Bullying e bolinar: alguma coisa a ver?

A recente tragédia no colégio Goyases, em Goiânia, em que um adolescente de 14 anos matou a tiros dois colegas e feriu outros quatro, traz de volta não só a questão da violência nas escolas, mas também a preocupação com a prática do bullying, já que este foi o motivo alegado pelo autor para a prática do crime (desculpem, do “ato infracional”).

O termo “bullying” é de introdução recente em português. Já a prática que ele nomeia é mais velha do que o mundo. Suspeito que, desde que existe essa instituição chamada escola, a chacota e a intimidação contra os alunos mais fracos ou “diferentes” façam parte dela, como o feijão e o caruncho. Talvez antes mesmo de surgirem as instituições de ensino, já no tempo das cavernas se praticasse essa traumática e humilhante demonstração de superioridade, como a dominância que um animal exerce sobre outro montando-lhe nas costas. Enfim, o bullying parece ser um resquício de nossas raízes animais, reminiscência deixada pela evolução numa espécie que, mesmo tendo deixado a selva, jamais deixou de ser selvagem.

Mas vamos ao que interessa: desde que a palavra “bullying” passou a circular no vocabulário escolar, estudantes alegam ter sido “bolinados” ou que fulaninho é um “bolinador”. Há algo em comum entre “bullying” e o verbo “bolinar”?

A aproximação das duas palavras é uma dessas curiosas peças que a língua, em seus cegos meandros, nos prega, mais ou menos como a súbita relação que se estabeleceu em italiano entre o substantivo choc (“choque”, de origem francesa) e o verbo scioccare (“chocar”, derivado de sciocco, “bobo”) por causa da pronúncia comum – o sci do italiano tem o mesmo som do francês ch (e que é o som do nosso x de “xaxim”). Ou seja, os italianos identificam o ato de chocar com o de deixar alguém abobado, o que não deixa de fazer sentido, mesmo sendo só coincidência. Em português, o casamento de “bullying” com “bolinar” foi facilitado pela pronúncia “bulinar”, de longe a mais corrente no Brasil.

O fato é que “bolinar” é palavra bem mais antiga que “bullying” e veio da linguagem náutica. Bolinar é apontar a embarcação na direção do vento, navegar à bolina, de viés. E, segundo o dicionário Michaelis, bolina, do inglês bowline, é “cada uma de duas chapas de aço ou outras saliências longitudinais semelhantes a uma nadadeira, fixadas uma em cada lado arredondado do fundo do navio para evitar grandes balanços”.

Da navegação, “bolinar” passou ao linguajar sexual, designando, segundo o Houaiss, o ato de “apalpar ou encostar-se a uma outra pessoa com fins libidinosos, geralmente de modo furtivo”. Para o Michaelis, é “tocar em alguém com intuitos libidinosos”. Ou seja, o que muitos cafajestes fazem com as mulheres dentro de ônibus e trens lotados.

Já “bullying” vem do inglês bully, definido pelo American Heritage Dictionary como uma pessoa habitualmente cruel, especialmente com pessoas menores ou mais fracas. A etimologia do termo é obscura, sendo que o dicionário em questão a atribui possivelmente ao holandês medieval boele, “namorado/a”. Outro étimo apontado é a palavra bull, “touro”, talvez pela semelhança entre a impetuosidade desse animal e a truculência do bully.

Mas como “bolinar” assumiu conotação sexual? E o que isso tem a ver com chacota e intimidação? Segundo o etimólogo Antenor Nascentes, o sentido libidinoso de “bolinar” data de 1892: o bolinador senta-se ao lado de uma mulher, como um navio à espera de vento favorável. Mas quem sabe a explicação seja mais complexa do que isso. Perscrutar a origem de expressões populares é um dos grandes desafios da etimologia, já que documentação comprobatória na maioria dos casos não existe. No entanto, eu lançaria mão de um terceiro elemento, o verbo “bulir”, sinônimo de “mexer”, que, como este, também significa “incomodar, importunar, caçoar”. Ora, o bolinador escolar aborrece, importuna, leva à loucura suas vítimas (além desse recente caso de homicídio, há também casos de suicídio de crianças assediadas na escola); além disso, quando se dirige às meninas, em geral seu assédio envolve sexo: propostas indecorosas, obscenidades cochichadas ao ouvido, apalpadelas…

Essa convergência de sons e sentidos pode ter reunido três palavras de origens tão diversas numa única família semântica: “bullying”, “bulir” e “bolinar”. Caprichos da língua. O fato é que essa inusitada relação que se estabeleceu nos últimos tempos entre o substantivo “bullying” e o verbo “bolinar” coincide com a progressiva diminuição do emprego de “bolinar” em seu sentido anterior, sexual: por volta dos anos 1950, era comum chamar um galanteador descarado de bolina e seu ato de bolinação; hoje, essa prática se chama assédio sexual. E se, 60 anos atrás, um bolina era tido apenas como um sujeito importuno, hoje ele é um criminoso.

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4 comentários sobre “Bullying e bolinar: alguma coisa a ver?

  1. Faço minhas as palavras do prof. Chico Viana, com a devida permissão dele. Gostaria de acrescentar, porém, que o adolescente que atirou nos colegas, por mais que sofresse com o bullying e tenha baixíssima autoestima (culpa dos pais, que não detectaram isso?), jamais poderia ter feito o que fez. Ele deixou de ser vítima para ser culpado. As vítimas verdadeiras, que não podem reclamar, são os mortos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Caro Patrick, tanto concordo com você que, no meu artigo, usei a expressão “ato infracional”, normatizada pelo juridiquês, de forma irônica, pois um assassinato é um assassinato, não importa a idade do assassino.

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