Desvendando a caixa-preta – 2ª parte

Na semana passada, falei sobre a decifração de escritas enigmáticas e, particularmente, sobre o chamado Manuscrito Voynich, uma obra renascentista de 240 páginas que desafia os maiores especialistas em códigos secretos do mundo. Pois, no início deste mês, o historiador britânico Nicholas Gibbs anunciou em artigo publicado na revista The Times Literary Supplement ter finalmente desvendado o mistério.

Em seu artigo, Gibbs afirma que o manuscrito é “um livro de referências de remédios retiradas dos tratamentos padrão do período medieval, um manual de instruções para a saúde e o bem-estar para as mulheres mais abastadas da sociedade, e que muito possivelmente foi escrito para uma única pessoa”.

Durante muito tempo se acreditou que o texto do manuscrito estaria criptografado, isto é, escrito em código. Agora, Gibbs apresenta uma nova teoria a respeito: para ele, os estranhos símbolos que compõem o “alfabeto” do texto são, na verdade, abreviações de termos em latim.

Na Idade Média, era muito comum os copistas utilizarem abreviações para economizar espaço na folha e tempo na preparação dos manuscritos, já que o pergaminho era muito caro e o trabalho era todo manual. Essas abreviações consistiam muitas vezes em ligaduras tipográficas, ou seja, entrelaçamento de duas ou mais letras num único símbolo, como ocorre até hoje com os caracteres “æ” (a + e), “œ” (o + e) e “&” (e + t).

Diz Gibbs: “Como alguém com uma longa experiência na interpretação de inscrições em latim em monumentos clássicos, nas tumbas e em chapas metálicas de igrejas inglesas, reconheci no Manuscrito Voynich sinais reveladores de um formato abreviado de latim”.

E segue: “Para aqueles que estudaram medicina medieval, e possuem um bom conhecimento de suas origens, os médicos clássicos Galeno (129-210 d.C.), Hipócrates (460-370 a.C.) e Sorano (98-138 d.C.) dentre eles, a incorporação pelo manuscrito Voynich de um herbário ilustrado (coleção de remédios de plantas), gráficos de zodíaco, instruções em termas (banhos) e um diagrama que mostra a influência das Plêiades lado a lado não será surpreendente”.

Com base em livros medievais dedicados aos tratamentos de saúde à base de banhos, como Trotula, De Balneis Puteolanis e Herbarium Apuleius Platonicus, Gibbs diz ter reconhecido nas ilustrações do Manuscrito Voynich as velhas receitas de banhos terapêuticos com infusões de ervas sob a suposta influência dos astros que remontam aos médicos e sábios da Antiguidade, como Galeno, Hipócrates e Plínio. Isso explicaria as ilustrações com mulheres nuas imersas em líquidos escuros, ervas diversas e cartas zodiacais: trata-se de um manual sobre doenças ginecológicas e seus tratamentos. Segundo Gibbs, esses tratados costumavam trazer abreviações de palavras em latim, cuja chave para sua decodificação era um índice que acompanhava a obra. No caso do Manuscrito Voynich, esse índice provavelmente se perdeu.

Gibbs afirma ter decifrado pelo menos duas ligaduras: eius e etiam; diversas outras abreviações corresponderiam a palavras relacionadas a plantas e infusões, como aq = aqua (água), dq = decoque/decoctio (decocção), con = confundo (mistura), ris = radacis/radix (raiz) e s aiij = seminis ana iij (3 grãos de cada).

O exemplo de decifração fornecido por Gibbs é o seguinte:

Voynich-translation-enlarged

No entanto, o trabalho de Gibbs recebeu críticas de outros especialistas, para quem o exemplo dado é pequeno demais para sustentar a argumentação do historiador. Para eles, o caso ainda não está solucionado, e serão necessárias mais evidências que comprovem tratar-se realmente de um manual todo grafado com abreviaturas.

Aguardemos os lances dos próximos capítulos.

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