De linguagem, planetas e empresas

A estrutura dos idiomas obedece ao princípio da hierarquia, que se encontra em toda a natureza – dos átomos às galáxias

O que as línguas, os sistemas planetários e as instituições têm em comum? Aparentemente nada, não é verdade? No entanto, existe um princípio de organização que se encontra em toda a natureza – nos átomos, células, sociedades, galáxias – e também na língua. Trata-se do princípio da hierarquia. No Universo, todas as coisas se organizam hierarquicamente. Satélites giram em torno de planetas, que giram em torno de estrelas, formando sistemas solares, que giram em torno de buracos negros, formando galáxias. Elétrons giram em volta do núcleo atômico, células têm núcleo e citoplasma, cidades, estados e civilizações têm centro e periferia, países têm capital e interior (este também formado de capitais regionais), e assim por diante.

Esse princípio – algo está ligado a algo, que está ligado a algo – é o que chamamos de estrutura. A maioria das estruturas que existem apresenta dois tipos de relações entre suas partes (isto é, dois tipos de ligações): horizontais, que se estabelecem entre elementos de mesma função ou importância na estrutura, e verticais, em que um elemento menos importante depende de outro, mais importante.

 

Molécula

Assim, podemos ter vários planetas gravitando em torno de uma estrela. Esses planetas se equivalem em importância (o sistema poderia ter mais ou menos planetas, sem que isso alterasse o funcionamento do sistema), mas, sem a estrela em torno da qual orbitam, os planetas se perderiam no espaço.

 

Planetas

Igualmente, numa empresa há vários profissionais trabalhando num só setor e exercendo as mesmas funções. Estão coordenados entre si e subordinados a um superior. Esses superiores (chefes de seção, por exemplo) se reportam a líderes (diretores), que respondem ao presidente da empresa. Tal hierarquia funcional é visível no organograma da instituição.

Portanto, estruturas implicam em hierarquia, e esta é um conjunto de relações de coordenação e subordinação entre as partes constituintes da estrutura. A essa altura você já deve ter se lembrado das orações coordenadas e subordinadas da análise sintática, não é? Pois saiba que esse princípio se aplica a todos os níveis da linguagem, das sílabas aos textos.

Todo enunciado linguístico (palavra, sintagma, oração, frase, parágrafo, texto) compõe-se de uma estrutura do tipo base + adjunto. Cada estrutura base + adjunto pode, por sua vez, constituir nova base capaz de receber novos adjuntos (que, por sinal, podem ter uma estrutura base + adjunto). Na nossa analogia planetária, a Terra funciona como base para seus satélites (Lua e satélites artificiais), que são seus adjuntos. Esse complexo Terra + satélites, ao lado dos demais planetas e suas luas, atua como adjunto em relação ao Sol, e assim sucessivamente.

Palavras e sintagmas

Em português, toda sílaba tem uma estrutura do tipo C1C2VC3C4, o que significa que, no centro da sílaba, sempre deve existir uma vogal (V). Sem vogal, não há sílaba em português. (Mesmo línguas como o sânscrito e o tcheco, que admitem consoante no centro da sílaba, atribuem a ela papel vocálico, tanto que somente consoantes constritivas e vozeadas como l, n e r podem ocupar essa posição, jamais uma oclusiva como p ou t.) Antes e depois da vogal, podemos ou não ter consoantes ou semivogais. Além disso, em cada uma das casas C1, C2, C3 e C4, só certos tipos de consoantes ou semivogais podem ocorrer, com exclusão das demais. Por exemplo, na sílaba trans (de “transnacional”), temos uma estrutura do tipo:

C1

C2 V C3 C4

t

r

a n

s

As combinações rtasn ou tsrna seriam impossíveis em português, o que reafirma a estrutura hierárquica da sílaba.

Mas também as palavras obedecem a essa organização estrutural. Na palavra “transnacional”, reconhecemos um prefixo trans-, um radical nacion‑ (isto é, “nação”) e um sufixo ‑al. O centro da palavra é o radical, que, por sinal, é o suporte do significado. Já os afixos trans‑ e ‑al exercem apenas a função gramatical de produzir uma palavra derivada.

Portanto, o radical é a base, e os afixos e desinências, os adjuntos. Mesmo numa palavra composta, em que há dois radicais, um funciona como adjunto do outro. Em azul-claro, claro é o determinante (adjunto) e azul, o determinado (base).

Há uma operação morfossintática chamada decomposição em constituintes imediatos (CI), que revela como podemos eliminar os adjuntos de uma palavra até chegarmos ao seu núcleo, na ordem inversa do processo da derivação.

Assim, primeiro decompomos “intransitividade” em intransitivo + ‑dade, a seguir intransitivo em in‑ + transitivo, este em transir + ‑tivo. Finalmente, transir se decompõe em trans‑ + ir (este último, o verbo ir, é o radical da palavra).

Sintagmas também têm uma base e adjuntos. Em “Minha camisa verde e nova”, o núcleo do sintagma é “camisa”. Subordinado a ele, estão os adjuntos adnominais “minha”, “verde” e “nova”, coordenados entre si. O núcleo pode prescindir de adjuntos, mas estes não subsistem sem uma base na qual estejam “pendurados”. Por isso, posso ter “minha camisa verde”, “minha camisa nova”, “camisa verde e nova”, ou apenas “camisa”, mas não posso ter “minha verde e nova”.

Orações e períodos

Numa oração, os sintagmas se organizam hierarquicamente. Os sintagmas nominais (sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, agente da passiva) subordinam-se ao sintagma verbal, ao passo que os adjuntos adnominais se subordinam aos nominais, e os adjuntos adverbiais ao verbal. É por isso que as orações têm termos essenciais e acessórios.

Mas as orações se combinam para formar períodos compostos por coordenação ou subordinação. E agora você já deve ter entendido por que essas orações têm esses nomes. As orações coordenadas são autônomas entre si, enquanto as subordinadas dependem de uma oração principal. Sem a principal, não há subordinadas, e estas não podem constituir períodos sozinhas.

Parágrafos e textos

Aprendemos nas aulas de redação que parágrafos se dividem em tópico frasal e desenvolvimento. E que o desenvolvimento se divide em frases principais e secundárias de explanação. Ora, o tópico frasal é a frase mais importante do parágrafo, a que resume seu conteúdo. Tanto que podemos ter parágrafos sem desenvolvimento, mas este é sempre o desenvolvimento de um tópico frasal. Sem tópico (mesmo implícito) não há desenvolvimento. E dentro deste temos frases que desenvolvem diretamente o tópico frasal (frases principais de explanação) e as que complementam as principais, desenvolvendo o tópico frasal indiretamente. Tudo de maneira hierárquica.

Finalmente, um texto é o desenvolvimento em parágrafos de um tema predefinido. O tema, apresentado na introdução do texto, é desenvolvido em partes, capítulos, subcapítulos, itens, subitens, todos eles formados de parágrafos.

Princípio universal

Na língua, todos os elementos se organizam em relações estruturais. A sintaxe – que em grego significa “ordenação” – se constitui de dois processos: a parataxe, ou ordenação horizontal (isto é, coordenação), em que há ausência de hierarquia; e a hipotaxe, ou ordenação vertical (subordinação), que estabelece uma hierarquia entre os elementos linguísticos.

Há sintaxe (e, portanto, coordenação e subordinação) em todos os níveis da linguagem, pois dois elementos linguísticos só podem acoplar-se de duas maneiras: horizontal ou verticalmente. Essa regra vale para os átomos, moléculas, células, galáxias, cargos de uma empresa e para a linguagem. Nesta, tal regra preside a formação de sílabas, palavras, orações, frases, parágrafos e textos. Trata-se de princípio geral da linguagem, que tem a ver com a própria maneira como a mente pensa. E, evidentemente, tem a ver com a maneira como a natureza funciona.

Anúncios

Questão de gênero

Atualmente, usam-se cada vez mais expressões como “questão de gênero” quando se debatem problemas relativos à discriminação e aos direitos das mulheres, dos homossexuais e dos transexuais (já correntemente chamados de “transgêneros”). Já que não se trata de questão linguística, mas de diferença e discriminação entre os seres humanos quanto a seu sexo, é apropriado o uso da palavra “gênero” nesse caso?

Nota-se, de algum tempo para cá, a tendência a empregar a palavra “gênero”, antes reservada ao discurso da gramática, no sentido de “sexo” (masculino ou feminino). Existe uma óbvia diferença entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Afinal, alguns idiomas atribuem gênero masculino ou feminino a substantivos inanimados ou assexuados, enquanto outros atribuem gênero neutro a esses substantivos ou então prescindem completamente da noção de gênero. Mesmo em línguas que fazem essa distinção, o gênero gramatical não necessariamente coincide com o sexo biológico: em alemão, por exemplo, Mädchen (“menina”) é do gênero neutro.

De onde veio, então, essa tendência a usar “gênero” em lugar de “sexo”? Vários fatores concorreram para isso.

Em primeiro lugar, a ambiguidade da palavra “sexo”, que tanto pode se referir à distinção masculino/feminino quanto ao ato sexual. (Há até algumas anedotas brincando com essa ambiguidade, como a do sujeito que, ao preencher um formulário, respondeu: nome – José da Silva; idade – 38 anos; sexo – 7 vezes por semana.)

Em segundo lugar, há uma pitada de “politicamente correto” nessa história, já que “gênero” seria, supostamente, uma palavra mais “neutra”, sem conotações sexistas.

Em terceiro lugar, temos a influência do jargão acadêmico, já que esse emprego surge primeiramente em textos de sociologia e antropologia, sobretudo em inglês. Aliás, é cada vez mais comum nos países de língua inglesa o uso de gender em lugar de sex em formulários e cadastros, tanto que o biólogo britânico Richard Dawkins, o maior evolucionista da atualidade, se levanta contra esse uso no livro Desvendando o arco-íris, até porque “gênero” em biologia designa outro conceito, o de subgrupo que reúne várias espécies de uma mesma família (por exemplo, o gênero Homo, ou gênero humano).

Ou seja, se um cientista do porte de Dawkins considera equivocado esse emprego, é algo a ser seriamente considerado. Outro dado a ser levado em conta é que a maioria dos dicionários ainda não abonou o emprego de “gênero” nessa acepção, exceto no discurso das ciências sociais. Daí porque, do meu ponto de vista, a acepção de “gênero” como “sexo” ainda está restrita ao jargão sociológico. Só que é cada vez mais comum que termos técnicos escapem do universo estritamente acadêmico para invadir até os bate-papos de boteco. Foi assim que “neurose” e “esquizofrênico” deixaram há muito de ser termos exclusivos do ambiente médico.

Em resumo, quando se emprega numa conversa ou em matéria jornalística a expressão “questão de gênero”, faz-se óbvia referência ao discurso sociológico. Não dá para dizer que esse uso está errado; no entanto, em hipótese alguma se pode afirmar que o emprego de “questão de sexo” esteja. Qualquer objeção nesse sentido não passa de patrulhamento ideológico.