O estigma das palavras

Muitos criticam a adoção de certas palavras, especialmente verbos terminados em ‑izar, como disponibilizar, penalizarrelativizar, absolutizar e vitimizar, sob o argumento de que são desnecessárias, já que a língua dispõe de outros vocábulos, mais simples e tradicionais, para expressar os mesmos conceitos. Na opinião desses críticos, em vez de disponibilizar, devemos empregar oferecer; em lugar de penalizar, punir, e assim por diante.

A questão oculta por trás dessa argumentação não é propriamente se tais palavras são de fato ociosas, já que existem sinônimos para elas. Afinal, sinônimos nunca são demais: sempre precisamos deles, nem que seja para tornar menos monótona a redação. Oferecer, ofertar, disponibilizar, com certeza há lugar para todas essas palavras na língua. Então, por que o uso desses termos incomoda algumas pessoas?

A meu ver, há algo de ideológico nisso. Certas expressões têm alta frequência de uso em algumas épocas e em determinados grupos sociais ou profissionais. Assim, na década de 1960 qualquer coisa muito boa ou que cumprisse muito bem suas funções estava “inserida no contexto”. Nos anos 1980, explicação que se prezasse tinha de ser iniciada por “Veja bem”. Certos modismos são odiados justamente por ser modismos, o que revelaria falta de personalidade ou estilo por parte de quem os usa. Muitos deles são, aliás, deformações do jargão acadêmico ou da linguagem especializada, o que os tornaria ainda mais caricatos – por exemplo, “enquanto” e “a nível de” no sentido de “como”: “o homem, enquanto ser social”, “a nível de espécie animal, o ser humano…”. (“A nível de” ainda tem contra si a antipatia dos gramáticos, que condenam tal expressão, preferindo “em nível de”.)

Talvez seja esse o caso de disponibilizar, absolutizar, etc. Do ponto de vista morfológico, não há nada de errado com essas palavras: se o sufixo ‑izar significa “tornar”, então disponibilizar é tornar disponível, absolutizar é tornar absoluto, e assim por diante. O problema é que esses termos surgem em determinados meios (empresarial, publicitário, econômico) e se tornam emblemáticos dessas atividades. Tornadas assim palavras-emblema, elas passam a carregar o estigma das profissões que as ostentam como senha. Se desacredito dos economistas e de suas mirabolantes previsões, o jargão econômico se transforma em “economês”, língua de empulhação, destinada a ludibriar a opinião pública. E, portanto, seus termos passam a ser emblemas dessa empulhação.

Há também a falsa erudição. Sendo termos nascidos em algum jargão técnico, disponibilizar, relativizar, etc., conferem a quem os pronuncia um status de pessoa letrada, de nível superior. O abuso dessas formas como índice de cultura é o que gera a caricatura.

Infelizmente, no próprio discurso letrado, o vazio de ideias acaba preenchido por uma pletora de vocábulos-emblema. Em textos acadêmicos, é comum lermos que “este artigo procura lançar um olhar sobre”, “é preciso tornar o aluno sujeito de seu próprio processo de ensino-aprendizagem”, etc. etc. O costume de lançar olhares em vez de simplesmente analisar,examinar, estudar, bem como o emprego de palavras e construções que revelem algo da ideologia do autor (por exemplo, termos como inclusão, resgate da cidadania, dívida histórica, situação de risco social, ação afirmativa fazem parte de certas agendas político-partidárias), nos predispõe imediatamente contra ou a favor da argumentação subsequente, pois, de cara, percebemos tratar-se de um texto desta ou daquela linha ideológica.

O mesmo raciocínio vale para as investidas eugenistas contra certos vocábulos, como homossexualismo, ao qual os puristas querem contrapor homossexualidade, alegando o caráter mais neutro do sufixo ‑dade. Ora, não existem termos neutros na linguagem, tudo tem conotações, a própria busca da neutralidade emblematiza (gostaram?) uma postura ideológica, a do igualitarismo radical.

Se fôssemos usar esse critério em todos os casos, a astrologia deveria chamar-se astromancia, pois ‑logia é elemento que denota ciência, e a astrologia é uma adivinhação (‑mancia) baseada nos astros. Pelo mesmo motivo, a neurociência deveria ser neurologia, e a especialidade médica que hoje conhecemos por neurologia deveria ser neuriatria. A própria tecnologia não é a ciência que estuda a técnica, mas o conjunto de técnicas fundadas no conhecimento científico. Portanto, deveria ser chamada de logotecnia ou logotécnica. Os exemplos poderiam estender-se ao infinito.

O fato é que a língua se pauta menos pela lógica do que pelo uso. Se alguém propõe um novo termo, por menos razoável que seja (e o que há de razoável em chamar radar de trânsito de pardal?), e ele “pega”, não há o que fazer. Criticá-lo, combatê-lo, incitar as pessoas a boicotá-lo, nada disso dá resultado e só revela o lado rancoroso de alguns falantes, que se comprazem em estigmatizar (eita nós!) a fala alheia.

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4 comentários sobre “O estigma das palavras

  1. Bom dia, dr. Aldo! Faltou algo na 1ª frase do último parágrafo. Mais uma vez, concordo com tudo que escreveu. Reconheço, porém, que tenho certa cisma com a palavra “inicializar”, da informática, e também com a palavra “protocolizar”, comum no meio jurídico. Com relação aos sinônimos, quanto mais melhor. Como o senhor bem sabe, existem alguns dicionários de sinônimos que nos ajudam a pinçar a palavra que melhor expressa o nosso pensamento nos mais variados contextos.

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  2. O que justifica essas escolhas é a junção de certa práticas novas (“inicializar” é um exemplo, pois “iniciar” não é bem o que se tem em mente quando se manda alguém abrir o computador) e algum pernosticismo. O segredo é evitar o exagero. Da minha parte, sempre proponho nas redações alternativas a vocábulos como “absolutizar”, visando melhorar o estilo.

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    1. Pois é, Chico, mas, de modo geral, acho que a linguagem culta brasileira padece de um certo pedantismo, afinal, enquanto dizemos “inicializar” referindo-nos ao computador, os falantes de inglês dizem simplesmente “start”, isto é, “iniciar”. Chamamos de disco rígido e leite integral o que para eles é simplesmente “disco duro (hard disc)” e “leite inteiro (whole milk)”. Chamamos de “paralisação” de funcionários públicos o que para eles é apenas “stop” (parada).

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