Quão humano é ser desumano?

 “A humanidade é desumana”
Renato Russo

Lá pelos idos de 2008, após uma visita a várias penitenciárias brasileiras, o então relator da Comissão Parlamentar de Inquérito do sistema carcerário, deputado federal Domingo Dutra, afirmou que “grande parte dos presídios visitados não serve nem para bichos”. Essa frase, cunhada para produzir indignação na opinião pública pelas condições subumanas em que se encontravam (e ainda se encontram) os presos no Brasil, causou, na época, algumas manifestações de indignação em sentido inverso e revela muito da ideologia subjacente à língua. Afinal, o que se subentende é que criminosos, inclusive os frios, violentos e irrecuperáveis, merecem um tratamento mais digno do que animais inocentes e indefesos apenas por serem… humanos.

Volta e meia, ouve-se algum comentário de que os pacientes do sistema público de saúde brasileiro são tratados como bichos, ou de que o filho rebelde trata a mãe feito um bicho. No entanto, a expressão “tratado como bicho”, usada para indicar desrespeito à dignidade humana, não é exclusividade do português, já que existe em muitas outras línguas.

Na verdade, ao usar a metáfora animal para criticar os presídios brasileiros, o deputado valeu-se de uma retórica que remete à ética judaico-cristã, segundo a qual o homem é a imagem e semelhança de Deus e, portanto, a vida humana – inclusive a dos mais abjetos criminosos – é sagrada; já a dos animais não é, tanto que os judeus tinham o hábito de sacrificá-los em honra ao sanguinário deus Javé. Alguns desses sacrifícios eram bem cruéis (deixava-se sangrar um carneiro até que morresse de hemorragia; outras vezes, imolava-se o animal vivo), e tudo isso era feito com os mais elevados sentimentos “humanos”.

Pela mesma razão, a Igreja Católica se opõe veementemente ao aborto e à eutanásia entre humanos, mas nada diz das milhares de clínicas veterinárias que, todos os dias, “sacrificam” (percebam a conotação religiosa desse termo) cães e gatos sem nenhum drama de consciência, nem dos médicos nem dos donos, provavelmente porque “animal não tem alma”, logo não vai para o Paraíso nem para o inferno. (Por que será que “Paraíso” se escreve com maiúscula e “inferno” não?)

A ética, predominante em nossa cultura, que norteia a expressão “tratar como bicho” não tem por critério de julgamento categorias como puro x impuro, inocente x criminoso, útil x nocivo, etc. Seu critério é humano x não humano. Por essa ética, o mais sórdido e canalha dos seres humanos ainda é melhor do que o mais puro e indefeso dos animais só porque é humano. Trata-se de uma ética especista enraizada na língua. (Especismo é a discriminação que o ser humano pratica contra as demais espécies biológicas. Portanto, algo não menos abominável do que o racismo, com a diferença de que este, por se dar contra humanos, causa mais revolta – pelo menos hoje em dia, quando a Igreja já reconheceu que negros e índios são humanos e, por conseguinte, têm alma, coisa que eles não tinham no tempo da escravidão.)

Mas o que significa, afinal, o termo “humano”? Como designação de uma espécie biológica – o ser humano, ou Homo sapiens –, “humano” opõe-se a “inumano” (isto é, animal, vegetal, mineral, extraterrestre, ou o que mais se possa imaginar). Já oposto a “desumano”, “humano” refere-se a certos atributos de bondade, generosidade e piedade que, supostamente, só nós humanos possuímos. (A crença de que só nós temos essas qualidades de caráter é bem questionável: animais também se expõem ao perigo para salvar seus filhotes ou mesmo seu dono, humano. Podem dizer que isso é instinto; mas, nesse caso, o altruísmo humano também o seria.) A língua inglesa faz uma interessante distinção entre human e humane, em que o primeiro termo tem sentido biológico e o segundo, moral.

Todo conceito linguístico implica seu oposto. No livro Semântica estrutural, o linguista e semioticista lituano Algirdas J. Greimas demonstrou que qualquer significado se organiza numa rede semântica que estabelece ligações com seus contrários e contraditórios – mesmo quando nem todos esses termos lógicos encontrem expressão linguística em determinada língua. Portanto, “bondade” implica “maldade” e também “não bondade” e “não maldade” (é possível não ser nem bom nem mau: é o chamado termo neutro da semiótica greimasiana). Se nos vangloriamos de ter a virtude da bondade, é porque está implícito em nós o vício da maldade. Os animais não são nem bons nem maus: são naturais.

A palavra “desumano” como sinônimo de “cruel” remete ao seu antônimo “humano” como sinônimo de “generoso, piedoso, solidário”. Está implícita aí a associação do atributo de humanidade ao de bondade. No entanto, o homem é o único ser na face da Terra capaz de ser desumano. A crueldade é um atributo típica e exclusivamente humano (os animais podem ser ferozes, jamais cruéis), afinal o homem é o único ser que tortura e mata por prazer. Enquanto nos outros animais a violência é um instinto de sobrevivência e, portanto, desprovida de maldade, em animais autodenominados “racionais” como nós, que podemos refletir sobre os nossos atos e garantir a nossa sobrevivência por outros meios, a brutalidade deliberada é movida por um desejo sádico de prazer. Por isso, nos regalamos com o sofrimento de nossos inimigos (aliás, só o homem tem inimigos – os animais têm predadores).

A natureza selvagem nos parece bruta, cruel, por isso mesmo imperfeita, como se Deus tivesse criado o mundo de maneira displicente e deixado a nós, humanos, a tarefa de concluir o trabalho, criando uma segunda natureza, chamada civilização, em que as “falhas” deixadas pelo Criador seriam corrigidas por nossa racionalidade e senso ético. A caçada, com toda a sua sanguinolência, seria substituída por uma prática bem mais racional e piedosa: a pecuária. Entretanto, a maneira como o gado ou as aves são tratados em criadouros para o abate (isto é, tratados “como bichos”) é bem pior – e mais desleal – do que o modo como um leão caça um antílope.

Em resumo, na natureza não há bem nem mal: os juízos morais são invenção humana. É por isso que reconhecemos em nós mesmos – e apenas em nós mesmos – os atributos da bondade e da maldade. Porém, somos presunçosos o suficiente para estabelecer – inclusive linguisticamente – que em nós a bondade é natural e a maldade, um desvio. Não obstante, todos nós praticamos ou aceitamos que se pratiquem crueldades contra a natureza (como a derrubada de árvores, as queimadas nas florestas, o abate, a caça predatória, o uso de animais em experiências científicas e até mesmo a poluição ambiental para a qual todos nós contribuímos, consciente ou inconscientemente) ou contra nossos semelhantes e, mesmo assim, continuamos dormindo com a consciência tranquila. Essa visão antropocêntrica da realidade, eivada de juízos de valor altamente tendenciosos, não poderia deixar de se refletir na língua que falamos e, portanto, nas expressões que utilizamos. E aí caímos num círculo vicioso: a ideologia especista enseja expressões linguísticas que, usadas inconscientemente no dia a dia, reforçam e reafirmam essa ideologia. É por isso que o relator da CPI dos presídios conseguiu provocar indignação com sua frase – embora, em alguns casos, por motivo oposto ao pretendido.

Uma última reflexão: um grande amigo meu costuma dizer que a educação serve para ensinar o que é certo, pois o errado se aprende sozinho. Nada mais verdadeiro, nada mais “humano”.

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Em busca das laringais perdidas

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A quase totalidade dos idiomas da Europa, assim como boa parte das línguas do Oriente Médio até a Índia, se origina de uma língua ancestral que, por isso mesmo, foi chamada de indo-europeu. Essa língua, hoje morta e nunca documentada, deve ter sido falada em algum lugar do Cáucaso ou da Anatólia (região onde se localiza atualmente a Turquia) cerca de 4 mil anos a.C., portanto em plena Pré-História.

Um dos maiores feitos da ciência do século 19 foi a reconstrução do indo-europeu a partir da comparação entre línguas documentadas cujo parentesco se tornara evidente. Num primeiro momento, o sistema consonantal do sânscrito e o sistema vocálico do grego formaram uma boa base para a reconstrução do indo-europeu, já que o sânscrito havia transtornado bastante as vogais (que convergiram quase todas para a), mas conservara bem as consoantes, assim como o grego transformou muito suas consoantes, mas manteve praticamente intactas as vogais.

Juntaram-se a essas duas línguas as evidências do latim, do gótico (e de outras línguas germânicas antigas, cuja comparação permitiu também a reconstrução do protogermânico), do eslavônico ou eslavo eclesiástico (o mais antigo registro de uma língua eslava), do avéstico (antigo persa) e, posteriormente, de outras línguas aparentadas cujos registros foram sendo descobertos, como o tocário, falado nas estepes asiáticas, e o hitita, falado na Anatólia.

Mas essa reconstrução, por mais prodigiosa que tenha sido, deixou algumas lacunas que permanecem até hoje não totalmente preenchidas. Uma delas era a existência de um misterioso fonema (ou fonemas, pois poderia ser mais de um) na língua-mãe, não atestado diretamente em nenhuma língua-filha, mas cuja fantasmagórica presença deixara anomalias no comportamento dessas línguas.

Em primeiro lugar, o grego e o hitita apresentavam muitas vezes uma vogal inicial onde as demais línguas indo-europeias não tinham vogal alguma. Por exemplo, compare-se o grego éruthros com o latim ruber ou o alemão rot, palavras para “vermelho”. Esse fonema não deveria ser originalmente uma vogal plena, ou não se teria perdido na maioria das línguas, mas sim um som fugidio, com características meio vocálicas, meio consonantais. O fato de, em grego, essa vogal inicial ser às vezes e, às vezes a ou o, parecia indicar a possibilidade de haver até três diferentes fonemas nessa posição.

Em segundo lugar, sabia-se que todo a breve do indo-europeu resultava em a na maioria das línguas-filhas. Mas havia certos casos em que ao a das demais línguas, o sânscrito respondia com i, como, por exemplo, na palavra para “pai”: grego patér, latim pater, gótico fadar, antigo irlandês athir, mas sânscrito pitá. Isso indicava que o fonema que evoluía para i em sânscrito e para a nas demais línguas não era o mesmo que produzia a em todas as línguas, inclusive no sânscrito (como, por exemplo, em ájras, “campo”, a par do grego agrós, do latim ager e do alemão Acker).

Em terceiro lugar, sabia-se que em indo-europeu havia um fenômeno fonético com implicações gramaticais chamado apofonia (ou Ablaut), que consiste na variação do timbre vocálico dentro de um radical. Esse fenômeno é muito visível em línguas como o grego (légo, “digo”; lógos, “fala, discurso”) e o inglês (sing, “canto, cantar”; sang, “cantei, cantou”; sung, “cantado”). Assim, dada uma palavra cuja forma básica (ou grau pleno, como é chamado) tem a vogal e, havia dois outros graus, o grau-o (cuja vogal é obviamente o) e o grau zero (sem vogal alguma). Além disso, a vogal dos graus pleno e o podia ser breve ou longa.

Sobretudo nos verbos, essa sequência apofônica eo-zero era bastante evidente, já que correspondia aos tempos presente, pretérito e particípio. (A sequência inglesa singsangsung é remanescente da indo-europeia.) Só que, ao lado desses verbos “regulares”, havia outros cuja apofonia era aoa ou ainda ooa.

Havia ainda um problema adicional: em sânscrito existiam duas séries de verbos, chamadas anit e set. Nos verbos da série set, surgia um i após o radical se a seguir viesse uma terminação iniciada por consoante. Assim, dados os verbos srávati (“escorrer”) e bhávati (“ser”), tínhamos os futuros srosyáti (“escorrerá”) e bhavisyáti (“será”), o que indicava a presença, nos verbos da série set, do mesmo fonema (ou fonemas) fugaz já mencionado.

Por último, havia verbos que, nos graus pleno e o, apresentavam vogal longa e, no grau zero apresentavam uma vogal breve, que era sempre a na maioria das línguas-filhas, mas podia ser e, a ou o em grego e era sempre i em sânscrito.

Todas essas evidências formavam um complicado quebra-cabeças que exigia uma solução criativa. Foi então que, em 1879, o jovem Ferdinand de Saussure, com apenas 21 anos de idade, publicou um trabalho intitulado Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes, em que reexaminou o sistema de apofonias em sânscrito, grego e latim, postulando a existência de dois coeficientes sonânticos, *A e *O (atualmente denominados *h2 e *h3).[1] Mais tarde, propôs-se um terceiro coeficiente *E (atualmente *h1).

Num primeiro momento, a teoria de Saussure não recebeu muita atenção. Todavia, com a descoberta e subsequente decifração do hitita no início do século 20, o linguista polonês Jerzy Kurylowicz mostrou que o fonema h dessa língua ocorria exatamente nas posições em que Saussure previra a ocorrência de *A. Outro linguista, o dinamarquês Hermann Möller, sustentou que esses coeficientes seriam consoantes e não vogais e que sua articulação se daria na região mais posterior do aparelho fonador, daí chamá-los de laringais ou laríngeos.

Ao longo de praticamente todo o século 19, não se suspeitou desses fonemas nem se viu necessidade de supor sua existência. Foi justamente a descoberta do hitita e de algumas outras línguas da Anatólia, como o luvita, registradas em inscrições cuneiformes, que trouxe o problema à tona, pois essas eram as únicas descendentes do indo-europeu a conservar sons laríngeos (ou pelo menos as únicas a conservar registro de tais sons na escrita).

O fato é que admitir a existência desses fonemas simplificava bastante as explicações sobre as mudanças vocálicas do indo-europeu e sua evolução histórica.

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A teoria das laringais

Em princípio, seriam três os fonemas laringais (segundo o americano Winfred Lehmann, seriam quatro): *h1, a laringal “neutra”; *h2, que teria a capacidade de “colorir” a vogal adjacente com o timbre de a; e *h3, que coloriria com timbre de o.

Essa ideia de que uma consoante articulada na região mais posterior da cavidade bucal (na laringe ou faringe) pode mudar o “colorido” de uma vogal, transformando-a em outra, é familiar às línguas semíticas, como o hebraico e o árabe. A existência de consoantes desse tipo tanto nessas línguas quanto no indo-europeu reforçaria, por sinal, a tese de uma ancestralidade comum para o protoindo-europeu e o protossemítico.

Como resultado, deduz-se que, nos radicais verbais indo-europeus, a vogal básica do presente é e, a do pretérito é o, e a do particípio é “zero” (ou seja, não há vogal). Se o radical não contém laringal alguma, a série eo-zero permanece inalterada. Se contém *h1, temos a série eoa; a presença de *h2 explicaria a série aoa, e a de *h3, a série ooa. A presença das laringais também explica por que algumas vogais são longas no grau pleno, por que algumas consoantes se vocalizam em certos casos, além de solucionar uma série de outros problemas. Por tudo isso, pode-se dizer que é uma teoria bastante consistente e aceita quase sem restrições pelos indo-europeístas. Isso não quer dizer que seja uma teoria pronta e acabada: ainda há dúvidas se *h1 é uma única consoante ou são duas, bem como até hoje não se sabe exatamente como soavam essas laringais. De todo modo, não deixa de ser admirável a genialidade do jovem Saussure ao ter descoberto precocemente a solução de um problema que ainda nem existia.

[1] Em linguística, o asterisco antes de uma forma indica que esta nunca foi documentada e, portanto, é produto de reconstrução.

O literalismo das traduções de livros no Brasil

Gosto muito de ler livros de divulgação científica. Mas, como a maioria dessas obras é escrita originalmente em inglês, e os livros importados são caros e relativamente raros no mercado, acabo optando por ler as edições brasileiras desses textos, traduzidas para o português por profissionais de alto gabarito – pelo menos, é o que eu deduzo, já que uma editora investe muito dinheiro nessa produção.

Entretanto, muitos desses tradutores com livre trânsito pelas grandes editoras pecam pelo literalismo das traduções, isto é, pela adoção de soluções pouco naturais ao espírito da língua portuguesa, visto que são traduções (quase) literais de expressões idiomáticas inglesas, embora soluções melhores estejam disponíveis em nosso idioma.

Tenho encontrado frequentemente nessas traduções palavras e expressões como “alegadamente”, “como resultado”, “evolucionário”, “em contraste”, “incluindo” (no sentido de “dentre os quais”), “presente” (no sentido de “atual”), e assim por diante.

“Alegadamente” é uma tradução literal do inglês allegedly, cuja melhor tradução para o português é “supostamente”: “as estrelas de nêutrons alegadamente existentes na Via Láctea…”.

“Como resultado”, expressão que, de tão usada, já se incorporou ao repertório de muitos autores brasileiros (inclusive eu, confesso) é tradução literal do inglês as a result, quando temos em português várias expressões equivalentes e menos forçadas, como “consequentemente”, “por conseguinte” “em decorrência”, etc.

Livros sobre teoria da evolução e biologia evolutiva com frequência trazem o adjetivo “evolucionário”, que até consta nos dicionários de português, mas a maioria dos biólogos de língua portuguesa – com exceção, claro, daqueles muito servis ao americanismo – emprega em seu lugar o mais consentâneo “evolutivo”, como, aliás, empreguei no início deste parágrafo.

in contrast é uma expressão idiomática inglesa que introduz uma oposição entre duas ideias ou a introdução de um novo tópico, diferente do anterior. O equivalente português usado por muitos tradutores de livros de divulgação científica (suponho que em outros gêneros de literatura ocorra o mesmo), “em contraste”, é uma expressão que, a rigor, não existe na língua portuguesa (ou melhor, agora existe, graças ao uso, tão reiterado quanto inadequado, que esses tradutores fazem). A ferramenta gramatical mais fluente que temos em português para indicar uma oposição ou mudança de tópico é o advérbio “já”: “Meu irmão gosta muito de matemática; já eu prefiro história”. (Observe também o uso que fiz de “já” no início deste parágrafo.) Veja agora o emprego de “em contraste” em português: “Meu irmão gosta muito de matemática; em contraste, eu prefiro história”. Perceberam?

E o que dizer de “incluindo” quando se quer destacar elementos de um determinado conjunto? Prestem atenção à seguinte frase: “Muitos escritores românticos, incluindo Shelley e Keats, utilizaram esse recurso estilístico”. O original inglês é: Many romantic writers, including Shelley and Keats, employed this stylistic feature. Não é óbvio que o uso de “dentre os quais” ou “dentre eles” soa muito mais natural em português do que o literal “incluindo”?

Mas a cereja do bolo para mim é o emprego do adjetivo “presente” e do advérbio “presentemente” com o sentido de “atual” e “atualmente”: “As presentes pesquisas na área têm confirmado esse resultado”; “Presentemente, os cientistas estão empenhados numa outra linha de investigação”. Ocorre que em inglês actual não significa “atual” e sim “efetivo”, assim como actually quer dizer “efetivamente”, “na verdade” e não “atualmente”. Para indicar atualidade, o inglês lança mão dos adjetivos present (the present President of the United States, Barack Obama) ou current (the current events compel us to disagree with this hypothesis). Por sinal, já vi traduções do tipo “os correntes eventos nos compelem a discordar dessa hipótese” quando o que diríamos em bom português é “os atuais acontecimentos nos obrigam a discordar dessa hipótese”.

Outra gafe dos tradutores é empregar “evidência” (em inglês, evidence) no sentido de “prova”: “o local foi totalmente isolado para que não se perca nenhuma evidência do crime”.

A lista é longa: “localização” (isto é, location) em lugar de “local”, “manufaturar” (manufacture) em vez de “fabricar”, “acurácia” (accuracy) por “precisão” ou “minúcia”, “mais tarde” (later on) no sentido de “mais adiante (neste livro)”, etc. etc.

Há ainda o problema da inadequação gramatical, especialmente em relação a verbos. Coisas como “os cientistas têm estado estudando a questão” são o transplante para o português de um tempo verbal (o present perfect continuous) que nossa língua não têm (dizemos, em vez disso, “os cientistas têm estudado” ou “vêm estudando”).

Outro erro é manter o gerúndio quando o que cabe é o infinitivo: “Indo a encontros e festas é a melhor maneira de fazer networking”. (Em inglês: Going to meetings and parties is the best way to network.)

Também soa estranha a omissão do artigo definido em casos nos quais o português sempre o usa. Por exemplo, “Mulheres são mais propensas do que homens a esse tipo de acidente”, quando o natural em nosso idioma é “As mulheres são mais propensas do que os homens…”. É que em inglês não se usa artigo quando se fala de determinada coisa ou pessoa em sentido genérico ou coletivo (é o chamado artigo partitivo, que se aplica aos substantivos incontáveis, ou uncountable nouns).

Mas o pior de tudo é quando o tradutor não domina o assunto do livro e traduz quantum physics por “física do quantum” ao invés de “física quântica”, Avestan por “avestano” (o nome correto dessa língua da antiga Pérsia é “avéstico”), e por aí vai.

Um dos maiores erros que já vi nesse sentido foi a tradução de Galileo’s inclined planes (os planos inclinados de Galileu, que todos estudamos nas aulas de física do colégio) por “aviões inclinados de Galileu” (plane em inglês significa tanto “plano” quanto “avião, aeroplano”). Como é possível um tradutor de ciência não saber que no início do século XVII, época em que Galileu viveu, o avião ainda demoraria trezentos anos para ser inventado?

A que conclusão chegamos? Primeiro, certos tradutores que prestam serviços a grandes editoras não dominam tão bem o inglês ou o português quanto deveriam. Segundo, a revisão de texto é bastante falha. Terceiro, essas editoras são pouco exigentes em relação à qualidade do trabalho. O que é de admirar, visto que esse tipo de obra se destina a leitores cultos, muitas vezes com conhecimento técnico na área, e, portanto, com alto grau de exigência. Como eu, por exemplo.