Ética e moral são a mesma coisa?

Nesta semana, respondo à pergunta de um assíduo leitor desta coluna. Edilson Zafira de Sousa, de São Paulo, questiona:

Qual é a etimologia de ética e de moral? São sinônimas?

“A ética está ligada à filosofia. A moral está ligada à religião.” Está correta essa definição?

Embora no linguajar corrente ambos os termos sejam utilizados como sinônimos – e a razão disso explico mais abaixo –, eles têm diferentes significados. “Moral” deriva do latim mores, “usos, costumes”, e corresponde ao conjunto das práticas toleradas e mesmo recomendadas por uma sociedade a seus membros – os chamados “bons costumes”. Portanto, moral é algo aceito como normal pela coletividade, seja um povo inteiro ou uma comunidade restrita (as Forças Armadas, a Igreja Católica, um determinado colégio).

A moral é fruto de uma convenção social e, por isso mesmo, muda com o passar do tempo e de uma sociedade para outra. Muitas práticas comuns hoje em dia, como usar biquíni na praia, já foram noutros tempos consideradas imorais. O topless ainda é visto como atentado ao pudor pela maioria dos brasileiros, mas em lugares como Ibiza (Espanha) e Saint-Tropez (França) é prática normal e corrente.

Como se pode ver, a moral é relativa e está intimamente ligada à cultura, embora, para os membros da comunidade que a adotam, tenha valor de verdade indiscutível.

A ética, por outro lado, é a especulação filosófica a respeito da moral e dos costumes. Derivada do grego éthos, “modo, jeito de ser, costume”, a ética busca valores universais, como o bem comum. Para Sócrates, o segredo do bem viver é viver com sabedoria, algo que só se atinge pelo autoconhecimento. Já Aristóteles, em sua Ética a Nicômano, afirma que somos o produto de nossas escolhas. Cada um tem a liberdade de fazer o que quiser, mas, se todos fizerem isso, a convivência social se torna impossível. Portanto, a reflexão filosófica visa responder à pergunta: o que posso ou não posso, devo ou não devo fazer se quiser viver em paz comigo mesmo e com os outros? A resposta parece ser a chamada Regra de Prata: “não faça aos outros o que não quer que os outros lhe façam”. E que pode ser complementada pela Regra de Ouro, ensinada por Jesus: “faça aos outros o que quer que os outros lhe façam”. Ou, simplesmente, “amai-vos uns aos outros”. Sendo uma reflexão filosófica, guiada pois pela razão, a ética pode até mesmo confrontar regras morais vigentes por considerá-las ultrapassadas ou injustas. A ética reflete sobre o bem comum, o bem da coletividade, ao passo que a moral disciplina o comportamento individual.

Mas, se, na teoria, ética e moral são coisas diferentes (a ética seria o estudo filosófico da moral), na prática elas se confundem, pois é comum usarmos o nome de uma ciência para designar o próprio objeto dessa ciência. É assim que “economia” é tanto o conjunto dos bens e recursos de uma sociedade quanto a ciência que estuda a circulação desses bens e recursos; “história” é tanto o conjunto dos fatos passados de uma sociedade quanto a disciplina que estuda esses fatos.

Portanto, é possível falar em moral católica ou em ética empresarial como códigos de conduta a ser seguidos. Na verdade, a sociedade ocidental, que por séculos viveu dominada pela ideologia religiosa, ainda atrela, mesmo que inconscientemente, a moral secular aos preceitos do Cristianismo, por sua vez herdados do Judaísmo. É nesse sentido que muitos setores da nossa sociedade veem como imoralidade a nudez em público ou o homossexualismo.

É preciso lembrar, no entanto, que nem tudo que é ético é estritamente moral, assim como nem tudo o que é legal é moral ou ético. Furar fila não é ilegal, mas não é moral, pois contraria os ensinamentos que todos deveríamos trazer do berço, nem tampouco é ético, já que ninguém gosta de ter seu direito violado. Mentir é geralmente visto como atitude reprovável, logo imoral, mas, e se mentimos para salvar uma vida? Não seria algo perfeitamente ético e mesmo louvável?

Portanto, ética e moral não têm necessariamente a ver com fé religiosa, embora na maioria das sociedades ainda seja a religião a principal referência do bom comportamento. Sobretudo a ética busca o justo, o que garanta a harmonia social.

Nesses nossos tempos em que a ética parece andar tão distante da política, em que basta que um gesto não seja ilegal para que seja considerado moral, recordar o significado dessas duas palavras pode ser de algum proveito.

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A distância entre língua e dialeto

Uma das distinções mais nebulosas da linguística continua criando polêmica entre os curiosos

O Brasil, frequentemente se diz, é um país de sorte porque, apesar das dimensões continentais, aqui não há dialetos – todos falamos a mesma língua. Também é comum ouvir que as línguas europeias têm muitos dialetos ou que na África as línguas oficiais (dos colonizadores) convivem com dialetos nativos. O que é, então, língua e dialeto?

Para o linguista Max Weinreich, “língua é um dialeto com um exército e uma marinha”. Não está longe da verdade. Afinal, a tradicional distinção entre língua e dialeto está fundada em critérios mais políticos do que linguísticos.

Língua é um sistema de comunicação formado de sons vocais (fonemas), que se agrupam para formar unidades dotadas de significado (morfemas), que se agrupam para formar palavras, que se agrupam (ih, ficou monótono!) para formar frases, que se agrupam para formar textos.

Do ponto de vista estritamente linguístico não há nada que distinga língua de dialeto. Ambos os sistemas têm léxico (um inventário de palavras) e gramática (conjunto de regras de como as palavras se combinam para formar frases, parágrafos e textos). Quem fala um idioma nacional e um dialeto regional é tão bilíngue quanto quem fala dois idiomas. Então por que alguns sistemas são chamados de idiomas e outros, não?

Dialeto vem do grego diálektos, composto de diá, “através”, e léktos, “fala”. Seria, segundo alguns, uma espécie de fala “atravessada”, um linguajar defeituoso, não conforme às normas do falar estabelecidas pelos gramáticos. A primeira definição de dialeto (que, por sinal, teria inspirado as posteriores) baseava-se numa visão preconceituosa que a elite ateniense do período clássico tinha em relação à fala tanto das camadas populares quanto dos estrangeiros (não-atenienses, inclusive gregos de cidades vizinhas).

Hoje, costuma-se chamar de dialeto qualquer expressão linguística que não seja reconhecida como língua oficial de um país. Assim, um dialeto pode ser tanto uma variedade linguística regional do idioma oficial quanto uma língua sem qualquer parentesco com ele.

O occitano (ou provençal) e o bretão, falados na França, são tidos como dialetos. O primeiro é uma língua românica aparentada ao francês, que já produziu uma esplêndida literatura séculos atrás. Já o bretão é uma língua pertencente à família celta, sem parentesco direto com o francês. Hoje, ambas são usadas, em escala regional e paralelamente ao francês, na conversação diária e na comunicação de massa.

Em geral, o que faz uma língua ser considerada dialeto e não idioma é a ausência de literatura ou de tradição literária, o seu não reconhecimento pelo Estado ou mesmo a sua falta de prestígio. Alguns dialetos reúnem essas três condições, mas basta que uma esteja presente para que um falar regional veja irem por água abaixo suas aspirações de ser língua.

Em relação à presença de literatura, é preciso lembrar que algumas línguas ágrafas, como as nativas da África e da América, têm rica literatura oral, transmitida por gerações em séculos. Mas, para as línguas europeias, ciosas de sua tradição escrita, elas não possuem literatura simplesmente por não produzirem livros.

Critérios

O reconhecimento de uma variedade linguística como língua é uma questão meramente política. O catalão foi reconhecido pela Espanha como língua oficial, ao lado do castelhano, galego e basco, depois de ter sido violentamente reprimido pela ditadura franquista. Em Barcelona, é possível comprar edições bilíngues de diários como El Periódico de Catalunya, em catalão e espanhol, cem páginas cada. Sua língua-irmã, o occitano, não é reconhecida pelo governo francês, que teme uma onda de separatismo, já que o reconhecimento de uma língua é o primeiro passo para a afirmação de nacionalidade.

A questão mais delicada é a que diz respeito ao “prestígio” de uma variedade. Alguns falares, mesmo próximos da língua-padrão, são estigmatizados por motivos históricos ou sociais. No Brasil, que busca lugar no olimpo do Primeiro Mundo, tudo o que lembre o passado rural é alvo de desprezo. Daí o preconceito contra o dialeto caipira e o nordestino, eleitos como ícones do atraso cultural.

Na tentativa de estabelecer uma distinção entre língua e dialeto que não se apoiasse em fatores políticos ou sociológicos, alguns buscaram critérios relacionados aos aspectos comunicacionais. O linguista romeno Eugenio Coseriu propôs o chamado critério da intercompreensão, segundo o qual dois falares podem ser considerados dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes.

Esse critério não é muito bom, porque se apoia num dado subjetivo: o grau de intercompreensão entre falantes. Falantes do português e do espanhol podem entender-se relativamente, portanto seriam dialetos, segundo Coseriu. Já o português e o francês seriam línguas distintas, de acordo com o mesmo critério. Mas e o italiano em relação ao português?

Irmãos separados

Como os falares vão diferindo pouco a pouco à medida que nos deslocamos num dado território, é natural que a comunicação entre moradores de duas aldeias vizinhas seja total, ao passo que o diálogo entre habitantes de cidades distantes milhares de quilômetros é quase impossível.

Além disso, esse critério era válido enquanto a escolarização e os meios de comunicação não uniformizaram a linguagem nos territórios nacionais. Na Idade Média, quem viajasse de Paris a Florença percebia a lenta mudança que os falares sofriam no caminho, sem ruptura ou descontinuidade. Hoje, o francês de Paris e o italiano de Florença, idiomas oficiais da França e da Itália, convivem na fronteira entre esses dois países.

Estima-se que nos próximos cem anos 90% das línguas desaparecerão, a maioria por não ter o status de idiomas nacionais, sendo em muitos casos línguas ágrafas, de comunidades tribais. A causa dessa extinção em massa de línguas é a pressão dos idiomas de cultura, seja o idioma nacional do país, seja o inglês como língua global. Nas comunidades tribais da África e da América, o imperialismo linguístico-cultural branco tem mais um forte aliado: os pregadores religiosos de seitas cristãs fundamentalistas, que combatem não só as crenças mas também as línguas dos nativos como “coisa do diabo”. Ou seja, hoje em dia língua também é um dialeto com um missionário.