“Eu irei” ou “eu vou ir”: como se faz o futuro do presente do indicativo?

Eu gostaria de saber qual a diferença entre “Eu irei” e “Eu vou ir” para indicação do Futuro do Presente do Indicativo? Pesquisei sobre o assunto em alguns livros de Gramática, mas não achei nada de esclarecedor.

Helton Anderson

 

Caro Helton, assim como a maioria das línguas europeias, o português tem duas formas de indicar o tempo futuro do indicativo: uma sintética (que outros idiomas chamam de “futuro distante”) e uma analítica (ou “futuro próximo”). A forma sintética, que é também a mais formal, corresponde ao tempo simples “farei”, “direi”, “amarei”, “correrei”, “dormirei”, etc. Já a forma analítica é composta pelo presente do indicativo do verbo “ir” seguido do infinitivo do verbo principal: “vou fazer”, “vou dizer”, etc.

A diferença de uso entre essas duas formas verbais diz respeito, em tese, ao grau de certeza da ação a ser praticada: enquanto “Um dia terei bastante dinheiro e então viajarei pelo mundo” expressa uma ação futura relativamente distante no tempo e não totalmente certa, “Vou enviar este documento agora mesmo” ou “Amanhã vou chegar um pouco mais tarde” são ações bem próximas no tempo (“agora mesmo”, “amanhã”) e sobre as quais tenho uma forte certeza. É o mesmo raciocínio que disciplina, por exemplo, a distinção de uso entre os dois futuros do inglês, o futuro com will (Someday I will do this, “Um dia farei isso”) e o futuro com going to (I am going to answer your message soon, “Vou responder à sua mensagem em breve”).

É bem verdade que o português brasileiro falado praticamente abandonou o futuro sintético e o substituiu em praticamente todos os casos pelo analítico (“Um dia vou ter muito dinheiro e aí vou viajar pelo mundo”), mas, no registro culto, ainda se deve fazer a distinção entre um futuro próximo e certo e um futuro distante e provável/possível.

Nos exemplos que você dá, “eu irei” é o futuro sintético, e “eu vou ir” é o analítico. Ocorre que alguns gramáticos hostilizam a construção “eu vou ir” por achá-la redundante, já que há repetição do verbo “ir”, e por isso preferem simplesmente “eu vou”. Todavia, outros tantos gramáticos não veem problema algum na construção “eu vou ir”, já que “vou” é verbo auxiliar (indicativo de tempo futuro) e está no presente, ao passo que “ir” é o verbo principal (indicativo da ação) e está no infinitivo. Ou seja, em cada uma das ocorrências, o verbo “ir” tem uma função diferente, e elas estão bem demarcadas.

O português brasileiro também acabou consagrando uma terceira forma de futuro, usada às vezes no discurso formal como equivalente ao futuro sintético, mas que deve ser evitada tanto quanto possível. Trata-se de “irei fazer”, “irei dizer”, etc., que, no caso do seu exemplo, daria o horrível “eu irei ir”. Essa construção, com o auxiliar “ir” no futuro, é mais prolixa que simplesmente “eu farei, direi”, etc., e nada acrescenta em termos de nuance semântica. Trata-se de um mero preciosismo que algumas pessoas empregam supondo estar-se expressando bem. Ledo engano!

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10 comentários sobre ““Eu irei” ou “eu vou ir”: como se faz o futuro do presente do indicativo?

  1. Clara e precisa explicação, Aldo Bizzocchi, com prazer leio seu blog. Como explica o hostilizado uso do gerúndio, e quando é seguro (e elegante) empregá-lo? Grande abraço daqui de longe!

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    1. A receita é simples, Cecilia: o gerúndio só não deve ser usado quando a ação verbal é instantânea, isto é, não tem duração. Posso perfeitamente dizer que “amanhã, neste horário, estarei trabalhando”, pois “trabalhar” é uma ação durativa. Já “vou estar transferindo a sua ligação” é errado, pois “transferir” é uma ação instantânea, que não dura nada. Grande abraço! Saudade!

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  2. Cara Ellen, a crase é o encontro da preposição “a” com o artigo feminino “a”. Também existe crase entre a preposição “a” e o pronome “aquele/aquela/aqueles/aquelas”, resultando em “àquele/àquela”, etc. Mas como saber se numa dada frase estão presentes e juntos a preposição e o artigo? Embora haja muitas regrinhas chatas sobre o uso da crase que não dá para explicar, só dá para decorar, há um método que resolve a maioria dos casos de dúvida em relação a esse fenômeno. Em primeiro lugar, tente substituir “a” por “para”; se o resultado for “para a” (João foi para a Bahia, Eu dei o livro para a minha amiga), então você deve escrever “à”, com crase: João foi à Bahia, Eu dei o livro à minha amiga. Já, se ao substituir “a” por “para” o resultado for só “para”, então não há crase: João foi para São Paulo, Eu dei o livro para uma amiga. Nesse caso, você deve grafar “João foi a São Paulo, Eu dei o livro a uma amiga.
    Outra regrinha que ajuda é passar a palavra depois do “a” para o masculino; se o resultado for “ao”, então há crase; se o resultado for “a” mesmo, então não há crase. Exemplos: Eu dei o livro ao meu amigo -> Eu dei o livro à minha amiga; Eu dei o livro a um amigo -> Eu dei o livro a uma amiga.

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  3. Eu não concordo com esse tipo de “futuro” que tenho visto na mídia, que usam o verbo “ir” como auxiliar para isso. “o governo vai pagar”; “vai mandar”, ” o ministro não vai poder ir”. Fica feio demais.
    Ora, quando se aprende verbos, no inicio dos estudos, ainda criança, não se vê nada que fale desse futuro analítico, pois é o sintético mesmo que nos ensinam.
    Imagine-se que se duas pessoas disputem um cargo importantíssimo, e a redação tenha o peso maior e decisivo.
    Um usa o futuro sintético, o outro, o analítico. O “juiz” desse caso dará a vaga para qual das duas? ,

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    1. Caro Paulo,
      Tanto o futuro sintético quanto o analítico são corretos em português, pois, na verdade, trata-se de dois tempos verbais distintos e que existem também em outras línguas (compare com o inglês “I will” x “I am going to”). O futuro analítico indica a proximidade da ação e a certeza de sua realização, até porque é o próprio sujeito quem a realizará (por exemplo, “Vou enviar este e-mail agora”). Já o sintético indica um futuro distante e mais incerto, como em “Um dia eu serei muito rico”. É claro que, na prática, ambas as formas se intercambiam, e não só em português, mas essa é uma tendência de todas as línguas que têm ambos os tempos verbais.
      O que ocorre é que, no português brasileiro, especialmente na fala, o futuro analítico praticamente tomou o lugar do sintético em todos os contextos. No Brasil, muitos falantes chegam a achar pedante dizer “farei” em lugar de “vou fazer”. Por isso, a forma sintética está cada vez mais restrita aos textos escritos e ao registro formal. Mas a forma analítica não está errada se bem empregada.

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