A divulgação científica no Brasil, o lugar da linguística – e o meu lugar nisso tudo

Sempre fui apaixonado por duas coisas: arte e ciência. Vejo mesmo muita semelhança entre ambas. Afinal, ambas são produtos do espírito, formas de invenção (sim, a ciência não é só descoberta, ela é em grande parte criação, construção) e, de certa forma, ambas buscam a beleza, a elegância, a regularidade. A arte e a ciência são, por isso mesmo, o território do talento e da genialidade. A grande diferença entre elas é que a arte está quase totalmente voltada ao público em geral e tem como missão primeira ou única o entretenimento, ao passo que a maior parte da produção científica se volta ao próprio meio acadêmico e visa a solucionar problemas práticos do ser humano.

É verdade que há as artes aplicadas, como o design de embalagens, por exemplo, mas, quando se fala em arte, é nas exposições, nos espetáculos, nos concertos e shows, nos livros de ficção que se pensa. Ao contrário, a palavra “ciência” nos remete as mais das vezes a um laboratório de pesquisa, a pessoas de jaleco branco, a fórmulas matemáticas ininteligíveis… Se há um lado cultural e de entretenimento na ciência, é o da divulgação científica, também conhecida como popularização científica ou popularização do saber.

Confesso que eu sempre quis ser artista, mas a vocação que me faltou para as artes acabou se revelando na atividade científica. Para quem não sabe, cursei cinco semestres de física antes de perceber que a minha aptidão e o meu destino eram mesmo a linguística. Mas, mesmo como cientista, nunca deixei de ter o imenso desejo de me comunicar com a sociedade e não só com meus colegas. Tampouco perdi de vista que o conhecimento científico, mesmo oferecendo soluções tecnológicas para os problemas sociais, só se justifica plenamente quando chega, ele próprio, às pessoas. Afinal, todos nós usamos a tecnologia provida pela ciência todos os dias, mas poucos de nós são capazes de discutir temas científicos, ainda mais quando contrapostos a crendices populares, opiniões subjetivas e dogmas religiosos. Cabe ao divulgador científico a missão de tornar a ciência um assunto palatável e, mais do que isso, agradável.

No mundo desenvolvido, há uma grande oferta de produtos culturais ligados às ciências e às humanidades: livros de divulgação escritos por grandes cientistas, palestras públicas de pesquisadores e intelectuais, exposições de ciência, e muito mais. Os países que mais produzem conhecimento científico são também os que mais se preocupam em difundir ciência ao público leigo. Embora em todos os lugares a porcentagem de cientistas que divulgam abertamente seu trabalho seja relativamente pequena em relação ao total de pesquisadores, no Brasil ela é menor ainda. Ou seja, ainda não desenvolvemos uma cultura de difusão pública do saber com propósito cultural. Na área da filosofia, já temos alguns “pop stars”, como Mário Sérgio Cortella, Lenadro Karnal e Luiz Filipe Pondé; nas ciências naturais, nossos maiores divulgadores são o físico Marcelo Gleiser e a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que, no entanto, vivem e trabalham nos Estados Unidos.

A realidade é que não temos no Brasil figuras do alcance e abrangência – e talvez nem do talento – de um Carl Sagan na astronomia, de um Richard Dawkins na biologia, de um Stephen Hawking na física… E estes, juntamente com o matemático Keith Devlin e os linguistas David Crystal e Steven Pinker, são meus ídolos desde sempre.

O fato é que eu sempre tentei humildemente fazer divulgação científica no Brasil com os recursos que eu tinha disponíveis. E, pior ainda, divulgação de uma ciência que sempre teve pouco prestígio e pouquíssima difusão entre nós: a linguística.

Embalado pelos meus ídolos, me lancei a escrever uma coluna mensal na extinta revista Língua Portuguesa e depois um blog semanal no portal da mesma revista, falando sobre os aspectos curiosos e interessantes da(s) língua(s), sempre com viés científico, mas em linguagem acessível aos leigos razoavelmente escolarizados.

Após o fim da revista, decidi continuar por conta própria meu trabalho de cronista da língua por meio deste blog pessoal. Também compilei meus principais artigos em livro que aguarda uma editora interessada em publicá-lo.

Capa Canal Planeta Língua - Pedro

E agora, acabo de dar meu passo mais importante até o momento nessa trilha da divulgação do conhecimento sobre a nossa língua, as outras línguas e a linguagem humana em geral: lancei um canal no YouTube. Pois é, já está no ar o canal Planeta Língua. Nele, toda sexta-feira vou postar um vídeo novo tratando de algum assunto referente a esse universo, além de entrevistar pessoas da área ou que de alguma forma tenham a ver com ela, comentar livros e responder às perguntas do público sobre linguística, gramática, origem das palavras e o que mais aparecer. Vocês, meus leitores, estão obviamente convidados a visitar o canal e, se gostarem, a inscrever-se nele, curtir, comentar e compartilhar os vídeos, além de enviar perguntas e sugestões de pauta.

Confesso que não está sendo pequena essa empreitada, pois elaborar vídeos dá muito trabalho, desde a escolha do tema, a pesquisa a respeito, passando pela roteirização, filmagem, edição, finalização, até chegar à publicação e subsequente divulgação nas mídias sociais. E isso toda semana para que, na sexta-feira, chegue até vocês conteúdo fresquinho e de qualidade. Como não leciono mais, hoje trabalho full time com pesquisa e divulgação científicas. Para ajudar a custear todo esse trabalho, também lancei o canal na plataforma Patreon, que angaria patrocinadores, isto é, pessoas comuns, incluindo seguidores do canal e apreciadores do meu trabalho, que estejam dispostas a dar uma pequena contribuição mensal (simbólica mesmo) para manter o canal no ar com qualidade e periodicidade. Em troca, ofereço a esses “patronos” alguns privilégios que, com o progresso do canal, tenderão a ficar cada vez maiores.

Enfim, o carinha que ama música mas é desafinado e toca mal violão, que sonhava gravar discos e dar shows mas acabou escrevendo livros e artigos e dando palestras e aulas sobre língua agora também é vlogueiro – isso mesmo, vlogueiro com “v” de vídeo. Confiram e vejam se tenho futuro.

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