Morte morrida e morte matada

O grego tem dois adjetivos, ambrósios e athanásios, para designar o que chamamos em português de “imortal”. Mas há uma diferença entre eles que nós não fazemos. Ambrósios significa literalmente algo como “imorrível” (ou “imorredouro”, como manda o bom português); já athanásios quer dizer “imatável”. Estranho? Pois, se para nós tanto faz, os gregos distinguiam duas situações que não são, a rigor, idênticas. Nós, seres humanos, somos, digamos assim, morríveis e matáveis, pois podemos morrer tanto de “morte morrida” (por causas naturais) quanto de “morte matada” (por acidente ou crime). Mas há seres – pelo menos em tese – que podem morrer espontaneamente mas não ser mortos, enquanto outros só morrem quando assassinados, nunca de morte natural. Exemplos? Um vampiro é uma criatura condenada à vida eterna, exceto se alguém lhe cravar uma estaca ao coração ou o alvejar com balas de prata. Ou seja, o vampiro é matável, mas não morrível. Já os vírus morrem espontaneamente após concluir o ciclo de infecção do organismo, mas até agora a medicina não desenvolveu nenhum medicamento capaz de fulminá-los. Por isso, quando se está gripado, é usual tratar os sintomas e esperar pacientemente o ciclo infeccioso chegar a seu fim por si próprio. Dito de outro modo, vírus são morríveis mas não matáveis – pelo menos por enquanto.

Essa distinção entre o matável e o morrível, o matado e o morrido, tem, aliás, implicações gramaticais. Se “estar” indica estado transitório, e “ser”, condição definitiva, por que se diz que alguém “está morto” e não que “é morto”, se a morte é definitiva? Afinal, não é pela mesma lógica que se diz que fulano “está resfriado” (mal passageiro), mas “é diabético” (doença sem cura)? A razão é que “morto” é particípio breve de dois verbos em português: “matar” e “morrer”. Portanto, “morto” significa tanto “matado” quanto “morrido”. Como muitos verbos em português admitem dois particípios, um longo e um breve (entregado/entregue, aceitado/aceito, pagado/pago, suspendido/suspenso, acendido/aceso, etc.), convencionou-se que, com os verbos “ser” e “estar”, deve-se usar o particípio breve, e com “ter” e “haver”, o longo. Mas, se digo que o leão foi morto pelo caçador, o que quero dizer é que o caçador havia matado o leão (o leão foi “matado” pelo caçador). Já se digo que o leão está morto, é porque ele havia morrido (isto é, está “morrido”). Logo, se, ao encontrar o cadáver do leão, eu dissesse que ele “é morto” em vez de “está morto”, estaria me referindo à ação de matar e não ao estado de alguém que morreu.

Por sinal, um comentarista esportivo da televisão, aludindo, certa feita, à frase de Pelé de que no futebol é preciso matar um leão por dia para provar que se é caçador, disse que “neste campeonato, um leão é matado a cada jogo”.

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