouso. Nem é preciso dizer que esta última palavra também se originou de pausa, porém trata-se agora de uma pausa mais longa, para repor as energias. Daí o prefixo reforçativo re‑.

Ou seja, a pausa em qualquer atividade pode ser associada a um “repouso”, mesmo que em sentido metafórico. Por isso, dizemos que um equipamento que não está sendo usado está em repouso (ou em stand by, isto é, de prontidão). Ora, o pouso, seja de um pássaro, avião, astronave, etc., é a entrada em estado de repouso, de inatividade, a cessação do voo.

De modo mais geral, toda interrupção é uma pausa. Assim, apertamos a tecla pause dos aparelhos de CD ou DVD para suspender a execução de uma música ou filme, e também fazemos pausas no nosso trabalho, seja a pausa para o almoço, o cafezinho, o descanso semanal ou as férias.

Uma última curiosidade: em francês, o verbo poser, proveniente da mesma fonte latina, significa “pôr, colocar”, isto é, “pousar” (sobre uma mesa, por exemplo). E pose, a atitude de quem fica imóvel durante uma foto ou retrato, não deixa de ser um estado de pausa, de inatividade.

 

Mande você também sua dúvida para este blog. Basta postar a dúvida nos comentários ou escrever para contatos@aldobizzocchi.com.br.

Pessoas que corrigem os erros gramaticais dos outros são chatas. Será?

Uma pesquisa recentemente publicada na revista científica PLOS One revela que pessoas que se sentem incomodadas com os erros gramaticais alheios e, mais ainda, tendem a corrigi-los, têm personalidade menos agradável e mais julgadora – ou seja, são chatas!

O estudo mostrou também que a personalidade pode determinar como ela reage aos erros de gramática dos outros, inclusive àqueles que pululam nas redes sociais.

Julie Boland e Robin Queen, ambas da Universidade de Michigan, fizeram experimentos com 83 participantes para saber como se comportavam diante de e-mails escritos. Algumas dessas mensagens propositalmente continham erros de digitação ou de gramática.

Os participantes deveriam julgar os autores dos e-mails do ponto de vista de sua suposta inteligência – ou falta dela. Além disso, tinham de comentar os erros das mensagens e dizer se causaram incômodo durante a leitura.

Por fim, foram submetidos a um teste de personalidade que mede traços como simpatia, grau de extroversão e até mesmo neuroticidade.

A maioria dos participantes classificou de modo mais negativo os autores de e-mails com erros. E os mais introvertidos foram mais severos em relação a tais erros do que as pessoas mais abertas e extrovertidas.

Em linhas gerais, a pesquisa conclui que as pessoas mais “fechadas” são mais sensíveis a erros, sejam de digitação ou gramaticais, e que as mais rigorosas em relação à gramática são também as mais desagradáveis no trato social.

Bem, se esse estudo estiver correto, eu devo ser um chato de galochas, afinal sou muito rigoroso com erros de escrita em geral, ou porque revelam falta de cuidado e esmero (no caso dos erros de digitação) ou falta de cultura (no caso dos erros gramaticais). Não que eu saia por aí corrigindo meus interlocutores, pois isso seria falta de educação: quem fala ou escreve errado (isto é, fora do padrão culto) o faz certamente porque não teve oportunidade de estudar. Mas o fato é que fui por um bom tempo professor de português, e, como vocês sabem, o hábito do cachimbo deixa a boca torta. Mais do que isso, como amante das letras e das línguas, fico incomodado não tanto pelos erros em si quanto pela quantidade deles. Se o modo como as pessoas escrevem a própria língua é um termômetro da saúde cultural de um povo, posso afirmar sem erro que o Brasil está na UTI.

A origem da palavra “trabalho”

Hoje, Dia do Trabalho, o assunto não podia ser outro se não ele mesmo, o trabalho – ou melhor, a palavra trabalho. Se hoje se acredita que o trabalho dignifica o homem (isto é, o ser humano, o que inclui evidentemente as mulheres), a origem da palavra não é tão digna assim. Afinal, durante muito tempo, a ideia de trabalho esteve ligada às classes mais baixas da sociedade, ou seja, escravos, servos e operários. Tanto que trabalho se origina do latim tardio tripalium, um instrumento de tortura formado de três estacas de madeira cruzadas (tripalium quer dizer literalmente “três paus”), em que os escravos eram amarrados para ser açoitados.

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Tripalium romano, em que os escravos eram torturados

Essa palavra latina também passou a outras línguas românicas como o espanhol trabajo, o catalão treball e o francês travail, sempre com o sentido de “trabalho”. Do francês, passou ao inglês travel, “viajar”, pois, segundo consta, as estradas inglesas na Idade Média eram tão ruins que viajar por elas era um verdadeiro suplício.

Menos estigmatizada que trabalho era a palavra lavor, do latim labor, tanto que os intelectuais não se referiam à sua atividade como um trabalho e sim como um lavor do espírito.

Labor e seu derivado laborare deram em português, além de lavor, o verbo lavrar (isto é, trabalhar a terra para semeá-la) e, deste, os substantivos lavra e lavrador, assim como lavoura (do latim laboria, derivado de labor). “Trabalho” em italiano é até hoje lavoro, derivado de lavorare, do latim laborare. Esse verbo também aparece em termos cultos como elaborar e colaborar, designativos de ações que implicam a ideia de trabalho: elaborar é criar do nada, e colaborar é trabalhar juntos.

O adjetivo “trabalhista” em espanhol é laboral e o partido trabalhista inglês é o Labour Party.

Mas também em outros idiomas a palavra para “trabalho” remete às classes baixas. Por exemplo, o alemão Arbeit provém de uma raiz indo-europeia *orbh, que significava “órfão” (por sinal, o português órfão vem do grego orphanós, que descende dessa raiz indo-europeia). Mas o que tem o órfão a ver com trabalho? É que, na Antiguidade e Idade Média, as crianças órfãs eram recolhidas pelas famílias na condição de serviçais, ou seja, não tinham os direitos que tem hoje uma criança adotada; os órfãos eram meros prestadores de serviços, em troca dos quais recebiam casa e comida, mas não tinham direito a herança. (E aqui vai mais uma curiosidade: a palavra alemã para “herdeiro” é Erbe, que também procede da raiz indo-europeia *orbh. É que o herdeiro só tinha acesso aos bens dos pais quando estes morressem, ou seja, quando se tornasse órfão.

Mas vou parando por aqui porque este texto está me dando trabalho, e hoje, Dia do Trabalho, é dia de descanso. Até a próxima!

Os coletes amarelos, o Museu Nacional e os milionários

Neste último fim de semana, os chamados “coletes amarelos”, manifestantes contra o governo francês conhecidos pelos coletes usados em suas manifestações, voltaram às ruas de Paris, desta vez não para protestar contra o preço dos combustíveis e sim contra o fato de inúmeros magnatas – inclusive a filantropa e socialite brasileira Lily Safra – estarem doando vultosas quantias ao fundo de reconstrução da catedral de Notre-Dame em vez de usarem seu dinheiro para combater a fome no mundo, especialmente na África.

Esse protesto segue, à primeira vista, uma lógica bem-intencionada e humanitária, portanto digna de louvor, ao mesmo tempo em que exporia o egoísmo e a indiferença dos milionários, mais preocupados com edifícios históricos do que com pessoas. No entanto, um exame mais profundo da questão revela que, por trás desses protestos, há um misto de idealismo romântico e falta de uma melhor compreensão da nossa realidade mundial.

Imagine que você disponha de 88 milhões de reais, quantia doada a Notre-Dame pela Senhora Lily, e deseje acabar com a fome na África. O que você faria? Procuraria o presidente de algum país africano para oferecer-lhe a generosa doação? E quem você encontraria? Provavelmente, um ditador com uniforme militar e o peito cheio de medalhas, que está há décadas no poder vivendo uma vida de luxo enquanto seu povo passa fome. Você entregaria seu dinheiro a esse indivíduo?

Mas, vamos supor que, em vez disso, você crie uma organização encarregada de distribuir os recursos diretamente à população. Você poderia fazer duas coisas: entregar às pessoas carentes sua ajuda em forma de alimentos ou entregá-la em dinheiro para que as próprias pessoas comprassem seus alimentos. Isso acabaria com a fome e a miséria na África? A meu ver, certamente não. O que mais provavelmente aconteceria é que, uma vez gastos todos os recursos, o povo voltaria a passar fome. Na verdade, é isso que vem acontecendo há décadas com as doações feitas por países ricos aos países pobres, notadamente da África e da América Latina: ou caem nas mãos de tiranos corruptos, que gastam o dinheiro com luxo e ostentação pessoal, jamais em benefício de seu povo, ou são gastos em ações assistencialistas que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

O fato é que a África, especialmente a subsaariana, é pobre há milênios, jamais tendo assistido ao surgimento de alguma civilização. A maior parte da população africana não tem uma ideia clara do que seja o Estado, mais acostumados que estão com a noção de tribo. Por isso mesmo, os Estados africanos, em grande parte desenhados pelos colonizadores europeus, têm servido apenas para legitimar governos ditatoriais e corruptos. Com um quadro desses, a doação de dinheiro não é um investimento no futuro dessas populações, é simplesmente um gasto a fundo perdido. E os magnatas, assim como os líderes dos países ricos, sabem disso.

Outro argumento ingênuo é o daqueles que reclamam que os milionários, dentre os quais uma brasileira, estão colaborando com a restauração da catedral parisiense mas não com a do nosso Museu Nacional, consumido pelas chamas em setembro passado.

Mais uma vez, eu lhe pergunto: você teria confiança em entregar 88 milhões de reais nas mãos dos burocratas do Ministério da Educação? Nas mãos do reitor da UFRJ? Nas mãos do diretor do Museu Nacional? Nas mãos do governo brasileiro?

Que garantia você teria de que o seu dinheiro, uma vez entregue ao governo ou à Universidade curadora do Museu, seria realmente aplicado na reconstrução desse patrimônio? E como você, milionário capitalista, espera ser recebido e tratado por burocratas de esquerda, como o são os dirigentes da Universidade e do Museu, que declaradamente têm ódio e desprezo por capitalistas?

É por essas e por outras, que nosso Museu, assim como o povo da África, vai continuar por um bom tempo passando o chapéu – inutilmente.

A origem do nome da Páscoa

Estamos na Semana Santa (por sinal, uma semana particularmente triste para os franceses e os amantes da civilização, dado o incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris), e, assim, achei oportuno falar um pouco sobre a origem da palavra Páscoa. Esse termo nos chegou através do latim Pascha – donde o adjetivo pascal ao lado de pascoal –, por sua vez do grego Πάσχα (Páskha), empréstimo direto do aramaico PasHâ’. Para quem não sabe, o aramaico, língua semítica descendente do hebraico, foi a língua nativa de Jesus.

PasHâ’ proveio do hebraico פֶּסַח (Pessach ou Pesaḥ), termo usado originalmente para designar uma festa judaica comemorando o Êxodo e cujo significado é “passagem”. (Aqui cabe um alerta: a semelhança fonética entre o hebraico pessach e o português passagem é fortuita, pois não são cognatos.) Como se sabe, Jesus foi a Jerusalém para as comemorações da Pessach, ou Páscoa Judaica, quando foi preso, torturado e morto na cruz. Segundo os Evangelhos, Jesus foi crucificado na sexta-feira e teria ressuscitado exatamente no domingo da Pessach, razão pela qual a Páscoa passou a ser também uma festividade cristã, com novo significado: agora não mais a fuga do povo judeu do cativeiro no Egito, mas a ressurreição de Cristo.

Curiosamente, o inglês e o alemão utilizam termos de outra etimologia para designar a Páscoa: o termo em inglês é Easter, proveniente do antigo inglês Ēastre ou Ēostre; em alemão, temos Ostern, descendente do antigo alto alemão Ōstarun. A hipótese geralmente aceita afirma que Ēostre era originalmente o nome da deusa anglo-saxônica do amanhecer. Ou seja, a data celebrava originalmente uma divindade pagã. Não por acaso, Easter e Ostern têm relação com as palavras East em inglês e Osten em alemão, ambas significando “leste, oriente, nascente”, já que o amanhecer se dá nesse ponto cardeal. Também cognatos são o sânscrito uṣrā́, o grego ἠώς (ēṓs) e o latim aurora, todos com o significado de “amanhecer”. E todos radicados no indo-europeu *aus‑ (ou h2us‑), “branco, brilhante”, que em português sobrevive nas palavras austral e ouro (do latim aurum).

A relação entre a festa pagã e a cristã não é clara, mas possivelmente tenha sido motivada pela ideia de renascimento, já que o Sol renasce todas as manhãs, assim como Jesus teria renascido após a crucificação. Outra explicação liga a ideia de “aurora” com a alba paschalis (aurora pascal), designação que aparece já no século V para a manhã da Páscoa. E albus, alba, album significa “branco” em latim (“alvo” em português, donde a “estrela d’alva” ou “estrela da manhã”).

As demais línguas germânicas utilizam palavras derivadas de Pascha, como o holandês Pasen, o sueco Påsk e o antigo gótico Pāska. Daí também provêm o espanhol Pascua, o francês Pâques e o italiano Pasqua.

Feliz Páscoa a todos!

Ainda sobre o aportuguesamento de palavras

Na semana passada, tratei aqui neste blog (ou blogue) do aportuguesamento da palavra inglesa tweet, que resultou no substantivo tuíte e no verbo tuitar. É bem verdade que o verbo inglês to google, “pesquisar no Google”, que deu googlar em português, ainda não se transformou em guglar, mas isso pode acontecer a qualquer momento. Meu leitor Patrick menciona já ter visto short e funk grafados como xorte e funque (e, neste último caso, suponho que a pronúncia seja de fato funque e não fanque). Isso me faz ressuscitar duas postagens do tempo em que eu tinha um blog (ou blogue) no site (ou saite) da extinta revista Língua, os quais passo a reproduzir abaixo.

Os blogues da internete

Até 1943, o português tinha uma ortografia de base etimológica (pharmacia, physica, etc.). Isso incluía não só palavras de origem grega ou latina, mas também estrangeirismos como abat-jour, kimono, football, club, etc. (até hoje alguns times têm Football Club no nome).

Com a reforma ortográfica daquele ano, que substituiu o critério puramente etimológico por um misto (predominantemente fonológico, com resquícios de etimologia), passou-se a adaptar à nova grafia muitas palavras estrangeiras, inclusive nomes próprios. Com isso, Garibaldi, no Rio Grande do Sul, virou Garibáldi, Mayrinck e Brodowsky, em São Paulo, tornaram-se Mairinque e Brodósqui, e assim por diante. Na contramão disso, como que para dar um certo charme, Bahia manteve o h, Joinville os dois ll, e Paraty o y. Nem mesmo nomes de personagens históricos foram poupados: Ruy Barbosa hoje é Rui Barbosa, Gregorio de Mattos atualmente se assina Gregório de Matos, e por aí vai. (Nada semelhante ocorre em outras línguas: Shakespeare não virou Shakespear, Debussy não se tornou Debussi nem Goethe hoje é Göte; a prosseguir essa tendência, daqui a um século serei Bizóqui.)

Atualmente, termos recentes vindos da linguagem da informática também estão passando por esse processo. Por isso, já se lê aqui e ali blogue em lugar de blog e – pasmem – internete em lugar de internet.

Diante da permanente importação de palavras estrangeiras, fenômeno corrente em todas as épocas, mas ainda mais em tempos de globalização, as línguas costumam adotar certos critérios sobre o que fazer com a palavra recém-chegada. Idiomas como o francês e o inglês, de ortografia radicalmente etimológica, simplesmente adotam essas palavras tal qual se escrevem na língua de origem. Idiomas que tendem a adaptar a grafia em geral pesam os prós e os contras dessa adaptação. Por isso, mesmo nessas línguas há uma grande quantidade de palavras que mantêm a grafia original, seja porque se manteve a fonética original, seja por conveniência do uso, inclusive do uso internacional.

Por essa razão, o italiano grafa Paraguay e Uruguay com y e Tokio e Pakistan com k mesmo não tendo essas letras em seu alfabeto. Por essa razão também grafa club, film, blog e internet mesmo que palavras terminadas em consoante sejam estranhas ao sistema fonológico italiano.

Enquanto isso, o português é a única língua europeia de maior alcance internacional a grafar Paraguai, Uruguai, Tóquio, Paquistão, clube, filme e agora também blogue e internete. É possível encontrar grafias diferentes, como blogg, klubb, internätt (e também internett ou internæt), Paragvæ ou Urugvaj, mas só em línguas escandinavas ou do Leste europeu.

A questão é até que ponto vale a pena adotar grafias que vão na direção contrária à dos demais idiomas? Num momento em que o português aspira a internacionalizar-se (e não são poucos os desafios a tal aspiração, mas não vou tratar dessa questão nesta postagem), a adoção de grafias que se afastam da tendência geral não parece uma política inteligente. A reforma ortográfica de 1943 e suas subsequentes de 1971 e 2009 tiveram o propósito de pôr ordem no caos e facilitar a grafia, não o de estabelecer uma doutrina ideológica de caráter purista ou xenófobo.

Você tem um sítio?

Que o vocabulário de uma língua varia de uma região para outra, e mais ainda de um país para outro de mesmo idioma, todo mundo sabe. No entanto, essas variações, às vezes sutis, podem pegar de surpresa até linguistas experientes como eu, que dirá o falante leigo e incauto? Basta viajarmos um pouco pelo Brasil para percebermos que a lomba (isto é, ladeira) dos gaúchos não tem nada a ver com a lombada (quebra-molas) dos paulistas, mas que a macaxeira dos nordestinos tem tudo a ver com o aipim ou mandioca do Centro-Sul do país.

Pois bem, estava eu certa vez participando de um congresso internacional e acabei travando contato com uma famosa linguista da Universidade de Lisboa. Depois de um bom tempo de conversa, ao nos despedirmos, trocamos cartões de visita; o meu continha, além de nome, endereço residencial, telefone e e-mail, o endereço do meu website. A professora, após ler atentamente o cartão, olhou fixamente nos meus olhos e perguntou: “Você tem um sítio?”

A primeira coisa que imaginei é que o meu endereço residencial lhe tivesse causado alguma estranheza e ela tivesse sido levada a acreditar que eu morava na zona rural. Respondi-lhe, um tanto envergonhado: “Não, não tenho sítio não, mas bem que eu gostaria. Na verdade, quando eu me aposentar, meu sonho é ir morar num sítio, bem longe do burburinho da cidade grande, no meio da bicharada!”

De repente, ela irrompeu numa gargalhada e me perguntou, perplexa: “Mas do que estás a falar? Perguntei-te se tu tinhas um sítio, pois, pelo que estou a ver aqui no teu cartão, tu tens!”

E eu insisti: “Não, não, a minha casa fica na cidade mesmo, num bairro bastante urbanizado.”

Vendo que eu não estava entendendo nada, a douta lusitana me questionou: “Ora, se não tens sítio, então que vem a ser este teu www.aldobizzocchi.com.br? Este sítio leva teu nome, não é teu por acaso?

Só então me dei conta de que ela estava se referindo ao sítio da internet, ou melhor, àquilo que nós brasileiros conhecemos quase exclusivamente como site. Assim como eu não me lembrei de imediato que em Portugal “site” se diz sítio, ela tampouco parecia saber que no Brasil sítio é uma pequena propriedade rural, algo como uma quinta em Portugal.

Desfeito o mal-entendido, ela prometeu que acederia ao meu sítio (isto é, acessaria o meu site) assim que chegasse ao hotel.

Moral da história: as línguas pregam peças até nos linguistas.

“Tuíte” e “tuitar”: aportuguesamento ou derivação?

O português é dessas línguas que costumam adaptar a grafia de palavras importadas ao seu próprio sistema ortográfico. Evidentemente, isso não acontece em todos os casos. Palavras como site e internet têm passado incólumes por esse processo – e olhe que já se vão lá quase trinta anos desde que surgiram em português. Às vezes, o aportuguesamento não se deu porque o empréstimo é ainda muito recente; às vezes, porque a adaptação gráfica resultaria numa forma estrambótica demais para ser assimilada pacificamente (pense-se em pitça e blutufe em lugar de pizza e bluetooth). Em alguns casos, como no universo da moda e da tecnologia, a manutenção da grafia original se deve ao status que esta carrega: imagine cordon bleu, termo chique (ou chic) de culinária, grafado cordomblê e sendo confundido com candomblé!

Mas alguns termos recém-chegados à nossa língua já estão sendo devidamente nacionalizados. É o caso de tuitar e tuíte, do inglês tweet, que significa tanto o verbo “piar” quanto o substantivo “pio”. Ao mesmo tempo, o nome da rede social que popularizou esses termos, o Twitter, permanece com sua grafia original, provavelmente por ser nome próprio, marca registrada e sobretudo um termo de difusão internacional.

Que o verbo inglês to tweet tenha dado tuitar e não tweetar em português parece natural. Afinal, toda palavra derivada de estrangeirismo costuma ter a grafia aportuguesada. Por isso, Corinthians é com th mas corintiano não; por isso, marketing é com k, mas marqueteiro, com qu, e assim por diante.

Mas como de tuitar se chega a tuíte? Aqui há duas explicações possíveis – e, a rigor, não há como saber qual delas é a verdadeira: ou o substantivo inglês tweet deu o nosso tuíte por empréstimo direto (evidência disso é que nas primeiras ocorrências da palavra ainda víamos a grafia tweet) e posterior aportuguesamento por analogia com tuitar, ou tuíte seria uma derivação regressiva de tuitar, assim como repasse vem de repassar, achincalhe de achincalhar, desfrute de desfrutar, etc. É claro que a primeira hipótese é a mais provável, principalmente porque a forma aportuguesada do termo surgiu na imprensa especializada em informática, cujos redatores não desconhecem a matriz inglesa da palavra. Mas nada impede que, daqui a alguns anos, professores de português e gramáticos ensinem que tuíte deriva de tuitar. E como os falantes têm memória curta (às vezes acho que gramáticos também), todos aceitarão passivamente essa explicação, que dá de ombros à história da língua. Especialmente porque, quando se trata do admirável mundo novo da tecnologia, o passado – isto é, uns poucos anos atrás – simplesmente não existe.

Pensando bem, talvez daqui a alguns anos o próprio Twitter não exista mais, suplantado por novidades tecnológicas ainda mais mirabolantes, o que fará tuitar e tuíte serem lançados ao arquivo morto dos arcaísmos ultra-antiquados, e então essa discussão sobre o ovo e a galinha (ou sobre o pio e o piar) não fará o menor sentido. É esperar para ver.

A pronúncia correta de “Roraima”

A atual crise na Venezuela, com suas repercussões no Brasil, mais especificamente na cidade de Pacaraima, em Roraima, suscita uma questão polêmica de língua portuguesa que de quando em quando vem à tona: qual é a pronúncia correta do nome do estado de Roraima – e agora também da cidade de Pacaraima. Como se pode perceber nos noticiários do rádio e da TV, alguns repórteres pronunciam “roráima”, com a aberto, enquanto outros dizem “rorâima”, com a fechado – e por vezes nasalizado (“rorãima”) –, mas todos pronunciam “pacaráima”.

Tradicionalmente, as pessoas do norte do país pronunciam “roráima” enquanto no sul predomina “rorâima” ou “rorãima”. Até que a televisão (leia-se Rede Globo) passou a impor, via locutores, a pronúncia com a aberto, para estranheza daqueles que preferem o a fechado quando seguido de consoante nasal (e em Roraima temos um m na sílaba seguinte).

A suposta justificativa dos produtores de TV, escorada em alguns gramáticos de pouca ou nenhuma formação científica, é que essa é a pronúncia corrente entre os próprios roraimenses (também conhecidos como “macuxis”). Isso traz à baila uma questão que tratei no texto Artigo de estado, publicado na revista Língua, n.º 81, de julho de 2012, sobre se a maneira dos próprios moradores de pronunciar o nome do lugar onde vivem deve ter preferência sobre outras. E argumentei que não. Aliás, muitas pessoas pronunciam errado o nome de suas ruas e bairros, especialmente quando se trata de nomes estrangeiros. Mas, mesmo quando se trata de nome vernáculo, se este admite como correta mais de uma forma, qualquer uma delas é legítima, não importa se é a mais usual entre os habitantes do local ou não.

É preciso lembrar que em português não há oposição fonológica (isto é, distinção de significado) entre vogais abertas e fechadas antes de consoante nasal. Por isso, tanto faz pronunciar “bánana” ou “bânana”, “nóme” ou “nôme”, “fizémos” ou “fizêmos”. Quer sejam pronunciadas abertas ou fechadas diante de m ou n, as vogais a, e e o não alteram o significado da palavra, diferentemente do que ocorre em outros contextos (por exemplo, leste com e fechado é pretérito do verbo ler; já com e aberto é um dos pontos cardeais). Por isso, aliás, a distinção ortográfica entre Brasil e Portugal em palavras como génio/gênio, económico/econômico, etc., é desnecessária. Poderíamos adotar qualquer uma das grafias como sendo a única, e cada povo continuaria a pronunciar como sempre pronunciou, afinal a ortografia só precisa dar conta daquilo que é fonologicamente pertinente, isto é, distingue significados. É por essa razão que, quer pronunciemos o o de nome como aberto ou fechado, a grafia é uma só: a diferença de pronúncia é um fenômeno de fala, não de língua.

Em relação a Roraima, qual é então a pronúncia correta, ou a mais recomendável: “rorâima” ou “roráima”? Se em português os timbres aberto e fechado do e e do o se neutralizam antes de m ou n, no caso de á e â, não há oposição fonológica nunca, o que equivale a dizer que os dois sons representam sempre o mesmo fonema (tecnicamente diríamos que são alofones do mesmo fonema /a/). O único caso de distinção apontado por algumas gramáticas mais conservadoras seria o da primeira pessoa do plural dos verbos da primeira conjugação, em que, por exemplo, chegamos é presente e chegámos é pretérito. Só que chegámos só existe em português lusitano, e não é possível postular a existência de um fonema com base em um único caso. Como resultado, podemos dizer “bânana” ou “bánana”, “Jáime” ou “Jâime”, “páineira” mas “pâina”, “plâino” mas “apláinar”, e assim por diante. Logo, podemos pronunciar indiferentemente “roráima” ou “rorâima”: ambas as pronúncias são corretas e legítimas em português. E, curiosamente, nenhuma delas corresponde à pronúncia original do nome no idioma taurepang, que é “roraíma”.

Quanto a Pacaraima, a única pronúncia em circulação é a dos próprios moradores da cidade, isto é, com a aberto, visto que, até estourar a crise dos imigrantes venezuelanos, ninguém no centro-sul do Brasil havia ouvido falar dessa pequena cidade.